31.5.19

Carmelo Guillén Acosta (Aprendendo a amar)




APRENDIENDO A QUERER




Aprendiendo a querer me iré un día de estos,
y no vendré, lo sé, de los álamos, madre,
ni habrá pájaros, huerto, pozo blanco ni árbol
que me hagan volver, que me iré para siempre.
Por altos pensamientos me iré, de vuelo arriba
hasta donde me lleven estas alas de hombre.
Todo será sencillo, ni un poema siquiera,
ni una flor que arrojarme, ni nadie a despedirme,
tan sólo los amigos notarán que les falto.
Y cuando esto suceda, ni yo mismo sabré
que me he ido, estará mi vida como ahora,
con esta sensación del que empieza otra vez
e intenta no caer en los mismos errores.

Carmelo Guillén Acosta





Aprendendo a amar hei-de ir-me
um dia destes, e bem sei, minha mãe,
que não voltarei lá dos álamos,
nem haverá pássaros, nem horto, nem poço,
nem árvore que me faça voltar,
que me irei para sempre.
Irei por altos pensamentos, voando acima
até onde me levem as asas de homem.
Tudo muito simples, nem um poema sequer,
uma flor que me atirem, ninguém a despedir-se,
só os amigos darão conta que lhes falto.
E quando isto se der, nem eu mesmo saberei
que me fui embora, minha vida estará como agora,
com esta sensação de quem começa de novo
e tenta não recair nos mesmos pecados.


(Trad. A.M.)



>>  Jornadas (anto-24p) / Poetas Andaluces (7p) / Fernando Sabido (7p) / Wikipedia

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29.5.19

Antonia Pozzi (Mensagem)




MESSAGGIO



E tu, stella acuta notturna
splendi ancora
se per il solco delle strade
grida la triste anima dei cani.
Sorgeranno colline d’erba magra
a coprirti:
ma nel mio buio conquistato
brillerai, fuoco bianco,
parlando ai vivi della mia morte.

Antonia Pozzi




E tu, estrela da noite
cintilas ainda
quando pelos caminhos
uiva de tristeza a alma dos cães.
Montes e montes virão a encobrir-te,
mas no escuro da minha vida
tu brilharás, fogo branco,
contando aos vivos da minha morte.

(Trad. A.M.)

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28.5.19

Laura Wittner (Lua de plástico)





LUNA DE PLÁSTICO



Estamos en un living oscuro
donde quiero todo menos lo que tengo.
Sin zapatos, en el piso, tomando vino
en vasos de cristal, ponen música fuerte
y me pregunto: ¿por qué nosotros nunca
ponemos esta música?
La posibilidad del placer me está haciendo levitar
y la imposibilidad del placer me marea.
Voy a asomarme a la ventana a tomar aire,
pero no hay más, aquí, que la estrecha confluencia
de patios traseros y escaleras para incendio,
la ausencia de sonido mordazmente agitada
por la música mágica, una oscuridad de afueras de ciudad
apenas conocida. Así que necesito ir a la calle.
Me pongo los zapatos, salgo,
bajo la luz marrón que el piso a cuadros se chupa como esponja,
y mientras tanto pienso, pienso.
¿Por qué nosotros nunca ponemos esta música?
Me paro en la vereda congelada. No hay olores.
No puedo distinguir la ventana
de donde vengo. Un grupo de hombres en las sombras
me vuelven al temor. Ay, pero, gracias.

Laura Wittner




Estamos numa sala escura
onde eu quero tudo menos aquilo que tenho.
No chão, sem sapatos, a tomar vinho
por copos de vidro, põem música forte
e eu interrogo-me; porque é que nós
nunca pomos esta música?
A possibilidade do prazer faz-me levitar
e a impossibilidade incomoda-me.
Chego-me à janela a tomar ar,
mas não há mais, aqui, do que a estreita confluência
de pátios traseiros e escadas de incêndio,
a ausência de ruído mordazmente agitada
pela magia da música, uma escuridão de periferia urbana
mal conhecida. Daí precisar de sair à rua.
Calço os sapatos, saio,
desço à luz castanha que o chão de mosaico chupa como esponja,
e entretanto penso, penso.
Porque é que nós nunca pomos esta música?
Detenho-me na vereda codejada. Não há cheiros,
nem consigo distinguir a janela
de que saí. Um grupo de homens na sombra
desperta-me receio. Mas, ai, obrigada, obrigada.

(Trad. A.M.)

