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21.7.17

Charles Bukowski (Nossa curiosa posição)





OUR CURIOUS POSITION



Saroyan on his deathbed said,
"I thought I would never die. . . "

I know what he meant:
I think of myself forever
rolling a cart through a
supermarket
looking for onions, potatoes
and bread
while watching the misshapen
and droll ladies push
by.
I think of myself forever
driving the freeway
looking through a dirty
windshield with the radio tuned to
something I don't want
to hear.
I think of myself forever
tilted back in a
dentist's chair
mouth
crocodiled open
musing that
I'm in
Who's Who in America.
I think of myself forever
in a room with a depressed
and unhappy woman.
I think of myself forever
in the bathtub
farting underwater
watching the bubbles
and feeling proud.

but dead, no. . .
blood pin-pointed out of
the nostrils,
my head cracking across
the desk
my fingers grabbing at
darkspace...
impossible ...

I think of myself forever
sitting upon the edge
of the bed
in my shorts with
toenail clippers
cracking off
huge ugly chunks
of nail
as I smile
while my white cat
sits in the window
looking out over the
town
as the telephone rings...

in between the
punctuating
agonies
life is such a
gentle habit:
I understand what
Saroyan
meant:

I think of myself
forever walking down the
stairs
opening the door
walking to the
mailbox
and finding all that
advertising
which
I don't believe
either.


Charles Bukowski



Saroyan dizia no seu leito de morte
“eu nunca pensei que morria”...

e eu percebo-o,
vendo-me a mim mesmo para sempre
a puxar um carrinho
no supermercado
em busca de cebolas, batatas
e pão,
e a ver passar as matronas
 ao lado a empurrar.
Vejo-me a conduzir eternamente
pela estrada,
olhando pelo vidro sujo, com o rádio
sintonizado em algo que não queria escutar.
Vejo-me recostado para sempre
na cadeira do dentista
a boca aberta como um crocodilo,
a pensar que figuro na lista
dos mais importantes da América.
Vejo-me num quarto para sempre
com uma mulher deprimida, infeliz.
Vejo-me na banheira
 a puxar uns traques subaquáticos
e a contemplar as bolhas, orgulhoso.

Mas morto, não...
o sangue a espirrar-me
do nariz,
a cabeça a estoirar-me no escritório,
os meus dedos filados
no espaço negro,
impossível.

Vejo-me eternamente sentado
na beira da cama,
em calções,
a cortar as unhas dos pés
sorrindo
para o gato sentado na janela
a olhar para fora
enquanto o telefone toca...

Por entre agonias pontuais
é um hábito catita, a vida:
percebo o que Saroyan
queria dizer:

Vejo-me no tempo a descer
as escadas,
abrir a porta,
ir à caixa do correio
e topar com a tralha
da publicidade
em que tão pouco acredito.


(Trad. A.M.)

.

15.5.16

Charles Bukowski (À puta que me levou os poemas)





TO THE WHORE WHO TOOK MY POEMS




some say we should keep personal remorse from the
poem,
stay abstract, and there is some reason in this,
but jezus;
twelve poems gone and I don't keep carbons and you have
my
paintings too, my best ones; its stifling:
are you trying to crush me out like the rest of them?
why didn't you take my money? they usually do
from the sleeping drunken pants sick in the corner.
next time take my left arm or a fifty
but not my poems:
I'm not Shakespeare
but sometime simply
there won't be any more, abstract or otherwise;
there'll always be money and whores and drunkards
down to the last bomb,
but as God said,
crossing his legs,
I see where I have made plenty of poets
but not so very much
poetry.


Charles Bukowski

[Hello Poetry]




há quem diga que devemos excluir do poema problemas pessoais,
ficar no abstracto, e alguma razão há nisso,
mas Jesus!
doze poemas se foram e eu sem cópias,
e também me levaste as telas, as melhores,
é horrível, queres-me lixar, como os outros?
porque não me levaste o dinheiro?
é o costume, tirá-lo a bêbedos dormindo
com as calças a um canto.
para a próxima leva-me o braço esquerdo
ou uma nota de cinquenta, mas não os poemas:
não sou nenhum Shakespeare,
o problema é que às vezes não há mais versos,
abstractos ou não;
dinheiro há-de haver sempre, e putas, e bêbedos,
até vir a bomba final,
mas como disse Deus,
traçando a perna
‘estou a ver que fiz muitos poetas
mas muito pouca
poesia’.

