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28.6.17

Joan Brossa (O último homem)





Apesar das aparências e das teorias, diz
que tem medo da solidão; sente-se distanciado
dos objectos; tem medo de não ser mais do que uma
coisa entre as coisas, entre objectos sem nome:
tem consciência de não estar aqui.


(Trad. A.M.)

- Sobre versão Carlos Vitale

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8.2.15

Joan Brossa (Tu)





TU



Se fosses onda, eras a minha brincadeira preferida.
Se me amasses sempre, eras a plenitude.
Se fosses um modo de falar, eras o diálogo.
Se inquieta chorasses, buscava-te e não te encontrava.
Se fosses um pôr do sol, eras o mais belo de todos.
Se fosses uma árvore, eras um cedro.
Se tivesses cores, eras branca e vermelha.
Se fosses a neve, passavas mais além.
Se fosses uma substância, eras o bálsamo.
Se fosses trocada, eras a madeira da coluna.
Se eu fosse barco, levava-te à frente mesmo da proa.
Se não fosses rapariga, eras uma rosa silvestre.
Se invisível estrela fosses, eras o mútuo amor.
Se me abraçasses e te delisses, eras o orvalho da noite que as árvores molha.
Se desmaiasses, eras um escudo partido.
Se fosses uma flor, jamais te apagarias.
Se relampejasses, eras como pedra da cor do fundo do mar.
Se eu te visse onde fosse, a ti te apontava.
Se fosses indiferente, eras o crepúsculo.
Se me olhasses distraída, eras a minha esperança.
Tua presença para mim é a forma mais prazenteira da harmonia mesma.
Se tu invadisses a música, um acorde soaria grave e queixoso.
Se fosses um trevo, eras a chave da aurora.
Se fosses a suavidade, eras o peso da água.
Se a tristeza fosses, eras o tempo e os dias.
Se fosses um desejo, eras paixão derrocada.
Se fosses a lua, eras uma asa.
Se fosses relógio, eras um círculo profundo.
Se fosses o espaço, eras sua metade e seu centro.
Se não fosses uma estrela favorável, eras uma rocha a defender um território.
Se te escondesses de mim para sempre, eras a noite em redor.
Se um caminho fosses, eras a beira do mar.
Se fosses um jardim, eras um astro de flores.
Se fosses a paisagem. eras o bosque respirando.
Se fosses um anel, eras sempre inquebrável.
Se fosses a sombra densa, eras um caminho entre os astros diáfanos.
Se fosses uma tarde, eras um dia.
Se um ano fosses, eras um século.
Se fosses um ruído, eras de uns passos ressoando em segredo.
Se fosses um pedestal, eras uma ilha azulada.
Se o mundo se partisse em bocados, tu eras o seu silêncio.
Se inclinasses mais a fronte, o coração bateria sereno.
Se suspiras, o tempo que passa torna-se doce.
Se te elevas no céu, na meditação te encontro.
Se uma bolinha fosses, serias uma simples gota de água.
Vives no sentido da chama, não é no da cinza.
Se fosses um número, serias uma quantidade interminável.
Se mudasses de forma, montanha serias escura e aprazível.
Se fosses o vento terral, dormirias num rabo de cores.
Se a chuva te conhecesse, cairia onde dissesses.
Se tentasses salvar alguém, enchê-lo-ias de espigas.
Se fosses uma parede, as árvores te guardariam.
Se a luz tombasse, serias a taça de cada dia.
Cobririas a juventude, se fosses a madrugada.
Se o Outono passasse, tu serias a Primavera iminente.
Se uma cor fosses, serias a alegria do sol sobre a erva.
Se fosses uma voz, terias a cor dum perfume.
Se fosses um perfume, terias a voz da cor que te usasse.
Se um vidro fosses, apagarias os suspiros.
Se fosses um deserto, ondearias sem limites.
Se fosses uma palavra, seria amar-se.
Se fosses um ídolo, eu oficiaria a adoração nos santuários.
Se fosses suave claridade, de rebanhos te rodearias.
Se fosses uma gota de sangue, darias luz.
Se o mundo dos vivos fosse só caos e solidão,
teu destino seria manifestares-te.
Se o mundo fosse brumosa caverna,
tu abrangerias os infinitos.
Tu és o mais belo reflexo da Imagem primordial
que se multiplica para além dos tempos
sem poder expressar-se.


