31.8.20

Patrizia Cavalli (Caem-me as noites no rosto)





Addosso al viso mi cadono le notti
e anche i giorni mi cadono sul viso.
Io li vedo come si accavallano
formando geografie disordinate:
il loro peso non è sempre uguale,
a volte cadono dall’alto e fanno buche,
altre volte si appoggiano soltanto
lasciando un ricordo un po’ in penombra.
Geometra perito io li misuro
li conto e li divido
in anni e stagioni, in mesi e settimane.
Ma veramente aspetto
in segretezza di distrarmi
nella confusione, perdere i calcoli,
uscire di prigione,
ricevere la grazia di una nuova faccia.


Patrizia Cavalli




Caem-me as noites no rosto
e também os dias,
e eu vejo como se amontoam
e formam desordenadas geografias:
não é sempre igual seu peso,
umas vezes caem de alto e fazem uma cova,
outras vezes mal pousam,
deixando apenas uma leve recordação.
E eu como geómetra tiro-lhes as medidas,
conto-as e divido-as
em anos e estações, em meses e semanas.
Mas na verdade espero secretamente
distrair-me na confusão, perder os cálculos,
sair da prisão,
receber a graça de um novo rosto.

(Trad. A.M.)

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29.8.20

Víctor Botas (Foste-te)




FOSTE-TE


Foste-te
quando eu mais precisava dos teus braços.
Porque me abandonaste precisamente então?
Porquê naquele momento decisivo?
Sei
que ninguém escolhe o quando de sua morte,
e que ninguém conhece os modos e lugares de morrer.
Mas tu... Tu devias ter feito um esforço!
Ter sobrevivido,
em vez de te entregares varado ao primeiro golpe,
à primeira carga.

Porque é que te foste, avô? Bem compreendo
que não me hás-de escutar,
que teus olhos, tua boca, tua palavra,
já não existem,
que apenas uma lembrança te constrói
boiando nos abismos da minha mente.

Assim é. Assim, mas apesar disso...
aí te vão meus versos, as estrofes
que dão vida ao poema congregadas
com palavras por meus dedos,
embalando um coração que não te olvida.

Porque te foste, avô, quando eu mais precisava,
quando mais requeria teu conselho,
teu ânimo firme, teu impulso generoso?

Passam os anos,
os dias como folhas vão caindo
de um outono lentíssimo... para me levar até ti.
Pois eu não sei esquecer-te,
porque não sei o que é o esquecimento.
Ah, se tu pudesses escutar! Ah, se pudesses!
(Mas escutas-me porventura. É tudo tão complexo...)

A Morte te fez em pedaços,
te arrancou os ouvidos pela raiz
- és agora como um deus, distante e surdo.

Por isso, quase rezando,
palavras que se enlaçam e desagregam,
hoje a ti, meu pai, ofereço este poema,
nascido da brasa que a tua lembrança acende,
de todo o amor que tu me deste,
do tão só que eu ando, dos silêncios
que me foram dia a dia coroando
com seu ramo de dor, de dúvida, de esperança.


Víctor Botas

(Trad. A.M.)

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28.8.20

Benjamín Prado (Nunca é tarde)





Nunca es tarde para empezar de cero,
para quemar los barcos,
para que alguien te diga:
–Yo solo puedo estar contigo o contra mí.

Nunca es tarde para cortar la cuerda,
para volver a echar las campanas al vuelo,
para beber de esa agua que no ibas a beber.

Nunca es tarde para romper con todo,
para dejar de ser un hombre que no pueda
permitirse un pasado.

Y además
es tan fácil:
llega María, acaba el invierno, sale el sol,
la nieve llora lágrimas de gigante vencido
y de pronto la puerta no es un error del muro
y la calma no es cal viva en el alma
y mis llaves no cierran y abren una prisión.

Es así, tan sencillo de explicar: –Ya no es tarde,
y si antes escribía para poder vivir,
    ahora
           quiero vivir
                     para contarlo.


