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20.5.26

João de Mancelos (Um livro me leva)




UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO


folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.

escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.

entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.

e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.

é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.


João de Mancelos

.

15.2.26

Francisco J. Craveiro Carvalho (14 Dez 2021)





14 DEZ 2021

 

Solteiro a vida inteira.
Sétimo dia. Em bom sítio 
o andar vende-se sempre.
O pior são os livros científicos.
Quem é que quer aquilo? 

FRANCISCO J. CRAVEIRO CARVALHO
Cinco
(2023)

 

.

31.3.25

Jorge Luis Borges (Um livro)





UN LIBRO          

 

Apenas una cosa entre las cosas
pero también un arma. Fue forjada
en Inglaterra, en 1604,
y la cargaron con un sueño. Encierra
sonido y furia y noche y escarlata.
Mi palma la sopesa. Quién diría
que contiene el infierno: las barbadas
brujas que son las parcas, los puñales
que ejecutan las leyes de la sombra,
el aire delicado del castillo
que te verá morir, la delicada
mano capaz de ensangrentar los mares,
la espada y el clamor de la batalla.

Ese tumulto silencioso duerme
en el ámbito de uno de los libros
del tranquilo anaquel. Duerme y espera.


Jorge Luis Borges

 

Apenas uma coisa entre as coisas
mas uma arma também. Foi forjada
em Inglaterra, em 1604,
e carregada com um sonho. Encerra
som, fúria, noite e púrpura.
Minha mão a sopesa. Quem diria
que contém o inferno: as bruxas
de barbas que são as parcas, os punhais
que executam as leis da sombra,
o ar delicado ar do castelo
que te verá morrer, a delicada
mão capaz de ensanguentar os mares,
a espada e o clamor da batalha.
 
Esse tumulto silencioso dorme
dentro de um dos livros
da tranquila estante. Dorme e espera.


(Trad. A.M.)
 
 
> Outra versão: F.P.Amaral

.

18.12.24

Aurora Luque (Um periscópio com o horizonte)




UN PERISCOPIO CON EL HORIZONTE

 

Si frecuenté los libros, ciertos libros,
fue porque regalaban amistad, 
bálsamos para el mal de la rutina, 
no sé qué compañía en noches duras 
o en el apetecer acantilados, 
tertulias con mujeres y hombres de cien plazas,
consolación en horas 
de asombrosa miseria.  

Sí, frecuento los libros porque ellos me regalan 
formas apasionadas de amistad:
fabulosos veranos envasados, 
el amoroso arte de mirar 
con ojos de palabras, 
llaves para hospedarme en islas mudas 
desnuda cuerpo adentro 
y posibilidades de zarpar 
desde puertos antiguos y canallas 
con la tripulación de los poetas.  

Frecuentaré, abrazándolos, 
los libros que regalen su camaradería 
y un periscopio abierto con todo el horizonte.
 

Aurora Luque 

 

Se frequentei os livros, certos livros,
foi porque me ofereciam amizade,
bálsamos para o mal da rotina,
até companhia em noites duras
ou na atracção dos abismos,
tertúlias com mulheres e homens de cem praças,
consolação em horas
de assombrosa miséria. 

Sim, frequento os livros pois me oferecem
formas de amizade com paixão,
verões fabulosos,
a amorosa arte de olhar
com olhos de palavras,
chaves para me hospedar em ilhas mudas
desnuda corpo adentro
e possibilidades de zarpar 
de portos antigos e canalhas
com a tripulação dos poetas. 

Frequentarei, abraçando-os,
os livros que me dêem camaradagem
e um periscópio aberto com vtodo o horizonte.
 

(Trad. A.M.)

 .

22.9.24

Jorge Sousa Braga (O livro)




O LIVRO

 

Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou

da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua

atenção ou alguém o arrumou
em segunda fila na estante…

Tu não o sabes – como o poderias
saber? – mas esse livro descreve

como e quando vais morrer

Jorge Sousa Braga

[Bibliotecario de Babel]

 .

