22.7.21

Francisco Brines (Interior da paisagem)




INTERIOR DEL PAISAJE

 

Cómo decir este momento rosa de la tarde cayendo
detrás del alto monte que oscurece?
¿Y para qué decirlo? ¿Para salvar mis ojos?
Contempla en el jardín las flores de este otoño,
las tapias recubiertas de hiedras y jazmines,
y el paso misterioso de los pájaros 
que vuelan de repente del lugar de una sombra,
o que buscan las ramas
                                             y se mecen
en densos y caídos surtidores
de rojas buganvilias.
No salvas nada tú, ni ellos te salvan.
(Cae la tarde hoy con tan grande sosiego,
es el tiempo tan íntimo
con el canto en su centro del pájaro que escuchas...)  

La luz de allá, desde tu solitaria habitación, es otra
          habitación que aloja al mundo en sombras
y su Dueño, el que ignoro, ha cerrado la puerta
y ha entornado el balcón,
y ya todo el jardín, y el campo que lo cerca, es un rincón
          espeso,
y han callado los pájaros. 

Mira cómo se encienden, una aquí y otra allá, las velas en
           la noche.
Nunca creí que el último naufragio fuese un lugar tan
          cierto, y tan a tientas.

Francisco Brines

 

  

Como dizer este momento rosado da tarde a cair
por trás do monte alto que escurece?
E para quê dizê-lo? Para salvar os olhos?
Contempla no jardim as flores deste outono,
os muros cobertos de hera e jasmins,
e o voo misterioso dos pássaros 
que aparecem de repente do lugar de uma sombra,
ou buscam os ramos
e ficam a abanar-se nos braços
densos e caídos
de buganvílias vermelhas.
Não salvas nada, tu, nem eles te salvam.
(Cai hoje a tarde com grande placitude,
é o tempo tão íntimo
envolvendo o canto do pássaro que escutas…)

A luz além, vista do teu quarto solitário,
é outro
quarto que aloja o mundo das sombras
e o seu dono, que eu não conheço, fechou a porta
e cerrou a varanda,
e todo o jardim, assim como o campo em volta,
é agora um recanto espesso
e calaram-se os pássaros.

Olha as velas, uma aqui, outra além,
como se acendem
na noite.
Nunca pensei que o último naufrágio fosse um lugar tão
real, e tão incerto.


(Trad. A.M.)

.

21.7.21

José María Valverde (Deixo-vos tudo)




Todo os lo dejaré cuando me muera;                     
las rosas que yo solo comprendía,
mi aire, mi cielo y luz, mi noche y día,
mi asombro de existir, mi vida entera.

Y pues completa dárosla quisiera,
tomad también la gota de armonía
que a ese mundo he añadido, mi poesía
con su revelación en mi manera.

...Pero sé que aunque os deje voz y trino
me llevaré al silencio eterno, muerto,
este modo de ver que me arrebata,

este mundo inefable que adivino,
esta revelación que nunca acierto
a expresar, que me aprieta y que me mata.


José María Valverde

 

 

Deixo-vos tudo quando morrer,
as rosas que só eu compreendia,
meu ar e meu céu, minha noite e meu dia,
meu assombro de viver, minha vida toda.

E pois que toda vo-la quero dar,
tomai também a gota de harmonia
que acrescentei ao mundo, a poesia
que desde sempre cultivei.

Deixando-vos a voz e o trinado,
levo comigo para o silêncio eterno
este modo meu que me arrebata,

este mundo inefável que adivinho,
esta revelação que me cala dentro do peito,
que não expulso e que me mata.


(Trad. A.M.)

.

17.7.21

Piedad Bonnett (Regresso)




REGRESO

 

Callan de pronto los abrazos
pues ya no sabe nadie qué decir,
tanto ha mordido el tiempo desde entonces.
Algo entorpece el aire, algo vacila entre la vieja silla
y el gesto de la mano.
Y la sonrisa del recién llegado
es como el santo y seña de un hombre que ya ha muerto.

Hay, es verdad, una tarde fatigada de sol en la memoria,
y en el umbral de ayer
una madre doblando cada cosa,
doblando pena a pena con su casi sonrisa.
¿Pero quién dice nada, quién echa al mar las redes,
quién desata los cabos que ha ido atando el tiempo?

Piedad Bonnett

 

 

Calam-se de repente os abraços,
ninguém sabe já o que dizer,
tanto desde então o tempo tem mordido.
Algo entorpece o ar, algo vacila entre a velha cadeira
e o gesto da mão.
E o sorriso do recém-chegado
é como o santo e senha de alguém que morreu já.

