Mostrar mensagens com a etiqueta Alvaro Valverde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Alvaro Valverde. Mostrar todas as mensagens

5.5.19

Álvaro Valverde (Assim)





ASÍ



Así como en el río
vemos plantas y árboles
reflejarse y parece
que sus orillas fueran,
por efecto simétrico,
verde tierra invertida,
en las primeras horas
de este día de julio
la luz, la brisa, el agua
favorecen la idea
de que la vida es dulce,
sereno este vivir
ante el abismo.


Álvaro Valverde




Assim como no rio
vemos plantas e árvores
reflectidas
e as margens parecem,
por efeito de simetria,
verde terra invertida,
a luz, a brisa, a água,
às primeiras horas
deste dia de julho,
dão a ideia
de que a vida é doce,
sereno este viver
diante do abismo.


(Trad. A.M.)

.

18.1.19

Álvaro Valverde (Banho)




BAÑO



Ayer, en el molino,
me bañé otra vez solo
en el estanque.

Como siempre, al entrar,
aquel me pareció mi primer baño.

Como siempre, al salir,
tuve la sensación
de que era el último.


Álvaro Valverde

[La mirada del lobo]




Ontem no moinho,
mais uma vez tomei banho
sozinho
no tanque.

Como sempre, ao entrar,
pareceu-me a primeira vez.

Como sempre, ao sair,
tive a sensação
de que era a última.

(Trad. A.M.)

9.6.18

Álvaro Valverde (Junto desta cama de hospital)






Junto desta cama de hospital,    
utilitária e branca, em que agora
descansa o corpo doente do meu pai,
neste mesmo sítio onde agora
eu mesmo estou sentado,
esteve um dia ele
 velando o seu.
Recorda-mo às vezes, lá pela noite,
quando apagam as luzes do corredor
e se ouvem os passos silenciosos
do pessoal de vigia
e a tosse do vizinho e o gemido longínquo
de alguém que sofre alheio
no quarto do fundo.
Em voz baixa, conta outras noites de insónia
semelhantes a esta,
ainda que ele não fosse então
o sujeito passivo dos meus inábeis cuidados
e somente o representante dessa força
que sem dúvida tiramos da fraqueza
para poder estar à altura
de tão penoso acontecimento.
Entre duas luzes,
com a respiração forçada do oxigénio,
enquanto altera as doses no conta-gotas,
penso em mim por momentos
e, sem querer,
vejo-me a mim mesmo
estendido nesta cama,
e, ao meu lado, sentado, como eu,
na mesma cadeira,
um dos meus filhos segurando
com muita força a minha mão.



Álvaro Valverde


.


21.2.17

Álvaro Valverde (Mecânica terrestre)





MECÁNICA TERRESTRE



Lo mismo que una imagen
recuerda a alguna análoga
y una sombra a la fresca
humedad de otra estancia
y un olor a una escena
cercana por remota
y esta ciudad a aquélla
habitable y distante,
así, cuando la tarde
se hace eterna y es julio
todo expresa una múltiple,
inasible presencia,
y el agua es más que el filtro
de lo que fluye y pasa
y la luz más que el velo
que ilumina las cosas
y el viento más que el nombre
de una oscura noticia.

Álvaro Valverde



Tal como uma imagem
evoca outra parecida
e uma sombra lembra
a humidade de outra sala
e um cheiro aproxima
uma cena remota
e esta cidade a outra
mais distante,
assim, quando em Julho
a tarde se eterniza
tudo assume uma rara,
impalpável presença,
e a água é mais que o filtro
daquilo que flui e passa
e a luz mais do que o véu
que ilumina as coisas
e o vento mais que o nome
de uma obscura notícia.


(Trad. A.M.)

.

2.4.15

Álvaro Valverde (Desterro)





DESTIERRO



No es preciso partir para sentirse
un desterrado, un extranjero. Basta
con apartarse un poco de los otros,
con no participar de sus costumbres,
con ejercer sin más de solitario
por mucho que te arrastre esa marea
de pequeñas o grandes multitudes.

