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20.10.17

Silvia Ugidos (Sótão)





DESVÁN



El desván infantil donde sestea el tiempo
antiguo y polvoriento de todos los veranos
y la luz, ese enigma, que se posa despacio
entre objetos y libros, fotos de antepasados
espiando mis juegos
con las rígidas ropas de los recién casados.
Y en un rincón manzanas, pequeñas, perfumadas,
aquel baúl sin llave, misterioso y cerrado,
símbolo de los años que yo aún no conocía,
que estaban por llegar, que ahora son pasado.
Baúl adolescente que abrimos una tarde
fascinados, con miedo, silenciosos, solemnes,
tomados de la mano,
compartiendo los besos de una infancia borrosa
que de pronto nos deja y se aleja y se pierde.
He venido de nuevo a revolverlo todo,
a buscar entre fotos y naftalina y libros
yo no sé qué memoria que guardo de mí misma.
He venido otra vez, como antes, por juego,
esperando encontrar dormido en el desván
un verso elemental, una trampa, algún cepo
donde el tiempo al pasar se pillara los dedos.

Silvia Ugidos




O sótão da infância em que dorme o tempo
antigo e poeirento dos verões
e a luz, esse enigma, que pousa devagar
no meio de livros e objectos, fotos antigas,
espiando-me as brincadeiras
com as roupas tesas dos recém-casados.
E num canto maçãs, miúdas, perfumadas,
aquele baú sem chave, misterioso e fechado,
símbolo dos anos ainda por conhecer,
então do porvir e hoje já passado.
Baú adolescente que um dia abrimos
fascinados, a medo, silenciosos, solenes,
de mãos dadas,
partilhando os beijos de uma infância ilusória
que de repente nos deixa, e se alonja, e se perde.
Aqui venho de novo, a remexer tudo,
buscando entre fotos e livros e naftalina
não sei já que memória que guardo de mim mesma.
Aqui venho outra vez, como dantes, por brincadeira,
à espera de encontrar adormecido no sótão
um verso elementar, uma cilada, algum cepo
em que o tempo ao passar entalasse os dedos.



(Trad. A.M.)

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10.1.16

Silvia Ugidos (A mesma pedra)





LA MISMA PIEDRA



Por mucho que analice yo este tema
siempre acabo llegando a la misma conclusión:
con esto del amor siempre se pierde
la libertad, la honra, la vida o la cabeza.
Pienso en Juana la Loca
pienso en la pobre Ofelia,
Yo desde luego soy de las que tropieza
una y otra vez con la misma piedra.


Silvia Ugidos

[Emma Gunst]





Por mais que pense no assunto
acabo sempre por chegar à mesma conclusão:
nisto do amor perde-se sempre,
a liberdade, a honra, a vida ou a cabeça.
Lembro-me de Joana a Louca,
ou da pobre Ofélia.
E logo eu que sou das que tropeçam
uma e outra vez
sempre na mesma pedra.


(Trad. A.M.)

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12.3.14

Silvia Ugidos (Proposta desonesta)





PROPOSICIÓN DESHONESTA



Propongo
la audacia del tacto como recurso
a esos domingos tediosos en la tarde
cuando la carne proclama dulcemente
con esa desvergüenza de lo ingenuo:
muérdeme ahora
o quédate con hambre para siempre.

SILVIA UGIDOS
Las pruebas del delito
(1997)



Proponho
a audácia do tacto como recurso
para essas tardes chatas de domingo
quando a carne proclama baixinho
com a desfaçatez do ingénuo:
morde-me agora
ou fica-te para aí
com fome para sempre.

(Trad. A.M.)

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3.3.11

Silvia Ugidos (Traçado urbanístico)






TRAÇADO URBANÍSTICO




Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho — primoroso e com laço —
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios à nossa própria vontade,
incivis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam — como vulgares comerciantes —
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.




SILVIA UGIDOS
Poesia Espanhola anos 90
(Trad. J.M.Magalhães)
Relógio D´Água
(2000)



[Falso Lugar]



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29.4.10

Silvia Ugidos (Circe esgrime um argumento)






CIRCE ESGRIME UN ARGUMENTO




Si regresas, Ulises,
encontrarás allí en Ítaca una mujer cobarde:
Penélope ojerosa
que afanosa y sin saberlo
le teje y le desteje una mortaja
al amor. Ella pretende
aferrarse y aferraros a lo eterno.
Si regresas
hacia un destino más infame aún
que este que yo te ofrezco
avanzas si vuelves a su encuentro.
Más enemigo del amor y de la vida
que mis venenos
es vuestro matrimonio, vil encierro.


Quédate, Ulises: sé un cerdo.



