A DEMOCRACIA PLURAL PORTUGUESA OCIDENTAL
Neste bairro onde miam gatas há dez mil de gente Fácil:
contem-se todas as cabeças uma por
uma
uma de cada vez Façam-se
perguntas
Registem-se as respostas Por
exemplo: ao perguntar-se
Se ganham menos do que é necessário pra viver
façam uma cruz Mas façam a
mesma cruz
caso digam o contrário Se tiverem um
rádio vejam
o rádio e façam uma cruz no rádio
Se tiverem uma bicicleta cruz na bicicleta
Cruz nos aparelhos de TV Cruz
nos frigoríficos
Cruz se a barraca for deles Cruz
se for alugada
Cruz na idade que têm Cruz se são
solteiros ou casados
Cruzes em resumo em tudo o que é máquina
Máquinas de costura por exemplo Vejam
se as rodas andam Cruz Cruz Cruz Cruz
Cruz no número de filhos Não há
nada que não conte
Depois de tudo passado a pente fino
contado classificado codificado computorizado
é preciso calcular a média Dividir
o que há
por todos para que ninguém se queixe de injustiça
Os nomes não interessam Os
nomes não têm significado
Velho ou doente não se deixe ninguém de fora
Sendo assim até uma doente estéril ficará com
alguns filhos Se a maioria passa
fome calcule-se
a fome média Estamos
ou não na democracia
ocidental? Todos têm de tê-la
igual Não haverá
desempregados porque todos mas todos terão uma
fracçãozinha de emprego para sustentar uma fracçãozinha
de família numa fracçãozinha de barraca Nada pois
de sangueiras ódios ressentimentos Sobretudo nada de
provocações à Guarda nem de atacar o Quartel do
Carmo ou o palácio onde tanto se esforçam os doutores-deputados
Este é o conselho das pessoas sábias Está aliás na
Constituição que ó diabo é preciso emendar para que
se prescreva inalienável o direito a fracções mais pequenas
Assim é que será bem plural e ocidental a democracia em Portugal
Alexandre Pinheiro Torres