Há, sim, uma tarde fatigada de sol na lembrança
e na soleira de ontem
uma mãe dobrando cada coisa,
dobrando pena a pena com seu quase sorriso.
Mas quem diz nada, quem deita as redes ao mar,
quem desata os cabos que o tempo foi atando?


(Trad. A.M.)

.

16.7.21

Pedro Salinas (Este meu filho)




ESTE MEU FILHO

 

“Este meu filho foi sempre um díscolo…
Foi para a América num barco à vela,
não cria em Deus, acompanhou
com más mulheres e com anarquistas,
correu o mundo inteiro sem assentar a cabeça…
E agora que tinha voltado para mim, Senhor,
agora que parecia…” 

Pela porta entreaberta
passa um odor de flores e de cera.
No pinho humilde do caixão o filho
tem agora bem assente a cabeça.
 

Pedro Salinas

(Trad. A.M.)

.

14.7.21

W. B. Yeats (Com a idade vem o tino)



THE COMING OF WISDOM WITH TIME

 

Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.

W. B. Yeats

 

 

Muitas são as folhas, mas a raiz é só uma;
Nos dias de ilusão da juventude,
abanei ao sol minhas folhas e flores;
Agora posso murchar com a verdade.
 

(Trad. A.M.)

 

> Outra versão: Acontecimentos (J.A. Baptista)

 .

12.7.21

Pedro César Alcubilla (O que fica do dia)



LO QUE QUEDA DEL DÍA 

 

Se apaga lentamente
como un rescoldo.
Todo ese fuego
de idas y venidas,
de tráfico incesante
de miradas,
de actos, entreactos,
principios y finales
repetidos,
todo,
absolutamente todo,
lentamente,
va perdiendo
su luz,
hasta que alguien
o algo,
por ejemplo,
un gato de puntillas
desde su tejado,
pulsa un interruptor,
y se enciende,
también,
lentamente,
la noche.


Pedro César Alcubilla


 

Apaga-se lentamente
como um rescaldo.
Todo esse fogo
de idas e vindas,
de tráfico incessante
de olhares,
de actos, entreactos,
princípios e finais
repetidos,
tudo,
absolutamente tudo,
lentamente,
vai perdendo
a luz,
até que alguém
ou algo,
um gato, por exemplo,
em bicos de pés,
no telhado,
liga um interruptor,
e acende-se,
lentamente,
também,
a noite.


(Trad. A.M.)

.

11.7.21

Jenaro Talens (Avatares da intimidade)



AVATARES DE LA INTIMIDAD



Ahora que tu costumbre de blindar sin descanso
los territorios íntimos del ser
poco a poco da paso a un vivir más en calma
descubres que por fin ha llegado tu hora,
la de no poner trabas a la naturaleza.
Te sorprende dejar que lo real penetre
en ti, sin cortapisas, y
puedas decir «te amo» sin que el terror te asalte.
Luego los pormenores cotidianos
giran sin tregua a nuestro alrededor
y ves cómo tu cuerpo dedica su energía
a entregarse a otro cuerpo
mientras dices palabras que nada comunican,
que van desde tu boca hasta mi oído
como una especie de caricia. ¿Aceptas
esta otra forma nueva de monologar? Anoche
te miraba dormir para evitar que el tiempo transcurriese.
Adiviné que tras los árboles que dan sombra al jardín
el silencio es más grande, pero ya no me importa:
sé que algún cielo existe, porque estás conmigo.


Jenaro Talens

[El cultural

 

Agora que teu costume de blindar sem descanso
os terrenos íntimos do ser
cede pouco a pouco a uma vida mais calma,
descobres que chegou enfim tua hora,
a de não pôr peias à natureza.
Admiras-te de deixar que o real te penetre,
sem restrições,
e que possas dizer ‘amo-te’ sem te assaltar o terror.
Depois os pormenores do quotidiano
giram sem parar à nossa volta
e vês o teu corpo dedicar a energia
a entregar-se a outro corpo,
enquanto dizes palavras que nada dizem,
meras carícias de uma boca a um ouvido. Aceitas
tal forma nova de monologar? De noite,
olhava para ti a dormir, para evitar que o tempo passasse.
E adivinhei que por trás das árvores que dão sombra ao jardim
é mais pesado o silêncio,
mas já nada me importa:
algum céu sei que existe, pois tu estás comigo.


(Trad. A.M.)

.

9.7.21

Manoel de Barros (O apanhador de desperdícios)




O APANHADOR DE DESPERDÍCIOS


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros

 .

