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25.1.19

Ana Paula Inácio (Acrobacias)





ACROBACIAS



sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o nosso inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
– superiores ou inferiores –
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
tornava-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ias
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.

Ana Paula Inácio


21.12.15

Ana Paula Inácio (Heranças)





HERANÇAS



abandonará a casa
teu pai
com olhos de rico
bolso de pobre
como todo aquele que
pressentindo-a
lhe toma o lugar

quando o dia findar
perseguirás o caminho mais longo
sabê-lo-ás pendente
do ramo mais forte
da penúltima árvore

a última deixá-la-á para ti


Ana Paula inácio

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27.2.15

Ana Paula Inácio (Primeira flor)





PRIMEIRA FLOR



Os milagres acontecem
a horas incertas
e nunca estou em casa
quando o carteiro passa.
Hoje, abriu a primeira flor
e eu disse é um sinal.
Olho em volta: estou só
trago esta sombra comigo.


Ana Paula Inácio

[Pátria pequena]

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13.9.14

Ana Paula Inácio (Senhora Vermeer)





SENHORA VERMEER



À senhora Vermeer coube-lhe a sorte
de não caber nos quadros
de Vermeer, seu marido.
Não possuía o traço do anil
ou do ouro
que lhe caíam o regaço
como única declaração de posse
das jóias e do marido
que não era jóia nenhuma
como dizia a criada
que sabia como se cozinhavam as coisas
à rapariga do brinco
que ele pintou para sua desgraça.
A senhora Vermeer não ficou na História de Arte
só na das histéricas lágrimas
e inúteis posses,
desvairada e borratada
na sua pintura.


Ana Paula Inácio



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12.10.09

Ana Paula Inácio (Acrobacias)






ACROBACIAS


Sentados em Trafalgar Square
no intervalo de amigos
com o tempo entre as mãos
treinávamos o nosso inglês
num inquérito de revista
com Francis Bacon na capa
que perguntava:
qual dos membros
- superiores ou inferiores -
preferíamos perder
(esta ablação em língua estrangeira
tornava-se indolor, quase anestesiada)
respondeste: os braços
as pernas conservá-las-ias
como a liberdade de poder andar
respondi: as pernas
não queria ver-me
impedida de abraçar.
Assim juntando as nossas
perdas
eu abraço-me a ti
e peço-te anda, mostra-me o mundo
e quando nos cansarmos
abraçar-me-ás, então, com as pernas
e eu
andarei com os braços.


Ana Paula Inácio

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17.7.09

Ana Paula Inácio (Deixa o tempo)









DEIXA O TEMPO





deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia



abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro



com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.



Ana Paula Inácio


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22.4.09

Ana Paula Inácio (Ó Cesar)









Ó CESAR






não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soup
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem,
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer.




Ana Paula Inácio


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14.2.09

Ana Paula Inácio (Queria que me acompanhasses)









QUERIA QUE ME ACOMPANHASSES






Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos




Ana Paula Inácio


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29.12.08

Ana Paula Inácio (Homenagem)








HOMENAGEM A 4 POETAS E 1 CINEASTA





Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
— foda-se! —
de morango.




Ana Paula Inácio


Telhados de Vidro, n.º 11,
Averno, Lisboa, 2008.


[Hospedaria Camões]
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Lugares: Um-buraco-na-sombra (16p+bio) / Portugal poetry (7p+nota (ingl.) /
Instituto Camões (2p+nota)
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