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6.6.16

Armando Silva Carvalho (Os amigos)





OS AMIGOS



Vamos vendo os amigos cada vez mais longe,
muitas vezes de costas,
a sacudir o espaço dos seus tempos como se entrassem
no mundo pela primeira vez.

São pequenas formações quase desumanas
que às vezes se reconhecem
disformes quase sempre sós e aos pés oculto de todos
corre um rio.

Um rio que nos vai confundindo a vida
e a memória.
Que percorre os lugares do júbilo como uma água
aflita e sem regresso.

Quando os olho por dentro no começo da tarde
os amigos cintilam como corpos estranhos
entre os nossos desastres bebemos o anoitecer
e adormeceríamos juntos se soubéssemos.


Armando Silva Carvalho

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7.11.13

Armando Silva Carvalho (Hospital Curry Cabral)





HOSPITAL CURRY CABRAL



Parecem as termas de Fellini, disse ela, a catalã
que não sabia nada dos hospitais
de Lisboa.

De facto, o chão fumava,
um vapor espesso subia-lhe pelas pernas
e acalorava os gatos.
E até um garnisé que por ali passeava em busca
das migalhas das visitas
cantou
desirmanado.

Mas era quase erótico o som da sua voz
como a da vedeta italiana
desse filme barroco
caindo inocente na doença ambulante
levada por maqueiros gordos
e libidinosos.

As palmeiras derramavam um choro
no vento melancólico.
E ela a catalã, jovial e magra,
ia batendo palmas às aves embaraçadas,
e avançava a sorrir
pelas zonas infecto-contagiosas.
Mas não lhe era preciso aplaudir um tal cenário
de figurantes mudos e fantasmagóricos
com os seus roupões azuis
de sida
com os seus pijamas de cinza
e tuberculose.
Bastava-lhe olhar a direito ou fechar os olhos
e perguntar pelo Hotel Barcelona.

Mas ela preferiu tropeçar nos varões com sono
arrastados pelo verde do jardim
e passar rente a precipícios que deslizam deitados
à sombra da morte.

E é preciso amar e partir depressa.
Ou atordoar-se com os perigosos jogos do contágio.
Eu respiro a calma que a desgraça me oferece
entre galinhas-da-índia
a encurtar caminho
nesse antigo lugar de mulheres da vida
arrependidas.

Normalmente vou só e não me engano.
A amiga catalã é um devaneio
numa rambla de encontros tenebrosos
com outra espécie de morte.

Tantas vezes pensei
e o poema não veio ao meu encontro.
Tantas vezes devorei este fumo quente e sensual
que começa por lamber-me as calças
e faz de mim um animal em erecção precoce.
Belas termas, estas, amiga tão distante,
nas tuas quimeras musicais
no teu regaço de coloridas risas de passagem.

Passa comigo e pede um copo de água
ou de cólera, como diz o brasileiro,
àquele rapaz com a morte a prazo.
A menina do filme, essa perversa inocente
Cardinale, fica-te tão bem,
diria ele,
esse jovem director de espectros
que te tira o chapéu
e deixa ver um quisto inquietante
na cabeça pelada de trapezista mortal.
Traz contigo mais música.
E passeia comigo entre pavões rubro-azuis
e corpos que rolam
sentados ou jacentes e avançam
para a saída
da vida.

Armando Silva Carvalho


[Canal de poesia]


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26.2.12

Armando Silva Carvalho (O nevoeiro envolve devagar)






O nevoeiro envolve devagar
Casas e almas
Entranha-se na escrita e molha-me
As palavras
Que nascem da manhã num trabalho de parto
Suave e melancólico.

Sinto nas vértebras a indecisão
Da vida,
A memória encoberta,
Todo o meu corpo se dissolve
Numa cinza líquida.
Morrer assim, seria a despedida do meu signo,
Água na água,
Assim como era no princípio.
Sinto o passado fluir
Por entre sombras que o presente
Não quer interpretar.
Fluidos são também os prédios que me deixam
Num mar de leite aéreo,
Droga feliz, sem álcool, sem química,
Sem ressaca.

Futuro? Que futuro?
São as próprias palavras que já nascem
Sem tempo.