7.7.21

Pedro A. González Moreno (Neste quarto)



En este habitación, que va adquiriendo
día a día el tamaño de todos sus fantasmas,
no cabe ni siquiera
la voz con que te busco,
ni el leve contraluz en donde la memoria
alzó su arqueología de promesas.
Nadie
podría traspasar esta puerta de agua
sin ser agua también.
Todo, dentro, se queda
sellado con el lacre de los recuerdos;
dentro crecen las llamas imposibles
de poemas no escritos,
y crecen las imágenes
de unos espejos rotos
en donde ya no caben nuestros gestos,
en donde ya no cabe ni ese grito
de mi voz inventándote.

 
Pedro A. González Moreno

 [El toro de barro]


  

Neste quarto, que vai ganhando
dia a dia o tamanho de seus fantasmas,
não cabe sequer
a voz com que te busco,
nem o leve contra-luz onde a memória
ergueu sua arqueologia de promessas.
Ninguém
poderia passar nesta porta de água
sem ser água também.
Tudo, aqui dentro, fica
selado com o lacre das lembranças;
crescem aqui as chamas impossíveis
de poemas não escritos,
crescem as imagens
de alguns espelhos partidos
onde já não cabem os gestos,
onde não cabe já nem este grito
da minha voz que te inventa. 

(Trad. A.M.)

.


6.7.21

Carlos Iglesias Díez (Dedicatória)




DEDICATORIA

 

Para ti me invento
días sin calendario,
donde vuelan las horas
como
calladas sinfonías,
la noche esculpe
en Luna
los besos que te doy,
y la ternura solo es
ese pájaro herido
que tiembla
entre tus manos


Carlos Iglesias Díez

 

 

Para ti eu invento
dias sem calendário,
onde as horas voam
como
caladas sinfonias,
a noite esculpe
na Lua
os beijos que eu te dou,
e a ternura é apenas
esse pássaro ferido
que estremece
nas tuas mãos.


(Trad. A.M.)

.

4.7.21

Armando Silva Carvalho (Varanda de Pilatos)




VARANDA DE PILATOS

 

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
as horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
de nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
a chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
que me liga ao saber acumulado.


Armando Silva Carvalho

 .


2.7.21

Pablo Neruda (O insecto)





EL INSECTO 


De tus caderas a tus pies 
quiero hacer un largo viaje. 

Soy más pequeño que un insecto. 

Voy por estas colinas, 
 son de color de avena, 
tienen delgadas huellas 
que sólo yo conozco, 
centímetros quemados, 
pálidas perspectivas. 

Aquí hay una montaña. 
No saldré nunca de ella. 
¡Oh qué musgo gigante! 
¡ Y un cráter, una rosa 
de fuego humedecido! 

Por las piernas desciendo 
hilando una espiral 
o durmiendo en el viaje 
y llego a tus rodillas 
de redonda dureza 
como a las cimas duras 
de un claro continente. 

Hacia tus pies resbalo, 
a las ocho aberturas, 
de tus dedos agudos, 
lentos, peninsulares, 
y de ellos al vacío 
de la sábana blanca caigo, 
buscando ciego y hambriento 
tu contorno de vasija quemante! 


 Pablo Neruda 




Das tuas ancas aos teus pés 
quero fazer uma longa viagem. 

 Sou mais pequeno que um insecto. 

 Percorro estas colinas, 
são da cor da aveia, 
têm trilhos estreitos 
que só eu conheço, 
centímetros queimados, 
pálidas perspectivas. 

Há aqui um monte. 
Nunca dele sairei. 
Oh que musgo gigante! 
Uma cratera, uma rosa 
de fogo humedecido! 

Pelas tuas pernas desço 
tecendo uma espiral 
ou adormecendo na viagem 
ou alcanço os teus joelhos 
duma dureza redonda 
como os ásperos cumes 
dum claro continente. 

Para teus pés resvalo, 
para as oito aberturas 
dos teus dedos agudos, 
lentos, peninsulares, 
e deles para o vazio 
 do lençol branco caio, 
procurando cego e faminto 
teu contorno de vaso escaldante. 


(Trad. Albano Martins)
.

1.7.21

José María Valverde (O silêncio)




EL SILENCIO      


Yo te espero, mi amor, para el silencio.
¿Para qué cantar más cuando ya seas cierta?

Cansado de gritar de maravilla,
cansado del asombro sin palabras,
me callaré despacio, como el niño feliz
que se duerme, en las manos el juguete.

Tardarás mucho tiempo en dormirme del todo,
en borrarme los últimos recuerdos que me hieren,
lentísimos recuerdos sin forma ni sustancia;
sombra más bien, o sangre y carne casi,
con raíces que entraron mientras iba creciendo.

Y tendré el blanco sueño de la infancia
desde el que hablaba a Dios, aun a mi lado;
aquel sueño, tan cerca de la muerte,
que podía llegar, serena, clara,
a volverme a mi origen, aun casi en el recuerdo.

