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23.3.19

Al Berto (Incêndio)





INCÊNDIO



se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do teto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão


Al Berto


4.11.13

Al Berto (Os dias sem ninguém)





os dias sem ninguém
pequeníssimos recados escritos à pressa
amachucados nos dedos

        foi bela a madressilva
        subindo pela noite da morada esquecida

pedras exactas poeiras perfumadas
bichos de lume dormitando na flexibilidade da argila
areias cobertas de insectos ossos dentes
e o rio por onde partem as noites de cansaço

luminosa floração luas ácidas despenhando-se
fendas de terra cidades costeiras pássaros
frágeis caminhos em pleno voo
durante a lucidez tremenda do sonho

restam-me os corredores de vidro
onde posso afagar os restos carbonizados do corpo
abro a porta que dava acesso ao rosto
desço os degraus musgosos do pátio
atravesso o jardim de alvenaria onde vivi
todo este tempo antes de me precipitar


AL BERTO
O Medo
Lisboa (1998)


[As folhas ardem]


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14.6.12

Al Berto (Se um dia a juventude voltasse)






se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida...


... sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras...
... porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor


depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
... mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo...


... mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição



Al Berto



[Arquivo de cabeceira]

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30.1.12

Al Berto (Quando aqui não estás)






Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer


a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas


um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz


quero morrer
com uma overdose de beleza


e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador



Al Berto


[Abro páginas]

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6.5.08

Al Berto (Recado)









RECADO




ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite


não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço



AL BERTO, Horto de Incêndio


.

21.2.07

Al Berto (Uma paixão)








UMA PAIXÃO




Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado



tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem



ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem



antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem



com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te



Al Berto



1.2.07

Um verso (29)











Um verso de Al Berto
( e com este já vão três):









“Amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso”.
.

25.12.06

Um verso (26)
















Um verso de Al Berto
(por certo, por certo):




“E um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite”.

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11.10.06

Um verso (21)




Um verso de Al Berto
(quem te manda a ti, sapateiro?...):





“Cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado”.


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10.8.06

Al Berto (Ofício de amar)







OFÍCIO DE AMAR




já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso


um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas


ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo


Al Berto




BIOGRAFIA

Nasceu em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948 e morreu em Lisboa, a 13 de Junho de 1997. Poeta e editor. De seu verdadeiro nome Alberto Raposo Pidwell Tavares, começou a publicar poesia no final da década de 70 (À Procura do Vento num Jardim d'Agosto, 1977), sendo actualmente considerado um dos mais importantes poetas da sua geração e um dos mais originais, possuidor de um universo de características muito próprias no panorama da poesia portuguesa da actualidade. De facto, cultivando uma poesia fortemente lírica e de pendor confessional, como aliás é patente no título, de 1985, Uma Existência de Papel, Al Berto tem vindo a construir um universo poético que foi já considerado "um dos mais melancólicos da nossa poesia recente" por Fernando Pinto do Amaral.
Espelhando vivências de uma juventude errante, em deambulações por uma certa Europa marginal e underground - que o poeta cumpriu vivendo, entre o final da década de sessenta e a década de 70, numa comunidade urbana de Bruxelas e nos bas-fonds de Paris e Barcelona -oscilando entre o excesso da experiência emocional e física e uma melancolia desolada e solitária, a obra de Al Berto reflecte a presença imaginária de Genet e Rimbaud na paixão urgente e dolorosa, na transgressão sexual, na vertigem auto destrutiva, na solidão, na experiência do deserto e da morte.
Ao situar o seu discurso poético a meio caminho entre a extrema lucidez e a ternura, a exposição narcísica e a assunção da literatura como ficção inseparável da vivência, Al Berto tem sido considerado, na tonalidade crepuscular que envolve toda a sua obra, uma voz "entre a subjectividade romântica e a impessoalidade modernista" (Hélder Moura Pereira), num território já pertencente ao domínio da pós-modernidade.


Fonte (Biografia)

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