(Trad. A.M.)

.

14.1.16

Charles Bukowski (Sapatos)





SHOES



when you're young
a pair of
female
high-heeled shoes
just sitting
alone
in the closet
can fire your
bones;
when you're old
it's just
a pair of shoes
without
anybody
in them
and
just as
well.

Charles Bukowski




quando se é novo
um par de
sapatos altos
de mulher
depostos
no armário
pode pegar-nos fogo
aos ossos;
quando se é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
e
ainda
bem.


(Trad. A.M.)

.

17.9.15

Charles Bukowski (O meu destino)





O MEU DESTINO



como a raposa
fujo com os perseguidos
e se não sou
o homem mais feliz
à superfície da terra
seguramente que sou
o homem com mais sorte
vivo.


Charles Bukowski

(Trad. F.Carvalho)


[Revista Triplo V]

.

1.7.15

Charles Bukowski (Puxas um fio)




PULL A STRING, A PUPPET MOVES


each man must realize
that it can all disappear very
quickly:
the cat, the woman, the job,
the front tire,
the bed, the walls, the
room; all our necessities
including love,
rest on foundations of sand -
and any given cause,
no matter how unrelated:
the death of a boy in Hong Kong
or a blizzard in Omaha ...
can serve as your undoing.
all your chinaware crashing to the
kitchen floor, your girl will enter
and you'll be standing, drunk,
in the center of it and she'll ask:
my god, what's the matter?
and you'll answer: I don't know,
I don't know ...

Charles Bukowski



Um homem tem de admitir
que de repente tudo pode desaparecer,
o gato, a mulher, o emprego,
o pneu da frente, a cama, as paredes, o
quarto; tudo aquilo que precisamos,
inclusive o amor,
assenta em fundações de areia
- e qualquer coisa,
por mais distante que seja:
a morte dum rapaz em Hong Kong
ou uma brisa em Omaha,
pode desencadear a tua ruína.
Aí estás tu, bêbedo,
com a louça toda partida no chão,
a tua miúda aparece e pergunta,
meu deus, o que é que se passa,
e tu dizes, não sei, não sei...

(Trad. A.M.)

.

3.3.15

Charles Bukowski (O que eles querem)





WHAT THEY WANT



Vallejo writing about
loneliness while starving to
death;
Van Gogh's ear rejected by a
whore;
Rimbaud running off to Africa
to look for gold and finding
an incurable case of syphilis;
Beethoven gone deaf;
Pound dragged through the streets
in a cage;
Chatterton taking rat poison;
Hemingway's brains dropping into
the orange juice;
Pascal cutting his wrists
in the bathtub;
Artaud locked up with the mad;
Dostoevsky stood up against a wall;
Crane jumping into a boat propeller;
Lorca shot in the road by Spanish
troops;
Berryman jumping off a bridge;
Burroughs shooting his wife;
Mailer knifing his.

- that's what they want:
a God damned show
a lit billboard
in the middle of hell.
that's what they want,
that bunch of
dull
inarticulate
safe
dreary
admirers of
carnivals.

Charles Bukowski

[Avaunt Afflatus]




Vallejo escrevendo sobre
a solidão enquanto morre
de fome;
a orelha de Van Gogh rejeitada
por uma puta;
Rimbaud bazando para África
em busca de ouro e topando
com uma sifilis incurável;
Beethoven surdo de todo;
Pound arrastado pelas ruas
dentro duma jaula;
Chatterton engolindo veneno dos ratos;
os miolos de Hemingway misturando-se
como sumo de laranja;
Pascal a abrir os pulsos
na banheira;
Artaud encerrado no manicómio;
Dostoievsky empurrado contra a parede;
Crane a atirar-se a uma hélice dum barco;
Lorca fuzilado numa estrada por soldados espanhóis;
Berryman a jogar-se duma ponte abaixo;
Burroughs a alvejar a mulher;
Mailer a esfaquear a dele.

- é o que eles querem,
uma porra dum espectáculo,
um painel iluminado
no meio do inferno,
é o que eles querem,
esse punhado
de broncos
moles
seguros
chatos
amantes de
carnavais.