BENJAMÍN PRADO
Ya no es tarde
(2014)

[Un poema cada dia]



Nunca é tarde para começar do zero,
para queimar os barcos,
para alguém te dizer:
- Eu só posso estar contigo ou contra mim.

Nunca é tarde para cortar a corda,
para voltar a deitar foguetes,
para beber daquela água que não ias beber.

Nunca é tarde para romper com tudo,
para deixar de ser
um homem sem passado.

E depois
é tão fácil,
vem a Maria, acaba o inverno, o sol aparece,
a neve chora lágrimas de gigante vencido
e de repente a porta não é já um erro do muro
e a calma não é cal viva da alma
e minhas chaves não abrem nem fecham uma prisão.

É assim, tão simples de explicar: - Já não é tarde,
e se dantes eu escrevia para poder viver,
    agora
           quero viver
                        para depois o contar.

(Trad. A.M.)

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26.8.20

Pedro da Silveira (Poema a Camilo Pessanha)





POEMA A CAMILO PESSANHA



Em Macau à procura de Camilo Pessanha
onde foi a casa do poeta
agora é um pátio de escola em que brincam crianças
e tem à frente um baloiço
e lá atrás duas árvores.
Na esquina da rua com o seu nome
um mendigo serrazina a sua viola
e o som alonga-se chorado,
chora e perde-se devagar
nas outras ruas que levam
à Travessa do Pagode,
à porta da loja onde ainda o espera
o amigo antiquário Ah-Men.
Já ninguém sabe o destino
do cachimbo com que inventava
paraísos e princesas
ou sereias, com seus cantos,
músicas e campos de liliáceas,
cores de mil maravilhas
ao mundo que bem sabia
que era mais o daquele mendigo
àquela esquina para a Sam Má-lô
e a sua viola chorando
pela moeda de meia pataca
que também eu me esqueci de deitar
na tigela que tinha ao lado.


Pedro da Silveira

[Nenotavaiconta]

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24.8.20

Octavio Paz (Corpo à vista)





CUERPO A LA VISTA



Y las sombras se abrieron otra vez y mostraron un cuerpo:
tu pelo, otoño espeso, caída de agua solar,
tu boca y la blanca disciplina de sus dientes caníbales, prisioneros en llamas,
tu piel de pan apenas dorado y tus ojos de azúcar quemada,
sitios en donde el tiempo no transcurre,
valles que solo mis labios conocen,
desfiladero de la luna que asciende a tu garganta entre tus senos,
cascada petrificada de la nuca,
alta meseta de tu vientre,
playa sin fin de tu costado.

Tus ojos son los ojos fijos del tigre
y un minuto después son los ojos húmedos del perro.

Siempre hay abejas en tu pelo.

Tu espalda fluye tranquila bajo mis ojos
como la espalda del río a la luz del incendio.

Aguas dormidas golpean día y noche tu cintura de arcilla
y en tus costas, inmensas como los arenales de la luna,
el viento sopla por mi boca y su largo quejido cubre con sus dos alas grises
la noche de los cuerpos,
como la sombra del águila la soledad del páramo.

Las uñas de los dedos de tus pies están hechas del cristal del verano.

Entre tus piernas hay un pozo de agua dormida,
bahía donde el mar de noche se aquieta, negro caballo de espuma,
cueva al pie de la montaña que esconde un tesoro,
boca del horno donde se hacen las hostias,
sonrientes labios entreabiertos y atroces,
nupcias de la luz y la sombra, de lo visible y lo invisible
(allí espera la carne su resurrección y el día de la vida perdurable).

Patria de sangre,
única tierra que conozco y me conoce,
única patria en la que creo,
única puerta al infinito.


OCTAVIO PAZ
Semillas para un himno
(1954)

[Un poema cada dia]




E as sombras abriram outra vez e mostraram um corpo
- teu cabelo, outono espesso, queda de água solar,
tua boca e a branca disciplina de seus dentes canibais, prisioneiros em chamas,
tua pele de pão mal dourado e teus olhos de caramelo,
lugares onde o tempo não corre,
vales que só meus lábios conhecem,
desfiladeiro lunar que te sobe à garganta pelos seios,
cascata petrificada da nuca,
alta meseta de teu ventre,
praia sem fim do teu flanco.