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26.5.19

Leopoldo Castilla (Princípio de incerteza)





PRINCÍPIO DE INCERTIDUMBRE



Por el Principio de Incertidumbre
es imposible determinar
a la vez
la posición y la velocidad de un objeto.
Un paradigma dudoso.

Así como el colibrí en vuelo
a cada instante
pierde un colibrí,
en un mismo acto
se elimina lo que aparece.

Somos
de segundo en segundo
un relámpago
y después otro
y ese espacio no vuelve.

Una sucesión de invisibles.
Vamos detrás de nuestra semejanza
tocándola apenas,
como la nieve.

La unidad y el trayecto son ilusorios.

El principio sería acertado
si no hubieran medido
la ausencia de los cuerpos.


Leopoldo Castilla

[Life vest under your seat]




Pelo Princípio da Incerteza
é impossível determinar
a um tempo
a posição e a velocidade de um objecto.
Um paradigma duvidoso.

Assim como o colibri em voo
a cada instante
perde um colibri,
num mesmo acto se elimina
aquilo que aparece.

Somos
um relâmpago
de segundo a segundo
e depois outro
e esse espaço não volta.

Uma sucessão de invisíveis.
Vamos empós
de nossa própria figura
mal a tocando,
como a neve.

Unidade e trajecto são ilusórios.

O princípio seria acertado
se tivessem ponderado
a ausência dos corpos.

(Trad. A.M.)

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25.5.19

Almada Negreiros (Se é dever dizer)




Se é dever dizer o que
sem mestre aprendi da
vida digo:
a natureza tem tudo
mas cada coisa de
sua vez.
É simultânea como o
conhecimento:
sabe-se bem uma coisa
por causa de várias
que se sabem mal.
E tive paz quando
soube que antigos
me tinham deixado
isto mesmo.


José de Almada Negreiros

[Canal de poesia]

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23.5.19

Karmelo C. Iribarren (Como um cão)





COMO UM CÃO



Como um cão
a sair da água,
sacudir-te
da lembrança
e toca a abanar o rabo
por aí.


Karmelo C. Iribarren

(Trad. A.M.)

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22.5.19

Julio Cortázar (Depois da festa)





DESPUÉS DE LAS FIESTAS



Y cuando todo el mundo se iba
y nos quedábamos los dos
entre vasos vacíos y ceniceros sucios,

qué hermoso era saber que estabas
ahí como un remanso,
sola conmigo al borde de la noche,
y que durabas, eras más que el tiempo,

eras la que no se iba
porque una misma almohada
y una misma tibieza
iba a llamarnos otra vez
a despertar al nuevo día,
juntos, riendo, despeinados.

Julio Cortázar




E quando todos iam embora
e nós ficávamos os dois
em meio de copos vazios e cinzeiros sujos,

que belo saber que estavas
ali como um remanso,
sozinha comigo no limite da noite,
e duravas, eras mais que o tempo,

eras a que não ia embora,
porque uma mesma almofada
e um mesmo calor
iam chamar-nos de novo
ao despertar o novo dia,
juntos, a rir, despenteados.

(Trad. A.M.)

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20.5.19

Cristovam Pavia (Últimas disposições do H.M.E.)




ÚLTIMAS DISPOSIÇÕES DO H.M.E.



Para começar tirem-me este trapo da cara, que faz cócegas,
e amortalhem nele o meu gato e enterrem-no
ali onde era o meu jardim cromático.

Levem a coroa de latão de cima do meu peito
e atirem-na às estátuas erguidas no entulho,
e ofereçam os laços às putas, para que com eles se enfeitem.

Rezem as orações a um telefone antiquado e sem fio
ou embrulhem-nas num lenço de assoar cheio de farelos
para os estúpidos peixes do charco.

O Bispo que fique em casa e se emborrache,
dêem-lhe uma garrafa de rum
(o sermão vai fazer-lhe sede).

E deixem-me em paz com lápides e chapéus altos!
Com o belo basalto pavimentem uma viela
onde ninguém more,
uma ruazinha para pássaros.

Na minha mala há muito papel amarelo para o meu primo miúdo
fazer com ele avionettes que hão-de voar, bonitas, da ponte
e ir mergulhar no rio.

O mais que fica (umas cuecas, um isqueiro, uma linda opala
e um despertador) isso é para oferecer a Calístenes, o trapeiro,
com a devida gorjeta.

