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12.12.09
Enrique Vila-Matas (O rei do mambo)
(O rei do mambo...)
Estava a pensar nisto tudo quando Julita Grau me perguntou se andava a escrever alguma coisa e disse-lhe que estava a acabar um romance que assassinava os leitores.
E à pergunta de se estava a preparar mais alguma coisa, dei uma grande fumaça no charuto havano e de repente ocorreu-me o título de uma peça de teatro que se intitularia Ao Sul das Pálpebras.
E quando ela quis saber de que tratava essa peça, aproveitei uma pausa na conversa de Paloma Picasso com os dois autores argentinos para olhar para o céu estrelado de Paris e dizer com falsa modéstia, embora sem conseguir ocultar a voz altiva de quem se julga a séculos de luz dos seus contemporâneos:
“Bom, não quero inchar as velas, mas tenho a intuição de que será uma peça interessante, é um estudo psicanalítico do olhar”.
Picasso e os dois dramaturgos olharam-me com estranheza.
Não me intimidei com nada, pelo contrário.
"Psicanalítico do olhar”, repeti.
Estava absolutamente convencido de que era o rei do mambo.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 106.
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7.12.09
Enrique Vila-Matas (Um grande cabrão)
(Um grande cabrão...)
Dito isto, talvez fique também explicado porque é que, por exemplo, uma certa ocasião, um dia em que recebi de manhã o vale de correio do meu pai, julguei sentir-me rico e ter uma alma apodrecida e capitalista e fui deliberadamente ao Café La Rotonde beber champanhe e ali, sem que naturalmente ninguém se pudesse aperceber disso, dediquei-me a desforrar-me interiormente e a flartar com a minha mente e a ir trasformando-a numa mente monstruosa – hoje vejo-o com muita nitidez – tentando não desaproveitar todas as possibilidades de ser um grande cabrão, que eu dizia para comigo que podia ser, se quisesse.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 97.
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24.11.09
Enrique Vila-Matas (Quarenta anos de luz)

(Quarenta anos de luz...)
Á saída do edifício, em plena rue de Rennes, ela entregou-me o papel e disse-me algo que não entendi absolutamente nada, parecia dito de propósito no seu francês superior.
Não entendi o que ela me dizia, mas sim o que estava escrito no papel.
Entendi perfeitamente que devia pagar mais de quarenta anos de recibos de luz, quer dizer, que não só devia pagar os consumos das luzes de boémia de Copi, Javier Grandes, o travesti Amapola, o cineasta Milosevic, a actriz de teatro búlgara, o amigo do mágico Jodorowsky, mas também me tocava pagar a conta da luz atrasada da Resistência francesa, a do camarada Miterrand nos seus tempos de águas-furtadas.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 113.
16.11.09
Enrique Vila-Matas (Corte de luz)

(Corte de luz...)
Uns dias depois, ao entardecer, estava eu nas águas-furtadas preparando-me tranquilamente para limpar o cachimbo quando me cortaram a luz.
A princípio, inclusive, trocei comigo mesmo e disse que aquilo era como dizer adeus às luzes da boémia.
Mas à medida que passavam os minutos e ia caindo a noite, fui-me dando conta de que o assunto era sério.
O vizinho negro emprestou-me uma vela contrariado e passei a noite com a chambre a meia-luz à espera que se fizesse dia para ir falar com Marguerite e contar-lhe o que se tinha passado.
Devia mostrar-me indignado?
Com ela claro que não.
Bem vistas as coisas, devia-lhe sete ou oito meses de renda.
O que é que esperava?
Não pagar e ter eternamente luzes de boémia nas minhas águas-furtadas?
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 113.
9.11.09
Enrique Vila-Matas (Está a ouvir-me, Miss Stein?)

(Está a ouvir-me, Miss Stein?)
Às vezes eu passava, ao entardecer, diante daquela casa da rue de Fleurus e desejava que fazê-lo me desse sorte.
Nunca me deu, pelo menos enquanto eu permaneci em Paris, de maneira que este Agosto, quando fui de novo ver a casa talismã, olhei para a placa comemorativa, pensei em Gertrud Stein e na sorte que não me deu e no medo que eu tinha noutro tempo que o seu espírito descobrisse as minhas modestas ligações com Joyce, e também pensei, ou melhor, recordei os problemas que então eu tinha com a unidade, a harmonia e para já não falarmos com o estilo e com o factor tempo.
E desta vez desabafei, disse em voz muito alta, arriscando-me a ser tomado por louco:
“Miss Stein, a senhora está aí, consegue ouvir-me?
“Olhe, olhe-me bem, sou Heminguay.
“Consegue ver-me?
“Ulisses é bom como o caralho é bom como o caralho é bom como o caralho.
“Está a ouvir-me, Miss Stein?”
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 51.
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23.10.09
Enrique Vila-Matas (Estou cansada de ti)