Sueño que no será como el de ahora,
lleno de ávidos pozos, de agujeros
que de repente se abren a la nada;
porque tendrá, disuelta en su materia,
como nana de madre,
tu voz muda, la luz de tu existencia,
tapizando las salas de mi sueño.

No me pidas que cante cuando vengas.
Cansado estoy del canto. Tú has de ser la paz última,
el blanco umbral de Dios...

Sólo oirás mi silencio, como rumor de fuente,
como la paz de un lago, creada por tus manos,
trayéndote el reflejo de Dios para alabarte.
Confundidas las almas
en las anchas llanuras del silencio, en su noche
sin borde, esperaremos...

José María Valverde

 

 

Espero por ti, meu amor, para o silêncio.
De que servirá cantar ainda, quando tu fores verdade?

Cansado de gritar maravilhado,
cansado do assombro sem palavras,
calar-me-ei devagar, como a criança
que adormece com o brinquedo nas mãos.

Muito tempo levarás a adormecer-me de todo,
a apagar as lembranças que me doem,
lentíssimas lembranças sem forma nem substância;
sombra sim, ou sangue e carne quase,
com raízes que entraram enquanto eu ia crescendo.

E terei aquele sonho branco da infância,
donde falava com Deus, ainda a meu lado;
aquele sonho, tão perto da morte,
que podia vir, serena, clara,
levando-me à origem, quase na lembrança.

Sonho que não será como este de agora,
cheio de poços ávidos, de buracos
que se abrem de repente para o nada;
porque terá como canção de embalar
tua voz muda, a luz da tua vida
forrando as salas do meu sonho.

Não me peças que cante quando vieres,
que estou cansado do canto. Tu hás-de ser a paz última,
a soleira branca da porta de Deus…

Ouvirás apenas meu silêncio, como rumor de fonte,
como a paz de um lago, criada por tuas mãos,
trazendo até ti o reflexo de Deus.

Confundidas as almas
nas largas planícies do silêncio, em sua noite
sem beira, esperaremos…


(Trad. A.M.)

 .

29.6.21

Antonia Pozzi (A vida sonhada)




LA VITA SOGNATA


Chi mi parla non sa
che io ho vissuto un'altra vita –
come chi dica
una fiaba
o una parabola santa.
Perché tu eri
la purità mia,
tu cui un'onda bianca
di tristezza cadeva sul volto
se ti chiamavo con labbra impure,
tu cui lacrime dolci
correvano nel profondo degli occhi
se guardavamo in alto –
e così ti parevo più bella.
O velo
tu – della mia giovinezza,
mia veste chiara,
verità svanita –
o nodo
lucente – di tutta una vita
che fu sognata – forse –
oh, per averti sognata,
mia vita cara,
benedico i giorni che restano –
il ramo morto di tutti i giorni che restano,
che servono
per piangere te.
 

Antonia Pozzi

 

Quem fala comigo não sabe
que eu vivi outra vida
- como quem diz
uma fábula ou
uma parábola sagrada.
Porque eras tu
a minha inocência,
tu, que uma onda branca
de tristeza cobria,
se eu te chamava com lábios impuros;
tu, que deixavas correr lágrimas doces
do fundo dos olhos
postos no alto
- e mais bela eu te aparecia.
Ó véu
tu – da minha mocidade,
minha veste clara,
verdade sumida –
ou laço de luz
- de uma vida inteira
que foi sonhada acaso -
oh, por te haver sonhado,
vida minha,
bendigo os dias que me restam -
o morto ramo de todos os dias que restam,
que servem só para te chorar.

(Trad. A.M.)

.


27.6.21

Pablo García Casado (Garner, NC)




GARNER, NC

 

pongamos que él tiene 30 y ella 17
música de tom jones los dos bailando muy juntos
en el centro de la pista pongamos que se deciden 

que ella se entrega en el servicio de caballeros 

que pasan tres días y tres noches encerrados
en el hollyday inn baño piscina vistas a la carretera
que él es un maníaco
que ella hace cosas delante de una handycam sony de 8 mm.
cosas que al principio duelen y luego duelen más 

que despierta en la cuneta de la 95
aturdida por el efecto de los somníferos casi desnuda
como los hijos de la mar 

y que espera el autobús en algún punto del mapa
después de caminar toda la noche
con los zapatos blancos en la mano
fogueada por los faros de todos los camioneros

 
Pablo García Casado

 

 

ponhamos que ele tem 30 e ela 17
música de tom jones os dois a dançar muito juntinhos
no meio da pista ponhamos que se decidem

que ela se entrega no wc cavalheiros

que passam três dias e três noites encerrados
no hollyday inn banheiro piscina vistas para a estrada
que ele é um maníaco
que ela faz coisas diante de uma handycam sony 8mm.
coisas que a princípio doem e depois doem mais

que acorda na berma da 95
aturdida pelo efeito dos soníferos
quase desnuda
como os filhos do mar

e que espera o autocarro nalgum ponto do mapa
depois de caminhar toda a noite
com os sapatos brancos na mão
batida pelos faróis de todos os camionistas


(Trad. A.M.)