14.7.24

Ana Hatherly (Os livros)




Os livros estão sempre sós.
Como nós.
Sofrem o terrível impacto do presente.
Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.
Como nós.
Calam sua fúria com sua farsa.
Como nós.
Têm fachadas lisas ou não.
Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas.
Como nós.
Estão ali sendo entretanto.
Como nós.
No limiar do esquecimento.
Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível.
Como nós.


Ana Hatherly

[1.º esquerdo]

 .

14.6.23

Jorge Sousa Braga (As árvores e os livros)



AS ÁRVORES E OS LIVROS    

 

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é, copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas. 

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.  

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».  

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
 

Jorge Sousa Braga

 .

3.12.21

Antonio Cicero (A cidade e os livros)




A CIDADE E OS LIVROS

 

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia - e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

Antonio Cicero

[Antonio Miranda]

 .

25.8.21

Pedro Sevilla (Eterna busca)




ETERNA BUSCA               

 

Como se entra na carne de quem amamos,
com medo e turbação,
buscando salvação, prazer, ternura,
consolo, vida, morte,

assim eu entrei nos livros,
abrindo, afagando, rasgando,
em busca de palavras curativas,
de sinais, de caminhos luminosos,

assaltando-me sempre,
por dentro do abraço ou poema,

o mesmo pesar,
o mesmo fundo silêncio.


Pedro Sevilla

(Trad. A.M.)

.

27.4.21

Miguel Gaya (Hoje comprei um livro)



Hoy compré un libro. No pude leerlo.
No me resultó caro, pero el precio es alto 
cuando no se puede leer lo que se tiene.
No entiendo el lenguaje en que está escrito,
no sé lo que dice el autor, los signos 
no tienen significado para mí.
Repaso las páginas con cuidado, 
las doy vuelta con esmero, las aliso
y aplasto suavemente, siguiendo con el dedo
los renglones escritos, los espacios en blanco,
y nada me dicen. Ajusto mis anteojos 
sobre el puente de la nariz, suspiro
y recomienzo. No importa cuánto me esmere,
no importa mi voluntad: el libro es mudo
y yo soy ciego ante él.
Cierro el libro y me pregunto
a cuántos mundos cierro 
con ese gesto, cuántas
historias he cegado, qué hombres y mujeres jamás
me hablarán, abrirán su corazón 
y sus mentes para mí, solo,
en la noche, contándome muy quedamente
sus mentirosas inconcebibles verdades.  


Miguel Gaya



Hoje comprei um livro, não consegui lê-lo.
Nem me ficou caro, mas é alto o preço
quando não se pode ler o que se tem.
Não entendo a linguagem da escrita,
nem sei o que diz o autor, aqueles signos
não têm significado para mim.
Remiro as páginas com cuidado,
volto-as com escrúpulo, aliso-as 
e carrego suavemente, seguindo com o dedo
as carreiras da escrita, os espaços em branco,
e nada me dizem. Ajusto os óculos 
no nariz, suspiro e recomeço.
Por muito que me esmere,
por muito que me esforce, o livro fica mudo
e eu cego diante dele.
Fecho o livro e pergunto-me
quantos mundos fecho eu nesse gesto,
quantas histórias apaguei, que homens e mulheres
jamais me falarão, ou abrirão o coração
e as mentes para mim apenas, na noite,
contando-me serenamente
suas mentirosas inconcebíveis verdades.

(Trad. A.M.)

.

29.11.20

Adília Lopes (Não gosto tanto de livros)

 



NÃO GOSTO TANTO DE LIVROS

  

Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito de seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever. 

Adília Lopes

 .

2.3.20

Luis Alberto de Cuenca (Livro de versos)





Libro de versos.
Lo forro con las tiras
de tu recuerdo.


Luis Alberto de Cuenca




Livro de versos.
Forrado com farrapos
da tua lembrança.

(Trad. A.M.)

.