(Estou cansada de ti, Hemingway...)
Nesse dia 25 de Agosto, a minha mulher e eu libertámos os nossos impulsos mais secretos, como se estivéssemos a libertar as caves do Ritz, libertámo-nos talvez demasiado.
Começámos por pedir dois daiquiris e, quando me animei um pouco, contei-lhe o choque militar de Malraux com Hemingway no Ritz.
“Estou cansada de ti, Hemingway”, disse-me de repente a minha mulher, filha e neta de militares.
E eu deveria ter-me lembrado nesse momento que nela pernoitava – o verbo mais adequado é precisamente este termo castrense, pernoitar – uma fobia sua do tipo militar, um ódio apenas nocturno e com álcool pelo meio, uma oculta mas séria aversão contra mim e sobretudo contra a minha mania de que alguém finalmente um dia, mesmo que seja sob a forma de mentira piedosa, me diga que me pareço fisicamente com Hemingway.
Mas não dei a devida importância àquele primeiro toque de agressividade.
Pedimos mais dois daiquiris e depois outros dois e a seguir mais dez, e eu passei a chamar aos daiquiris cocktails Malraux.
Soava bem, parecia-me que soava na perfeição: cocktails Malraux.
Mas já se tinha tornado tudo perigoso, como um gigantesco cocktail molotov.
De repente descobrimos que estávamos ali passava já da madrugada e, para o dizer em termos bem hemingwaianos, na outra margem e entre as árvores.
Rindo como felizes e verdadeiros palermas, as horas tinham-nos passado a voar e fazia-se-nos dia no bar.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.
Nesse dia 25 de Agosto, a minha mulher e eu libertámos os nossos impulsos mais secretos, como se estivéssemos a libertar as caves do Ritz, libertámo-nos talvez demasiado.
Começámos por pedir dois daiquiris e, quando me animei um pouco, contei-lhe o choque militar de Malraux com Hemingway no Ritz.
“Estou cansada de ti, Hemingway”, disse-me de repente a minha mulher, filha e neta de militares.
E eu deveria ter-me lembrado nesse momento que nela pernoitava – o verbo mais adequado é precisamente este termo castrense, pernoitar – uma fobia sua do tipo militar, um ódio apenas nocturno e com álcool pelo meio, uma oculta mas séria aversão contra mim e sobretudo contra a minha mania de que alguém finalmente um dia, mesmo que seja sob a forma de mentira piedosa, me diga que me pareço fisicamente com Hemingway.
Mas não dei a devida importância àquele primeiro toque de agressividade.
Pedimos mais dois daiquiris e depois outros dois e a seguir mais dez, e eu passei a chamar aos daiquiris cocktails Malraux.
Soava bem, parecia-me que soava na perfeição: cocktails Malraux.
Mas já se tinha tornado tudo perigoso, como um gigantesco cocktail molotov.
De repente descobrimos que estávamos ali passava já da madrugada e, para o dizer em termos bem hemingwaianos, na outra margem e entre as árvores.
Rindo como felizes e verdadeiros palermas, as horas tinham-nos passado a voar e fazia-se-nos dia no bar.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.
18.10.09
Enrique Vila-Matas (Uma lésbica delambida)