.

26.6.21

Silvina Ocampo (As caras)




LAS CARAS

 

Las caras de los hombres que en mi vida he encontrado
me persiguen y viven adentro de mi espíritu.
Las caras de los hombres que he encontrado en mi vida
me miran y me abruman.
Podría dibujarlas pero nunca me atrevo.
Algunas tienen cuerpos y llevan en las manos
anillos y collares, flores de terciopelo,
algunas son mansiones, son jardines, son ríos,
algunas son un viaje, una playa, un desierto.
Algunas son de mármol, algunas son fenicias,
algunas son romanas, griegas y perniciosas
con los rasgos borrados.
Algunas tienen penas, muchas penas algunas,
y largas cabelleras que lloran en el viento.
Algunas son horribles, casi siempre me advierten
que un peligro me acecha.
Algunas tienen horas marcadas en los ojos
y son como clepsidras,
me despiertan de noche.
Algunas me quisieron
y movieron los labios para decir mi nombre.
Algunas no entendieron nunca lo que les dije
ni supieron por qué las miré largamente.
Algunas son anónimas
llevan frutas y fuentes, manos de terracota,
como las estaciones.
Algunas se arrodillan, buscan algo en la tierra.
Algunas como pájaros siempre estiran el cuello.
Algunas se inclinaron
y escribieron sus nombres sobre mi corazón
sin que yo lo advirtiera.
Algunas fueron mías, algunas se alejaron
y perdieron su sexo, su virtud y su candor;
fueron como la imagen
del infierno en el mundo
que tratamos, en vano, de olvidar.
Algunas fueron deidades
que no olvidaré nunca.

Silvina Ocampo

[Life vest under your seat]

 

 

As caras dos homens que na
minha vida encontrei
perseguem-me e vivem dentro de mim.
As caras dos homens que encontrei pela vida
afligem-me, a olhar para mim.
Podia-as desenhar, mas nunca me atrevo.
Algumas têm corpo e usam nas mãos
anéis e colares, flores de veludo,
algumas são mansões, são rios, jardins,
algumas uma viagem, um deserto, uma praia.
Algumas são de mármore, algumas fenícias,
algumas são romanas, gregas e perniciosas,
de traços apagados.
Algumas têm penas, muitas penas algumas,
e longas cabeleiras que choram com o vento.
Algumas são horríveis, e avisam-me sempre
que um perigo me espreita.
Algumas têm nos olhos hora marcada
e são como clepsidras,
acordam-me de noite.
Algumas amaram-me
e mexeram os lábios para dizer meu nome.
Algumas não entenderam aquilo que eu lhes disse
nem souberam porque eu as olhei longamente.
Algumas são anónimas
andam com frutas e fontes e mãos de terracota
como as estações.
Algumas ajoelham, buscam algo no chão,
algumas como pássaros esticam sempre o pescoço.
Algumas inclinaram-se
e escreveram os nomes no meu coração,
sem que eu desse conta.
Algumas foram minhas, algumas se afastaram
e perderam o sexo, a virtude, a candura;
foram como que a imagem
do inferno neste mundo
que cuidamos, em vão, de olvidar.
Algumas foram deidades
e eu nunca hei-de esquecê-las.


(Trad. A.M.)

.

24.6.21

José Carlos Ary dos Santos (O objecto)




O OBJETO 

 

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão. 

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono. 

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa. 

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão. 

   Assim se chamam as coisas
   pelos nomes que elas são.

 

José Carlos Ary dos  Santos

 .


22.6.21

José Ángel Cilleruelo (Hölderlin)




HÖLDERLIN

 

Que haya un puente
de piedra. Que la corriente
lo abrace por la cintura,
cariñosa, y después sin decir nada
se vaya y yo
me quede. Y por su arena
transiten carruajes.
Que entren
con fardos voluminosos.
Que salgan
con los sacos en el adral
y el paso muy ligero.

Y me tiemble la mano
con la que escribo cartas.

Que el sendero
se adentre por la umbría,
y la arboleda
lo oculte de inmediato
y parezca tiniebla
en lugar de aquel bosque.
Que la ventana donde lo contemplo
dé a un afuera y no dé a un adentro.

