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6.5.26

Rodolfo Serrano (Testamento vital)




TESTAMENTO VITAL

 

Dejo a todos mis versos si es que os sirven de algo,
mis pecados peores que os llevarán al cielo
donde moran los ángeles caídos y las ángeles
que nunca respetaron el sexto mandamiento. 

Os dejo las promesas que jamás he cumplido, 
cuatro sueños frustrados, pendientes todavía,
algunas esperanzas que dejé abandonadas
y el deseo de un cuerpo en mis noches vacías. 

Y a todos, todos, dejo el brillo de la luna,
la angustia de los lunes y el miedo a un Dios de cólera.
Os dejo la manzana del Edén y mi odio
al dolor de los niños. Y dejo mis caricias
a los hombres que fueron derrotados conmigo. 

Os dejo, pues, mi rabia frente a lo que es injusto,
también mi cobardía y mi miedo ante aquellos
que compraron por nada mi silencio más cómplice. 
Y ganaron con trampas mi vida en el tablero. 

Os dejo mi tristeza. Cuidadla con cariño.
Y el recuerdo de largos paseos en la noche,
de tardes de noviembre y playas en verano,
de esos trenes nocturnos y frías estaciones, 
y esta extraña nostalgia por los puertos lejanos. 

Os dejo la añoranza de un verano en Lisboa,
el olor de la hierba cuando llueve en  la aldea, 
esa belleza mágica de los cielos con nubes.
La luz de una farola y una calle desierta. 

A los que me ofendieron les dejo mis ofensas.
Y a mis amigos dejo esos bares de barrio
que nos dieron el vino y el pan de la amistad.
A ti, solo a ti dejo, la dicha que te debo,
las noches más hermosas y este amor, viejo amor.
 

Rodolfo Serrano

  

Deixo meus versos a todos se vos servirem de alguma coisa,
meus pecados maiores que vos levarão ao céu 
onde moram os anjos caídos e as anjas
que nunca respeitaram o sexto mandamento.

Deixo-vos as promessas que jamais cumpri,
quatro sonhos frustrados, pendentes ainda,
algumas esperanças já abandonadas
e o desejo de um corpo nas minhas noites vazias.

E a todos, todos, deixo o brilho da lua,
a angústia das segundas e o medo a um Deus de cólera.
Deixo-vos a maçã do Paraíso e meu ódio
à dor das crianças, legando meus carinhos 
aos homens comigo derrotados.

Deixo-vos, depois, minha raiva face à injustiça,
minha cobardia também e meu medo perante aqueles 
que compraram por nada meu silêncio mais cúmplice,
e ganharam com truques minha vida no tabuleiro.

Deixo-vos a minha tristeza, tratai-a com carinho,
mais a lembrança de longos passeios nocturnos,
de tardes de Novembro e praias de verão,
de comboios da noite e frias estações,
e esta nostalgia estranha por portos longínquos.

Deixo-vos a saudade de um verão em Lisboa,
o cheiro da erva quando chove na aldeia,
aquela beleza mágica dos céus com nuvens,
a luz de um candeeiro e uma rua deserta.

Aos que me ofenderam lego as minhas ofensas,
deixando aos amigos aqueles bares de bairro
que nos deram o vinho e o pão da amizade.
A ti, só a ti, deixo a ventura que te devo,
as noites mais belas e este amor, velho amor.

(Trad. A.M.)

 .