Quanto à ressureição da carne, entretanto, e à vida eterna,
dessas coisas trato eu, se estão de acordo:
É cá comigo, não acham? Então, adeus!

Na banca de cabeceira há ainda alguns cigarros.


Cristovam Pavia

[Bibliotecario de Babel]



>>  Triplo V (4p) / Snpc (perfil) / Wikipedia

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19.5.19

Juanjo Barral (Preço, apreço, desprezo)





PRECIO, APRECIO, DESPRECIO



Ahora mismo no estoy trabajando
-se supone-
escribo este poema.
Pero ya sé, eso no cuenta,
aunque se trate de hacer balance de uno,
recuento de los beneficios de nuestra existencia.

Qué lástima entonces el mundo,
qué lástima cuando no quiere tantas veces
que escribamos este poema,
que soñemos en esta línea
que queremos dibujar.

Que no quiere que miremos el mundo por dentro
lejos del precio y la etiqueta.

Ahora mismo no estoy trabajando
y pregunto a la patronal, al Banco Central Europeo, al Fondo Monetario
Internacional: ¿Hay algún problema?


Juanjo Barral




Agora mesmo não estou a trabalhar
- supõe-se -
enquanto escrevo este poema.
Mas isso não conta, já sei,
embora se trate de elaborar um balanço pessoal,
ou do inventário de benefícios da existência.

Que pena então este mundo,
que pena quando não quer tantas vezes
que escrevamos este poema,
que sonhemos nesta linha
que pretendemos traçar.

Que não quer que olhemos o mundo por dentro,
longe do preço e da etiqueta.

Agora mesmo não estou a trabalhar
e só pergunto à patronal, ao Banco Central Europeu,
ao Fundo Monetário Internacional: Há algum problema?


(Trad. A.M.)

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17.5.19

Juan VIcente Piqueras (Palmeiras)





PALMERAS



Nacemos de la sed. Somos palmeras
que van creciendo a fuerza de perder
sus ramas. Y sus troncos son heridas,
cicatrices que el viento y la luz cierran,
cuando el tiempo, el que hace y el que pasa,
ocupa el corazón y lo hace nido
de pérdidas, erige
en él su templo, su áspera columna.
Por eso las palmeras son alegres
como los que han sabido sufrir en soledad
y se mecen al aire, barren nubes
y entregan en sus copas
salomas a la luz, fuentes de fuego,
abanicos a dios, adiós a todo.
Tiemblan como testigos de un milagro
que sólo ellas conocen.
Somos como la sed de las palmeras,
y cada herida abierta hacia la luz
nos va haciendo más altos, más alegres.
Nuestros troncos son pérdidas. Es trono
nuestro dolor. Es malo
sufrir pero es preciso haber sufrido
para sentir, como un nido en la sangre,
el asombro de los supervivientes
al aire agradecidos y estallar
de alta alegría en medio del desierto.

Juan Vicente Piqueras




Nascemos da sede. Somos palmeiras
que vão crescendo à força de perder
os ramos. E os troncos são feridas,
cicatrizes fechadas pelo vento e pela luz,
quando o tempo, o que faz e o que passa,
ocupa o coração e dele faz ninho
de perdas, ali erigindo
seu templo, sua áspera coluna.
Por isso as palmeiras são alegres
como quem soube sofrer em solidão,
e abanam ao vento, varrem as nuvens
e entregam nas copas
cantos à luz, fontes de lume,
leques a deus, e adeus a tudo.
Tremem como testemunhas de um milagre
só delas conhecido.
Nós somos como a sede das palmeiras,
e cada ferida aberta à luz
vai-nos fazendo mais altos, mais alegres.
São perdas nossos troncos, um trono
nossa dor. É mau sofrer,
mas é preciso ter sofrido
para sentir, como um ninho no sangue,
o pasmo dos sobreviventes
gratos ao vento e rebentar
de alegria no meio do deserto.


(Trad. A.M.)

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16.5.19

Ferreira Gullar (Visita)





VISITA



no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando


Ferreira Gullar

[Acontecimentos]

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14.5.19

Antonio Cabrera (Salvamo-nos)





NOS SALVAMOS



La vida interior es abstrusa,
un embrollo de ideas en inminencia,
en uso o en descomposición.
La vida interior puede ser asfixiante.
Menos mal que algo venido de fuera,
una percepción, alguna cosa vista,
puede aliviarla momentáneamente,
puede permitirle respirar hondo.
La vida interior - el pensamiento a solas -
abandonada a su puro bullir nos sofocaría.
Para que no quedemos cegados por nuestra mente
es necesario mirar.
Gracias a las ventanas no odiamos nuestra casa.
Gracias al mundo nos salvamos.