 José Ángel Cilleruelo 

 

Que haja uma ponte
de pedra. Que a corrente
a abrace, carinhosa
pela cinta, e depois se retire
sem dizer nada
e que eu fique. E pelo areal
circulem carruagens.
Que entrem
com fardos volumosos
e saiam com os sacos entre as grades,
em marcha apressada.

E que me trema a mão
com que escrevo as cartas.

Que o caminho
entre pela sombra
e o arvoredo o oculte de imediato
e pareça treva
em vez de tal bosque.
Que a janela de onde o vejo
dê para fora, não para dentro.

(Trad. A.M.)

 .


21.6.21

Pablo Albornoz (Entre as sepulturas)




entre las tumbas
brillan en ambos mundos
las luciérnagas


Pablo Albornoz




entre as sepulturas
brilham em dois mundos
os pirilampos

(Trad. A.M.)

.

19.6.21

Fernando Assis Pacheco (Bom rei Afonso)




BOM REI AFONSO

  

Lavava-se só de raro em raro
e só como o gato mas era um tal
furor entre as damas e suas aias
que se conta de uma dona Ilduara
Veilaz a filha do crego manco
tê-lo chamado um fim de tarde
no meio de forte trovoada
a Rendufe onde então demorava
para a comer (e recomer é claro)
nas três posições principais
o que ele fez com brio e recato
e isso atira para uma conta calada
mesmo em termos de História Pátria
e sem da Igreja o beneplácito
gritando ela ao fim de cada round
senhor senhor mais do que ao mel
vós a erva-babosa me cheirais

ah e tudo isto para fortalecer a alma!


Fernando Assis Pacheco

..

17.6.21

Oscar Hahn (Conselho de velho)




CONSEJO DE ANCIANOS

 

Cuídate Adán cuando salgas al mundo 
en busca de la costilla perdida  

Podrías encontrarla de pronto 
podría no caber en tu pecho  

Y podría atravesarte el corazón 
como un cuchillo de hueso 


Óscar Hahn
 

 

Cuidado Adão quando saíres para o mundo
em busca da costela perdida 

Podias encontrá-la de repente
podia não te caber dentro do peito

E podia trespassar-te o coração 
como um punhal de osso

 

(Trad. A.M.)

 .

16.6.21

José María Valverde (Nos anos da fome)




En los años del hambre -como dicen
los que no la han saciado todavía-
estudiantillo imberbe, acompañé
algún tiempo, en mañanas de domingo,
a los visitadores de los pobres,
sencillos caballeros, casi todos
profesores modestos y abstraídos,
de raído gabán y claras gafas.
Entre el barro o el vaho, avergonzados
de dar un duro en vales para pan,
tomados por algunos como agentes
de la Embajada nazi, comprobaban
lo mismo, año tras año, consternados:
la familia entre latas, con el cerdo,
padres y niños, todos sifilíticos,
menos la mayorcita, que era de antes
que el marido… “los malos compañeros,
¿sabe?” -casi en defensa, la mujer-
“lo que le pasa a un hombre”; y en la esquina,
un muchacho tullido -“y menos mal”,
según la madre, “que al fundarse el chico
yo estaba muy robusta”-; éste pedía
libros, pero ¿cuál darle a un pobre inmóvil?
(yo le llevé María Chapdelaine);
y, como única baja, la gallega
muerta de hambre, dejando dos hijitas,
pero con gran entierro de un Seguro
que, en nuestras mismas huellas, les cobraba
más de nuestra limosna, porque el pobre
quiere morir en grande, por el miedo
de seguir siendo pobre al otro lado…
Luego, en la fría sala parroquial,
decía el presidente, en grave rito: .
“¿Se aprueba el acta ?” y todos, abrumados,
bajaban la cabeza: “Sí, se aprueba”.


José María Valverde

 

 

Nos anos da fome – como dizem
os que ainda a não saciaram –
estudantito imberbe, acompanhei
algum tempo, aos domingos de manhã,
os visitadores dos pobres,
cavalheiros simples, quase todos
professores modestos e absortos,
de capote coçado e óculos claros.
No meio da lama ou do bafio, envergonhados
de dar um duro em vales para pão,
tomados às vezes por agentes
da embaixada nazi, constatavam
o mesmo, consternados, ano após ano:
a família no meio de latas, com o porco,
pais e filhos, todos sifilíticos.
menos a maiorzinha, que era de antes
do marido… ‘más companhias, sabe?’
- a mulher, à defesa -
‘o que acontece a um homem’; e na esquina,
um rapaz paralítico – ‘e menos mal’,
dizia a mãe, ‘que ao tempo da gravidez
eu estava robusta’; ele pedia livros,
mas que livro dar a um pobre paralítico?
(eu levei-lhe a Marie Chandelaine);
e como baixa única, a galega
morta de fome, deixando duas filhitas,
mas com um grande enterro de estadão,
de custo superior à nossa esmola, pois o pobre
quer morrer em grande, com medo de no outro mundo
continuar a ser pobre…
Depois, na fria sala da sacristia,
o presidente dizia, grave, na fórmula ritual:
-‘Aprova-se a acta?’ e todos, esmagados,
baixavam a cabeça: ‘Sim, aprovada’.