Agora nada me devora.
Se eu próprio erguesse os braços como um espectro,
Quem me apontaria o caminho,
Aqui,
Neste país submerso?


Armando Silva Carvalho


[Luz & sombra]

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29.9.11

Armando Silva Carvalho (Agora estás sozinha)






(4)

Agora estás sozinha à mesa do cobalto.
E como adolescente obstinada
comungas muros brancos
na secura da cal
sinistra nos teus olhos
– ó imaculada.
Os punhos nos ouvidos não são força
bastante para empurrar o som
até às nuvens, ó idolatrada.
Querias tanto à terra com seus gatos,
criaturas do sol no teu regaço azul
que nenhuma palavra te protege
da minha boca em fúria
– amada e destruída até aos ossos.
Às vezes quando no silêncio acordo
a perguntar por ti
e habitas o meu corpo,
que mais posso fazer do que arranhar na noite
a tua carne fria, ó desamparada?
Na folhagem do sangue eu afogo
a cabeça,
percorro com a língua a rede dos pulmões,
o meu eco atravessa toda a natureza
– porque não respondes?
E lentamente o teu olhar flutua.
Trazes na mão o peso
dos meus dias e ouço-te dizer:
a terra não resiste ao fogo do meu ventre,
ao ar que me respiras,
às águas surdas em que me bebeste.



Armando Silva Carvalho

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14.7.11

Armando Silva Carvalho (Hoje vejo-te de costas)






(3)                          

Hoje – vejo-te de costas,
entre bichos caseiros, peças de riscado.
És grande como o castanheiro
e o meu corpo devora a tua sombra.
És feita devagar pelos meus sentidos.
Não há crime que baste aos nossos sexos.
Posso gritar tão longe no teu ventre
que a terra para mim será pequena.
Poderosa força amedrontada
que me pões de rastos.
De joelhos te peço: vem calar-me a boca.
Não quero este caminho de palavras
para passear contigo entre a memória.
És mais solene – quando me abandonas.
És mais altiva – como nunca foste.
Todo o amor que faço é para ti
a mais ampla das grutas,
um rio de sangue e leite, a morte
apetecida desses seres diários
que tu espantas com a mão
– ruidosa rainha.
Surges na noite orientando o esperma,
não tens eira nem beira,
tu, ó derradeira,
agora como no princípio.
E o meu grito tropeça contra o teu silêncio.
Pergunto aos deuses porque estás comigo
e me empurras a língua para o seio
da treva.
Todo o amor que digo se enrosca aos teus cabelos
e desço, frase a frase,
lá onde arrefecemos entre fogo e lágrimas.
Agora e para sempre vejo-te de costas
e deixas-me mais velho.
Entre bichos caseiros, peças de riscado,
não te cansas e cortas
o pão da minha infância.
Porque a memória é um espelho
que a morte arrasta atrás de si
até ao fim do mundo.



Armando Silva Carvalho

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31.5.11

Armando Silva Carvalho (Louvor e imitação de Herberto Helder)






LOUVOR E IMITAÇÃO DE HERBERTO HELDER
 




Os poemas quebrados, a fulgurante loucura
dos cometas, os mártires que revolvem
a terra como antigamente
vigiam os velhos templos onde ardia o azeite
dos sábios, o uivo pleno da noite
aquecida pelos séculos.
O mar está branco, amor – diz a criatura
à outra criatura – volvendo os olhos para os cimos de ouro
do passado impassível.
É este o fogo que me traz o vento, a química
da voz que os dentes enobrecem.
Nas trevas não há mundo, um sol negro e redondo
era um templo do cérebro ao encontro da língua
como as mãos do vinagre e a boca no cálcio.
Quanto mais seco se. Através da próstata.
Das guardas imperfeitas que me surgem nas veias.
Mais sumo, mais ardor na pupila deserta.
E as vozes do enxofre explodiam na terra.
Não há exemplos novos, nem modelos inócuos.
O brilho incandescente do milagre atravessa-me
a espinha, é uma planta carnívora que me sobe
dos pés. As virilhas sulfuram quando o sangue
as arrasta pela memória aberta.
Ó armas e bagagens! Cordeiros tão nervosos
que não comem sopa. Sapatos tão ordeiros
que não bebem vinho.
Mamilos como um fruto que se tece na seda.
Peixes na bexiga, mar novo entrando às cegas
nos buracos dos nervos.
Caem ovos podres nos charcos da desgraça
e as palavras despenham-se ao sabor das imagens.