Siguiendo a Erri de Luca,
la vida para alguien puede ser
exilio sin viaje en un lugar.

Ir por libre, sin club o cofradía,
acarrea un destierro inevitable.
Como el de un perseguido. No lo dudes,
sin salir de este sitio en el que vives
solo eres la sombra de un extraño.


ÁLVARO VALVERDE
Plasencias
(2013)

[Miradas]




Não é preciso partir para sentir-se
desterrado, estrangeiro. Basta
afastar-se um pouco dos outros,
não comungar dos costumes,
exercer sem mais de solitário
por muito que te arraste a maré
de pequenas ou grandes multidões.

Seguindo Erri de Luca
a vida pode ser para alguém
um exílio sem viagem num lugar.

Viver livre, sem clube nem confraria,
acarreta um desterro inevitável.
Como o de um perseguido. Não duvides,
sem sair deste sítio em que vives
és apenas a sombra de um estranho.

(Trad. A.M.)

.

27.8.14

Álvaro Valverde (A sombra dourada)





LA SOMBRA DORADA



Abro la verja del jardín sin nadie.
Espera mi llegada el viejo limonero
y al verlo me parece
que no hubiera pasado en parte alguna
todo este largo tiempo,
que siempre hubiera estado
sentado en esta sombra, silencioso,
viendo pasar los días
con la mirada turbia de los que nada esperan,
pero al fin sobreviven.
Con tanta asiduidad he recordado
este mismo lugar
que no es extraño
sentir la vuelta a casa
como un hecho casual como si ahora
volviera una vez más y simplemente
cerrara una vez más la misma puerta.
La casa es hacia dentro el laberinto
que siempre he perseguido. Permanece
sitiada por los muros
azules de la infancia,
por ecos de una edad sobrevenida.
En la azotea,
el puerto sigue siendo un sueño antiguo
y arriba en las estrellas
leo de nuevo
el rumbo del viaje que comienza.

Álvaro Valverde



Abro a cerca do jardim deserto.
Espera-me o velho limoeiro
e parece-me, ao vê-lo,
que não estive ausente
este longo tempo,
estive sempre aqui,
sentado nesta sombra, silencioso,
a ver passar os dias,
com o olhar incerto de quem nada espera,
mas a final sobrevive.
Tantas vezes recordei
este mesmo lugar
que não é estranho
sentir o regresso a casa
como um facto normal, como se voltasse
agora uma vez mais e simplesmente
fechasse a porta mais uma vez.
A casa é para dentro o labirinto
que eu sempre persegui.
É ainda cercada pelos muros
azuis da minha infância,
pelos ecos de uma idade sobrevinda.
No terraço,
o porto continua sendo um sonho antigo
e nas estrelas em cima
leio de novo
o rumo da viagem que começa.

(Trad. A.M.)

.

2.3.13

Álvaro Valverde (Jardim privado)





JARDÍN PRIVADO



Nadie ha de entrar aquí.
Para sólo la sombra
levanté las paredes
que dan cobijo al tiempo.
No fue impune el trazado
de las sendas que orientan
su interior movedizo.
Escalas y arrayanes dan forma
a un pensamiento mercenario.
No elegí casa árbol al albur. Fue preciso
conocer cada especie
como a mí me conozco.
El agua sabe el canto
que el silencio arrebata y en su monotonía
otra luz se desvela.
Para nadie he querido este lugar umbrío,
pues que sólo a mis pasos
reconducen sus losas.
Más allá de sus muros,
bajo un único sol,
arde la vida.


Álvaro Valverde




Ninguém há-de entrar aqui.
Para a sombra apenas
levantei as paredes
que dão abrigo ao tempo.
Não foi inocente o traçado
das sendas que orientam
seu interior movediço.
Escadas e murtas dão forma
a um pensamento mercenário.
Não escolhi ao acaso a casa da árvore.
Precisei de conhecer cada espécie
como a mim mesmo conheço.
A água sabe o canto
que arrebata o silêncio
e outra luz se revela na sua monotonia.
Este lugar sombrio não o quis para ninguém
pois as pedras conduzem apenas
os meus próprios passos.
Para além dos muros,
sob a rosa do sol,
crepita a vida.