(Trad. A.M.)


>>  A media voz (24 p) /  Wikipedia

.


14.6.21

Daniel Jonas (Três rosas)




Três rosas choram, brancas e tombadas.
No mármore em murmúrio nada se ouve
E tudo o que é é nada do que houve…
Oblíqua cai a chuva nas lombadas…
Na biblioteca parda tudo tomba:
As rosas, as velhinhas, hirtos círios.
E agora tudo chora, grutas, lírios,
E as gárgulas do choro são a tromba…
É nada o que nos move, a paz, a guerra…
Tanto saber errado e tanto crânio!...
O príncipe é que estava certo, o dânio!
E as rosas murcharão, quem as enterra?
Mas quase me esquecia ao que vinha:
Passar-te a mão pela pele tão lisinha…


Daniel Jonas

[Acontecimentos]

 .

12.6.21

Cristina Peri Rossi (Amar)




AMAR

  

Amar é traduzir
- seja, trair.

Saudosos para sempre
do paraíso, antes de Babel.


Cristina Peri Rossi

(Trad. A.M.)

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11.6.21

Oliverio Girondo (Milonga)





MILONGA 



Sobre las mesas, botellas decapitadas de “champagne” con corbatas blancas de payaso, 
baldes de níquel que trasuntan enflaquecidos brazos y espaldas de “cocottes”. 

El bandoneón canta con esperezos de gusano baboso, 
contradice el pelo rojo de la alfombra, imanta los pezones, los pubis 
y la punta de los zapatos. 

Machos que se quiebran en un corte ritual, la cabeza hundida entre los hombros, 
la jeta hinchada de palabras soeces. 

Hembras con las ancas nerviosas, un poquitito de espuma en las axilas, 
y los ojos demasiado aceitados. 

De pronto se oye un fracaso de cristales. 
Las mesas dan un corcovo y pegan cuatro patadas en el aire. 

Un enorme espejo se derrumba con las columnas y la gente que tenía dentro; 
mientras entre un oleaje de brazos y de espaldas estallan las trompadas, 
como una rueda de cohetes de bengala. 

Junto con el vigilante, entra la aurora vestida de violeta. 


Oliverio Girondo 





Sobre as mesas, garrafas decapitadas de champanhe com gravatas brancas de palhaço, 
baldes de níquel que trasladam braços escanzelados e costas de ‘cocottes’. 

O bandoneão canta a espreguiçar-se, como um bicho baboso, 
contradiz o pelo encarnado dos tapetes, imaniza os mamilos, 
o púbis e a ponta dos sapatos. 

Machos a partir-se num corte ritual, de cabeça afundada entre os ombros, 
a fuça inchada de palavras soezes. 

Fêmeas de ancas nervosas, um pouquitito de espuma nas axilas e de olhos oleados de mais. 

Ouve-se de repente um fracasso de vidros. 
As mesas dão um pinote, atiram quatro coices no ar. 

Um espelho enorme desaba com as colunas, mais as pessoas que tinha dentro. A par do guarda, entra a aurora vestida de violeta

 (Trad. A.M.)

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7.6.21

Daniel Cotta (Eu faço testamento todas as noites)




Yo dicto testamento cada noche:
dispongo mis zapatos, mi camisa,
la piel que llevo puesta
para el cuerpo que ocupe mañana mi huella en el colchón.
Le lego mis pupilas, mi garganta,
mis manos, mis heridas,
mis miedos, mis deberes por cumplir…
Y sobre toda obligación, le lego
las arcas de cariño acumulado
por quien me eligió ayer
como heredero,
que a su vez lo heredó de tantos cuerpos
y cuerpos que murieron cada noche
haciendo testamento de su amor.
Que mi heredero de mañana
no muera sin haber incrementado
en algo el patrimonio familiar.

Daniel Cotta

[Jose Antonio F.S.]
 

 

Eu faço testamento todas as noites,
disponho dos sapatos, da camisa,
da pele que uso,
a favor do corpo que amanhã ocupe o meu lugar no colchão.
Lego-lhe as pupilas, a garganta,
as mãos, as feridas, os medos,
os meus deveres por cumprir...
E lego-lhe ainda, livre de encargos,
as arcas de carinho acumulado
por quem antes me escolheu 
a mim como herdeiro,
e que o herdou por seu turno de tantos corpos
e corpos que morreram todas as noites
fazendo testamento de seu amor.
Que meu herdeiro de amanhã 
não morra sem acrescentar
em algo o património familiar.

