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1.8.14
António Franco Alexandre (Primeiras moradas-14)
PRIMEIRAS MORADAS (14)
a arte do retrato, a natureza das palavras
o corpo, que as ficções habitam
como um recinto mal iluminado, aberto
sobre a noite de luzes rectilíneas, longe,
descrevendo o silêncio e, dentro do silêncio,
a sem memória súbita de nunca;
o sentimento penetrável, embrulhado
em algumas imagens, receio, sempre as mesmas,
uma estrada, uma estrela, as arestas do frio,
a vulgar aventura de uma esquina, quando
o infinito pudor os descobre, despidos
de qualquer comoção ou despedida,
minuciosos são os mapas, terras
onde jamais viajas, entregue a essas
razões inúteis que te deste,
a gelatina branca das palavras, o retrato
mal concebido de um ser extraterrestre,
a brandura de nada ter sentido.
António Franco Alexandre
[Luz & sombra]
.
4.4.14
Um verso (136)
Um verso de António Franco Alexandre
(um alexandrino, por assim dizer):
Olho-te agora e já não estremeço
.
1.12.13
António Franco Alexandre (Terceiras moradas)
TERCEIRAS MORADAS (2)
Hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas
fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos
encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.
António Franco Alexandre
[Luz & sombra]
.
18.1.10
António Franco Alexandre (Segundas moradas - 22)
SEGUNDAS MORADAS (22)
meio da tarde em campo de besteiros: água, pequena e fria,
caindo do granito; e na penumbra,
as flechas. penso: não poderei jamais
esquecer este sítio, este limite,
a serena harmonia de colinas e corpos.
mas tu escondes a boca com as mãos, e já a noite
anónima nos funde; a nuvem cobre campos desolados,
e a paciente traça rói o arco-íris.
vou ficando invisível, aos pedaços,
comendo laranjas no escuro.
o teu corpo é dos que nunca lêem livros,
sabem de estradas e de pássaros, pouco mais;
a tua morada tem no telhado as frinchas
da lei, onde se vê o céu; e eu,
absorto de silêncio e de chuvisco,
ó tosco cantador!,
dissolvo-me na sombra da paisagem,
separo-me de nós, de mim, serei só quase
a chama no carvão que fica ardendo
noite fora, noite fora.
acordaremos, já sei, transparentes e sábios,
do outro lado da criação do mundo;
uma mão presa à luz, outra nas trevas,
um só tronco de chamas, uma asa.
ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Poemas
Assírio & Alvim
(1996)
.
12.6.06
António Franco Alexandre (É mais fácil de longe imaginar)

É mais fácil de longe imaginar
o que seria ter-te aqui presente
do que seria ter-te e não saber
com que forma de corpo receber-te.
Talvez um amplo véu oriental
ou o brilho mental de uma armadura
me deixassem arder sem ser molesto
no lume horizontal de uma figura.
Se te vejo, já está o meu desejo,
enquanto estavas longe, satisfeito;
no teu olhar encontro tudo quanto
à altura de amor é mais perfeito.
E no entanto, perto, fico incerto
se não é melhor bem o que imagino.
ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE
Duende
(2002)
BIOGRAFIA
António Franco Alexandre nasceu em 1944, em Viseu, onde viveu até ir para Toulouse (França), estudar Matemática, aí vivendo até 1969.
Partiu depois para Harvard para continuar a estudar Matemática.
Regressou em 1971 a França, desta vez Paris.
Em 1975, com um doutoramento em Matemática, voltou a Portugal e foi convidado para leccionar Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Estreou-se como poeta ainda na década de sessenta, mas foi sobretudo a partir da publicação de "Sem Palavras nem Coisas" (1974) que a sua obra se afirmou, com um «discurso centralmente inovador», segundo Joaquim Manuel Magalhães, numa poesia que cruza diversas referências culturais.
Considerado por Óscar Lopes a melhor revelação poética dos anos oitenta, António Franco Alexandre surpreende por uma ostensiva negação dos valores lógicos do discurso: não se trata nem do não-sentido surrealista que encontra a sua ordem na própria desordem do inconsciente, nem do nonsense que procura pelo absurdo colocar em causa a possibilidade de comunicação da linguagem delida pelo seu uso quotidiano; mas, como propõe Óscar Lopes, de um “pré-sentido, ou pré-percepção, um breve indício de sentido”, que confere a impressão de “uma poesia do subliminar, mas de um subliminar que todavia acede à palavra, como configuração semi-inteligível e todavia flagrante”.
Em 1996 reuniu toda a sua poesia (com excepção do primeiro livro, "Distância") no volume "Poemas", e em 1999 publicou "Quatro Caprichos", ao qual foi atribuído o Prémio APE de Poesia 1999.
Franco Alexandre, que na poesia portuguesa contemporânea não se sabe situar – "Não sei quem é a minha família, não sei se existe..." – continua a tomar como influência maior os grandes textos bíblicos.
Foi para os poder ler que esteve diversas vezes em Jerusalém a estudar hebraico. "É uma cultura que hoje quase desconhecemos...", diz ele.
Obras: "A Distância" (1969), "Dos Jogos de Inverno", "Sem Palavras Nem Coisas" (1974), "Os Objectos Principais" (1979), "Visitação" (1982), "A Pequena Face" (1983), "As Moradas 1&2" (1987), "Oásis" (1992), "Poemas" (1996), "Les Objets Principaux" (1996), "Quatro Capricho" (1999).
Fonte (biografia) / Outros poemas
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