Teus olhos os olhos fitos do tigre,
logo a seguir os olhos húmidos do cão.

Há sempre abelhas no teu cabelo.

Tranquilas fluem tuas costas ante meus olhos como as costas do rio à luz do incêndio.

Águas adormecidas batem dia e noite na tua cinta de argila
e nas tuas costas, imensas como os areais da lua,
o vento sopra por minha boca e seu queixume cobre com suas asas a noite dos corpos,
como a sombra da águia a solidão dos campos.

As unhas dos dedos de teus pés são feitas do cristal do verão.

Entre as pernas tens um poço de água adormecida,
baía onde o mar se aquieta de noite,
cavalo negro de espuma,
gruta do sopé da montanha que esconde um tesouro,
boca do forno onde se fazem as hóstias,
lábios sorrindo entreabertos e atrozes,
núpcias da luz e da sombra, do visível e invisível,
ali espera a carne a ressurreição e o dia da vida eterna.

Pátria de sangue,
única terra que eu conheço e me conhece,
única pátria em que creio,
única porta abrindo para o infinito.

(Trad. A.M.)

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23.8.20

Manuel Rico (Aquele Junho maldito)





AQUEL JUNIO MALDITO



Fue una primavera mejor de lo esperado.
Muchos años después, quizá una eternidad
más tarde de tu sueño
—roto, como la juventud, por tiempos de ceniza—
volvió la claridad: Madrid era una fiesta.
Otra vez era abril y era en mil novecientos
setenta y nueve: yo te supe, padre,
redimido, cercano a la quimera
que fermentó en tu noche de terror y de frío.

Fue un abril diferente sin embargo.
Las esquinas ardían de palabras
ocultas desde antiguo en desvanes en sombra.
Bebiste de su luz. No estabas solo.
Contigo la bebimos los más jóvenes.
Tu mirada de asombro aún puedo contemplarla
en esa latitud, que a la muerte traiciona,
de la fotografía:
la tengo frente a mí.
Es un dolor de piedra contra la madrugada.

Mas huyeron los días de aquella primavera
hasta estancar la luz en un junio maldito.
Fue en la noche, cuando huelen
las madreselvas y los amantes buscan
la oscuridad del descampado, las viejas estaciones solitarias
y el verano prepara su cielo más estricto.

El aire, en un instante, mudó en nieve. Y el abismo
se apropió de tu voz y la hizo suya.
La primera conciencia de la muerte
vino, padre, a traición, a visitarme,
y volvieron el frío y la ceniza,
y viajaste a esa patria
donde las flores muertas nos hablan del vacío.

Han pasado los años, muchos años.
Todavía huelo los algodones
y el aire absorto de la madrugada,
y escucho todavía tu voz quebrada y última, esa voz
que me arrancaba el mundo
que los dos levantamos contra la soledad, contra el silencio
de los días difíciles, que me entregaba
una orfandad adulta tan de pronto,
un desierto de sueños, el llanto seco
frente al absurdo.

Pero hoy, padre, regresas. Sin avisarme, abriendo el toldo
de esta noche penúltima del año,
como si nada hubiera ocurrido entre nosotros, como
si en este tiempo interminable
se hubiera convertido mi orfandad
en un lugar soñado.

Manuel Rico

[Trianarts]



Foi uma primavera melhor do que se esperava.
Muitos anos depois, talvez uma eternidade depois do teu sonho
- desfeito, como a juventude, por tempos de cinza -
a claridade voltou, Madrid era uma festa.
Era Abril de novo, em 1979, e eu soube-te, pai,
redimido, próximo da quimera
que fermentou na tua noite de terror e de frio.

