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26.8.19

Pedro Andreu (Minha casa cheira a morto)





MI CASA HUELE A MUERTO



Hace ya siete años que mi padre
vive muerto en mi casa. Me sonríe sin dientes
cuando pongo la tele, me cambia de canal por fastidiarme.
Me la apaga. Se queja si cocino y no le sirvo plato,
aunque los dos sepamos que los muertos no comen.
Hace ya siete años que me fuma en el baño.
Sus cigarrillos negros apestan el pasillo,
el ascensor, armarios. A pesar de mis súplicas,
mis quejas. ¡Ni en paz cagar se deja en esta casa
a los muertos, pues vaya educación!, me echa en cara.
Hace ya siete años que duerme en el salón.
Mi padre muerto. Sus ronquidos me pueden
y salgo al comedor y grito basta. Él se ríe
y aflojo y terminamos hablando de la vida
hasta las tantas y él me dice esas cosas que dice:
mira, hijo mío, me vivo de la risa
con tus preocupaciones. O si no: mira, hijo,
la muerte no es tampoco para tanto,
mejor tomarla a broma que demasiado en serio.
A veces me lo encuentro en la nevera
echándose la siesta entre yogures.
Es que es verano, dice. Y ya no aguanto más
y exijo que se largue. Pero jamás me escucha,
se pone con sus cosas tan de muerto, se hace el zombi
por sacarme de quicio. Sabe que no me gusta.
Le digo que mamá se enfadaría, que
esto no es muy normal, que debería estar
en una urna negra en casa de su esposa,
como los otros padres que se han muerto.
Pero no me hace caso. Él siempre va a la suya.

Hace ya siete años que revuelve mis cosas,
me esconde los apuntes de Barroco, usa mi ropa,
me vuelve del revés los calcetines, los despareja.
Y si le digo algo, sale por la tangente:
me echa en cara que no lo saco a pasear como antes,
que me entretengo al salir del trabajo,
que no lo llevo al bar cuando juega su Atleti,
que lo echo del cuarto cuando me traigo amigas.
Un par de veces lo he puesto de patitas en la calle.
Pero es testarudo. Se queda tras la puerta,
toca al timbre con esa eterna persistencia de los muertos.
Yo trato de no abrirle, le grito que estoy harto,
que se marche, que se largue de viaje, que me olvide.
Pero no me hace caso. Él nunca me hace caso.
Como un perro se sienta y aúlla hasta que vence
y le ruego que pase. Pero esta vez se fue
como no se fue otras. Discutimos más fuerte.
Le dije que esto y que lo otro, que a veces
fue un mal padre, que faltaron quizás
más tardes junto a mí cuando era un crío,
que si esto y si lo otro y lo de más allá
y no sé qué le dije de cuando era niño
y nos llevó a una playa y nos gastó la broma
de dejarnos allí y largarse en su coche
y hubo que volver caminando hasta casa.
Se ve que le dolió. Que le dolió de veras
como a veces les duelen las cosas a los muertos.
Agachó las orejas, el rabo entre las piernas,
arrojó al cielo raso un puñado de moscas
de su boca. Se me marchó en silencio
escaleras abajo. No esperó el ascensor.

Siete años de tapas levantadas, de mordernos
como se muerden padre e hijo, vivo y muerto,
mañana tras mañana. Y ya van dos semanas
sin que apague mi tele ni cambie de canal por fastidiarme.
Dos semanas sin nadie escondiéndome llaves.
Y ahora echo de menos a los pies de mi cama
sus pellizcos fantasma. Sus ronquidos de noche.

Y me digo que no, que no tenía derecho,
que él era mi muerto y yo su vivo,
que eso es importante. Que le he fallado igual
que me falló él a mí, aquel verano
que me dejó olvidado en una playa.
Hasta he pensado en llamar a mis pobres hermanas,
por si se fue con ellas; preguntar a mi madre,
empapelar el barrio con carteles:
se busca padre muerto. Y me da por llorar
como lloran los vivos cuando pienso en las calles,
que es invierno, que se fue sin chaqueta, que la muerte es helada,
que no tiene dinero para comprar tabaco,
que qué será de él sin mí, que soy su vivo.
Y he llegado a pensar sino será el Gobierno.
Igual han recortado: como recortan sueldos, derechos,
sanidades, educación, cultura, amores… Será eso:
al Gobierno le ha dado por recortar en muertos.
Pero eso sí que no. Eso no. Por ahí no pasamos.
Mañana al levantarme empiezo una. Papá se la merece.
Haré revolución, desmontaré el Estado. Vendrán conmigo
muchos. No estoy solo. Todos tenemos muertos.
No saben lo que han hecho. Que nos tengan cuidado.
Mañana por la tarde triunfará la insurgencia
y luego volveré a casa con mi padre del brazo
a discutir de nuevo, a levantar la tapa él
y yo a bajarla, a robarnos el mando de la tele
el uno al otro, a hablar hasta las tantas,
a emborracharnos y celebrar por fin
que él es mi muerto y yo su vivo, qué carajo,
y que ningún gobierno, ningún mundo asqueroso,
podrá echarnos por tierra siete años.