4.1.20

Gonçalo M. Tavares (O livro)





O LIVRO



De manhã, quando passei à frente da loja
o cão ladrou
e só não me atacou com raiva porque a corrente de ferro
o impediu.
Ao fim da tarde,
depois de ler em voz baixa poemas numa cadeira preguiçosa do
jardim
regressei pelo mesmo caminho
e o cão não me ladrou porque estava morto,
e as moscas e o ar já haviam percebido
a diferença entre um cadáver e o sono.
Ensinam-me a piedade e a compaixão
mas que posso fazer se tenho um corpo?
A minha primeira imagem foi pensar em
pontapeá-lo, a ele e às moscas, e gritar:
Venci-te.
Continuei o caminho,
o livro de poesia debaixo do braço.
Só mais tarde pensei ao entrar em casa:
não deve ser bom ter ainda a corrente
de ferro em redor do pescoço
depois de morto.
E ao sentir a minha memória lembrar-se do coração,
esbocei um sorriso, satisfeito.
Esta alegria foi momentânea,
olhei à volta:
tinha perdido o livro de poesia


Gonçalo M. Tavares

[Poemário]

.

13.12.19

Kirmen Uribe (Um livro)





UN LIBRO                                        



Un día mi madre
me llevó al mercado
Allá me compró un pollito.
Estaba dentro
de una caja de cartón
   (....)

Un libro es eso:
Una caja de cartón
con algo vivo dentro.

Kirmen Uribe




Um dia minha mãe
levou-me ao mercado
e comprou-me um franguito.
Vinha dentro
de uma caixa de cartão
   (…)

Um livro é isso:
Uma caixa de cartão
com algo vivo lá dentro.

(Trad. A.M.)


.

22.12.15

José Emilio Pacheco (Demasiados livros)





LOS DEMASIADOS LIBROS



A cambio de horas que no regresan
se acumulan los libros,
cajas de sueños, esperanzas, cóleras
que (es muy probable)
no leeremos nunca.

Por todas partes libros en desorden,
objetos de ansiedad, mudo reproche
de no haberlos abierto.

Miedo a morirse
sin hojearlos siquiera.

Con qué cinismo,
con cuánta desvergüenza o qué locura,
después de todo esto nos ponemos
a escribir otro libro.


José Emilio Pacheco




Em troca de horas que não voltam
acumulam-se os livros,
caixas de sonhos, esperanças, cóleras
que (muito provável)
não leremos nunca.

Por todo o lado livros em desordem,
objectos de ansiedade, muda censura
de os não abrir.

Medo de morrer
sem folheá-los sequer.

Com que cinismo,
que descaramento ou loucura,
depois de tudo ainda nos pomos
a escrever outro livro.

(Trad. A.M.)

.

4.3.15

Jorge Luis Borges (Um mundo sem livros)





UN MUNDO SIN LIBROS



Hay quienes no pueden imaginar un mundo sin pájaros,
hay quienes no pueden imaginar un mundo sin agua;
en lo que a mí se refiere, soy incapaz
de imaginar un mundo sin libros.
A lo largo de la historia el hombre ha soñado
y forjado un sinfín de instrumentos.
Ha creado la llave, una barrita de metal
que permite que alguien penetre en un vasto palacio.
Ha creado la espada y el arado,
prolongaciones del brazo del hombre que los usa.
Ha creado el libro, que es una extensión secular
de su imaginación y de su memoria.
A partir de los vedas y de las biblias,
hemos acogido la noción de libros sagrados.
En cierto modo, todo libro lo es.
En las páginas iniciales de El Quijote,
Cervantes dejó escrito que solía recoger y leer
cualquier pedazo de papel impreso que encontraba en la calle.
Cualquier papel que encierra una palabra
es el mensaje que un espíritu humano manda a otro espíritu.
Ahora, como siempre, el inestable y
precioso mundo puede perderse.
Sólo pueden salvarlo los libros,
que son la mejor memoria de nuestra especie.
Hugo escribió que toda biblioteca es un acto de fe;
Emerson, que es un gabinete donde se guardan
los mejores pensamientos de los mejores;
Carlyle, que la mejor universidad de nuestra
época la forma una serie de libros.
Al sajón y al escandinavo les maravillaron tanto las letras,
que les dieron el nombre de runas,
es decir, de misterios, de cuchicheos.
Pese a mis reiterados viajes, soy un modesto Alonso Quijano
que no se ha atrevido a ser don Quijote
y que sigue tejiendo y destejiendo las mismas fábulas antiguas.
No sé si hay otra vida.
Si hay otra, deseo que me esperen en su recinto
los libros que he leído bajo la luna con las mismas cubiertas
y las mismas ilustraciones, quizá con las mismas erratas,
y los que me depara aún el futuro.
De los diversos géneros literarios,
el catálogo y la enciclopedia son los que más me placen.
No adolecen, por cierto, de vanidad.
Son anónimos como las catedrales de piedra
y como los generosos jardines.
No veré, por cierto, los textos que su diligencia ha juntado,
pero sé que desde el otro hemisferio me beneficiarán
de algún modo y que serán de grata lectura.