Foi um Abril diferente, contudo.
As esquinas ardiam de palavras ocultas
há muito em desvãos de sombra.
Bebeste-lhe a luz, não estavas só,
nós bebemo-la contigo, os mais jovens.
Teu olhar assombrado posso ainda contemplá-lo
nessa pose, que trai a morte,
da fotografia: tenho-a à minha frente.
É uma dor de pedra contra a madrugada.

Mas os dias dessa primavera fugiram
até a luz estancar num Junho maldito.
Era de noite, quando cheiram as madressilvas
e os amantes buscam o escuro do descampado,
as velhas estações solitárias,
e o verão prepara seu céu particular.

O ar, num instante, mudou para neve. E o abismo
apropriou-se da tua voz e fê-la sua.
A primeira consciência da morte
veio então, pai, visitar-me, à traição,
e voltaram o frio e a cinza,
e tu foste em viagem a essa pátria
onde as flores mortas nos falam do vazio.

Os anos passaram, muitos anos,
ainda cheiro os algodões
e o ar absorto da madrugada.
e escuto ainda tua voz quebrada e derradeira, essa voz
que me arrancava o mundo
que ambos erguemos contra a solidão,
contra o silêncio dos dias difíceis,
que me entregava uma orfandade adulta tão de repente,
um deserto de sonhos, o pranto seco
ante o absurdo.

Mas hoje voltas, pai. Sem avisar, abrindo o pano
desta penúltima noite do ano,
como se nada tivesse ocorrido entre nós,
como se neste tempo interminável
minha orfandade se tivesse convertido
num lugar sonhado.

(Trad. A.M.)

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21.8.20

Luís Miguel Nava (No fogo da memória)

 



NO FOGO DA MEMÓRIA  



Começa-se o silêncio a desenhar
nos interstícios da carne, a que se prendem
imagens que no fogo
lento da memória se apuraram
de dia para dia e que o passado
nos serve agora como uma iguaria.


Luís Miguel Nava


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19.8.20

Gioconda Belli (Não me arrependo de nada)





No me arrepiento de nada.
Desde la mujer que soy, a veces me da por contemplar
aquellas que pude haber sido;
las mujeres primorosas, hacendosas, buenas esposas, dechado de virtudes,
que deseara mi madre.
No sé por qué la vida entera he pasado rebelándome contra ellas.
Odio sus amenazas en mi cuerpo.
La culpa que sus vidas impecables, por extraño maleficio, me inspiran.
Reniego de sus buenos oficios; de los llantos a escondidas del esposo,
del pudor de su desnudez
bajo la planchada y almidonada ropa interior.
Estas mujeres, sin embargo, me miran desde el interior de los espejos,
levantan su dedo acusador y, a veces, cedo a sus miradas de reproche y quiero
ganarme la aceptación universal, ser la "niña buena",
la "mujer decente" la Gioconda irreprochable.
Sacarme diez en conducta con el partido, el estado, las amistades, mi familia,
mis hijos y todos los demás seres que abundantes pueblan este mundo nuestro.
En esta contradicción inevitable entre lo que debió haber sido y lo que es,
he librado numerosas batallas mortales, batallas a mordiscos de ellas contra mí
-ellas habitando en mí queriendo ser yo misma-
transgrediendo maternos mandamientos, desgarro adolorida y a trompicones a
las mujeres internas que, desde la infancia, me retuercen los ojos porque no
quepo en el molde perfecto de sus sueños, porque me atrevo a ser esta loca,
falible, tierna y vulnerable, que se enamora como alma en pena de causas
justas, hombres hermosos, y palabras juguetonas.
Porque, de adulta, me atreví a vivir la niñez vedada,
e hice el amor sobre escritorios - en horas de oficina - y rompí lazos inviolables
y me atreví a gozar el cuerpo sano y sinuoso con que los genes de todos mis
ancestros me dotaron.
No culpo a nadie.
Más bien les agradezco los dones.
No me arrepiento de nada, como dijo la Edith Piaf.
Pero en los pozos oscuros en que me hundo, cuando, en las mañanas, no más
abrir los ojos, siento las lágrimas pujando; veo a esas otras mujeres esperando
en el vestíbulo, blandiendo condenas contra mi felicidad.
Impertérritas niñas buenas me circundan y danzan sus canciones infantiles
contra mí contra esta mujer hecha y derecha, plena.
Esta mujer de pechos en pecho y caderas anchas que, por mi madre y contra
ella, me gusta ser.