Pedro Andreu

[Facebook]




Há sete anos já que meu pai
vive morto em minha casa. Sorri para mim
sem dentes quando ligo a TV, muda-me de canal
para me chatear, desliga-ma. Queixa-se se eu cozinho
e não lhe ponho prato, apesar de sabermos ambos
que os mortos não comem.
Há já sete anos que me fuma no banheiro,
e os seus cigarros negros empestam o corredor,
o elevador, os armários. Apesar dos meus rogos
e das minhas queixas. Chiça, atira-me ele à cara,
já nem deixam os mortos cagar nesta casa,
haja educação.
Há sete anos já que dorme na sala,
meu falecido pai. Os seus roncos enervam-me,
abro a porta e grito 'basta'. Ele ri-se,
eu acalmo e acabamos a falar da vida
até às tantas, onde ele me diz aquelas coisas
que diz: olha, meu filho, eu vivo de riso
com as tuas preocupações. Ou então:
olha, filho, a morte também não é nada de mais,
melhor levá-la a brincar que muito a sério.
Às vezes vou encontrá-lo no frigo
a dormir a sesta entre os iogurtes.
É que é Verão, diz ele. Eu passo-me
e exijo que se vá, só que el nunca me ouve,
põe-se com aquelas coisas de morto, faz de zombi
para me tirar do sério, pois sabe que eu não gosto.
Digo-lhe que a mamã se incomodaria, que
isto não é lá muito normal, que ele devia era estar
numa urna preta em casa da esposa,
tal como os outros pais falecidos.
Mas ele não me liga, fica sempre na sua.

Há sete anos já que me remexe as coisas,
me esconde os apontamentos de Barroco, me usa a roupa,
vira-me as peúgas do avesso, desparelha-as.
E se eu lhe digo alguma coisa, desvia-se,
atira-me à cara que eu não o levo a passear como antes,
que me entretenho no fim do trabalho,
que não o levo ao bar quando joga o clube dele,
que o imponto do quarto quando venho com amigas.
Um par de vezes pu-lo na rua,
mas é cabeçudo, mete-se à porta
e toca à campainha com a teimosia própria dos mortos.
Eu não abro e grito-lhe que estou farto,
que vá embora, que parta em viagem, que me esqueça.
Mas ele não me liga, ele nunca me liga,
senta-se como um cão, põe-se a uivar até ganhar
a dele e eu dizer-lhe que entre. Mas desta vez ele foi-se
como não se foi das outras. A discussão foi mais longe,
eu disse-lhe isto e aqueloutro, que ele foi
às vezes mau pai, que fizeram falta talvez
mais tardes comigo em criança
e que mais isto e mais aquilo
e nem sei que lhe disse de um dia
nos levar à praia e dar-lhe na bolha
de nos largar ali e ir embora no carro
e nós termos de ir a pé sozinhos para casa.
Via-se que lhe doeu, que lhe doeu deveras,
como às vezes doem as coisas aos mortos.
Baixou as orelhas, de rabo entre as pernas,
atirando da boca um punhado de moscas
para o céu. E foi-me pela escada abaixo,
retirando em silêncio, nem mesmo esperou pelo elevador.

Sete anos de tampas erguidas, de nos ferrarmos
como se ferram pai e filho, um vivo outro morto,
manhã após manhã. E já lá vão quinze dias
sem me desligar a TV ou mudar de canal para chatear,
quinze dias sem me esconder as chaves.
E agora sinto falta dos seus beliscos
aos pés da cama, dos seus roncos de noite.