(Trad. A.M.)

.

2.9.12

Álvaro Valverde (Viagem a Lisboa)





UN VIAJE A LISBOA



Huíamos en vano de la ciudad cerrada
y acabamos perdidos en la ciudad perfecta.
El piso luminoso, el suelo blanco,
los cuartos despojados y en penumbra,
los pocos pero doctos libros juntos,
acogieron serenos el cansancio.
Luego llegaron días de paseos y calma
donde todo se hizo tan lento como suele
ser todo en un lugar acompasado a un río.
Tranvías y avenidas y barcos y comercios
fueron haciendo el resto.
Ya no éramos los mismos
que piensan desde el puente lo que cualquier suicida.
Los que ven desde el puerto parecidos naufragios.
Ni los que entre las ruinas de nobles edificios
se dan a ese discurso del fracaso y la muerte.
En la decrepitud, entre la suciedad, bajo la herrumbre,
lo que vimos fue el fuego de una vida distinta.
Todavía nos quema cuando hacemos recuento
y evocamos las tardes sosegadas de junio
en la casa de Ángel, y aquel sol de poniente
hundiéndose, muy rojo, sobre el Tajo.
Volvemos a menudo al sitio donde fuimos
si no felices siquiera afortunados.
Con la melancolía viaja una mirada
que nos devuelve aquello que ensayamos vencido.


Álvaro Valverde


[Antón Castro]






Fugindo em vão da cidade fechada,
acabámos perdidos na cidade perfeita.
O andar luminoso, o solo branco,
os quartos despojados e na penumbra,
os poucos mas doutos livros conseguidos,
acolheram serenos o cansaço.
Depois vieram dias de passeio e de calma
com tudo a passar tão lento como é costume
num lugar a compasso dum rio.
Carros eléctricos e avenidas, barcos e estabelecimentos
foram tratando do resto.
E já não éramos os mesmos
postos a pensar na ponte como
um suicida qualquer.
Ou os que vêem do porto naufrágios parecidos.
Nem os que entre nobres ruínas
se entregam ao discurso do fracasso e da morte.
Decrépito, no meio da porcaria, por baixo da ferrugem,
o que vimos foi o fogo de uma outra vida.
Ainda nos queima quando olhamos para trás
e evocamos as tardes sossegadas de Junho
em casa de Àngel, e aquele sol do poente
a afundar-se no Tejo, muito vermelho.
Voltamos amiúde ao lugar onde fomos,
se não felizes, pelo menos afortunados.
Um olhar viaja com a melancolia
e devolve-nos aquilo que temos por perdido.



(Trad. A.M.)

.

15.8.12

Álvaro Valverde (Aqui)





AQUI




Estás sentado solo frente al valle
con un libro en las manos
que abandonas a ratos
para poder mirar,
con la calma debida,
cuanto la vista alcanza.
Suena el silencio. A veces,
el rumor de las ramas
o el canto intermitente de algún pájaro.
Respiras hondo. Ves.
Aprecias uno a uno los momentos
que te concede este vivir al margen.
No haces tuya la queja
de los que quieren irse
pero que aplazan siempre
la ocasión de su huida.
Permaneces aquí
por propia voluntad:
es éste tu lugar.
Tú eres de él.

Álvaro Valverde


[Perros en la playa]




Estás sozinho sentado em frente ao vale
com um livro nas mãos
que de vez em quando abandonas
para olhar, com a devida calma,
quanto a vista alcança.
Reina o silêncio. Por vezes, soa
o rumor dos ramos
ou o canto intermitente dum pássaro.
Respiras fundo. Vês.
Aprecias um por um os momentos
que te oferece o viver à margem.
Não perfilhas a queixa
daqueles que querem partir
mas adiam sempre
o momento da fuga.
Permaneces aqui
por vontade própria,
é este o teu lugar.
E tu és dele.

(Trad. A.M.)


>>  A media voz (15p) / Mayora (blogue) / Lecturalia (resenhas) / Catedra M.Delibes (ficha) / Wikipedia

.