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23.10.14

Raul Brandão (Sagres)





O promontório é um punho nodoso, com dois dedos estendidos para o mar – a ponta de S. Vicente e a ponta de Sagres.

Nos dias sem sol, como o de hoje, os dedos parecem de ferro: apontam e subjugam-no.

Em frente o mar ilimitado; em baixo o abismo, a cem metros de altura.

Ventanias ásperas descarnam o morro cortado a pique, e no Inverno as vagas varrem-no de lado a lado.

Sagres é o cabo do mundo.

Levo os pés magoados de caminhar sobre pedregulhos azulados, num carreirinho, por entre lava atormentada.

Do passado restam cacos, o pre- sente é uma coisa fora da realidade, grande extensão deserta, pardacenta e encapelada, com pedraria a aflorar entre tufos lutuosos; vasto ossário abandonado onde as pedras são caveiras, as ervas cardos negros e os tojos só espinhos e algumas folhas de zinco.

O mar – é verdade, esquecia-o – mas o mar como imensidade e tragédia, e ao lado a gigantesca ponta de S. Vicente, só negrume e sombra.

Mar e céu, céu e mar, terra reduzida a torresmos, e o sentimento do ilimitado.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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20.10.14

Raul Brandão (A caminho de Sagres)





Pela portinhola do comboio vou seguindo a paisagem de figueiras e de vinhas que desfila.

De um lado o céu doirado e violeta, do outro todo roxo.

Os nomes das estações têm um sabor a fruto maduro e exótico – Almancil, Nexe, Diogal, Marchil...

De quando em quando fixo um pormenor: uma mulher passa na estrada branca, entre oliveiras pulverulentas e fantasmas esbranquiçados de árvores, sentada no burrico, de guarda-sol aberto, e dando de mamar ao filho.

Terras de barro vermelho.

Grupos de figueiras anainhas estendem os braços pelo chão até ao mar, deixando cair na água os ramos vergados de fruto, que só amadurece com as branduras.

Uma ou outra casinha reluzindo de caiada: ao lado, e sempre, a nora de alcatruzes e um burrinho a movê-la entre as leves amendoeiras em fila, as oliveiras dum verde mais escuro e a alfarrobeira carregada de vagens negras pendentes.

A mesa de Deus está posta.

Estradas orladas de cactos imóveis como bronze, e a deslumbrante Fuzeta, com o seu zimbório entre árvores esguias.

Ao longe, e sempre, acompanha-me o mar, que mistura o seu hálito a esta luz vivíssima.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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5.10.14

Raul Brandão (Tavira>Olhão)





Tavira é uma terra fechada, concentrada, de gente rica que arrecada o dinheiro do figo, da amêndoa e da alfarroba.

Cada fruto destas árvores é um pingo de oiro.

Que saudades eu tenho nesta terra neurasténica, da fedorenta Olhão!

De Olhão, até o mau cheiro me cheira agora bem...

E como compreendo a mudança de fisionomia dos homens e das coisas...

Tavira é uma terra de montanheiros, Olhão é uma terra de pescadores.

O pescador é comunista e alegre, o montanheiro desconfiado e triste.

No mar não há marcos...


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.


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2.10.14

Raul Brandão (Ponha lá)






Era um colosso.

Dois olhinhos sumidos na cabeçorra, mãos enormes, braços como trancas e um corpo maciço e quadrado, a que ele, desajeitado, não sabia o que fazer.

Na taberna enfumada da Cantareira era eu quem lhe escrevia as cartas para a namorada.

– Ponha lá, senhor Arriulo...

Ponha lá o quê?...

Não dizia mais palavra.

Só olhava para mim suando de aflição.

Mas era tanta a ternura nos seus olhos, que se estabelecia entre nós dois uma espécie de comunicação magnética...

Tenho perdido tudo.

Deixei passar por mim as melhores coisas da vida quase sem dar por elas.

Também perdi, com indiferença, a cópia dessas extraordinárias cartas de amor de um poveiro a uma poveira.