E digo cá para mim que não, não há direito,
que ele era o meu morto, assim como eu o vivo dele,
e que isso era importante. Que também eu lhe falhei,
como ele me falhou a mim, naquele Verão
em que me deixou na praia esquecido.
Até cheguei a pensar em falar às manas,
se calhar foi com elas; perguntar à minha mãe,
encher o bairro de cartazes:
procura-se um pai morto. E dá-me para chorar
como choram os vivos, quando penso nas ruas,
que é Inverno, que ele saiu sem camisola, que é gelada a morte,
que ele não tem dinheiro para tabaco,
o que será dele sem mim, que sou o vivo dele.
E cheguei a pensar se não será o Governo,
eles cortam tudo, cortam salários, direitos,
saúde, educação, cultura, amores... Se calhar,
deu-lhes agora para cortar nos mortos.
Ah, mas essa não, essa não, aí não admitimos.
Amanhã ao erguer-me vou começar uma (o meu paizinho merece...),
começo uma revolução, desmonto o Estado.
Muitos virão comigo, não estou só, todos nós temos mortos.
Não sabem o que fizeram, que se acautelem,
amanhã tarde vai triunfar a insurreição,
depois virei para casa com meu pai debaixo do braço,
a discutir novamente, a erguer a tampa ele
e eu a baixá-la, a roubar um ao outro
o comando da TV, a parlar até às tantas
a emborrachar-nos, a celebrar por fim
eu ser o seu vivo e ele o meu morto, cum caracho,
e que nenhum governo, nenhum mundo asqueroso,
há-de lançar-nos a terra sete anos.


(Trad. A.M.)

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10.11.17

Pedro Andreu (Viúva)





VIUDA                             
   


Desde que tú te has ido
 ha quedado el silencio
 impenetrable
 del borde de las cosas,
 la costumbre de seguir colocando
 dos platos en la mesa,
 el vago simulacro
 de estar viva.
 Pero no he vuelto a llorar
 desde el hospital.
 Esta mañana a la ciudad
 le han bajado el volumen.
 Le han cambiado las calles
 de lugar. Y me he perdido.

Pedro Andreu




Desde que te foste
que ficou o silêncio
impenetrável
do rebordo das coisas,
o costume de pôr
dois pratos na mesa,
o vago simulacro
de estar viva.
Mas não voltei a chorar
depois do hospital.
Hoje de manhã
baixaram o volume
ao barulho da cidade.
E mudaram o lugar
às ruas. E eu perdi-me.


(Trad. A.M.)

.

8.12.15

Pedro Andreu (Introdução à insurreição)





INTRODUCCIÓN A LA INSURGENCIA



Ninguno de nosotros sabía
qué coño había que hacer
para que el mundo
dejara de pisarnos
semana tras semana.

Por eso decidimos cortarnos
los pies y extender las alas.

Pedro Andreu



Nenhum de nós sabia
que raio havia de fazer
para o mundo deixar de pisar-nos
semana após semana.

Por isso decidimos cortar
os pés e abrir as asas.

(Trad. A.M.)

.

27.7.14

Pedro Andreu (Vivalgia)





VIVALGIA



Vivir a medias o del todo,
de lado, del revés o bocabajo.
Vivir despacio, deprisa, sin aliento.
Vivir en falso o a pecho descubierto,
a las malas y en los días mejores.
Vivir los cumpleaños y también los entierros.
Agarrarse a vivir hasta en los hospitales
o en las clases de griego.
Hasta que duela el tuétano.
Vivir sin ganas aunque sea,
porque ya llegarán
las vivas ganas de estar vivo de nuevo.
Vivir en los amores y en su ausencia,
en la cola del paro y el trabajo.
En los libros, dentistas, vacaciones.
Pero vivir, joder, ¡vivir!,
a pesar de estar vivos o tan muertos
como a veces estamos.
Vivir a todo trapo y para siempre
como si no cerrase nunca por derribo
la existencia. Enfermos de vivalgia:
supervivientes.

Pedro Andreu




Viver a meio ou à toda,
de lado, do avesso ou de cabeça para baixo.
Viver devagar, depressa, sem descanso.
Viver em falso ou a peito descoberto,
às más e nos dias melhores.
Viver os aniversários , mas também os enterros.
Agarrar-se à vida até no hospital
ou nas aulas de grego.
Até doer o tutano.
Viver sem ganas, embora seja
por depois virem
as vivas ganas de estar vivo de novo.
Viver nos amores e na sua ausência,
na fila do desemprego e no trabalho.
Nos livros, no dentista, nas férias.
Mas viver, porra, viver!,
apesar de vivos ou de tão mortos
como estamos às vezes.
Viver à grande e para sempre
como se a vida não acabasse nunca.
Enfermos de vivalgia,
sobreviventes.

