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10.9.20

João Guimarães Rosa (Consciência cósmica)





CONSCIÊNCIA CÓSMICA



Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do redemoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim…

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado…

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
E deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que pouparam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo…


Guimarães Rosa

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8.8.19

João Guimarães Rosa (Alaranjado)




ALARANJADO



No campo seco, a crepitar em brasas,
dançam as últimas chamas da queimada,
tão quente, que o sol pende no ocaso,
bicado
pelos sanhaços das nuvens,
para cair, redondo e pesado,
como uma tangerina temporã madura…


João Guimarães Rosa


[Só poesia]

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23.8.18

João Guimarães Rosa (Integração)






INTEGRAÇÃO



Deitado no chão, fofo de tantas chuvas,
acompanho as pontas dos cipós que oscilam,
o respirar das folhas,
o saltitar de cócegas nas patas dos gafanhotos,
e o crescer rampante da trepadeira brava,
avançando em meus braços.
Oh! a canção viva
do liso verde-azul dos sanhaços nos galhos,
e o pio dos gaturamos maduros,
fino e gostoso como um caldo de fruta!…
O céu,
limpo, azul e côncavo, na altura,
é um recanto de corpo,
pronto a se contrair, ao primeiro contato,
num único espaço de volúpia sóbria…
Inútil erguer-me: mais alta é a gameleira…
Mas meus dedos afundam no chão amolecido,
como raízes nuas…
Desce-me ao fundo do peito a terra inteira,
no cheiro molhado da poeira,
e os meus olhos sobem, tateando os verdes…


João Guimarães Rosa

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2.12.17

João Guimarães Rosa (Encorajamento)





ENCORAJAMENTO



Meu desejo corre a ti com velas enfunadas…
 Podes dar-lhe um porto, sem nenhum receio:
 ele não traz âncora...



Guimarães Rosa

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24.3.17

João Guimarães Rosa (Quando escrevo)





Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas,
um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco.
Gostaria de ser um crocodilo
porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranquilos
e escuros como o sofrimento dos homens.



Guimarães Rosa

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28.1.17

João Guimarães Rosa (Em-hora do norte)




Era uma noite de toda fundura.
Estava dando um vento, esquisito para aquele tempo, por ser um vento em-hora do lado suão, em-hora do norte, conforme se riscando um fósforo, ou jogando punhado de areia fina clara para cima, se conhecia.
Andamos.
Mas, agora, eu já tinha demudado o meu sentir, que era por Diadorim uma amizade somente, rei-real, exata de forte, mesmo mais do que amizade.
Essa simpatia que em mim, me aumentava.
De tanto, que eu podia honestamente dizer a ele o meu bemquerer, constância da minha estimação.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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25.1.17

João Guimarães Rosa (Um relanço fatal)




A mais, o inimigo não tinha o recurso de se apostar – por tanto que perdiam os cavalos. Advindo que o baixadão dali não dava esconderijos de mato para tocaia à jagunça.
E os poucos foram os que pegar as distantes brenhas conseguiam, ou o cheio do capinzal, aonde não íamos desentocar ninguém.
Aqueles deviam de estar de faca em fúria na mão, cobrejando; somente por meio de cachorros-mestres, afirmados em caça de gente, era que podiam ser pegos, o que não se tinha.
Os mais, em desrédea, meteram doida fuga, enquanto mal pudessem, de debaixo de balaços.
Menos de poucos passaram.
Ao rascampo em viemos, soprando a perseguição.
Tinha um valo, varamos um mato de lobeiras.
Aí era para a banda das roças novas.
 Uns morrinhos; demos fogo.
Uma tapera, outra tapera.
Demos fogo.
Poucos dos poucos deles escaparam.
Os que desladeavam, caíam, por nossos esteiras.
Era um relanço bem fatal...


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


22.1.17

João Guimarães Rosa (Só comandei)





Quem era que ia poder botar naquilo uma ordem, para um fim com vitória?
E estralou bala...
Repisei em minhas estribeiras, apertei as pernas nas espendas.
Eu tinha de comandar.
Eu estava sozinho!
Eu mesmo, mim, não guerreei.
Sou Zé Bebelo?!
Permaneci.
Eu podia tudo ver, com friezas, escorrido de todo medo.
Nem ira eu tinha.
A minha raiva já estava abalada.
E mesmo, ver, tão em embaralhado, de que é que me servia?
Conservei em punho meu revólver, mas cruzei os braços.
 Fechei os olhos.
Só com o constante poder de minhas pernas, eu ensinava a quietidão a Siruiz meu cavalo.
E tudo perpassante perpassou.
O que eu tinha, que era a minha parte, era isso: eu comandar.
Talmente eu podia lá ir, com todos me misturar, enviar por?
Não!
Só comandei.
Comandei o mundo, que desmanchando todo estavam.
Que comandar é só assim: ficar quieto e ter mais coragem.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