Jorge Luis Borges

[Sureando]




Há quem não consiga imaginar um mundo sem pássaros,
ou um mundo sem água,
eu cá sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.
O homem, ao longo da história, sonhou
e forjou um sem fim de instrumentos .
Criou a chave, uma barrinha metálica
que permite penetrar num vasto palácio.
Criou a espada e o arado,
extensões do braço do homem que os usa.
Criou o livro, que é uma extensão secular
da sua imaginação e da sua memória.
A partir dos vedas e das bíblias,
acolhemos a noção de livros sagrados.
De certo modo, qualquer livro o é.
Cervantes deixou escrito, no início do D. Quixote,
que costumava apanhar e ler
qualquer pedaço de papel impresso que achasse na rua.
Qualquer papel contendo uma palavra
é uma mensagem que um espírito humano manda a outro.
Agora, como sempre, pode perder-se este mundo
instável e precioso.
Só os livros o podem salvar, os livros
que são a melhor lembrança da nossa espécie.
Hugo disse que toda a biblioteca é um acto de fé;
Emerson, que é um gabinete onde se guardam
os melhores pensamentos dos melhores;
Carlyle, que a melhor universidade do nosso tempo
é composta por uma série de livros.
Os nórdicos e os saxões maravilharam-se tanto das letras,
que lhes deram o nome de runas,
quer dizer, de mistérios, de cochichos.
Eu, apesar das muitas viagens, sou um modesto Alonso
Quijano que não se atreve a ser D. Quixote
e continua a tecer e a destecer as mesmas fábulas antigas.
Outra vida não sei se há.
Se houver, quero ser esperado pelos livros
que li ao luar, com as mesmas capas e ilustrações,
com as mesmas erratas talvez,
mas também pelos que me depara ainda o futuro.
Dos vários géneros literários,
os que mais me agradam são catálogos e enciclopédias.
Não padecem de vaidade, por certo,
são anónimos como catedrais de pedra
e como generosos jardins.
Não verei, certamente, os textos todos acumulados,
mas sei que no outro lado me farão bem de algum modo
e hão-de ser-me de muito grata leitura.

(Trad. A.M.)

.

21.4.14

Jorge Luis Borges (Os meus livros)





MIS LIBROS



Mis libros (que no saben que yo existo)
son tan parte de mí como este rostro
de sienes grises y de grises ojos
que vanamente busco en los cristales
y que recorro con la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
pienso que las palabras esenciales
que me expresan están en esas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
me dirán para siempre.

Jorge Luis Borges

[Autores editores]



Meus livros (que não sabem que eu existo)
são tão parte de mim como este rosto
de têmporas e olhos cinzentos
que em vão procuro nos espelhos
e que percorro com a mão em concha.
Não sem certa amargura
penso que as palavras essenciais,
que me expressam, estão nessas folhas
que não sabem quem eu sou, não naquelas que escrevi.
Melhor assim. As vozes dos mortos
dir-me-ão para sempre.

(Trad. A.M.)

.

1.4.14

Pablo Neruda (Ode ao livro-II)





ODA AL LIBRO (II)


Libro
hermoso,
libro,
mínimo bosque,
hoja
tras hoja,
huele
tu papel
a elemento,
eres
matutino y nocturno,
cereal,
oceánico,
en tus antiguas páginas
cazadores de osos,
fogatas
cerca del Mississippi,
canoas
en las islas,
más tarde
caminos
y caminos,
revelaciones,
pueblos
insurgentes,
Rimbaud como un herido
pez sangriento
palpitando en el lodo,
y la hermosura
de la fraternidad,
piedra por piedra
sube el castillo humano,
dolores que entretejen
la firmeza,
acciones solidarias,
libro
oculto
de bolsillo
en bolsillo,
lámpara
clandestina,
estrella roja.

