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29.8.17
Amadeu Baptista (No aniversário da morte do Ruy Belo)
NO ANIVERSÁRIO DA MORTE DO RUY BELO
faz hoje anos que o ruy belo morreu.
nem imagino o que seja morrer um homem
a despenhar-se na cama, recém-chegado do mar
com o seu fato de mergulhador e os olhos cheios de peixes.
não imagino o que seja deixar de respirar um poeta,
ainda que saiba que sofrerei a mesma paragem
respiratória e também cairei de bruços sobre a cama.
faz hoje anos que o ruy belo morreu.
nunca o vi, nunca lhe ouvi a voz, nunca observei
a caprichosa sinuosidade da sua caligrafia, mas
amei este homem muito mais que amei meu pai
e minha mãe, digo-o tal como o sinto, sempre o senti
assim e assim o escrevo para que ressoe através de mim
como uma palavra sussurrada no capacete de um escafandrista
ou num coração. faz hoje anos que o ruy belo
morreu. deve ter sido num dia de muito calor, igual a este.
a coberta em que repousou a cabeça seria como esta,
verde-esmeralda, espessa e clara na exiguidade da cama
em que caiu. amei este homem, amo este homem
como a um irmão. presto homenagem
às suas dores mais dilacerantes, iguais às minhas, talvez,
ainda que um tudo nada mais graves, um tudo nada
mais agudas as que manteve, enquanto a pátria,
a serôdia pátria que tudo amesquinha,
lhe fazia o ninho atrás da orelha
e lhe espetava a faca nas costas com a habitual
agilidade com que a pátria mata os seus poetas,
o ruy belo e uns outros tantos, inumeráveis,
que o rol é demasiado grande para tão pequena pátria.
faz hoje anos que o ruy belo morreu. presumo
que uma nuvem lhe subiu à boca e lhe turvou o olhar,
uma nuvem de mar, ou de peixes, uma nuvem
verde-esmeralda. tudo foi instantâneo e quieto,
um alvoroço parado, uma tranquila vertigem.
essa nuvem inundou-lhe o quarto, a cama, a carne, a boca, os olhos,
enquanto pensava que deveria escrever algumas cartas
que esperava o não levassem à desonra de ter que roubar para comer,
num país que desde sempre mata à fome os seus poetas.
faz hoje anos que o ruy belo morreu. todo o silêncio é pouco para assinalar
esta perda, por mais que uns poucos a venham alardear
na configuração da noite que aqui se pôs, sem qualquer esperança
de manhã. eis o que digo tal e qual como sinto esta morte, ainda que
não seja escafandrista e tenha visto a consolação ao longe,
suspensa de um nevoeiro de abismos, demasiadamente perto
da nau dos corvos da nossa existência, uma praia cheia do nosso esterco,
cheia da nossa solidão, onde sempre nos caberá mergulhar
na morte para que a cabeça penda sobre o peito, sobre
a cobertura da cama verde-esmeralda, enquanto tudo em volta
não é mais que uma noite que nos fecha os olhos e a interrogação
inapelável nos confirma que de tudo morremos, vencidos
mas não convencidos de que o último inimigo seja a morte,
porque há ainda o que se não concilia, o que nos confronta na barbárie,
o que redime das sombras e põe um enunciado de estrelas
no que se escreve. faz hoje anos que o ruy belo morreu,
entra agosto nos seus inícios como um mês comum à nossa morte,
não mais que uma circunstância para forçar a guarda, levantar
as mãos acima da cabeça e, por uma vez, objurgar
quem lança um olhar estranho sobre nós sem que saiba
que os poetas não morrem, por mais que o lixo se amontoe
à nossa volta e o que é ignóbil nos magoe.
Amadeu Baptista
____________________
> Cantando o mesmo, a morte de R.B., aqui:
- Fernando Assis Pacheco
- Eugénio de Andrade
.
17.12.15
Amadeu Baptista (Homenagem a Luísa Dacosta)
HOMENAGEM A LUÍSA DACOSTA
Não sei, querida, se de onde estás agora
consegues ver o mar.