Antonio Cabrera

[Anton Castro]




A vida interior é abstrusa,
um imbróglio de ideias em devir,
em uso ou decomposição.
A vida interior pode ser asfixiante.
Ainda bem que algo vindo de fora,
uma percepção, alguma coisa vista,
pode aliviá-la de momento,
deixá-la respirar fundo.
A vida interior – o pensamento a sós –
deixada à sua ebulição sufocar-nos-ia.
Pra não ficarmos cegos pela mente
impõe-se observar.
Graças às janelas não odiamos a nossa casa,
graças ao mundo salvamo-nos.

(Trad. A.M.)

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13.5.19

Juan Bonilla (A luz molhada)





La luz mojada
del sol envolvió en lumbre
una naranja.

La convirtió
sólo por un instante
en otro sol.

Tuviste al verlo
la tenue certidumbre
de ser eterno.


Juan Bonilla


[Susana Benet]


.

A luz molhada
do sol envolveu em fogo
uma laranja.

Converteu-a
por um só instante
em outro sol.

Tiveste ao vê-lo
a pálida certeza
de ser eterno.

(Trad. A.M.)

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11.5.19

António Ferreira (Se meu desejo só é sempre ver-vos)




Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esprito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.


António Ferreira




>>  Poemas Lusitanos / Idem / Citador (8p) / Wikipedia

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10.5.19

José Antonio Fernández Sánchez (Últimas vontades)





ÚLTIMAS VOLUNTADES



Cuando muera yo quiero
discreción ante todo y un ciprés
a mi lado, marcando con su porte
vertical el camino.

Cuando muera en la tierra he de yacer
y que mi muerte entera viva en ella,
y, en redención, estar diseminado.
Volver a ser sustrato mineral.

Sería como ser lo que ya fui:
el polvo que renace de la nada.

No quiero ser llorado cuando muera,
ni ver abatimiento.
Dejad que la tristeza se diluya;
haced que se diluya.

Si muerto veis que estoy
cubrid mi frío cuerpo ya extinguido
con una enorme piedra impenetrable.
Dejad que me recoja con sosiego.
Y, como si la vida retornara,
de cuando en cuando
nombradme alguna vez, hablad conmigo
de igual a igual. Así reviviré.

Pero ese día en que el ciprés señale
la senda divisoria y a ella me dirija
el sol será testigo de un fin inextinguible:
no ser y a la par ser en la memoria,
el eco que pervive así por siempre.


José Antonio Fernández Sánchez




Eu quando morrer quero
discrição sobretudo e um cipreste
a meu lado, assinalando
o caminho com seu perfil vertical.


Eu quando morrer na terra hei-de jazer
e que nela viva a minha morte
e eu me redima com espalhar-me,
com voltar a ser substrato mineral.


Seria assim como ser aquilo que já fui,
o pó renascendo do nada.


Não quero ser chorado ao morrer,
nem quero ver abatimento.
Deixai diluir a tristeza,
fazei que ela se dilua.


Se virdes que morto estou,
cobri então o meu corpo
com uma enorme pedra impenetrável.
Deixai-me recolher em sossego.
E, como se a vida voltasse,
nomeai-me vez por outra, falai comigo
de igual para igual, que assim reviverei.


Mas nesse dia em que o cipreste
indicar a fronteira e eu ali me apresentar
o sol será testemunha de um fim interminável:
não ser, mas ser na memória,
um eco pervivendo assim para sempre.


(Trad. A.M.)

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8.5.19

Juan Manuel Villalba (Canção para depois da festa)





CANÇÃO PARA DEPOIS DA FESTA



Os copos homicidas que apagam as lembranças
é que permitiram chegares aqui,
junto a esse corpo, neste quarto,
perdido na cidade onde vives.
Quem foste tu até chegar aqui?
Quem és quando não te lembras a ti mesmo?
És talvez esse outro que todo mundo esconde,
o ‘outro’, tão insigne, de que falam todos.
Talvez esse outro lembre minimamente o outro,
borracho e confundido num mundo paralelo.
Talvez recorde apenas um sombra do seu eu.
Essa aí, que não conheces, observa como pensas
nesta cama estranha, dentro de um quarto absurdo.
Essa, que não conheces, olha para ti a pensar
que não recorda nada daquela que te seduziu.
Os copos traiçoeiros que moem as lembranças
convidam a uma ronda de olvido partilhado.
Os outros, os direitos, já se disseram os nomes,
olham-se na cara, estão já a fazer planos.