Ele trazia na cesta, com o pão e o conduto, o papel bordado para a carta e sentava-se na minha frente, com a cabeça vermelha de ruivo apertada entre as mãos como cepos.

E olhava-me numa imensa aflição:

– Ponha lá, senhor Arriulo – à espera que eu encontrasse as palavras mágicas com que havia de enternecer o coração da Josefa Perneta.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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20.9.14

Raul Brandão (Luz e cor)





O mar às vezes parece um véu diáfano, outras pó verde.

Às vezes é dum azul transparente, outras cobalto.

Ou não tem consistência e é céu, ou é confusão e cólera.

De manhã desvanece-se, de tarde sonha.

E há dias de nevoeiro em que ele é extraordinário, quando a névoa espessa pouco e pouco se adelgaça, e surge atrás da última cortina vaporosa, todo verde, dum verde que apetece respirar.

Diferentes verdes bóiam na água, esbranquiçados, transparentes, escuros, quase negros, misturados com restos de onda que se desfaz e redemoinha até ao longe.

E ainda outros azulados, com a cor das podridões.

Tudo isto graduado e dependendo do céu, da hora e das marés.

Há momentos em que me julgo metido dentro duma esmeralda, e, depois, numa jóia esplêndida, dum azul único que se incendeia.

Mas a luz morre, e a luz agonizando exala-se como um perfume.

É uma grande flor que desfalece.

O doirado não é simplesmente doirado, nem o verde simplesmente verde: possuem uma alma delicada e extática.

- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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14.9.14

Raul Brandão (Névoas-2)





As névoas anunciam o Inverno.

Começam a vir os nevoeiros compactos, que se metem pelas narinas e cheiram a mar e a fumo.

Há-os que têm léguas de espessura e levam dias a passar, coortes desordenadas de fantasmas enchendo todo o horizonte.

O sino tange.

Não se vê palmo diante do nariz.

Lá fora os barcos, como cegos, só se guiam pelo som.

0 mar é um misterioso fantasma que os envolve.

Cerração cada vez mais mole e espessa...

Só a voz se ouve, e o lamento parece vir de mais longe e de mais fundo.

Às vezes adelgaça-se um pouco na costa, e grandes rolos de fumaceira crescem do mar sobre a terra.

É o Inverno que vem aí.

A voz imensa tem já plangências de dor – desabar infinito de lágrimas.

De sul para o norte as nuvens correm sempre, coortes sobre coortes que saem das profundas e avançam, deslizam sobre as águas sem ruído, enchendo o céu de farrapos enormes, de fantasmas criados naquele mar salgado e que se seguem em tropel num galope monstruoso para uma grande batalha desconhecida.

E de quando em quando o sino chama, chama sempre pelos homens perdidos na névoa espessa que leva dias a passar.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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11.9.14

Raul Brandão (Névoas-1)





Sol e azul e depois névoa.

Às vezes começa em Agosto, outras em Setembro.

Uma barra ao longe anuncia-a, uma barra que cresce em fumarada sobre a terra, ou que se dispersa correndo para o sul, em labaredas sobre o mar esverdeado.

Há outras névoas no Verão que se descerram lentamente como cortinas, ficando o panorama límpido como uma aguarela acabada de pintar.

Outras têm léguas de extensão e levam dias a passar.

E o mar exala um cheiro mais vivo quando o nevoeiro parece dissolver-se, para logo voltar mais denso e compacto.

Às vezes vê-se entre a neblina um ponto da costa cheio de luz, um rasgão no mar, uma única pedra iluminada entre o céu infinito e o mar infinito.

Tenho visto também umas névoas esbranquiçadas que ficam lá para muito fundo embebendo-se de luz.
Névoa, um pouco de sol e brancura, tudo emborralhado.

A onda vem de longe, irrompe da névoa, e só se vêem os grandes rolos brancos revolvidos de espuma muito ao perto quando se despedaçam.