24.10.25

Vitorino Nemésio (Disposições de última vontade)




DISPOSIÇÕES DE ÚLTIMA VONTADE 

 

Não me proíbam que seja o imaginário amoroso,
nem me venham prender
à sua própria cama
esta vaga mulher que se insinuou na minha alma
e acha o ninho gostoso.
Não me amesquinhem nem reduzam
só ao que sou por fora e é negado por dentro;
Mas também não me lastimem como quem diz de uma casa:
‘Que lindo jogo de varandas!
É pena
que tenha o forro roto e cheio de ratos.’
Deixem-me dormir,
dormir maciçamente e com todas as distensões
semelhantes, no cómodo, à posição dos extintos,
e sem tirar as polainas cor de café com leite
que usam os rapazes distintos.
Dormir! Estar pràqui quieto e atravessado
pelos fogos que perderam a direção dos chamuscos,
pelos rastos dos cometas que deixaram o lume no céu
e o atilho no mar — papagaios enormes!
O meu cinzeiro de fumador cá está crescendo;
Cá estou fazendo os versos que hão de dar ‘honra às letras’.
Que mais querem?
Não é este o célebre Dever e a obrigação de cada um?
Cumprida a qual — desistam
de me pedir a volta ao costumado equilíbrio,
à pacatez forçosa.
Sofro com olhos naturais
e sem sombra de arranjo
o que uma força remota tem necessidade de que eu sofra
e embebe em mim até aos copos da lúcida espada do Anjo.
E, se tenho chagas curáveis,
cá sei por que é saboroso ir sugando o seu podre!
Peço além disso que a terra
onde nasci  seja ainda e sempre conservada
a uma boa distância de mim:
Para que quem lá mora tenha o tempo por si para esquecer-me —
ou então para se lembrar cada vez mais de mim
enquanto me torno impossível:
Mas lembrar com uma lembrança aguda e intolerável,
que pese como o mar e seja salgada e repetida
como cada onda que bate
no rochedo — até lá por outras ondas seguida:
Onda que não me salva,
porque estou longe e será para todo o sempre perdida.
E assim ficarei quieto,
além de ficar restituído
ao original silêncio;
E, enfim, me irei perdendo...
Porque era realmente disparate,
como quem acha um cigarro ainda com lume, ter achado
certo fogo que não pode de modo algum ficar ardendo.
Abram as janelas para sair o resto do fumo
e fechem a porta. Não deixem entrar ninguém
e, muito menos, poetas.
Agora sinto-me bem;
Os mortos, na verdade, são umas pessoas completas.
 

Vitorino Nemésio

.

21.10.25

Francisco García Marquina (Testamento ológrafo)




TESTAMENTO OLÓGRAFO 

 

Llegados a este punto comienzo a desbarrar
y a insultarte con gracia, a hacerte algunas
proposiciones indecentes.
Este poema es una saludable
invitación al mal
que sólo entenderás si tú me amas
con toda crueldad y sin respiro
y al margen de la ley.
A lo peor de ti se dirigen mis versos:
a tu ternura airada y a tus lágrimas
que matan a distancia, a tu mentira
hecha de oro mojado,
a tu hacienda perdida de antemano
y a esta muerte gloriosa y compartida
que quiero negociar.
Nos queda por delante algo de vida
caducable y dudosa, pero luego
sin duda gozaremos
de una extensa y perdurable muerte.
Al hacer nuestros planes de futuro
hay que contar con esa
terrible dimensión de despropósito.
Yo amo la vida que cargo a mis espaldas
pero, si miro al frente,
debo reconocer que el futuro está en esa
solidez de desastre.
Tuvimos ciertas buenas experiencias
ensayando tan negro porvenir
en esas muertes dulces
con las que agonizaron nuestros cuerpos
en esos urgentísimos delitos
de los que fuimos cómplices,
y en esos golpes cálidos de mano
con que la carne toca el más allá.
El crimen fue perfecto
llenándonos de dicha la sentencia.
En consecuencia, ahora
y muy serenamente, he decidido
participar en esta ceremonia
capital, de la muerte.
Voy a darle la cara
para que no se fragüe a mis espaldas.
Yo he cometido errores y también cobardías
que empañan el pasado
pero, mirando al frente, me propongo
que el morir sea un acierto.
Y si mi vida fue involuntaria y necia,
saber morir adrede
podría ser la enmienda de aquel caos.
A quien amo le digo:
el regalo exquisito que te ofrezco,
con la honradez que da el amor penúltimo,
es la muerte entre dos.
Vamos del brazo al cabo de la vida,
lo que hayamos de hacer
lo haremos juntos.