Nosotros
los poetas
caminantes
exploramos
el mundo,
en cada puerta
nos recibió la vida,
participamos
en la lucha terrestre.
Cuál fue nuestra victoria?
Un libro,
un libro lleno
de contactos humanos,
de camisas,
un libro
sin soledad, con hombres
y herramientas,
un libro
es la victoria.
Vive y cae
como todos los frutos,
no sólo tiene luz,
no sólo tiene
sombra,
se apaga,
se deshoja,
se pierde
entre las calles,
se desploma en la tierra.
Libro de poesía
de mañana,
otra vez
vuelve
a tener nieve o musgo
en tus páginas
para que las pisadas
o los ojos
vayan grabando
huellas:
de nuevo
descríbenos el mundo
los manantiales
entre la espesura,
las altas arboledas,
los planetas
polares,
y el hombre
en los caminos,
en los nuevos caminos,
avanzando
en la selva,
en el agua,
en el cielo,
en la desnuda soledad marina,
el hombre
descubriendo
los últimos secretos,
el hombre
regresando
con un libro,
el cazador de vuelta
con un libro,
el campesino arando
con un libro.

Pablo Neruda



Livro
belo,
livro,
mínimo bosque,
folha
após folha,
cheira
aos elementos
teu papel,
és matinal
e nocturno,
cereal,
oceânico,
nessas páginas antigas
caçadores de ossos
fogueiras do Mississipi,
canoas das ilhas,
mais tarde
caminhos
e caminhos,
revelações,
povos
levantados,
Rimbaud como um peixe
ferido a sangrar
palpitante no lodo,
e a beleza
da fraternidade,
pedra a pedra
sobe o castelo humano
dores entretecendo
a firmeza,
acções solidárias,
livro
oculto
de bolso
em bolso,
lâmpada
clandestina,
estrela vermelha.

Nós, poetas
caminhantes
exploramos
o mundo,
a vida nos recebendo
em cada porta,
participamos
na luta terrestre.
Qual a vitória nossa?
Um livro,
um livro cheio
de humanos contactos,
de camisas,
um livro
sem solidão, com homens
e ferramentas,
um livro
é a vitória.
Vive e cai
como todo o fruto,
não só tem luz,
não só tem
sombra,
como se apaga
e desfolha,
perde-se
pelas ruas,
despenha-se na terra.
Livro de poesia
de manhã,
volta
de novo
a ter neve ou musgo
nessas páginas,
para que os passos
ou os olhos
aí vão deixando
marcas:
diz-nos de novo
o mundo
os veios
por entre a espessura,
os altos bosques,
os planetas
polares,
e o homem
nos caminhos,
nos novos caminhos,
avançando
na selva,
na água,
no céu,
na solidão nua do mar,
o homem
descobrindo
os últimos segredos,
o homem
regressando
com um livro,
o caçador de volta
com um livro,
o camponês lavrando
com um livro.


(Trad. A.M.)


.

18.12.13

Antonio Pérez Morte (E agora?)





Y AHORA QUÉ?



¿Y ahora qué, lector?
Solos tu y yo,
desconocidos.
Unidos por un libro
en el que no sé qué buscas,
en el que yo ando perdido.

Antonio Pérez Morte

[Sureando]



E agora, leitor?
Sós, tu e eu,
desconhecidos.
Unidos por um livro
onde não sei o que procuras,
e onde eu ando perdido.

(Trad. A.M.)

.

27.12.12

Victor Botas (Destes mil livros)





De este millar y pico de libros que celosamente guardan
los anaqueles de mi biblioteca,
apenas diez
o doce
merecen ser nombrados. (Tu mirada
me falta;
de otro modo
toda literatura sería inútil).


Victor Botas




Destes mil livros e picos
que as minhas estantes
guardam zelosamente,
só dez ou doze
merecem menção.
(Falta-me o teu olhar;
sem ele
toda a literatura seria inútil).


(Trad. A.M.)

.