(Trad. A.M.)

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19.4.14

Pedro Andreu (Letra por letra)




LETRA A LETRA


Perdona si mi voz no es la que era,
si en mi cuarto hay ese olor
a plácida violencia tras el llanto, si tengo canas
y por fin me asalta la resaca tras la fiesta
con su cuchillo hiriente y melancólico,
si aún llega fin de mes a noche trece,
si la ducha sigue estropeada,
si no he ganado nunca el Jaime Gil de Biedma
ni aprendí a bailar tangos ni manejo
automóviles caros como la madrugada...
Perdóname también si no me corto un pelo
ni trabajo ni duermo ni dejo de llamarte
ni sé pedir perdón como dios manda
sin reírme en la madre que parió a este planeta.

Perdona —conejito de miel, hembra de otros,
bichito de la luz en mi pasado,
memoria ardida en cueros, perfume
de corazón burdel— tantas palabras putas
que te dije.
Perdóname... si me voy olvidando de tu cara,
si dibujé tu nombre en nuestro patio
con un palo y oriné sobre él
hasta borrarte el alma, letra a letra.

Pedro Andreu

[Las afinidades electivas]

[YouTube]



Perdoa se minha voz não é a que era,
se o meu quarto tem esse odor
a plácida violência depois do pranto,
se tenho cãs e me assalta a ressaca após a festa
com seu punhal agressivo e melancólico,
se o fim do mês chega logo na noite treze,
se o chuveiro continua avariado,
se nunca ganhei o Jaime Gil de Biedma,
nem aprendi a dançar tango nem conduzo
carros caros como a madrugada...
Perdoa-me também se não corto um cabelo
nem trabalho nem durmo nem deixo de chamar-te
nem sei pedir perdão como deus manda
sem me rir da mãe que pariu este mundo...
Perdoa – coelhinho de mel, fêmea de outrem,
bichinho da luz do meu passado,
ardida memória, perfume de coração bordel –
tantas palavras feias que te disse.
Perdoa-me... se a tua cara me vai esquecendo,
se com um pau escrevi teu nome no pátio
e urinei sobre ele
até te apagar a alma, letra por letra.

(Trad. A.M.)

.


16.9.13

Pedro Andreu (Perder-me-ei devagar)





Me perderé despacio
en tus rincones, en el preciso
hoyuelo de tu risa,
en las comisuras de tus ojos
—perdón, quise decir tu boca.
A veces me confundo:
es tan compleja y rica
toda tu anatomía.
Olvidarme del tedio,
del mundo ardido
que dicen que rompimos,
pero que destrozaron otros.
Dejar plantado mi trabajo,
escupir a mi jefe lo que pienso
de los Servicios Sociales,
desconducir mi coche
cincuenta y dos kilómetros
hasta la calle donde te tiene esclava
una oficina, gritarle basta
a los teléfonos, romper la cremallera
de los meses iguales,
setenta y tres centímetros
de espalda y de deseo: saberte viva
al fin, libre como internet,
como los yayoflautas
o las plantas que crecen
salvajes en las tejas.
Fundar mi patria, la tuya,
nuestra tierra
en dos metros de cama.
Acariciar palabras boca a boca.
Hasta que nada duela tanto.
Hasta que tanto duela nada.
Hasta que el mundo finja
que nos quiere y se digne
—por fin— a ser feliz.

Pedro Andreu

[Las afinidades electivas]



Perder-me-ei devagar
em teus recantos, nas
covinhas do sorriso,
nas comissuras dos olhos
– perdão, da tua boca.
Confundo-me às vezes,
tão rica e complexa
que é a tua anatomia.
Esquecer-me do tédio,
do mundo ardido
que dizem que rasgámos,
mas que outros destroçaram.
Abandonar o trabalho,
cuspir sobre o chefe o que penso
dos Serviços Sociais,
desconduzir o meu carro
cinquenta e dois quilómetros
até à rua onde um escritório
te escraviza, berrar basta
aos telefones, partir a cremalheira
dos meses iguais,
setenta e três centímetros
de costas e de desejo, saber-te
viva por fim, livre como a internet,
como os yayoflautas
ou as plantas que crescem
bravias no telhado.
Fundar minha pátria, a tua,
terra nossa
em dois metros de cama.
Afagar palavras boca a boca.
Até que nada doa tanto.
Até que tanto doa nada.
Até que o mundo finja
que nos ama e se digne
– por fim – a ser feliz.