FRANCISCO GARCÍA MARQUINA
Cartas a Deshora
(2010)


Aqui chegados eu começo a desvairar
e a insultar-te por graça, a fazer-te algumas
propostas indecentes.
Este poema é um são convite para o mal
que tu só vais entender se me amares
do modo mais cruel, sem respirar
e à margem da lei.
Ao pior de ti meus versos vão dirigidos,
à tua ternura airada e tuas lágrimas
que matam à distância, à tua mentira
feita de ouro molhado,
á fazenda perdida de antemão
e a esta morte gloriosa e partilhada
que eu pretendo negociar.
Para diante nos fica alguma vida
duvidosa e caducável, mas depois gozaremos
extensa e perdurável morte.
Ao fazermos nossos planos de futuro
temos de contar com essa
terrível dimensão de despropósito.
Eu amo a vida que carrego nas minhas costas,
mas, se olhar para a frente,
tenho de reconhecer que o futuro
está nessa solidez de desastre.
Boas experiências tivemos nós
ensaiando tão negro futuro
nessas mortes doces
em que nossos corpos agonizaram,
nesses urgentíssimos delitos
em que ambos fomos cúmplices,
e nesses golpes de mão
com que a carne toca o além.
Crime perfeito,
a sentença nos ditou a ventura.
Assim, muito serenamente, tenho decidido
participar nesta cerimónia
capital da morte.
Vou dar-lhe a cara
para não se fazer nas minhas costas.
Cometi erros, sim, e também cobardias
que turvam o passado,
mas, olhando para a frente,
proponho que a morte seja um acerto final.
E se minha vida foi néscia e casual,
saber morrer adrede
poderia ser a emenda desse caos.
A quem amo eu digo:
o presente fino que te ofereço,
com a honradez do amor quase derradeiro,
é a morte entre os dois.
Vamos de braço dado até ao fim,
o que tivermos de fazer
faremos juntos.
 

(Trad. A.M.)

.

15.6.25

Óscar Alonso Pardo (Testamento)




TESTAMENTO

 

Si alguna vez el alzheimer
   se apodera de mis recuerdos
decidme que viajé a lugares remotos
en busca de tesoros escondidos
que me acosté con las mujeres más hermosas
que escribí los versos más bonitos
   que jamás se escribieron
que tuve muchos amigos
y una familia que me quiso.

Decidme todo eso
aunque sea mentira.

Si alguna vez
   no recuerdo mi nombre
decidme que fui
   un hombre feliz.

Óscar Alonso Pardo



Se o alzheimer algum dia
se apossar das minhas lembranças
dizei-me que viajei para remotos lugares
buscando tesouros ocultos
que me deitei com as mulheres mais belas
que escrevi os versos mais lindos
               que jamais foram escritos
que tive muitos amigos
e uma família que me amou.

Dizei-me isso tudo
mesmo que seja mentira.

Se algum dia
               eu não lembrar o meu nome
dizei-me que eu fui
               um homem feliz.


(Trad. A.M.)

 .

22.4.25

Luis Eduardo García (Testamento)




TESTAMENTO

 

Si muero accidentalmente por bala
o acaso
“HOMBRE JOVEN POR GRANADA DESTRUIDO”
dejo listas mis Obras Completas en la carpeta “Poesía” 

la contraseña es “poeta judío alemán rumano
nacido en lo que ahora es Ucrania”. 

Favor de dejar la pornografía en orden.
 

Luis Eduardo García 

[Ediciones Liliputienses

 

Caso eu morra acidentalmente com tiro
ou porventura
‘Homem jovem desfeito por granada’
deixo prontas na pasta ‘Poesia’
as minhas Obras Completas 

a senha é ‘poeta judeu alemão romeno
nascido na actual Ucrânia’. 

Favor deixar em ordem a pornografia.
 

(Trad. A.M.)