(Uma lésbica delambida...)
Uma tarde de inverno, nas águas-furtadas, enquanto escrevia, pareceu-me que Elena Villena, um dos personagens de La asesina ilustrada, estava atrás de mim e ditava-me o que eu devia dizer sobre ela.
“Não sou lésbica”, ouvi-a dizer nitidamente.
Voltei-me e não a vi, mas dava a impressão de que acabava de se esfumar uma décima de segundo antes.
“Pois agora passas a ser lésbica o tempo todo”, disse-lhe.
Não se ouviu resposta.
Agradou-me saber que tinha autoridade suficiente para evitar a rebelião dos meus personagens, saber que não podia nem devia passar-se comigo o que acontecia a Unamuno em Niebla e que no colégio tantas vezes nos tinham contado.
E o que mais me agradava por ser escritor era a liberdade que alcançava na solidão das minhas águas-furtadas.
Uma liberdade bem alheia ao patriarcal e autoritário mundo familiar e político que deixara para trás em Barcelona.
Não me tinha convertido em escritor e num homem livre em Paris para que viesse uma delambida, ao fim e ao cabo inventada por mim, estragar-me tudo com os seus caprichos e ordens.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 58.
Uma tarde de inverno, nas águas-furtadas, enquanto escrevia, pareceu-me que Elena Villena, um dos personagens de La asesina ilustrada, estava atrás de mim e ditava-me o que eu devia dizer sobre ela.
“Não sou lésbica”, ouvi-a dizer nitidamente.
Voltei-me e não a vi, mas dava a impressão de que acabava de se esfumar uma décima de segundo antes.
“Pois agora passas a ser lésbica o tempo todo”, disse-lhe.
Não se ouviu resposta.
Agradou-me saber que tinha autoridade suficiente para evitar a rebelião dos meus personagens, saber que não podia nem devia passar-se comigo o que acontecia a Unamuno em Niebla e que no colégio tantas vezes nos tinham contado.
E o que mais me agradava por ser escritor era a liberdade que alcançava na solidão das minhas águas-furtadas.
Uma liberdade bem alheia ao patriarcal e autoritário mundo familiar e político que deixara para trás em Barcelona.
Não me tinha convertido em escritor e num homem livre em Paris para que viesse uma delambida, ao fim e ao cabo inventada por mim, estragar-me tudo com os seus caprichos e ordens.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 58.
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10.10.09
Enrique Vila-Matas (Com dois dentes a menos)

(Com dois dentes a menos...)
Eu estava a falar com uns norte-americanos absolutamente estúpidos quando de repente a minha mulher, na sua bebedeira extrema, deixou de rir, porque lhe pareceu que os meus maltrapilhos – foi o que disse – a olhavam mal.
“Quais maltrapilhos?”, perguntei desconcertado.
Os maltrapilhos eram, segundo ela, os estúpidos com quem eu falava, “o teu exército pessoal”, os últimos bêbados do bar.
Olhei-a e recordou-me o coronel Malraux e não consegui evitá-lo, escapou-se-me isto:
“Não estás a pensar que te quero fuzilar?”.
Nunca devia ter feito esta pergunta, nunca.
Denunciei que também uma certa fobia pernoitava em mim.
Seguiu-se uma refrega militar, eu no meu papel de papá Hemingway e ela no de Malraux.
Seguiu-se uma refrega terrível e eu perdi a guerra e os dentes, e também perdi a confiança em mim e a confiança nela.
À minha mulher, não a pude odiar mais quando no dia seguinte me disse que estava mais bonito.
“Com dois dentes a menos, já não te pareces tanto com Hemingway”, ironizou.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.
Eu estava a falar com uns norte-americanos absolutamente estúpidos quando de repente a minha mulher, na sua bebedeira extrema, deixou de rir, porque lhe pareceu que os meus maltrapilhos – foi o que disse – a olhavam mal.
“Quais maltrapilhos?”, perguntei desconcertado.
Os maltrapilhos eram, segundo ela, os estúpidos com quem eu falava, “o teu exército pessoal”, os últimos bêbados do bar.
Olhei-a e recordou-me o coronel Malraux e não consegui evitá-lo, escapou-se-me isto:
“Não estás a pensar que te quero fuzilar?”.
Nunca devia ter feito esta pergunta, nunca.
Denunciei que também uma certa fobia pernoitava em mim.
Seguiu-se uma refrega militar, eu no meu papel de papá Hemingway e ela no de Malraux.
Seguiu-se uma refrega terrível e eu perdi a guerra e os dentes, e também perdi a confiança em mim e a confiança nela.
À minha mulher, não a pude odiar mais quando no dia seguinte me disse que estava mais bonito.
“Com dois dentes a menos, já não te pareces tanto com Hemingway”, ironizou.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 68.
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29.9.09
Enrique Vila-Matas (Diálogos reaccionários)

(Diálogos reaccionários...)
Procurei manter a calma antes de tomar uma decisão radical em relação aos diálogos do meu romance.
Paguei a despesa e fui para as águas-furtadas e, após uma nervosa reflexão, suprimi todos os diálogos que até então tinha escrito, salvo três que considerei inevitáveis; pagaria uma pequena quota de reaccionário, mas não estava disposto a mudar o meu romance todo.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 96.
Procurei manter a calma antes de tomar uma decisão radical em relação aos diálogos do meu romance.
Paguei a despesa e fui para as águas-furtadas e, após uma nervosa reflexão, suprimi todos os diálogos que até então tinha escrito, salvo três que considerei inevitáveis; pagaria uma pequena quota de reaccionário, mas não estava disposto a mudar o meu romance todo.
- ENRIQUE VILA-MATAS, Paris nunca se acaba, 96.
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