Não sei se nesse lugar os teus amigos
te visitam e entregam finalmente
a faca que aos gritos reclamaste
na casa onde estavas para morrer.
Não sei se o céu te recebeu e agora tudo
não é mais do que uma letra
que falta contornar.
Onde estás escuta-se o Nocturno
para Orquestra, op.70, de Martucci?
As aves são as mesmas que tu viste
a progredir no azul da praia?
Há aí crianças?
No termo dos teus dias pedias aos amigos
uma faca para te matares.
Uma razão benigna cobria-te o espírito
porque o que tinhas era insuportável
e não há o que tenha gumes mais desesperados
do que a lucidez.
Quem morre há-de saber o que encontrar.
Após a luz uma outra luz existe,
que é mais profunda e chega de mais longe,
o oculto brilho que habita a faca que pediste.
Com muito poucas sombras à tua porta,
tu cerzias a escrita, enquanto os pássaros
te tocavam a cabeça
e um esbracejo de mulheres se afadigava
a estender a migalha de sargaço
que a nortada trouxe.
Sabias bem como atravessar os campos da noite
e que, algures no tempo, deixaremos
de cá estar para registar a perda.
Sabias bem, querida,
que na polpa do corpo só o desejo resta
e que a sede permanece e não se extingue.
Subiste às árvores durante toda a vida.
Por ti subiu o fogo e às águas vens,
para que o tudo e o nada se consumam
e de ti façam uma árvore de vento.
A tua escrita, querida, ficará
cerzida a essa árvore, com a bênção
das marés que hão-de vir,
onda após onda sobre o areal
de tudo quanto amaste.
A palavra é sagrada,
escreveste, um dia.
E assim há-de ser para todo o sempre,
até que nunca mais haja partida.
Amadeu Baptista
.
19.6.15
Amadeu Baptista (Ronda dos traidores)
RONDA DOS TRAIDORES
Povos traídos já o foram muitos.
De gregos a romanos a mais de muitos centos
todos foram incorporados no grande índice
dos bichos que sentiram a lâmina na goela,
ou a entrar nos flancos para que não pudessem
ser o quanto queriam nos seus sonhos débeis.
O mal é esse mesmo, que possa a traição
grudar-se aos ossos e os mentecaptos
se sirvam dela nos banquetes férteis
em que de lampreia e faisão se embrutecem,
enquanto nos baldios a pobreza cresce.
Contudo, os brutos serão sempre os outros,
que ao longo da história se omitiram
por um gesto em falso ou um maligno passo,
ou até mesmo um decreto do senado.
Ou dormiram demais, ou no seu sono leve
trabalharam muito para que a indulgência
lhes custasse a família, os filhos, o sustento
e fossem retalhados como cordeiros mansos
que das regiões claras só podem conhecer
a escuridão infrene que os aniquila.
Traídos os traidores da ousadia
de permanecerem traídos para sempre
melhor seria que sangrassem dos ouvidos
ou que a boca de raiva lhes espumasse
pelas lídimas trafulhices de que são vítimas.
Ainda assim, não se passa nada. À vida
vão uns tantos para sofrê-la, a ranger
os poucos dentes ralos e a pôr as unhas
a salvo de qualquer lima, que está caro
o aço e nada é mais diverso
do que querer-se algo e nada se fazer
para que alguma coisa mude para que tudo
fique tal como estava antes do que se quis
mudar no âmbito das pirâmides
ou dos jardins suspensos. Traidores, portanto,
é o que mais há nas longas multidões
que os povos significam, ajoelhadas
bestas que aqui ovacionam e mais além
irão querer linchar sem que para isso
tenham paixão bastante. Dúvidas há
de que sejam homens, ou que da sua
espécie a humanidade seja em seu ardor
e escala de ansiar o pão, a paz, a liberdade,
sem que, no entanto, alastrem pelo mundo
a reclamar a luz que deveria pertencer-lhes.