(Trad. A.M.)

.

28.9.14

Charles Bukowski (Oh, yes)





OH, YES



there are worse things than
being alone
but it often takes decades
to realize this
and most often
when you do
it's too late
and there's nothing worse
than
too late.

Charles Bukowski



Há coisas piores
do que estar sozinho,
mas às vezes levamos décadas
para o perceber.
E muitas vezes
ao percebê-lo
é já tarde de mais.
E não há nada pior
do que
tarde de mais.

(Trad. A.M.)

.

12.4.14

Charles Bukowski (Hoje)





TONIGHT



“your poems about the girls will still be around
50 years from now when the girls are gone,”
my editor phones me.
dear editor:
the girls appear to be gone
already.
I know what you mean
but give me one truly alive woman
tonight
walking across the floor toward me
and you can have all the poems
the good ones
the bad ones
or any that I might write
after this one.
I know what you mean.
do you know what I mean?

Charles Bukowski



“os teus poemas de mulheres ainda existirão
daqui a 50 anos quando elas já tiverem desaparecido”,
diz-me ao telefone o meu editor
meu caro editor:
ao que parece as mulheres já desapareceram mesmo.
sei o que queres dizer
mas dá-me para hoje uma mulher realmente vivinha da silva
pisando na sala a dirigir-se para mim
e podes ficar com todos os poemas
os bons
os ruins
ou outros que eu possa escrever
depois deste.
sei o que queres dizer.
sabes tu o que eu quero dizer?

(Trad. A.M.)

.

14.12.12

Charles Bukowski (Sim, claro)





SIM, CLARO



há coisas piores do que
estar só
mas em geral leva décadas
a perceber-se
e frequentemente
quando se percebe
é tarde de mais
e nada há pior
do que
demasiado tarde.


Charles Bukowski

(Trad. F.Carvalho)


[Revista TriploV]

.

2.7.12

Charles Bukowski (Escrever)





WRITING



often it is the only
thing
between you and
impossibility.
no drink,
no woman's love,
no wealth
can
match it.

Charles Bukowski





muitas vezes é a única
coisa
que te separa
do impossível.
não há bebida,
nem amor,
nem dinheiro
que valham
o mesmo.

(Trad. A.M.)

.

2.3.12

Charles Bukowski (Não suporto lágrimas)






NÃO SUPORTO LÁGRIMAS




havia algumas centenas de imbecis
de volta de uma ganso que tinha partido uma perna
enquanto decidiam
o que fazer
quando um polícia apareceu
e sacou do seu canhão
e o assunto estava encerrado
excepto para uma mulher
que saiu a correr da sua barraca
a gritar que lhe tinham morto o animal de estimação
mas o polícia agarrou o seu cinto
e disse-lhe
vai ao raio que te parta,
queixa-te ao presidente da república;
a mulher estava a chorar
e eu não suporto lágrimas.


Arrumei a minha tela
e fui para outro sítio:
os filhos da mãe tinham-me estragado
a paisagem.



Charles Bukowski

(Trad. m.a.domingos)



[O amor é um cão do inferno]

.

8.10.11

Charles Bukowski (Se ensinasse escrita criativa)






SE ENSINASSE ESCRITA CRIATIVA, PERGUNTOU-ME, O QUE LHES DIRIA?




diria para terem um desgosto amoroso,
hemorróidas, dentes podres
beberem vinho barato,
evitar a ópera e o golfe e o xadrez,
mudarem a cabeça da cama
de parede para parede
e depois diria para terem
outro desgosto amoroso
e para nunca usarem computador
portátil,
evitarem almoços em família
ou serem fotografados num jardim
com flores;
para lerem Hemingway só uma vez,
passarem por Faulkner
ignorarem Gogol
verem fotografias da Getrude Stein
e lerem Sherwood Anderson na cama
enquanto comem bolachas de água e sal,
perceberem que as pessoas que falam de
liberdade sexual tem mais medo do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs a tocar
órgão na rádio enquanto enrolam
um Bull Durham às escuras
numa cidade desconhecida
com um dia para pagar a renda
depois de abandonar
amigos, família e trabalho.
para nunca se considerarem superiores e/
ou justos
e nunca tentar ser.
para terem outro desgosto amoroso.
observarem uma mosca no verão.
nunca tentar ter sucesso.
nunca jogar bilhar.
para se mostrarem verdadeiramente furiosos
quando descobrirem que têm um pneu furado.
tomarem vitaminas mas nunca fazer exercício físico.


depois disto tudo
inverter o processo.
ter um bom caso amoroso.
e aprender
que não há nada nem ninguém a saber tudo –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira do jardim nem a Estrela Polar.
e se algum dia me apanharem
a dar uma aula de escrita criativa
e lerem isto
eu dou-vos um 20
pelo cu
acima.