Em Sagres assisti a um nevoeiro extraordinário.

Aparecem primeiro uns flocos no céu, e a luz tornou-se logo mais azul, pegando azul à pele, molhando de azul as mãos estendidas.

Depois a névoa, que no Verão dura segundos, doirou e subiu ao ar, tornando o horizonte mais ilimitado e fantasmagórico...


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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26.8.14

Raul Brandão (Ria de Aveiro-3)






Há três dias que ando metido na ria, com a barba por fazer, sujo como um ladrão de estrada, e fora de toda a realidade.

Afigura-se-me que vivo num país estranho – amplidão, água e sonho.

Pelo areal os palheiros da Costa Nova, de S. Jacinto e da Torreira...

Que me importa!

Estonteado, encharcado de azul, cheio de sol e de luz, esqueci o passado e esqueci o presente.

A vida é navegar na ria, comer da caldeirada de enguia e tainha, que os homens cozinham à proa, aproveitando-lhes entre as tripas a marsola para lhe dar mais gosto.

É dormir no barco, abicar aos areais e vogar sempre, sentindo a pancada das águas que fogem em tinta cobalto de um lado, em tinta cinzento do outro.

É sair desta amplidão para a descoberta do charco, do canal, da gota de água, dos sítios escondidos e ignorados.

É assistir à transformação das águas e navegar à vela ao pé das casas e no interior das casas.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.


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11.8.14

Raul Brandão (Ria de Aveiro-2)





É um sítio para contemplativos e poetas: qualquer fio de água lhes chega e os encanta.

É um sítio para sonhadores e para os que gostam de se aventurar sobre quatro tábuas, descobrindo motivos imprevistos.

É-o para os que se apaixonam pelo mar profundo, e para os medrosos que só se arriscam num palmo de água – porque a ria é lago e mar ao mesmo tempo.

Com meios muito simples, um saleiro e uma barraca, tem-se uma casa para todo o Verão.

Pesca-se.

Sonha-se.

Toma-se banho.

E esquece-se a vida prática e mesquinha.

Dorme-se ao largo, deitando-se a fateixa ou abica-se ao areal: um fogaréu, uma vara, a caldeirada...

Começam a luzir no céu e na ria ao mesmo tempo miríades de estrelas.

Vida livre dalguns dias, de que fica um resíduo de beleza que nunca mais se extingue.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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8.8.14

Raul Brandão (Ria de Aveiro-1)





A ria é um enorme pólipo com os braços estendidos pelo interior desde Ovar até Mira.

Todas as águas do Vouga, do Águeda e dos veios que nestes sítios correm para o mar encharcam nas terras baixas, retidas pela duna de quarenta e tantos quilómetros de comprido, formando uma série de poças, de canais, de lagos e uma vasta bacia salgada.

De um lado o mar bate e levanta constantemente a duna, impedindo a água de escoar; do outro é o homem que junta a terra movediça e a regulariza.

Vem depois a raiz e ajuda-o a fixar o movimento incessante das areias, transformando o charco numa magnífica estrada, que lhe dá o estrume e o pão, o peixe e a água da rega.

Abre canais e valas.

Semeia o milho na ria.

Povoa a terra alagadiça, e à custa de esforços persistentes, obriga a areia inútil a renovar constantemente a vida.

Edifica sobre a água, conquistando-a, como na Gafanha, onde alastra pela ria. Aduba-a com o fundo que lhe dá o junco, a alga e o escasso – detritos de pequenos peixes.

Exploram a ria os mercantéis, que fazem o tráfego da sardinha, os barqueiros que fazem os fretes marítimos, os rendeiros das praias que lhe aproveitam os juncais, os marnotos, que se empregam no fabrico do sal, os moliceiros, que apanham as algas, e finalmente os pescadores da Murtosa, que são os únicos a quem se pode aplicar este nome, e que entre outras redes usam a solheira, a rede de salto, a murgeira e a branqueira.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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5.8.14

Raul Brandão (Manhãs-2)





Há manhãs em que a poeira do mar se mistura à poeira azul do céu.