19.1.17

João Guimarães Rosa (Mirei e vi)





Sobre isto, eu tirei um pé do estribo e ajoelhei no coxim da sela.
Porque era a hora de olhar; mirei e vi.
Como o inimigo vinha: as listras de homens, récua deles: passante de uns cem.
Tive mão em tudo, eles ainda estando longe.
Fafafa encostou dois dedos no meu joelho, como se até às mudas quisesse poder receber a ordem.
Ele esperava um instante certo de meu respirar.
Eu brinquei com a mão no arção.
Vez de um, vez: todos e todos.
Falo o dito de jagunço: que eles mesmos não conseguiam saber se tinham algum medo; mas, em morte, nenhum deles pensava.
O senhor xinga e jura, é por sangue alheio.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


16.1.17

João Guimarães Rosa (Descendo na cava)





Descendo na cava, por feliz a gente vinha em oculto.
E, justo, já embaixo, no principiar da várzea, era um capim com mais viço, capinzal do fresco de pé-de-serra.
Capim mais alto do que eu – nele à gente se tapava.
Coincidido que, permeio o verde dos talos, a gente via algumas borboletas, presas num lavarinto, batendo suas asas, como por ser.
Caiu o açúcar no mel!
Porque, igual também convim que podíamos ladear um tanto; e, daí, separei, de cabeça, um grupo de homens, que iam ir com o Fafafa: esses avançarem primeiramente – como a certa isca – perturbando o cálculo do inimigo, ao dar o dar.
Respiramos tempo, naqueles transitórios.
De rechego, coçando as caras no capim em pontas, que dava vontade de se espirrar.
Só o rumor que se ouvia era o dos cavalos abocanhando.
Eu tinha pressa de um final, mas o que ia mor em mim era um lavorar de paciência: talento com que eu podia ficar retardando lá, a toda a vida.
Safas – que eu podia dar também um pulo, enorme, sustirado, repentemente.
Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


13.1.17

João Guimarães Rosa (Levantei nos estribos)





E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo...
O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. - “E-hê!...”
Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada.
Cerrei com ele...
A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol: se prendeu ali, um mero.
Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal – pajeuzeira – em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca – ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele.
 Cortei por cima do adão...
 Ele Outro caiu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados...


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

10.1.17

João Guimarães Rosa (Aí, narro)





As partes, que se deram ou não se deram, ali na Barbaranha, eu aplico, não por vezo meu de dar delongas e empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte.
 Mas só porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos daquela era faziam significado de muita importância em minha vida verdadeira, e entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas, que com a lição solerte do dr. Hilário se tinha formado.
 Aí, narro.

O senhor me releve e suponha.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)
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7.1.17

João Guimarães Rosa (A cavalhada)





Quando, então, trouxeram reunidos todos os animais, estavam ajuntando a cavalhada. Regulava subida manhã, orçado o sol, e eles redondeavam no aprazível – tropilha grande, pondo poeira, dado o alvoroço de muitos cascos.
Fiz um rebuliz?
Dou confesso o que foi: era de mim que eles estavam espantados.
Aí porque a cavalaria me viu chegar, e se estrepoliu.
O que é que cavalo sabe?
Uns deles rinchavam de medo; cavalo sempre relincha exagerado.
Ardido aquele nitrinte riso fininho, e, como não podiam se escapulir para longe, que uns suavam, e já escumavam e retremiam, que com as orelhas apontavam.
 Assim ficaram, mas murchando e obedecendo, quando, com uma raiva tão repentina, eu pulei para o meio deles: - “Barzabu! Aquieta, cambada!” – que eu gritei.
Me avaliaram.
Mesmo pus a mão no lombo dum, que emagreceu à vista, encurtando e baixando a cabeça, arrufava a crina, conforme terminou o bufo de bufor.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)
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4.1.17

João Guimarães Rosa (Frior, friúme, friagem)