            (...)

 
Armando Silva Carvalho


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26.4.11

Armando Silva Carvalho (Eis o teatro da casa)






(1)

Eis o Teatro da Casa.
Choro diante da topografia dos sentidos,
o coração da Mãe cresce na cabeça.
As cenas mais cruéis quase flutuam,
não tenho posição,
não posso preservar mais tempo
as águas do instinto.
Destroem-me o umbigo as vozes invocadas
em torno da rosácea, matriz,
metamorfose.
Este palco, este corpo.
Se corro para o mundo afogam-me as palavras.
Ajoelho a alma até sentir na boca
os teus lábios em sangue,
esse surdo rumor cuja fome
não cabe nos recitativos.
Ó tu, mãe teatral, simulacro do berço
em que pariste este inferno de folhas já traídas,
minha coroa de glória, mãos que mexem no sexo,
em que parte da casa habitas estas noites?
Cada sentido meu – disseste – será
um dos teus filhos.
Choram na minha boca as mínimas crianças
que puseste no mundo.
Mãe infeliz que caminhas nas lágrimas
e vestes devagar o medo e o sepulcro.
Ao olhar o meu corpo crescem-me os teus seios,
os meus ouvidos são o som da tua voz
e a minha língua treme nos teus dentes cerrados.
Posso mudar de sexo em cada instante
porque gritas sem dó e sem idade
dentro dos meus sonhos.
Hoje posso louvar-te, amar-te
ou devorar-te:
a memória é um espelho
que a morte arrasta atrás de si
pela garganta.


Armando Silva Carvalho

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3.4.11

Armando Silva Carvalho (A chave inglesa)






A CHAVE INGLESA




Era um corpo inteiramente
português.
Transido de ternura
o óleo das suas mãos
protegia-me
o coração.


Não sei que mecanismo
despertava em si
quando chorava,
fazia crescer a relva,
meus dentes indecisos
como crias
corriam e devoravam.


Escreveu-me duas cartas
em cima de um tractor
e nelas descrevia
em frases simples
o modo tortuoso
que me fez traidor.



Armando Silva Carvalho

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11.3.11

Armando Silva Carvalho (Isso)





ISSO




É isso. O intemporal
vai suportar-nos tudo.
As armas débeis, a cólera cansada,
o pulso que se perde,
a mesma porta.
Quando o outro dizia
Abril o mais cruel dos meses
estaria a somar londrinas primaveras
ou a olhar do salão
simplesmente as fotografias?



Armando Silva Carvalho

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16.2.11

Armando Silva Carvalho (Coitas)






COITAS




Aqui ninguém me obriga ao eflúvio dos líricos.
Ao abuso do som neste solfejo podre
de uma orquestra de câmara,
que arde, que vacila.
É tempo de me abrir às implosões da ira.
Reparem como surjo. Primeiro sou o navio.
Depois a sombra dele. Depois apenas ponto.
Cesariny dixit. Coitado dele coitado
que coitava o de Campos
que por sua vez só a ele se coitava.
Coitado eu três vezes.
Mas isso é outra história.



Armando Silva Carvalho


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24.1.11

Armando Silva Carvalho (Urinar onde?)






URINAR ONDE?




Cheguei ao aeroporto. Aviões, gataria,
animais de transbordo, diz-se que estão
em trânsito. E afinal para onde?
Que países procuram?
Que rotas delicadas saberão essas vozes?
Em que canteiros urinam antes de subirem?
Ou será entre nuvens que mijam sobre a Terra?



Armando Silva Carvalho

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8.1.11

Armando Silva Carvalho (Um boi bate)






Um boi bate
nas pedras


o sapateiro
na sola


e a mulher
no filho.


Mas todos
estão batendo
no silêncio.



Armando Silva Carvalho



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