Um hálito fresco e húmido, uma exalação viva e salgada, vem do largo e das profundas – de toda essa constante agitação, que nos dá um sentimento de vida ilimitada.

Sai dos farrapos da névoa, dos laivos onde bóiam espumas, dos redemoinhos lívidos de cólera.

A esta hora o dia está de chumbo.

No horizonte a claridade debate-se para irromper, e só ilumina uma parte do mar em fusão.

Não se vê ainda a costa.

A névoa flutua em farrapos, e de repente, lá do fundo uma espessa fumarada cresce sobre a terra.

Só muito longe uma nódoa azul esparralhada flutua à superfície das águas...

Os barcos formam circulo para além da baía, entre as Berlengas e a costa: sete, oito, dez, de vela triangular, que se preparam para erguer a armação da sardinha – uma grande rede com um saco – o copo.

A sardinha, ao encontrar no seu caminho a rede, deriva para o saco, tirando-a os pescadores com a xalavara para dentro dos barcos.

É uma onda de prata que sai da tinta azul.

Cheira a algas e a mar vivo.

Impregna-me e trespassa-me.

Deixa-me sal nos beiços.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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2.8.14

Raul Brandão (Manhãs-1)





Há manhãs à beira-mar em que tudo parece um pouco de tinta muito leve e mais nada.

Um pouco de tinta e frescura.

A própria luz molhada estremece.

O doirado tem muita água e desbota.

Uma gota de azul basta para o mar e o céu.

E a manhã, trespassada e a escorrer, nascida e hesitando, faz medo que se desvaneça como fantasmas de manhã.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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27.7.14

Raul Brandão (Caminha)





Caminha esta manhã é um sonho doirado que – tenho medo – se vai esvair na atmosfera.

O rio azul, o grande monte fronteiriço, a água, o céu, não têm existência real.

Sobre o esplêndido panorama diáfano e azul, sobre o cone imenso e compacto de Santa Tecla, sobre a povoação de Campozandos, sobre os pinheirais verdes e os campos verdes, sobre a água que não bole, passou agora mesmo um pincel molhado em tinta acabada de fazer.

A vila de ruas lajeadas e a igreja de pedra roída pelo ar salgado, com a Galiza em frente e o fio branco de espuma lá para a barra, parece adormecida e encantada.

Deviam-na deixar morrer intacta, sem lhe deitarem as muralhas abaixo, envolta no doirado que a traz entontecida.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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24.7.14

Raul Brandão (Momentos)





A vida passa e um momento da vida não passa mais – transforma-se.

E a aproximação da morte reveste-o de outra cor.

Por isso agora vejo tudo cada vez mais nítido...

Vejo os buracos nos muros e os reflexos ao lume de água que duram um momento e se renovam sempre.

É o sol que lhes dá vida e os ilumina.

São instantâneos.

Movem-se, somem-se e dão lugar a outros.

São agitados e doirados.

Uma aparência, um jogo de luz, como as existências efémeras que passam e o sonho que não deixa vestígios e só um instante se desenha à superfície da vida...


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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18.7.14

Raul Brandão (Saudade, ternura)





O que revivo mais profundamente?

Revivo a expressão de uns olhos húmidos que me seguiam sempre, e compreendo que toda esta cor e este oiro que desapareceram e teimam em reluzir, correspondem a um momento único da vida em que se descobre o mundo que vai morrer e que se fixa por fim em saudade e ternura.

É o que tenho mais pena de deixar quando sinto que me levam não sei para onde e cada vez para mais longe.

Agita-se então em sonhos o mundo que não existe, e os mortos adquirem uma expressão que é a da minha própria alma.

Se isto é ternura, a ternura é o que há de melhor no mundo; se é saudade, a morte é o que há de melhor na vida.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores.