E ainda falam do tempo irrepetível,
dos becos sem saída, das vozes inaudíveis,
da coroação do espanto, dos mares repletos
de fúrias e desmandos. A uns e outros todos
se vão traindo, cheios de culpa mas nunca
com remorsos de enquistarem assim os corações
nefastos, demasiado puros da pulhice alheia
que só deles mana. Não se lhes cansa o olhar
das grades que em volta assestam
as prisões que para si criaram,
danados de requebros não mais do que servis
à espera das migalhas que irão cair
do espavento dos bolsos que alguns benévolos
premeditadamente planeiam denegar
à fome secular e à calamidade.
Melífluo é o combate marcado por recuos,
surtos de aleivosias, suplicações, errâncias,
e a boa-fé fenece entre os traídos, prostrados
sobre a lama que os seus pés abriram
sem que de nada mais se arroguem que a traição
que lhes corre no sangue e lhes domina o espírito.
A uns e outros se abatem pelas costas.
Os de cima os de baixo e os de baixo
os de baixo, que é sempre a cair
que há-de ficar-se em coisas de ignomínia,
ou nas sujeições ignóbeis da desgraça,
ou no destemor que alguns da covardia
sacam, havendo sequazes e facas disponíveis,
usadas com perícia a perorar
as circunstâncias graves em que se vive
num território de recursos parcos.
Traidor é sempre quem trair se deixa,
atento ou desatento à luz dos anos,
pasmado ou exaltado no seu entusiasmo
de ser sem terra, ou ter sido dela
há muito expulso, ou ser seu pasto
em vida como o será quando for morto,
a privar com os vermes que, afoitos,
em cada aresta sopesam o momento
para abocanhar a carne das ovelhas
que, cegas e ordeiras, transitam
no foco de infecção para que alastre
a irredimível doença de que todos
sofrem. Ah, os rostos giram
nas quadraturas dos séculos, vãos uns
ceder e outros descompor-se, outros
empenham a palavra e voltarão com ela
atrás, pelo caminho ínvio, ainda outros
murmurarão a surdina entorpecente
de um rumor, de uma conjura, de um juro
que se cobra, de uma mácula caída
sobre a melhor nódoa , de uma arma aperrada
contra o dilecto amigo, de um rei que abjurou,
de um crente que se fiou, do alento
de um homem que a si mesmo se traiu,
assim como traiu os seus mortos antecedentes
e consequentes, em velhas e novas gerações
de traidores no comum descampado
dos tempos indizíveis, coberto de fósseis e sangue
ressequido. Ah, todos traímos a infância, o menino
selvagem, o castanheiro espesso, o regaço
de quem nos olhou pela primeira e pela última
vez como um filho querido e nos deixou partir
para a imobilização, a providência, o sossego,
a contagem incólume dos cabelos,
o beijo na face e a mão sobre o ombro,
a candura aos portões da Babilónia, os catorze
mil cegos que Samuel viu arrastar-se
nas montanhas da Macedónia a caminho de Ohrid,
vítimas estes da traição que a fereza é.
É desse lixo que os monturos se ampliam,
traição sobre traição sem mais remédio
do que ver o mundo a dissipar-se nos resquícios
da compaixão, do nojo, da bondade.
E no horizonte crespo o deserto amplia-se,
passam os comboios mas tudo está perdido,
o mar adensa-se e as traições
progridem, obsessiva e suja
a noite cobre tudo a ocultar quanto se fez
de criminoso e baixo e se sepulta nos bustos
de estuque que as galerias mostram,
um rol de heróis que a própria mãe venderam,
sem mais consolo do que viverem disso,
por um domínio, um lugar, uma quantia,
uma vara de porcos, castrados e cevados.
Amadeu Baptista
.
25.2.15
Amadeu Baptista (Sala dos actos-3)
SALA DOS ACTOS-3
usa a tua nudez acessórios mortais
para quem procura. a fita de veludo,
o cinto de fivela prateada,
a pintura guerreira, o golpe subtil
com que anuncias a ascensão
ao cume do carinho, exactamente
quando sobre o desvario
distendes os flancos e lanças sobre mim
o golpe intrépido
para que o êxtase estoure no meu corpo
esse mar de grata violência
que pressinto chegar em vagas sucessivas
sempre que gritas e, nesse grito,
desatas o meu grito.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
3.9.14
Amadeu Baptista (Dois mil e quatro)
DOIS MIL E QUATRO
Ainda bem que sou um homem do norte.