Juan Manuel Villalba

(Trad. A.M.)

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7.5.19

Antonia Pozzi (Novembro)





NOVEMBRE



E poi – se accadrà ch’io me ne vada –
resterà qualche cosa
di me
nel mio mondo
- resterà un’esile scìa di silenzio
in mezzo alle voci –
un tenue fiato di bianco
in cuore all’azzurro.

Ed una sera di novembre
una bambina gracile
all’angolo d’una strada
venderà tanti crisantemi
e ci saranno le stelle
gelide verdi remote.
Qualcuno piangerà
chissà dove – chissà dove –
Qualcuno cercherà i crisantemi
per me
nel mondo
quando accadrà che senza ritorno
io me ne debba andare.


Antonia Pozzi

[A dupla vida de V.]




E depois - se acontecer que eu me vá -
ficará qualquer coisa
de mim
em meu mundo
- ficará um fino traço de silêncio
por entre as vozes -
um sopro ténue de branco
no meio do azul.


E numa tarde de Novembro
uma menina graciosa
venderá milhentos crisântemos
numa esquina da rua
e haverá estrelas
gélidas, verdes, remotas.
Alguém chorará
sabe-se lá onde - sabe-se lá onde -
Alguém me buscará os crisântemos
pelo mundo
um dia que eu tenha de partir
sem regresso.


(Trad. A.M.)

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5.5.19

Álvaro Valverde (Assim)





ASÍ



Así como en el río
vemos plantas y árboles
reflejarse y parece
que sus orillas fueran,
por efecto simétrico,
verde tierra invertida,
en las primeras horas
de este día de julio
la luz, la brisa, el agua
favorecen la idea
de que la vida es dulce,
sereno este vivir
ante el abismo.


Álvaro Valverde




Assim como no rio
vemos plantas e árvores
reflectidas
e as margens parecem,
por efeito de simetria,
verde terra invertida,
a luz, a brisa, a água,
às primeiras horas
deste dia de julho,
dão a ideia
de que a vida é doce,
sereno este viver
diante do abismo.


(Trad. A.M.)

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4.5.19

Luis Feria (A uma moça)





A UNA MUCHACHA



Si alguien sabe qué puede destruir a la muerte,
qué puede cercenar su mano vengativa,
venga ahora y lo diga cuando estamos a tiempo
de rechazar su fuego que cada vez se aumenta.

Si alguien supiera detener al tiempo
lo diga en este instante.

Cuando toque tu piel el daño no hay remedio;
será como el aceite que se extiende
y no puede volver al vaso donde estuvo.

Donde vivió la rosa vivirá para siempre
una raíz callada.
Donde el rumor de guijas por el río
silbará sólo el aire llorando por los huesos.

Que nadie escuche el ruido de lo que se destruye
si nada puede hacer por evitar la ruina.
Mejor venga la muerte y te corte de un tajo
y te transplante así donde nadie te vea
que no este grano a grano deshacer tu hermosura.


Luis Feria

[Cómo cantaba mayo]




Se alguém souber o que poderá eliminar a morte,
o que poderá decepar sua mão vingativa,
fale agora enquanto estamos a tempo
de rejeitar seu fogo que se alevanta.

Se alguém souber como deter o tempo
que o diga neste instante mesmo.

Quando o mal te tocar na pele não há mais remédio,
será como óleo a espalhar-se,
sem poder voltar ao copo que o continha.

Onde a rosa viveu há-de viver para sempre
uma raiz silenciosa.
Onde soa o rumor de seixos pelo rio
silvará apenas o vento chorando pelos ossos.

Que ninguém ouça o ruído daquilo que se desfaz
se nada puder fazer para evitar a ruína.
Mais vale que a morte venha e te corte de um golpe
e te transplante assim onde ninguém te veja,
do que este desfazer da tua beleza pouco a pouco.


(Trad. A.M.)

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2.5.19

Adília Lopes (Anti-Ricardo Reis)





ANTI-RICARDO REIS



O rio
é bom
para nadar
e as flores
para dar
o resto
são cantigas
casa-te com Lídia
tem bebés
passa a lua-de-mel
na Grécia


Adília Lopes

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