Silvia Ugidos






Se voltares, Ulisses,
vais encontrar em Ìtaca uma mulher cobarde:
Penélope olheirenta
que afanosa e sem o saber
tece e destece uma mortalha
para o amor. Pretende
agarrar-se e agarrar-vos ao eterno.
Se voltares
para um destino mais infame ainda
que este que eu te ofereço
teu fim aproximas retornando ao seu encontro.
Mais inimigo do amor e da vida
que meus venenos
é esse matrimónio, vil clausura.


Fica, Ulisses: antes porco.


(Trad. A.M.)

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20.10.09

Silvia Ugidos (Possível auto-retrato)









POSIBLE AUTORRETRATO






Yo siempre quise ser una mujer de bien,
ser alguien de provecho, valiente, emprendedora,
mesurada en las fobias, estable en los afectos,
brillante en los estudios, por poner un ejemplo.


Yo siempre quise ser una mujer de bien
y tenerlos a todos felices y contentos,
a mis padres y amigos, a Fulano y a Mengano,
a Diestro y a Siniestro…


Pero hay alguien en mí que todo lo estropea,
que tuerce los caminos, equivoca las cosas,
desbarata mis planes, incumple mis promesas.
Alguien que pisa antes que yo sobre mis huellas.


En fin, visto lo visto, ya lo dicen mis padres:
“a este paso, hija mía, no llegarás a nada”.
Está bien, os lo debo, lo siento, lo confieso:
aludiendo a un anuncio, no soy como Farala.


Soñadora, insegura, mitómana, algo vaga,
con vocación de hormiga y verano de cigarra,
contradictoria y harta de conciliar extremos
en mi defensa alego


que siempre quise ser una mujer de bien
pero que en su defecto
soy, en el buen sentido de la palabra, mala.




Silvia Ugidos







Eu sempre quis ser uma mulher de bem,
alguém útil, excelente e resolvida,
contida nas fobias, estável nos afectos,
brilhante nos estudos, só para dar um exemplo.


Eu sempre quis ser uma mulher de bem
e fazer todos felizes e contentes,
a meus pais e amigos, a fulano e cicrano,
a um lado e a outro…


Mas há em mim alguém que tudo estropia,
que torce os caminhos, baralha as coisas,
desbarata-me os planos, incumpre-me as promessas.
Alguém que pisa antes de mim o meu próprio rasto.


Enfim, visto o dito, já dizem meus pais:
“por este andar, filha, não hás-de chegar a nada”.
Está bem, fico a dever, lamento, confesso:
não sou como Farala, a outra do anúncio.


Sonhadora, insegura, mitómana, um pouco vaga,
com vocação de formiga e verão de cigarra,
contraditória e sempre a conciliar extremos,
em minha defesa alego


que quis sempre ser uma mulher de bem
mas em vez disso sou antes,
no bom sentido da palavra, má.



(Trad. A.M.)
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10.4.09

Silvia Ugidos (Do medo)










DEL MIEDO





Cuando era pequeña
el miedo me esperaba todas las noches
debajo de la cama a la hora de dormir,
bastaba entonces
la súplica infantil de un vaso de agua
para sentir por el pasillo los pasos de mi padre
que acercaban
el talismán seguro para ahuyentar fantasmas
y ya no se atrevían a salir
los monstruos del armario
ni la luz de la lámpara acercaba a proyectar
sobre la colcha su sombra macabra
y detrás de las cortinas el hombre del saco
se hacía pequeño, pequeñísimo hasta desaparecer.



Ahora el miedo me acecha en todas partes,
no respeta los ritos
y se presenta siempre cuando menos lo espero
susurrando que nada dura eternamente
con la voz de algún muerto que regresa a mi sueño
para pedirme un vaso de agua.



Silvia Ugidos


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Quando eu era pequena
o medo esperava-me todas as noites
debaixo da cama na hora de dormir,
bastava então
a súplica infantil dum copo de água
para sentir os passos de meu pai
no corredor
trazendo o talismã seguro de afastar fantasmas
e os monstros já não se atreviam
a sair do armário
nem a luz da lâmpada dava para projectar
sobre a colcha a sua sombra macabra
e atrás das cortinas o homem do saco
fazia-se pequeno, pequeníssimo, até desaparecer.


Agora o medo assedia-me em todo o lado
não respeita os ritos
e aparece sempre quando menos o espero
sussurando que nada dura eternamente
com a voz de um morto que volta ao meu sonho
pedindo-me um copo de água.



(Trad. A.M.)




Fontes: Um-buraco-na-sombra (4p) / La nueva España (nota crítica) / Wikipedia


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