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25.6.25

Antonio Pereira (Não há nada)



No hay nada más cansado que el rostro de un domingo 
si son las cinco de la tarde y llueve, 
no hay recuerdo más triste que el de los soportales 
y la humedad calando la suela del zapato. 
Pero a veces con sol y en día de diario, 
más veces cada vez, casi todas las veces, 
la fatiga del mundo hace eternas las horas.
Si supieras qué largos van los trenes, 
el regreso obstinado de las moscas, 
lo inútil de esperar al camarero, 
la lacerante tos de los dentistas, 
el avión que nunca llega a este aeropuerto de El Ecuador, 
disculpen por favor señores pasajeros 
con destino a Guayaquil, 
y nunca llega. 
                      No creas que te engaño.
Reconozco también las horas tensas, 
ocasiones de amor, corazonadas 
que avisan de una súbita alegría. 
Pero tú ya no corres, 
los jaguares 
se suben a la acera a atropellar ancianos, 
tú piensa en el futuro que te perdonan 
y en tanto aburrimiento. 
Recuerda los dentistas.
Y aquello que enseñabas, El que no se consuela 
es porque no quiere.
Descansa, madre.
Duerme.

Antonio Pereira


Não há nada mais cansado que a face dum domingo, 
às cinco da tarde, a chover,
não há lembrança mais triste que a das arcadas
e a humidade a entrar na sola dos sapatos.
Mas por vezes com sol e em dias de semana, 
mais vezes de cada vez, quase todas as vezes,
a fadiga do mundo faz as horas eternas.
Se soubesses que longos vão os comboios,
o regresso obstinado das moscas,
a espera inútil do empregado,
a tosse aflitiva dos dentistas,
o avião que nunca chega aqui a Equador,
desculpem por favor senhores passageiros 
com destino a Guayaquil,
e jamais chega.
                Não penses que te engano.
Reconheço também as horas tensas,
alturas de amor, saltos do coração 
que anunciam uma súbita alegria.
Mas tu já não corres,
os jaguares
sobem a avenida a atropelar idosos,
tu pensa no futuro que te poupam
e tanto aborrecimento.
Recorda os dentistas.
E aquilo que ensinavas, o que não se consola 
é porque não quer.
Descansa, mãe.
Dorme.

(Trad. A.M.)
.

25.9.24

Antonio Pereira (Quando descanso os olhos)




CUANDO DESCANSO LOS OJOS
 

Cuando descanso los ojos
 y voy flotando en el sueño,
lo que escucho todavía 
es el sonido del hierro. 

Todo sonaba en la tienda 
enemiga del silencio:
los clavos sobre el platillo 
de la balanza cayendo
y el choque de las caderas 
redondas de los pucheros. 

La chapa galvanizada 
en hornos altos de fuego 
vibraba, curvada y dulce 
materia de los calderos. 

Las guadañas se escogían 
arrancándoles el eco.
¡Todo un bosque de metales
 y yo perdido en su centro! 

Podré olvidar el color
de las cosas que me vieron 
crecer desde los estantes, 
pero su canción no puedo. 

Lo que sonaba en la tienda 
vuelve en la niebla del sueño, 
tan claro que me pregunto
si estoy soñando despierto.

Antonio Pereira 

 

Quando descanso os olhos
e vou boiando no sonho
o que sinto ainda
é o ruído do ferro. 

Tudo soava na tenda
inimiga do silêncio,
os cravos a cair
no prato da balança
e as panelas chocando
umas contra as outras.

A chapa galvanizada
em altos fornos de lume
vibrava, matéria-prima
suave dos caldeiros.

As gadanhas escolhiam-se
arrancando-lhes o eco.
Todo um bosque de metais
e eu perdido lá dentro! 

Poderei esquecer a cor
das coisas que me viram
crescer postas nas prateleiras
mas a música não posso. 

O que soava na tenda
volta agora na névoa do sonho,
tão claro que me interrogo
se não estou sonhando acordado.
 

(Trad. A.M.)

 .

17.4.23

Antonio Pereira (Canção da raia)




CANCIÓN EN LA RAYA 

 

¡Qué bien huele Portugal! 
El aire de sus pinares
llega hasta Ciudad Rodrigo. 

Vienen a aromar en mí,
si desde Ayamonte miro, 
briznas de algarves maduros 
y limones extendidos. 

Si desde Aracena, pan.
Si desde Zamora, 
vino dorado al lado del Duero. 
¡Pájaros, si desde el Miño! 

Toda la raya rayana
me huele a amores antiguos. 

Para pasar la frontera, 
por el aroma me guío. 
Y nadie podrá decirme, 
nadie,
que voy perdido.
 

Antonio Pereira

 

 
Que bem cheira Portugal!
Chega a Cidade Rodrigo
o ar dos seus pinheirais. 

Vêm perfumar-me a mim,
se olho de Ayamonte,
brisas de algarves maduros
e limões olorosos. 

Se de Aracena, pão fresco.
E se de Zamora,
vinho dourado da beira do Douro.
Pássaros, no caso do Minho. 

Toda a raia raiana
me cheira a antigos amores.

Para passar a fronteira
eu pelo aroma me guio.
E ninguém me diga,
ninguém,
que ainda acabo perdido.
 

(Trad. A.M.)

 .