Gioconda Belli

[Emma Gunst]




Não me arrependo de nada.
Às vezes, da mulher que sou dá-me para contemplar
aquelas que podia ter sido;
as mulheres primorosas, abonadas, boas esposas, modelo de virtudes,
que minha mãe sonhava.
Não sei porquê, passei toda a vida a rebelar-me contra elas.
Odeio-lhes a ameaça no meu corpo.
A culpa que me inspiram, por estranho malefício, suas vidas impecáveis.
Renego seus bons ofícios, o choro às escondidas do marido,
o pudor de sua nudez
debaixo da roupa interior passada e engomada.
Estas mulheres, porém, olham-me de dentro do espelho,
erguem o dedo acusador e eu, às vezes, cedo aos seus olhares de censura
e proponho-me ganhar universal aceitação, ser a ‘menina boazinha’,
a mulher decente, a Gioconda sem mancha.
Tirar dez dias para o partido, o Estado, os amigos, a família,
os filhos e demais seres que povoam este nosso mundo.
Nesta contradição inevitável entre o que devia ter sido e aquilo que é
travei muitas batalhas de morte,
batalhas de morder, elas contra mim
– elas habitando em mim, a quererem ser eu mesma –
transgredindo os mandamentos maternos,
desfeita dorida e aos tropeções
às mulheres interiores que me reviram os olhos, desde a infância, porque
não caibo no molde perfeito dos seus sonhos, porque me atrevo a ser esta louca,
falível, terna e vulnerável, que se apaixona como alma penada de causas
justas, homens belos e palavras brincalhonas.
Porque, já adulta, ousei viver a infância vedada
e fiz amor em cima de secretárias – nas horas de expediente – e quebrei laços invioláveis
e atrevi-me a gozar o corpo sadio e sinuoso com que me dotaram
os genes dos antepassados.
Não culpo ninguém.
Agradeço antes os dons.
Não me arrependo de nada, como disse Edith Piaf.
Mas no poço escuro em que me afundo, de manhã, logo ao abrir os olhos,
sinto as lágrimas empurrar;
vejo essas outras mulheres à espera
no vestíbulo, a brandir sentenças contra a minha felicidade.
Impassíveis meninas boazinhas cercam-me e dançam suas canções infantis
contra mim contra esta mulher feita e direita, plena.
Esta mulher de peito feito e ancas largas que gosto de ser,
por minha mãe e contra ela.

(Trad. A.M.)

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18.8.20

Francisca Aguirre (Não vos confundais)





NO OS CONFUNDÁIS



Y cuando ya no quede nada
yo siempre tendré
el recuerdo de lo que no se cumplió.
Cuando me miren con áspera piedad
yo siempre tendré
lo que la vida no pudo ofrecerme.
Creedme:
todo lo que pensáis que fue
destrozo y pérdida
no ha sido más que conjetura.
Y cuando ya no quede nada
siempre tendré lo que me fue negado.
No os confundáis:
con lo que nunca tuve
puedo llenar el mundo palmo a palmo.
Tanto miedo tenéis
que no habéis advertido
la riqueza que se oculta en la pérdida.
Desdichados,
poca ganancia es la vuestra
si nunca habéis perdido nada.
Yo sí he perdido:
yo tengo, como el náufrago,
toda la tierra esperándome.