A mor, bem na descida, avante, branquejavam aqueles grossos de ar, que lubrinam, que corrubiam.
Dos marimbus, das Veredas-Mortas.
Garoa da madrugada.
E, a bem dizer por um caminho sem expedição, saí, fui vindo m’embora.
Eu tinha tanto friúme, assim mesmo me requeimava forte sede.
Desci, de retorno, para a beira dos buritis, aonde o pano d’água.
 A claridadezinha das estrelas indicava a raso a lisura daquilo.
Ali era bebedouro de veados e onças.
Curvei, bebi, bebi.
E a água até nem não estava de frio geral: não apalpei nela a mornidão que devia-de, nos casos de frio real o tempo estar fazendo.
Meu corpo era que sentia um frio, de si, frior de dentro e de fora, no me rigir.
Nunca em minha vida eu não tinha sentido a solidão duma friagem assim.
E se aquele gelado inteiriço não me largasse mais.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

1.1.17

João Guimarães Rosa (Os dias ruins)





Os ruins dias, o castigo do tempo todo ficado, em que falhamos na Coruja, conto malmente.
A qualquer narração dessas depõe em falso, porque o extenso de todo sofrido se escapole da memória.
E o senhor não esteve lá.
O senhor não escutou, em cada anoitecer, a lugúgem do canto da mãe-da-lua.
 O senhor não pode estabelecer em sua idéia a minha tristeza quinhoã.
 Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes.
Ou são os tempos, travessia da gente?
Daí, despropositou o frio, vezmente.
E quase que todos os companheiros já estavam adoecidos.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

24.12.16

João Guimarães Rosa (Ah, eu)





Aí dele me lembrei, na hora: e esse Hermógenes eu odiasse!
Só o denunciar dum rancor – mas como lei minha entranhada, costume quieto definitivo, dos cavos do continuado que tem na gente.
Era feito um nojo, por ser.
Nem, no meu juízo, para essa aversão não carecia de compor explicação e causa, mas era assim, eu era assim.
Que ódio é aquele que não carece de nenhuma razão?
Do que acho, para responder ao senhor: a ofensa passada se perdoa; mas, como é que a gente pode remitir inimizade ou agravo que ainda é já por vir e nem se sabe?
Isso eu pressentia.
Juro de ser.
Ah, eu.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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21.12.16

João Guimarães Rosa (Olhei o ilustre do céu)





Olhei o ilustre do céu. 

Dado dava de um estar soto-livre, conseguido se soltar das possibilidades horrorosas.

 Revi todos e Diadorim, que era uma cortesia de bondade. 

Não espiei para trás, não ver de enxergar o fim daquelas casas, no vaporoso pardo-azulado, no exalante. 

E o que rogava eram coisas de salvação urgente, tão grande: eu queria poder sair depressa dali, para terras que não sei, aonde não houvesse sufocação em incerteza, terras que não fossem aqueles campos tristonhos.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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18.12.16

João Guimarães Rosa (Raça daqueles homens)





Raça daqueles homens era diverseada distante, cujos modos e usos, mal ensinada. 

Esses, mesmo no trivial, tinham capacidade para um ódio tão grosso, de muito alcance, que não custava quase que esforço nenhum deles; e isso com os poderes da pobreza inteira e apartada; e de como assim estavam menos arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más artes do demônio regedor eles nem divulgavam. 

Só o mau fato de se topar com eles, dava soloturno sombrio. 

Apunha algum quebranto. 

Mas mais que, por conosco não avirem medida, haviam de ter rogado praga.

De pensar nisso, eu até estremecia; o que estremecia em mim: terreno do corpo, onde está a raiz da alma.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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15.12.16

João Guimarães Rosa (Não se ajuizaram)





Aquele rio fazia uma grande volta, acolá, clareado, com a vista de uns coqueiros.
Ali era um lugar longe e bonito, como que me acenava.
Mas não endireitamos para ele, porque o rumo determinado era outro, torando desviado muito, consoante.
E mais maninhava.
opar um vivente é que era mesmo grande raridade.
Um homenzinho distante, roçando, lenhando, ou uma mulherzinha fiando a estriga na roca ou tecendo em seu tear de pau, na porta de uma choça, de buriti toda.
Outro homem quis me vender uma arara mansa, que a qual falava toda palavra que tem á. Outra velha, que estava fumando o pito de barro.
Mas ela enrolou a cara no xale, não se ajuizaram os olhos dela.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

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12.12.16

João Guimarães Rosa (Currais-do-Padre)




Nem eu não queria arreliar Zé Bebelo.
Mas, para mim, ele estava muito errado: pelos passos e movimentos, porque gostava prático da guerra, do que provava um muito forte prazer; e por isso não tinha boa razão para um resultado final.
Assim achei, espiando o alto céu, que é com as nuvens e os urubus repartido.
Deponho: de que é que aquilo me adiantava?
E chuvas dadas, derramadas.
Aí, vai, chegamos no Currais-do-Padre.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


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