Ainda bem que tenho um horror suculento
a parasitas pardos e viúvas negras.
Ainda bem que resisto como um pré-esforçado
e registo em cadernos as incandescências do mar.
Ainda bem que evoluo na travessia das nuvens,
e acredito
e aceito, ainda.
Ainda bem que num momento particular
estou em presença de um torso
e um cavalo a arder,
em sinal de vida, sobre o campo visual.
Ainda bem que não mastigo bem,
não digiro bem,
não dirijo bem,
e choro, como uma criança.
Ainda bem que as formas circuncêntricas
se explanam como processos escultóricos
e a manhã deste outono anunciado
é primaveril.
Ainda bem que nas paisagens reais
não há seres indefesos
– não há seres indefensáveis
nesta rede de hipóteses cruéis e sanguinárias.
Ainda bem que a irregularidade é a única lei
dos fora-da-lei
e no outro lado da duna,
no outro lado da rua,
há uma curva,
depois um bosque,
depois uma depressão no terreno
que denominamos com contracções musculares,
sobreposições de imagens,
Deus, na aula de trabalho manuais.
Ainda bem que, após a fuga,
há uma casa na árvore para retemperar as forças.
Ainda bem que sou um homem de sorte.
Amadeu Baptista
.
29.3.14
Amadeu Baptista (Dois mil e três)
DOIS MIL E TRÊS
Aos cinquenta anos há já poucas decisões
para tomar.
Os filhos estão criados,
há muito que deixaram de tocar a relha
do arado
e de olhar as árvores
como poderosos
instrumentos da imperceptibilidade.
Sem alegria,
ouvimo-los sussurrar,
quase em segredo,
«agora não se agaste,
de há uns tempos a esta parte pertencemos
a um reino
de números primos
e não queremos voltar ao canavial».
Aos cinquenta anos,
nem já um cão queremos ter,
vamos de café em café a pôr questões inúteis,
a perguntar
se o desejo que temos pela mulher que passa
é realmente genuíno,
ou só a desejamos
pelas meias violeta que lhe iluminam
a perna,
fazendo entretecer a agitação do corpo
com uma certa graciosidade incontornável.
Aos cinquenta anos,
apenas indagamos as horas a que é o jogo,
sem qualquer intenção de o irmos ver
ou anotar na agenda
a hora pré-determinada
da consulta
em que a exclusão nos vai visitar,
aqui,
ali,
no centro médico,
ou na capela mortuária
onde dizemos um derradeiro adeus
ao mais pontual amigo.
Aos cinquenta anos,
constatamos que o radiador perde água,
que a lâmpada fundida está coberta
por uma fina película de poeira
que nunca viramos antes,
a mesma poeira que suja a nossa pele,
a nossa excessiva presença pela casa.
Aos cinquenta anos
a cabeça vai-nos caindo sobre o peito
e sufocamos com sono
e os joelhos dobram-se sobre nós,
no exacto momento em que recitamos a oração da infância,
com medo do escuro,
o mesmo medo do escuro
de quando éramos meninos
e o vigor dos nossos tornozelos suportava
a correria no vento,
entre os fetos.
Aos cinquenta anos
perdemos mais um dente,
espiamos a cabeleira ainda farta,
percebendo que não nos irá faltar cabelo
até ao fim,
se, eventualmente,
a radioterapia se desviar de nós
e o arsenal químico do costume
se não interpuser entre a nossa ténue esperança.
Aos cinquenta anos
ainda projectamos ir pela pedreira
à procura de mica e feldspato,
ainda interpelamos a morte
com as mãos vivas, ensombrecendo
o chão à nossa frente,
limpo,
sinuosamente limpo à nossa frente,
atirando uma pedra para o lago
na tentativa vã de descobrirmos
o que são esses círculos circuncêntricos
que, com mansa bonança, avançam
para a margem.