Francisca Aguirre

[Life vest under your seat]




E quando não restar mais nada
eu terei sempre a lembrança
daquilo que não se cumpriu.
Quando me olharem com falsa piedade
eu terei sempre
o que a vida não pôde dar-me.
Crêde-me,
tudo quanto pensais
que foi perda e destroço
não mais foi que conjectura.
E quando não restar já nada
eu terei sempre
aquilo que me foi negado.
Não vos confundais,
com aquilo que nunca tive
eu posso encher este mundo
palmo a palmo.
Tanto medo tendes, que não reparais
na riqueza por trás da perda.
Ó infortunados,
pouca ganância é a vossa
se nunca perdestes nada.
Eu sim, que perdi,
eu tenho, assim como o náufrago,
toda a terra à minha espera.

(Trad. A.M.)

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16.8.20

Fernando Pessoa (Anti-gazetilha)





ANTI-GAZETILHA



No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada
— No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela
— No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação:
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não
— No comboio descendente
De Palmela a Portimão...


Fernando Pessoa

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14.8.20

Federico García Lorca (Seis cordas)




LAS SEIS CUERDAS



La guitarra,
hace llorar a los sueños.
El sollozo de las almas
perdidas,
se escapa por su boca
redonda.
Y como la tarantula
teje una grande estrella
para cazar suspiros,
que flotan en su negro
aljibe de madera.


Federico García Lorca




A guitarra
põe a chorar os sonhos.
O soluço
das almas perdidas
escapa-lhe da boca
redonda.
E tece, como a tarântula,
uma grande estrela
para apanhar suspiros,
que vogam em seu negro
poço de madeira.

(Trad. A.M.)


> Outra versão: Luz & sombra (J.E.Simões)

.

13.8.20

Federico Díaz-Granados (Pastelaria Metropol)





PASTELERÍA METROPOL



Miro en la vitrina
el reflejo de mi cuerpo
sobre el vidrio
y me veo gordo, cansado, sobre aquellos pasteles de vainilla.

Y pienso en los amigos que no volví a ver
¿y qué sabían ellos de este corazón caduco
donde no cabe ni un centímetro del mundo?

Y cuando no te reconoces en los pasos del hijo, ni en el espejo
harto de esquivar malos presagios
viendo de lejos el esplendor de las pérdidas
lo indescifrable y lo desconocido.

Callo: mi silencio alcanza ese cuerpo que no entiendo,
desmancho mi corazón de su último incendio.

Y sigo extranjero en ese vidrio,
gordo y cansado
y atrás de mí
algunas sombras, gestos de abuelos y tíos muertos
sobre los pasteles de vainilla.


Federico Díaz-Granados




Olho na montra o meu reflexo
no vidro
e vejo-me gordo, cansado, sobre esses pastéis de baunilha.

E penso nos amigos que não voltei a ver
e que sabiam eles deste coração caduco
onde não cabe nem um centímetro do mundo?

E não te reconheces nos passos do filho, nem no espelho
farto de desviar maus presságios
vendo de longe o esplendor das perdas
o indecifrável e o desconhecido.

Calo-me e o silêncio alcança esse corpo que não entendo,
desmanchando meu coração do último incêndio.

E continuo estranho nesse vidro,
gordo e cansado
e atrás de mim
sombras, gestos de avós e tios mortos
sobre os pastéis de baunilha.


(Trad. A.M.)

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11.8.20

Fernando Assis Pacheco (Poeta no supermercado)





POETA NO SUPERMERCADO


1
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.

2
Um homem tem que viver,
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.
Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra, um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.


FERNANDO ASSIS PACHECO
Cuidar dos Vivos
(1963)

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9.8.20

Manuel Rico (Terra antiga)




ANTIGUA TERRA



En la región perdida que llamamos infancia,
en ese territorio que viejas lluvias hunden
en vagos claroscuros, dicen que desde siempre
nos aguarda, con ropa de domingo,
una diosa cruel a quien llamamos
dicha o felicidad, qué importa el nombre.

Mantienes la conciencia de haber sido inquilino
de tan huidiza estancia porque a veces,
cuando el presente aplica sus decretos,
la memoria te vence y te convocan
presencias de aquel tiempo,
rostros que te dejaron
inerme ante el empuje de los años.