Charles Bukowski

(Trad. m.a.domingos)


[O amor é um cão do inferno]


.

7.6.11

Charles Bukowski (O início)






O INÍCIO



quando as mulheres deixarem
de levar espelhos
para todos os lados
talvez nessa altura
elas possam falar comigo
sobre
libertação. 
 

Charles Bukowski

(Trad. m.a.domingos)




.

7.5.11

Charles Bukowski (Como ser um grande escritor)






COMO SER UM GRANDE ESCRITOR




tens que foder muitas mulheres
mulheres bonitas
e escrever alguns bons poemas de amor.

e não tens que te preocupar com a idade
e/ou novos talentos.

apenas bebe mais cerveja
mais e mais cerveja

e vai às corridas pelo menos uma vez
por semana

e vence
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer imbecil pode ser um bom perdedor.

e não te esqueças de Brahams
nem de Bach nem
da cerveja.

não faças exercício a mais.

dorme até ao meio-dia.

evita cartões de crédito
ou pagar seja o que for a
tempo e horas.

lembra-te que não há nenhum cu
no mundo que valha mais de $50
(em 1977).

e se tens a capacidade de amar
ama-te primeiro
mas nunca te esqueças da possibilidade de
derrota total
mesmo que a razão para a derrota
seja justa ou injusta –

sentir cedo o bafo da morte não é
assim tão mau.

afasta-te das igrejas e bares e museus,
e como a aranha sê
paciente –
o tempo é a nossa cruz,
mais o exílio
a derrota
a traição

tudo isso.

sê fiel à cerveja.

uma amante constante.

arranja uma grande máquina-de-escrever
e enquanto ouves os passos para cima e para baixo
lá fora

martela a coisa
martela com força

transforma-a num combate de pesos-pesados

transforma-a no touro na sua primeira investida

e lembra os velhos sacanas
que tão bem lutaram:
Hemingway, Céline, Dostoievsky, Hamsun.

se pensas que eles não enlouqueceram
em pequenos quartos
tal como tu agora

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então não estás preparado.

bebe mais cerveja.
há tempo.
e se não houver
está tudo bem
na mesma.



Charles Bukowski

(Trad. m.a.domingos)


[O amor é um cão do inferno]


.

20.4.11

Charles Bukowski (Um modelo)





A MODEL



I want to be like that
man who entered the
restaurant
tonight.
he parked right in
front
of the front
door,
blocking off a good many
parked cars,
then slammed his car
door shut,
walked in,
his shirt hanging out
over his big
gut.
when he saw the
maitre d', he
said, "hey, Frank,
get me a fucking
table by the
window!"
and Frank smiled and followed
him
along.



I want to be like
that man.
this way's not
working.

for over 70 years
now.


CHARLES BUKOWSKI
Bone Palace Ballet
(1997)




Eu quero ser como esse
homem que entrou hoje
no restaurante.
estacionou mesmo em
frente
da porta,
bloqueando a saída de imensos
carros estacionados,
depois atirou a porta do carro
com estrondo,
e entrou,
com a camisa a pender-lhe
sobre a enorme
barriga.
quando viu o maitre,
disse para ele “ei, Frank, dá-me
uma porra duma mesa ao pé
da janela”!
e Frank a sorrir lá foi
acompanhá-lo.



Eu quero ser como
esse homem.
o meu jeito não está
a resultar.

há mais de 70 anos
já.


(Trad. A.M.)


>>  Bukowski (tudo+algo)  /  C.Bukowski (idem)  /  Bukowski (idem/cast.)  /  Wikipedia  /  O amor é um cão do inferno (antologia port. / manuel a. domingos)

.