(Trad. A.M.)

 .

6.6.21

Nicanor Parra (Agnus Dei)



AGNUS DEI

 

Horizonte de tierra
astros de tierra
Lágrimas y sollozos reprimidos
Boca que escupe tierra
dientes blandos
Cuerpo que no es más que un saco de tierra
Tierra con tierra - tierra con lombrices.
Alma inmortal - espíritu de tierra.

Cordero de dios que lavas los pecados del mundo
Dime cuántas manzanas hay en el paraíso terrenal.
Cordero de dios que lavas los pecados del mundo
Hazme el favor de decirme la hora. 

Cordero de dios que lavas los pecados del mundo
Dame tu lana para hacerme un sweater. 

Cordero de dios que lavas los pecados del mundo
Déjanos fornicar tranquilamente:
No te inmiscuyas en ese momento sagrado.


Nicanor Parra

 

Horizonte de terra
astros de terra
Lágrimas e soluços reprimidos
Boca que cospe terra
dentes brandos
Corpo que é apenas um saco de terra
Terra com terra – terra com minhocas.
Alma imortal – espírito de terra. 

Cordeiro de deus que tiras os pecados do mundo
Diz-me quantas maçãs há no paraíso terreal.
Cordeiro de deus que tiras os pecados do mundo
Diz-me por favor que horas são. 

Cordeiro de deus que tiras os pecados do mundo
Dá-me a tua lã para fazer uma camisola.

Cordeiro de deus que tiras os pecados do mundo
Deixa-nos fornicar tranquilamente:
Não te imiscuas nesse momento sagrado.
 

(Trad. A.M.)

_________________

 
> Outra versão:  Insonia (Henrique Fialho)


4.6.21

Armando Silva Carvalho (O corvo)



O CORVO

  

O céu desta cidade não me vence.
Ao ver a lua cheia num rasgão de nuvens
esqueço-me das casas da minha casa,
das ruas da minha rua, das vidas da minha vida.
Há uma noite acesa no meu mundo. 

E tu deitas na mesa.
Primeiro as mãos que não querem esperar
pelo corpo à beira do colapso
que julgo financeiro
em matéria de sexos pois são muitos e novos
os que tu disfarças. 

Depois vem o aparelho da fala com a tua metafísica
varrida por vassouras de metal pungente
que correm pelo teu rosto e tu tão bem disfarças
com a faca do riso entreaberta. 

Por fim o teu cabelo. É belo olhá-lo.
E belo vê-lo pousar como um corvo
na toalha branca do jantar.
E ver por fim a natureza que te ocupa
o órgão do prazer,
a música de Bach ou o ramo de luz
que cresce dos teus olhos. 

Não vejo o teu coração, deixei de ver a lua.
E o céu desta cidade não me vence.


Armando Silva Carvalho

 .


2.6.21

Miquel Martí i Pol (Paisagem incendida)




PAISAGEM INCENDIDA

 

Corta o ar de vidro o diamante
do teu olhar.
                              Tudo é breve
por trás da cortina que me separa
da tarde agonizando no meio de um grande
silêncio.
               Quando voltarmos a ver-nos, toda
a quietude será paisagem incendida,
reduto de desígnios, de esperanças.

 

Miquel Martí i Pol

(Trad. A.M./ sobre versão cast. Joan B. Fort i Olivella)


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1.6.21

Manuel Rico (A primeira janela)



LA PRIMERA VENTANA

 

La ventana que ya no es. La muerta
ventana que dejó, temblorosas,
imágenes aún vivas contra el tiempo y la arena. 

La ventana de las casas en que he vivido,
mas ante todo
la ventana de entonces, la que daba
a un campo sin ciudad y vertederos,
a las calles huidizas de los huidizos, al frío vertical
y al calor imprevisto y a la niebla. 

La ventana abierta a la avenida
y a los escaparates, al blanco y negro frágil
de los sueños vacíos.
La ventana
tras la que crecieron tus ojos, creció el mundo
y el domingo.
La ventana.


Manuel Rico


[Zenda]

 

 

Janela, que já não é. A morta
janela que deixou, tremidas,
imagens vivas ainda contra o tempo e a areia.

A janela das casas em que vivi,
mas sobretudo
a janela de então, que dava
para um campo sem casas e aterros,
para as ruas esquivas dos esquivos,
para o frio vertical e calor imprevisto
e névoa.

A janela aberta para a avenida
as vitrinas, o branco e negro frágil
dos sonhos vazios.
A janela onde cresceram teus olhos,
mais o mundo
e o domingo.
A janela.


(Trad. A.M.)

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