Y siempre, cuando intentas
conjurar la orfandad y los reclamas
no tardan en huir al refugio que habita
entre los pliegues de la inexistencia.

Manuel Rico



Na terra perdida que chamamos infância,
nesse território que velhas chuvas fundem
em vagos claro-escuros, dizem que desde sempre
nos aguarda, com roupa de domingo,
uma deusa cruel chamada ventura ou felicidade,
o nome não importa.

Guardas a consciência de ter sido inquilino
dessa fugidia estância, porque às vezes,
quando o presente impõe seus decretos,
a memória vence-te e chamam-te
presenças daquele tempo,
rostos que te deixaram inerme
face ao empurrão dos anos.

E sempre, quando os reclamas
e tentas conjurar a orfandade,
logo eles fogem para o refúgio
que mora nas dobras da inexistência.

(Trad. A.M.)


>>  PoemasPoetas (6p) / Al margen (blogue/2007-19) / Letras viajeras (outro blogue) / Wikipedia

.

8.8.20

Fabián Casas (Depois de longa viagem)





DESPUÉS DE LARGO VIAJE



Me siento en el balcón a mirar la noche.
Mi madre me decía que no valía la pena
estar abatido.
Movete, hacé algo, me gritaba.
Pero yo nunca fui muy dotado para ser feliz.
Mi madre y yo éramos diferentes
y jamás llegamos a comprendernos.
Sin embargo, hay algo que quisiera contar:
a veces, cuando la extraño mucho,
abro el ropero donde están sus vestidos
y como si llegara a un lugar
después de largo viaje
me meto adentro.
Parece absurdo: pero a oscuras y con ese olor
tengo la certeza de que nada nos separa.

Fabián Casas




Sento-me à varanda a contemplar a noite.
Minha mãe dizia que não me valia a pena
estar abatido,
mexe-te, gritava, faz alguma coisa.
Mas eu nunca tive muita queda para ser feliz,
minha mãe e eu éramos diferentes
e jamais conseguimos entender-nos.
Porém, há algo que queria contar aqui,
às vezes, quando tenho muitas saudades,
abro o roupeiro dos vestidos dela
e meto-me lá dentro,
como se chegasse a um lugar
após uma longa viagem.
Parece absurdo, mas no escuro e com aquele cheiro
estou certo de que nada nos separa.

(Trad. A.M.)

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6.8.20

Eugenio Montale (Pequeno testamento)





PICCOLO TESTAMENTO



Questo che a notte balugina
nella calotta del mio pensiero,
traccia madreperlacea di lumaca
o smeriglio di vetro calpestato,
non è lume di chiesa o d'officina
che alimenti
chierico rosso, o nero.
Solo quest'iride posso
lasciarti a testimonianza
d'una fede che fu combattuta,
d'una speranza che bruciò più lenta
di un duro ceppo nel focolare.
Conservane la cipria nello specchietto
quando spenta ogni lampada
la sardana si farà infernale
e un ombroso Lucifero scenderà su una prora
del Tamigi, dell'Hudson, della Senna
scuotendo l'ali di bitume semi-
mozze dalla fatica, a dirti: è l'ora.
Non è un'eredità, un portafortuna
che può reggere all'urto dei monsoni
sul fil di ragno della memoria,
ma una storia non dura che nella cenere
e persistenza è solo l'estinzione.
Giusto era il segno: chi l'ha ravvisato
non può fallire nel ritrovarti.
Ognuno riconosce i suoi: l'orgoglio
non era fuga, l'umiltà non era
vile, il tenue bagliore strofinato
laggiù non era quello di un fiammifero.