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15.7.14

Raul Brandão (Até as coisas)





É que tudo, até as coisas, num dado momento, foram para mim seres de uma vida extraordinária; um ser esplêndido, o rio, a que me entrego dentro de quatro tábuas; o cabedelo cheio de mistério, onde ponho os pés com terror; o largo, o profundo mar, que me levou alguns dos meus, constante preocupação desta gente, e que de quando em quando os mata à minha vista.

As figuras em sonhos tornam-se a debruçar para mim, estendendo-me outra vez as mãos...

E é sonhando também que me recordo de certas coisas sem importância: do jeito que era preciso dar às portas manhosas, para as poder abrir, de uma expressão de que me separam léguas de esquecimento, de pequenos nadas que duram um segundo, um olhar ou um sorriso molhado de ternura.

Acontece que às vezes acordo tendo diante de mim intacto um rosto consumido pela terra...

Os meus mortos estão cada vez mais vivos.


- Raul Brandão, Os Pescadores.

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3.7.14

Raul Brandão (São nadas)





São nadas que farão sorrir os outros.

São efectivamente nadas...

E no entanto reconheço que essa foi a melhor parte da minha existência, minuto único de saudade em que a luz se suspende e o universo se entranha para sempre na alma.

É a própria vida com um encanto que não torna, é o abrir dos olhos para uma manhã deliciosa, quando se salta pela primeira vez do ninho e se sente ainda o calor do ninho.

Tudo é novo e esplêndido.

Embriaga o ar que se respira e o primeiro sonho que sonhamos.

É novo e cheio de surpresas o Verão, quando os grandes barcos rabelos, a vela latina cheia de vento e o homem em ceroulas no alto da caranguejola, carregados de achas que cheiram a bravio, descem devagar as águas; é novo o Inverno quando a grande toalha líquida das cheias brilha e o sol reluz com mais gosto, ou quando aquela voz rude engrossa, começa a pregar e a lufada não cessa de bater nas vidraças.

– Está alguém fora da barra?

E as vigas do travejamento rangem como as quilhas dos navios, e a noite trágica, em que suponho ouvir gritos, nunca mais acaba.

A voz cresce...

Ouço-a agora perto, ouço-a melhor.


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores




30.6.14

Raul Brandão (Quando regresso do mar)





Quando regresso do mar venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa.

Tomo então apontamentos rápidos – seis linhas – um tipo – uma paisagem.

Foi assim que coligi este livro, juntando-lhe algumas páginas de memórias.

Meia dúzia de esboços afinal, que, como certos quadrinhos do ar livre, são melhores quando ficam por acabar.

Estas linhas de saudade aquecem-me e reanimam-me nos dias de Inverno friorento.

Torno a ver o azul, e chega mais alto até mim o imenso eco prolongado...

Basta pegar num velho búzio para se perceber distintamente a grande voz do mar.

Criou-se com ele e guardou-a para sempre.

– Eu também nunca mais a esqueci...


- RAUL BRANDÃO, Os Pescadores (Epígrafe)

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13.1.09

Raul Brandão (Elites)








(Elites…)






Portugal é uma pátria, porque, para ter uma pátria, o essencial é merecê-la, e nós temo-la merecido, mais e melhor do que muitos dos grandes países desse mundo.

O que é preciso é criar quanto antes novas elites.

Diga-se tudo: as nossas últimas convulsões são uma luta inconsciente de sangue que procura um ideal e não o encontra.

A maior tragédia passa-se na obscuridade e no silêncio, entre fantasmas que se querem impor, para viverem outra vez…

Para os vencer e dominar, caminhando, não para o ideal antigo, mas, ao menos, para a mercearia bem ordenada, de que falava Junqueiro, é necessário criar rapidamente novas elites.

Não elites que nos subjuguem - mas elites que nos conduzam para a beleza e para a justiça…



- RAUL BRANDÃO, Memórias, III, in fine.






RAUL BRANDÃO:

Vidas lusófonas (perfil)

DGLB (bio+biblio+linques)

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