Aos cinquenta anos,
dizemos, entre-dentes,
“calma, não é, ainda, o fim do mundo”,
enquanto perscrutamos o sulco
que a retroescavadora abriu
no campo largo.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
7.12.13
Amadeu Baptista (Ternura)
TERNURA
A magnífica
refeição que o tratador
dá ao cavalo:
aveia,
duas dúzias de cenouras
e uma maçã vermelha.
Devolve-lhe o cavalo
a afeição
com um roçagar
leve da garupa.
Todo ele afecto,
a derramar ternura.
AMADEU BAPTISTA
Os Cavalos a Correr
(2008)
[Amadeu Baptista]
.
11.5.13
Amadeu Baptista (Mil novecentos setenta e quatro)
MIL NOVECENTOS E SETENTA E QUATRO
Cai o silêncio sobre o alinhamento
hostil das casernas.
A guerra está no fim,
já só alguns de nós irão morrer.
No torpor absurdo da paz da parada,
há uma bala tracejante que passa,
um trovão.
Matou-se o mancebo da 2ª. companhia
que recusava a farda.
O crânio estilhaçado,
impossível de ver,
está ali, bem à nossa frente.
Noite, mais noite, é todo o dia assim.
O arame farpado que nos limita
a escolha
chora pequenas lágrimas perfiladas no fio
da nossa inocência ofendida.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
2.12.12
Amadeu Baptista (Última geração)
ÚLTIMA GERAÇÃO
O nojo, o nojo visceral, Senhor.
Dai-nos o nojo, Senhor, o sagrado, o supremo nojo
de que se irá decidir a nossa salvação e a salvação dos que, enojados como nós,
antepõem o vómito a esta mansidão de sombras paradas pelo chão.
Dai-nos o nojo, Senhor, o nojo que a marca da repugnância
favorece e docilmente nos vem lamber as feridas.
O nojo, Senhor, a agonia do nojo
para que possamos cuspir sem ressentimentos no rosto
de quem nos cospe no rosto.
Porque o rato pariu uma montanha, Senhor, e como cães assustados
esperamos o impacto do fogo sobre o fogo.
Porque mantemos os sentidos despertos, Senhor, e esperamos
o resgate, o refúgio e o êxtase.
Porque caminhamos nas trevas com extrema paixão e uma ânsia poderosa, Senhor,
dai-nos a náusea,
a abundância da náusea sobre o nosso rancor.
Dai-nos o vómito, Senhor, o vómito
carregado de fel da nossa vida violenta,
do nosso amor violento,
da nossa esperança violenta e violentada
pelo preço de um pão e o suor agónico da nossa face.
Recorremos a Ti, Senhor, neste páramo de ódios,
para que nos dês o alívio do vómito letal do nosso desespero,
esta amargura carregada de amargura
que nos lançaram sobre os ombros e tem o peso do mundo.
Com as lágrimas nos olhos, Senhor, e a cabeça coroada
de espinhos, pedimos-Te a libertação do nojo que ocultamos nos nossos corações,
o nojo intemporal
dos que nos antecederam e que virão depois de nós, o nojo
imensurável que geramos no nosso ventre e ao nosso ventre voltará sob a forma de cal
purificadora.
Dai-nos o nojo, Senhor, essa flor infecta, sanguinolenta e suja
que há-de desabrochar das nossas dores
em Tua glória
e em nome do asco a que fomos submetidos.
AMADEU BAPTISTA
Antecedentes Criminais
Antologia Pessoal 1982-2007
Edições Quasi (2007)
[Amadeu Baptista]
.
21.6.12
Amadeu Baptista (Com um só fósforo)
Com um só fósforo ilumino o infinito.
E muitas vezes o infinito é algo
muito próximo, um livro, uma chávena
de chá, o teu rosto escondido
na penumbra, o retrato de alguém desconhecido
que de uma praça, acena,
um fio de tabaco, um monograma
num lenço muito branco.