Eugenio Montale




O que cintila à noite
por dentro do meu pensamento,
rasto brilhante de lesma
ou restos de vidro pisado,
não é chama de igreja ou de estúdio
que alimente
clérigo negro ou encarnado.
Só estas cores te posso deixar
em testemunho de uma fé inquieta,
de uma esperança que ardeu mais lenta
do que um duro tronco na lareira.
Guarda o pó de arroz no seu lugar,
quando se apagarem as luzes
a dança vai tornar-se infernal
e um Lúcifer sombrio descerá numa barca
do Tamisa, do Hudson ou do Sena,
batendo as asas de cera
quase a cair da fadiga, a dizer-te: é hora.
Não é uma herança, um amuleto
que pode resistir ao abalo das monções
na teia da memória,
já que uma história não dura senão na cinza
e o que persiste é só a extinção.
Todos reconhecem os seus: o orgulho
não era fuga, não era vil
a humildade, nem era sequer de um fósforo
o ténue clarão riscado lá em baixo.

(Trad. A.M.)

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4.8.20

Eugenio Montejo (A vela)




LA VELA



Escribo al lado de esta vela,
de esta vela que tiembla.
Le queda llama, pero tiembla,
cree, como yo, que ya no cree,
que alumbra sola frente al universo.
Despacio cae la indescifrable noche
con sus astros girando.
La vela erguida, contra el mundo, arde,
y en mi cuaderno lenta se derrama
su luz atea.
Estamos solos uno frente al otro,
ella con su temblor y yo, mirándola,
mientras en derredor, junto a su lumbre,
van y vienen los vuelos planetarios
de pequeños insectos que dan vueltas,
la errante lucha de una galaxia mínima
que quizá gira porque cree, porque no cree,
que gira porque gira…

Eugenio Montejo

[Life vest under your seat]




Escrevo ao lado desta vela,
desta vela que tremula.
Chama tem, mas tremula,
crendo, tal como eu, que já não crê,
que dá luz sozinha ante o universo.
Cai devagar a indecifrável noite
com seus astros girando.
A vela erguida, contra o mundo, arde,
e lenta se derrama em meu caderno
sua luz ateia.
Estamos sós um diante do outro,
ela com seu tremor, eu a olhá-la,
enquanto em redor, junto à chama,
vão e vêm os voos planetários
de mil insectos que volteiam,
errante luta de uma galáxia mínima
que gira talvez porque crê, porque não crê,
que gira porque gira, simplesmente...

(Trad. A.M.)

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3.8.20

Estela Figueroa (A enamorada do muro)





I

La enamorada del muro
no sabe cómo es el muro.
Pero seguro siente su humedad
cuando ha llovido.
Su aridez
en tiempo seco.
La enamorada del muro
depende del muro.
A él se aferra.
Si el muro cae
ella se desparrama
como una cabellera sin cabeza.
A veces es tímida
y cubre sólo la base
como una mujer arrodillada
que abrazara las piernas de un hombre.
Y a veces —qué deseo
y qué orgullo caben en ella—
cubre no sólo el muro
sino toda la casa.


II

Todo amor nace
a partir de una pequeña confusión.
Nadie puede decir con certeza
si es el muro el que sostiene a su enamorada
o es la enamorada
la que sostiene al muro.
Y todo amor crece
a partir de pequeñas carencias:
la enamorada del muro no florece.
Tampoco el muro.


Estela Figueroa

[El poeta ocasional]




I

A enamorada do muro
não sabe como o muro é.
Mas sente-lhe de certeza a humidade
quando chove.
E a aridez
no tempo seco.
A enamorada do muro
do muro depende.
A ele se agarra.
Se o muro cai
ela espalha-se
como uma cabeleira sem cabeça.
Às vezes é tímida
e cobre apenas a base
como uma mulher ajoelhada
que abraçasse as pernas de um homem.
Outras vezes - que desejo
e que orgulho alberga no peito -
cobre não só o muro
mas também a casa toda.


II

Todo amor nasce
de uma ligeira confusão.
Ninguém pode dizer ao certo
se é o muro que sustenta a enamorada
ou se é esta
que sustenta o muro.
E todo amor cresce também
a partir de pequenas carências:
a enamorada do muro não floresce,
o muro também não.


(Trad. A.M.)

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1.8.20

Eugénio de Andrade (Mar de Setembro)





MAR DE SETEMBRO



Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves - só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.


Eugénio de Andrade

[Acontecimentos]

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