8.11.21

Antonio Pereira (Oração)




ORACIÓN


Señor ya sabes mis cuidados con el butano y los grifos 
todo lo cierro bien pero es difícil desentenderse 
inspecciono la antena
las macetas con tantas criaturas que por debajo pasan 
sufro mucho Señor
y aunque te agradezco no haberme hecho cirujano 
ni conductor del autobús escolar
te pido que un ratito te quedes responsable
que aguantes todo esto mientras voy a un recado 
y cualquier día no vuelvo.
 

Antonio Pereira

  

Senhor bem sabes os meus cuidados com o gás e as torneiras
fecho tudo muito bem mas não é fácil desligar-me
verifico a antena
os vasos com tanta gente que passa por baixo
sofro muito Senhor
e embora te agradeça não me teres feito cirurgião 
nem condutor de carrinha escolar
peço-te que tenhas tino só um bocadinho
e olhes por tudo enquanto eu vou a um recado
e qualquer dia não volto 

(Trad. A.M.)

 .

25.5.20

Antonio Pereira (Cemitério de Évora)





CEMENTERIO DE ÉVORA



«Aquí yace José
Pinto da Silva,
tipógrafo esmerado, hombre de bien ...
Sus deudos lo recuerdan para siempre».

Y no fue vanidad, piedra gastada
en balde. A muchos años de silencio
yo pienso en él, lo reconstruyo
tipógrafo esmerado,
hombre de bien,
José Pinto
da Silva.

Acaso nunca fue tan verdadero.


Antonio Pereira





“Aqui jaz José
Pinto da Silva,
esmerado tipógrafo, homem de bem...
Seus parentes o recordam para sempre”.

E não foi vaidade, nem pedra empregada
em vão. A muitos anos de silêncio
eu penso nele, reconstruo-o
esmerado tipógrafo,
homem de bem,
José Pinto
da Silva.

Se calhar nunca foi tão verdade.


(Trad. A.M.)

.

29.12.19

Antonio Pereira (Poética)





POÉTICA



Ahora sé que es un crimen de lesa poesía
exprimirle a la almendra del verbo su licor
y entregarlo a los indiferentes.
Oh, tú, poeta pródigo,
malgastador de lo que sólo es tuyo
durante un breve relajo de los dioses.
Retén el aire en el pulmón florido
hasta la hora en que tu canto
sea disculpado por la necesidad,
no vayas a jurar el verso en vano.


Antonio Pereira




Agora sei que é um crime de lesa poesia
espremer o licor da amêndoa do verbo
e entregá-lo aos indiferentes.
Oh tu, poeta pródigo,
esbanjador do que é só teu
por uma breve distração dos deuses.
Retém o ar nos pulmões
até que teu canto se desculpe por necessário,
não vás jurar o verso em vão.

(Trad. A.M.)

.

3.12.19

Antonio Pereira (Cuidados do olhar)




CAUTELAS DE LA MIRADA



Lo primero que se enseña a los camareros
es no mirar a los clientes que piden sólo agua
y si se les mira no verlos.

Lo primero que se enseña a los meritorios
es no mirar ni siquiera por fuera los sobres lacrados.

Lo primero que se enseña a los niños que nacen mongólicos
es no mirar para nada las estadísticas.

Lo primero que se enseña a los seminaristas
es no mirar a sus hermanas ni con ojos de hermano.

Lo primero que se enseña en las guerras
es no mirar por el punto de mira
de las armas que saben disparar ciegamente.

Lo primero que se enseña a los ciegos
es no mirar por los dedos
lo que aún se alcanza por la llaga del ojo.

Lo primero que se enseña a los blancos
es no mirar el blanco de los ojos del negro.

Lo primero que se enseña a las vírgenes
es no mirar el tamaño de la ofensa.

Lo primero que se enseña a las viudas
que de noche se miran en los espejos
no lo voy a decir por respeto a sus muertos.

Lo primero que se enseña a la flor
es no mirar con envidia
el vértigo de las abejas.

Lo primero que los dioses enseñan
es que no nos miremos de frente en su rostro.
Porque nunca sepamos.


Antonio Pereira



O que primeiro se ensina aos camareiros
é não olhar para os clientes que pedem água
ou olhando não reparar.

O que primeiro se ensina aos estagiários
é não olhar sequer por fora os envelopes lacrados.

O que primeiro se ensina aos meninos que nascem mongolóides
é não ligar para nada às estatísticas.

O que primeiro se ensina aos seminaristas
é não olhar para as irmãs nem com olhos de irmãos.

O que primeiro se ensina nas guerras
é não olhar pela mira
das armas que sabem disparar às cegas.

O que primeiro se ensina aos cegos
é não olhar pelos dedos
aquilo que se alcança pela chaga da vista.

O que primeiro se ensina aos brancos
é não olhar o branco dos olhos do negro.

O que primeiro se ensina às virgens
é não olhar para o tamanho da ofensa.

O que primeiro se ensina às viúvas
que de noite se miram ao espelho
não vo-lo direi por respeito aos falecidos.

O que primeiro se ensina à flor
é não olhar com inveja
para a vertigem da abelha.

O que primeiro ensinam os deuses
é não nos olharmos de frente em seu rosto.
Para que nunca aprendamos.

(Trad. A.M.)



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