O infinito o mais das vezes é
não mais do que o que toca o coração,
uma leve poeira pelo ar, um ponto fixo
que a mão ousa tocar, esta chama
que de repente amplia a escuridão
e me torna visível a quem passa
e no clarão acende o seu cigarro.
Amadeu Baptista
.
14.2.12
Amadeu Baptista (Mil novecentos cinquenta e três)
MIL NOVECENTOS E CINQUENTA E TRÊS
Logo no primeiro ano
estou só
e não me consigo manter de pé.
Se suspeitasse sequer
que iria ser assim para toda a vida
não me riria
com estas gargalhadas
cristalinas.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
13.12.11
Amadeu Baptista (Soneto exposto)
SONETO EXPOSTO
Os desengonçados trânsitos cavernícolas.
A eterna crise com os dentes afiados.
Um país de paisagens marítimas e vinícolas,
em que uns são filhos e outros enteados.
O recorte da serra na distância.
Os pardais semoventes sobre as praças.
Alguns homens sombrios com a ânsia
de não serem roídos pelas traças.
O redil organizado como um caos.
Uns quantos menos bons e outros muito maus.
Uma planície, uma cidade, um chaparral.
E em volta disto o mar, sempre indiferente
do que queira ou não queira a sua gente.
E fica no soneto exposto Portugal.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
30.10.11
Amadeu Baptista (Trasladação dos ossos de Jorge de Sena)
TRASLADAÇÃO DOS OSSOS DE JORGE DE SENA
De Santa Bárbara chegaram os ossos do poeta
que a pátria exilou. Uns pulhas de um assim chamado Ministério
da Cultura, que não dão à poesia a mínima importância,
ergueram-se a esse gesto como se não se soubesse
quanto os poetas detestam, como tantas e tantas vezes
foi provado e a paródia eleiçoeira, desta vez,
fez promover, não por amor aos versos, certamente,
mas para marcar a determinação da pequenez
em que todos morrem de fome da fartura enfatuada
desta gente. A ocasião, como é comum dizer-se,
faz o ladrão, e a estes não escapam as oportunidades
que o brio predador lhes aconselha, sujando tudo em volta,
dando a tudo o que é grande a represália de sempre,
tal como a todos os poetas já fizeram,
tal como fizeram ao Botto e agora ao Sena fazem, que esperou
mais de trinta anos para que a terra portuguesa de vez o afeiçoasse,
notando-se que como clandestino aqui chegou, agora,
não pela obra dele ou os seus actos, mas pela solerte ratice da canalha
que nunca subirá a púlpitos para pedir desculpa do mal que nos tem feito
e à poesia sempre odiará por lhe saber o fantástico poder que a cilindra.
Brancos os ossos chegam às exéquias da trasladação que por demais tardou
e não há corais de crianças das escolas a entoar-lhe cânticos,
não se promove gente a ler-lhe os livros, não se lhe divulga a obra,
nem os telejornais abrem com a notícia da chegada justa,
a todos convocando não só a que assistam e aprendam, mas que usem
a sua arte de música e de palavras para ampliar a verdade e a liberdade,
o corpo e os sentidos, a dignidade de resistir a tudo,
por mais que o vilipêndio se prolongue e se não salde nunca a dívida.
Não é para admirar. De humilhações, exílios e imbecilidades sofreu Jorge de Sena
durante toda a vida e este misto de preito e de omissão está na linha
do que a pandilha execrável é capaz, tratando-se de dar com uma mão
para tirar com a outra, como é próprio do descaramento e do oportunismo
que, imparável, os há-de condenar ao esquecimento de nunca terem nome,
nem espinha dorsal, nem verticalidade, nem ossos que alguma vez possam
passar por nossos.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
2.9.11
Um verso (98)
Um verso de Amadeu Baptista
(viva lá, Praia da Granja):
Guardo no coração uma voz que vai de lugar em lugar
Amadeu Baptista
.