(Trad. A.M.)

,

6.6.13

Pedro Andreu (Advertências)





ADVERTENCIAS



No vengas otra vez con tus historias
tan siglo diecinueve de tristezas.
No jures y perjures que perdiste
tu zapato en mi casa, Cenicienta,
pues bien sabes que perdiste otras cosas:
la cabeza tal vez, algo de pasta, un par de bragas
que voy probando a todas
las que prueban mi cama
sin dar con la que vuela.
Que ni yo soy azul ni tú princesa,
así que apaga y vámonos, y vuelve
a ser mi perra callejera, mi musa en celo,
mi luna de dormir la borrachera,
mi billete de avión a la locura,
mi Blancanieves puta y harapienta,
mi vino y la resaca; el frío y mis palabras.

Y déjate de cuentos y dame mucho sexo
y poco poquito poco
abominable falso esclavo imbécil
desvergonzado amor.

Pedro Andreu


[El baul de calzas largas]




Não me venhas cá com tuas histórias
tão século dezanove de tristezas.
Não jures nem perjures que perdeste
o sapato em minha casa, Cinzenta,
pois bem sabes que outras coisas perdeste,
a cabeça talvez, algum creme,
um par de cuecas
que vou experimentando em todas
quantas experimentam a minha cama
sem dar com aquela que voa.
Nem eu sou azul nem tu princesa,
apaga portanto a luz e vamos embora,
volta a ser a minha cadela vadia, minha musa de cio,
minha lua de dormir a borracheira,
meu bilhete para a loucura,
minha Branca-de-Neve puta e farrapona,
meu vinho mais a ressaca, o frio e minhas palavras.

E deixa-te de histórias, dá-me sexo muito
e pouco pouquinho pouco
abominável falso escravo imbecil
desavergonhado amor.

(Trad. A.M.)

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28.1.13

Pedro Andreu (Nunca me abras a porta)





NUNCA ME ABRAS LA PUERTA



Pero no importa, dale, llévate mi alegría
en tus labios, haz papel de fumar
mis poemarios, cambia la cerradura, vive el cielo.
Haz el favor de ser feliz, y nunca, nunca abras
a ese mamarracho enfebrecido
que llamará a tu puerta
las próximas semanas.

Se hará pasar por mí
-ya te lo advierto-
y te traerá la peste.


Pedro Andreu


[Tu cita de los martes]



Mas não importa, vá, põe-me a alegria
nos lábios, usa meus versos para enrolar
o tabaco, muda a fechadura, vive o céu.
Faz favor de ser feliz, e nunca, nunca abras
a esse espantalho febril
que há-de bater-te à porta
nas próximas semanas.

Vai fazer-se passar por mim
– aviso-te já –
e há-de trazer-te a peste.

(Trad. A.M.)

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6.1.13

Pedro Andreu (Tragédias)





(¿Tragedias?)



De pronto recordé
que te me habías muerto para el mundo
de mis cosas. Aunque te viera a veces,
de lejos, a bordo de algún taxi
o te supiera allí tomándote un café
con un amigo de ambos que me habías robado.
Me borraron los bares que eran nuestros
—por prescripción poética del médico—
de callejeros, listines telefónicos, paseos.
Alguien abrió la ducha
y tu nombre escrito a mano
se borró de mi bañera.
Se marchó por el desagüe.
Y lo peor de todo: las tres de la mañana,
enero helando en la bombilla
del techo de este cuarto,
mis ganas de fumar
¡y sin tabaco!


Pedro Andreu



De repente lembrei-me
que tu me tinhas morrido para o mundo
das minhas coisas. Embora te visse por vezes,
de longe, dentro de algum táxi
ou te soubesse a tomar café ali
com um amigo de ambos que me tinhas roubado.
Os bares que eram nossos apagaram-mos
– por prescrição poética do médico –
de roteiros, da lista telefónica, dos passeios.
Alguém abriu o chuveiro
e apagou-me na banheira
o teu nome escrito à mão.
Lá se foi pelo buraco.
E pior ainda, às três da manhã,
Janeiro gelando na lâmpada
do tecto deste quarto,
eu com ganas de fumar
- e sem tabaco!


(Trad. A.M.)



>>  Las afinidades electivas (3p) / Apología de la luz (vários p) / Wikipedia


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