Joan Brossa


(Trad. A.M.)

- Sobre versão Alfonso Alegre/ Victoria Padilla

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24.6.12

Joan Brossa (Fim do ciclo)





FIN DEL CICLO




Las hojas caídas obstruyen el camino.
Imagino que soy el que no soy.
Aquí me estoy muy quieto.
Procuro no moverme
y ocupar el mínimo espacio.
Como si ya no estuviese allí.
El silencio es el original,
las palabras son la copia.


Joan Brossa


(Versão Carlos Vitale)






As folhas caídas obstroem o caminho.
Imagino que sou aquilo que não sou.
Aqui estou muito quieto.
Procuro não me mexer
e ocupar o mínimo espaço.
Como se não estivesse já ali.
O silêncio é o original,
as palavras são a cópia.


(Trad. A.M.)

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20.12.11

Joan Brossa (Espanha)






ESPAÑA



No existe la censura:
lo que existe es un Servicio de Información Bibliográfica
para evitar posibles perjuicios económicos a los editores.

No hay gente que se muere de hambre:
hay personas que sufren insuficiencias tróficas
debidas a insuficiencias alimentarias.

No hay lucha de clases:
hay tensiones sociales polarizadas en torno a desiguales
repartos de la Renta Nacional.

No hay oposición episcopal:
no se trata de quitar al obispo sino de modificar
las estructuras jerárquicas que no son conscientes
del compromiso con las líneas posconciliares.

No hay partidos políticos:
hay articulación de contrastes de opiniones.

No hay subida de precios:
hay revisión de tarifas.

No hay derecho de huelga:
hay una manera de exteriorizar el conflicto directo.

No hay epidemia de cólera:
hay brotes de diarreas estivales.

No se habla de amnistía,
sino de condena de sanciones.

Etcétera.


Joan Brossa


(versão Carlos Vitale)





Não existe a censura,
o que há é um Serviço de Informação Bibliográfica
para poupar aos editores possíveis prejuízos económicos.

Não há gente a morrer de fome,
há pessoas que sofrem de insuficiências tróficas
devidas a insuficiências alimentares.

Não há luta de classes,
há tensões sociais polarizadas em torno de uma repartição
desigual do rendimento nacional.

Não há oposição episcopal,
não se trata de tirar o bispo mas de modificar
as estruturas hierárquicas que não estão
conscientes
do compromisso com a linha pós-conciliar.

Não há partidos políticos,
há articulação de contrastes de opiniões.

Não há subida de preços,
há revisão de tarifas.

Não há direito de greve,
há um modo de exteriorizar o conflito directo.

Não há epidemia de cólera,
há rebentos de diarreias estivais.

Não se fala de amnistia,
mas de aplicação de sanções.

Etc. Etc.


(Trad. A.M.)

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26.11.11

Joan Brossa (O tempo)






EL TIEMPO




Este verso es el presente.
El verso que habéis leído es ya el pasado
-ha quedado atrás después de la lectura.
El resto del poema es el futuro,
que existe fuera de vuestra
percepción.
Las palabras
están aquí, tanto si las leéis
como si no. Y ningún poder terrestre
lo puede modificar.



Joan Brossa


(versão Carlos Vitale)





Este verso é o presente.
O verso que lestes é já o passado
- ficou lá trás depois da leitura.
O resto do poema é o futuro,
que existe fora da vossa
percepção.
As palavras
estão aqui, tanto se as ledes
como se não. E nenhum poder na terra
o pode modificar.


(Trad. A.M.)



>>  Joan Brossa (sítio of. / anto+bio+biblio) / Escriptors (anto+bio+biblio+críticas+entrevistas+linques) / A media voz (29p)

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