11.7.11
Amadeu Baptista (Situação da indústria portuguesa)
SITUAÇÃO DA INDÚSTRIA PORTUGUESA
NO INÍCIO DA DÉCADA
Às vezes, quando a pressão das entregas
aumenta, ajudo a carregar os camiões,
mas o envenenamento é o fim-de-linha,
onde cada tarefa é como a execução
de um castigo. Pagam-me mal, mal tenho
tempo para comer um pão ao meio-dia, sinto
que a força dos meus dezasseis anos não corresponde
ao parco salário que me devem.
De aqui a uns anos, irei cumprir
o serviço militar, perderei a precariedade
do emprego, ainda ontem uma das mulheres
quase ficou sem um braço no sector velocíssimo
da transformação. Servir a pátria é, começo
a não ter dúvidas, sofrer esta amargura
endémica, a pobreza a alcançar-nos
em pouco mais de um passo, os olhos
corrompidos pelo vinagre da luminosidade,
a consciência das coisas ilegítima
na compreensão da linguagem, eu calo-me,
os outros falam por mim. Olho em volta, sinto
inexplicavelmente a natureza fortuita das coisas,
embrenho-me aos domingos na multidão
triunfante, gasto em vinho a humilde alegria
que as pequenas vitórias me consentem,
tremem-me as mãos só de pensar que existe
amor no mundo, algures, longinquamente,
no infinito da nossa ignorância. Gostava
de saber o nome deste usufruto da terra,
quais as cumplicidades que tornam tudo isto possível,
em que lugar de fogo e de agrura
o rosto corresponderá ao rosto e o silêncio
a esta forma de fome secular. Tudo é assim
liminarmente sujo, carregado de sangue
e de arestas, e duvido das proféticas sentenças
sobre a vida que me oferecem,
sem que as contemple, ao menos um instante.
Ao fim da noite, aconchego-me ao sol da praia
predilecta do meu coração, tudo me dói,
é um lençol de luz e solidão o que recebo, creio
na morte como única solução, maldito quem
por minha vez alguma vez pecou
sem que ratificasse a estranha recompensa
de ter aberto uma passagem para nenhum lugar.
Agora estou aqui e não posso pensar, uma outra
carga chama-me, obedeço cegamente
ao encarregado geral, ninguém suspeita
mas tenho dentro de mim uma indústria
onde ninguém produz porque não vale a pena.
Amadeu Baptista
[Amadeu Baptista]
.
26.5.11
Amadeu Baptista (O centro do mundo)
O CENTRO DO MUNDO (16)
Não leves nenhum desespero para casa.
Os que sofrem hoje
não são os que sofrerão amanhã.
Os que imploram hoje
não são os que implorarão amanhã.
A medida de todas as coisas
é como a mulher que chora no centro do mundo. Chora para constatar que está viva.
Serve-te de um copo de leite.
Vê como é branco.
Constata como é puro.
Observa como só até um preciso momento
é útil e fruível,
Qualquer pergunta que possas fazer sobre ti
terá sempre uma única resposta
dentro de ti.
És como o leite,
puro e fruível
até ao preciso momento em que se ferve
ou azeda.
AMADEU BAPTISTA
Arte do Regresso
(1999)
4.5.11
Amadeu Baptista (Aparecimento de Cristo à Virgem)
APARECIMENTO DE CRISTO À VIRGEM
Não penses que morri por ter partido
ou que parti só por ter morrido.
Onde estive não estive e onde estou
não estive nunca. Não penses que me vês
só por me veres, ou que por não me veres
eu não existo. Nem penses que existo
se me vires, ou mesmo que existes
por me veres. Não penses que me amas
porque amas o que os teus sentidos
de mim sentem. Nem penses que me sentes
ou me amas só porque me sentiste e amaste.
Não somos nada e tudo somos sempre,
embora sempre eterna seja a eternidade
e a nossa eternidade não exista.
AMADEU BAPTISTA
Paixão
Porto, Afrontamento
(2003)
[Amadeu Baptista]
>> Um buraco na sombra (13p) / Triplo V (15p) / Wikipedia
.
28.6.07
Um verso (35)
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