 .

28.3.23

Virgilio Piñera (Testamento)




TESTAMENTO

 

Como he sido iconoclasta
me niego a que me hagan estatua:
si en la vida he sido carne,
en la muerte no quiero ser mármol.
Como yo soy de un lugar
de demonios y de ángeles,
en ángel y demonio muerto
seguiré por esas calles…
En tal eternidad veré
nuevos demonios y ángeles,
con ellos conversaré
en un lenguaje cifrado.
Y todos entenderán
el yo no lloro, mi hermano….
Así fui, así viví,
así soñé. Pasé el trance.


Virgilio Piñera

 

 

Como fui iconoclasta,
não aceito que me façam estátua:
já que em vida fui carne,
não quero na morte ser mármore.
Como eu sou de um lugar
de anjos e demónios,
como anjo e demónio morto
seguirei por essas ruas…
E na eternidade verei
novos anjos e demónios,
com eles conversarei
em linguagem cifrada.
E todos entenderão
o ‘eu não choro, meu irmão’…
Assim fui, assim vivi
e sonhei. Passei o transe.


(Trad. A.M.)

 .

9.6.22

Miguel Veyrat (Testamento ológrafo)




TESTAMENTO OLÓGRAFO

 

Devuélveme Atienza tus colinas, 
el gris de los jirones con que tejes 
el chopo dolorido de la tarde. 

     Atienza verde vaguada 
de lágrimas cautivas 
que ahora son torrente. 

...tuvimos otras tardes muy distintas... 
    Por ejemplo: 
yo te repetía, cerca la boca 
de tu corazón de trigo 
               Atienza 
               Atienza 
               Atienza 
               Atienza mía 

casi siempre al partir, cuando el castillo 
erguía hacia atrás su sombra 
y su reproche. 


Hoy, ya dispuesto al gran viaje 
confieso que soñé con dormir entre otras tierras 
alimentar raíces diferentes 
iluminar distintas sementeras. 
Hoy, seguro de tu luz proclamo, ruego 
y pido: 
que dentro de un momento 
cuando muera 
alguien me recoja -no temáis 
que estoy ya tan liviano como 
un pájaro-
y me ponga aquí desnudo,
abierto en cruz y con la boca
contra tu mano de tierra.

     Así, serena mi alma en tu luz
bajo tu seno
aguardaré mi último desguace.


Miguel Veyrat

 

 

Devolve-me Atienza tuas colinas,
a cinza dos remendos com que teces
o choupo dorido da tarde.

Atienza verde talvegue
de lágrimas cativas
que já fazem torrente.

… outras tardes tivemos, bem diferentes…
               Por exemplo:
eu dizia-te, boca a boca
de teu coração de trigo
               Atienza 
               Atienza 
               Atienza 
               Atienza minha
quase sempre ao partir, quando o castelo
deitava para trás sua sombra
e censura.

Hoje, pronto já para a grande viagem
confesso que sonhei dormir noutras terras
alimentar outras raízes
iluminar outras sementeiras.
Hoje, seguro da tua luz, proclamo, peço
e requeiro:
que ao morrer dentro de instantes
alguém me recolha – sem problema,
que estou leve como um pássaro –
 e me deponha aqui desnudo
aberto em cruz e a boca
contra tua mão de terra.

Assim, de alma serena e em teu seio
aguardarei meu último alento.


(Trad. A.M.)

.

