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23.6.12

Jean l'Anselme (O amor louco)





L’AMOUR FOU

                          (Avec un clin d’œil à André Breton)




Je suis à toi comme la sardine est à l’huile,
le maquereau au vin blanc, le loup au
fenouil, le brochet au beurre blanc.
Je suis à toi comme la glace est à la pistache,
le poulet aux hormones, la soupe à la
grimace, mon père avec la bonne.
Je suis à toi comme le vinaigre est à l’estragon,
la pêche à l’espadon, la salade aux lardons,
les gaîtés à l’escadron.
Je suis à toi comme le moutard à sa nourrice,
le motard à la police, les aristos à la lanterne,
les peupliers à la poterne.
Je suis à toi comme le yaourt est à la vanille, ton
sexe au parfum de glaïeul, le petit salé
aux lentilles, la mémère à son épagneul.
Je suis à toi comme tu es à moi, comme le ver
est à soie, comme l’avenir est à nous,
comme le garde est à vous, comme le train
est à l’heure.
Je suis à toi
comme les tiques aux bœufs.
On dit n’importe quoi
quand on est amoureux.



Jean l’Anselme





                      (Piscando o olho a André Breton)


Eu sou para ti como a sardinha para o azeite,
a cavala para o vinho branco, o barbo
para o funcho, o lúcio para a manteiga.
Eu sou para ti como o gelado para o pistachio,
o frango para as hormonas, a sopa para
a careta, meu pai mais a criada.
Eu estou para ti como o vinagre para o estragão,
a pesca para o peixe-espada, a salada para o toucinho,
as vagens para o esquadrão.
Eu estou para ti como o bébé para a ama,
o motoqueiro para a polícia, os lordes para a lanterna,
os choupos para a poterna.
Eu sou para ti como o iogurte para a baunilha, teu
sexo para o odor do gladíolo, o salgadinho
para as lentilhas, a avozinha para o seu cão.
Eu estou para ti como tu para mim, como o bicho
está para a seda, como o futuro para nós,
como a guarda está para vós, como o comboio
vem à hora.
Eu estou para ti
como as carraças para os bois.
Dizemos tudo e mais alguma coisa
quando estamos apaixonados.



(Trad. A.M.)

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9.1.12

Jean l'Anselme (Discurso sobre a poesia)






DISCURSO SOBRE A POESIA




Se me perguntam o que é a poesia, eu respondo que ninguém sabe bem o que é, porque cada poeta a define a seu modo, mas que a reconhecemos quando a encontramos.


Digo mais:
- Que a poesia é um pouco como a Blédine, gostamos dela muito antes de aprender a falar;
- Que a poesia é com certeza o Aniceto, meu primo, já que a mãe dele está sempre a dizer:
“É um poema!” tomando o céu por testemunha e pegando-lhe a cabeça entre as mãos.


Se me perguntam o que é um poeta, eu respondo:
- Que o poeta é alguém que nunca aparece na tv por não ser conhecido, e não é conhecido porque nunca aparece na tv;
- Que é outrossim alguém que se levanta de noite por uma necessidade urgente, em que também é preciso papel, para contar os pés pelos dedos e nos dedos aqueles que os lêem.




Jean l’Anselme



[Mais...]


(Trad. A.M.)

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20.10.11

Jean l'Anselme (Arte poética)






ART POÉTIQUE



Vingt fois sur le métier
dépolissez l'ouvrage,
un vers trop poli
ne peut pas être...au net.
Méfiez-vous des vers luisants !
Faites du vers dépoli
votre vers cathédrale,
un poème au pied bot
ne peut être que bancal.



Jean l’Anselme






Vinte vezes no ofício
despoli a obra,
um verso muito polido
não pode ser... asseado.
Desconfiai dos versos brilhantes!
Fazei do verso despolido
o vosso verso martelado,(*)
um poema de pé torto
não passará de cambado.


(Trad. A.M.)



(*) ‘Vers cathédrale’ parece evocar, ludicamente, ‘verre cathédrale’, que o dicionário aponta como vidro translúcido de superfície irregular, i.e. martelado.
Outra versão, aliás parcial:  Do trapézio  (L.P.)



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30.7.11

Jean l'Anselme (O grande amor)







C'EST LE GRAND AMOUR



Elle avait des lunettes
et lui aussi
si bien qu'ils se voyaient mieux
pour se regarder dans les yeux.

Elle avait un Sonotone
et lui aussi
si bien qu'ils s'entendaient bien
et restaient sourds à tout
ce qui les entourait.

Mais, il avait un grand nez
et elle était obligée
de se mettre très en biais
pour l'embrasser.
Et sa moustache
ça la chatouillait ...

Il n'y a pas de bonheur complet.


Jean l'Anselme






Ela usava óculos
e ele também
apesar de se verem melhor
ao olharem-se nos olhos

Ela usava um Sonotone
e ele também
apesar de se ouvirem bem
e ficarem surdos a tudo
o que os cercava

Mas ele tinha um nariz grande
e ela era obrigada
a pôr-se muito de esguelha
para o abraçar.
E o bigode
fazia-lhe cócegas.

Nunca é completa a felicidade.


(Trad. A.M.)

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20.7.11

Jean l'Anselme (Arte moderna)






L'ART MODERNE



Un matin, alors que dans l'aube sereine
tintinnabulaient les clarines des troupeau
et que, dans les brouillards naissants,
les feux des lucioles s'éteignaient
dans le parfum des asphodèles,
ma femme, en mettant le lit dehors me dit :
c'est fou comme tu transpires quand tu dors !


Jean l’Anselme





Um dia, enquanto na serena aurora
tiniam os chocalhos do rebanho
e se extinguiam as luzes dos pirilampos,
por entre o nevoeiro e o perfume dos asfódelos,
minha mulher diz-me, ao pôr a cama a arejar:
é incrível como tu transpiras a dormir!


(Trad. A.M.)




>>  Nouvelle Revue Moderne (Discours sur la poésie) / Idem (6p) / Printemps des poètes (5p) / Revue Texture (6p) / Baglin Michel (6p)

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