27.2.22

Pier Paolo Pasolini (Versos do testamento)




VERSI DEL TESTAMENTO

 

Solitudine: bisogna essere molto forti
per amare la solitudine; bisogna avere buone gambe
e una resistenza fuori dal comune; non si deve rischiare
raffreddore, influenza e mal di gola; non si devono temere
rapinatori o assassini; se tocca camminare
per tutto il pomeriggio o magari per tutta la sera
bisogna saperlo fare senza accorgersene; da sedersi non c’è;
specie d’inverno; col vento che tira sull’erba bagnata,
e coi pietroni tra l’immondizia umidi e fangosi;
non c’è proprio nessun conforto, su ciò non c’è dubbio,
oltre a quello di avere davanti tutto un giorno e una notte
senza doveri o limiti di qualsiasi genere.
Il sesso è un pretesto. Per quanti siano gli incontri
- e anche d’inverno, per le strade abbandonate al vento,
tra le distese d’immondizia contro i palazzi lontani,
essi sono molti – non sono che momenti della solitudine;
più caldo e vivo è il corpo gentile
che unge di seme e se ne va,
più freddo e mortale è intorno il diletto deserto;
è esso che riempie di gioia, come un vento miracoloso,
non il sorriso innocente, o la torbida prepotenza
di chi poi se ne va; egli si porta dietro una giovinezza
enormemente giovane; e in questo è disumano,
perché non lascia tracce, o meglio, lascia solo una traccia
che è sempre la stessa in tutte le stagioni.
Un ragazzo ai suoi primi amori
altro non è che la fecondità del mondo.
E’ il mondo così arriva con lui; appare e scompare,
come una forma che muta. Restano intatte tutte le cose,
e tu potrai percorrere mezza città, non lo ritroverai più;
l’atto è compiuto, la sua ripetizione è un rito. Dunque
la solitudine è ancora più grande se una folla intera
attende il suo turno: cresce infatti il numero delle sparizioni –
l’andarsene è fuggire – e il seguente incombe sul presente
come un dovere, un sacrificio da compiere alla voglia di morte.
Invecchiando, però, la stanchezza comincia a farsi sentire,
specie nel momento in cui è appena passata l’ora di cena,
e per te non è mutato niente: allora per un soffio non urli o piangi;
e ciò sarebbe enorme se non fosse appunto solo stanchezza,
e forse un po’ di fame. Enorme, perché vorrebbe dire
che il tuo desiderio di solitudine non potrebbe essere più soddisfatto
e allora cosa ti aspetta, se ciò che non è considerato solitudine
è la solitudine vera, quella che non puoi accettare?
Non c’é cena o pranzo o soddisfazione del mondo,
che valga una camminata senza fine per le strade povere
dove bisogna essere disgraziati e forti, fratelli dei cani.

PIER PAOLO PASOLINI
Trasumanar e organizzar
(1971)

[Enfermaria 6]

 

 

Solidão: é preciso ser muito forte
para amar a solidão; é preciso ter boas pernas
e uma resistência fora do comum; não se deve arriscar
uma constipação, uma gripe ou dor de garganta; não se deve temer
ladrões ou assassinos; se toca a caminhar
toda a tarde ou mesmo toda a noite
é preciso sabê-lo fazer sem esforço; nada de sentar;
especialmente de inverno, com o vento que sopra sobre a erva molhada,
e as pedras com lama e humidade no meio do lixo;
não há o mínimo de conforto, já se sabe,
para além de se ter por diante o dia todo e a noite
sem quaisquer deveres ou limites.
O sexo é um pretexto. Por muitos que sejam os encontros
- e são, mesmo de inverno, pelos caminhos expostos ao vento,
entre os montes de lixo ao pé das casas -  são apenas momentos de solidão;
mais quente e vivo é o corpo gentil
que deixa o sémen e vai-se embora,
mais frio e mortal é o bem-amado deserto em redor;
é este que nos enche de alegria, tal como um vento milagroso,
não o sorriso inocente, ou a turva prepotência
de quem depois se vai embora; ele leva atrás de si
uma juventude altamente jovem; e nisto é desumano,
pois não deixa rastos, aliás, deixa um só rasto
que é sempre o mesmo em todas as estações.
Um rapaz nos seus primeiros amores
não é senão a fecundidade do mundo.
E assim o mundo chega com ele, aparece e desaparece,
como uma forma em mutação. Tudo mais fica intacto,
podes percorrer meia cidade que não o encontrarás mais;
o acto cumpriu-se, a repetição é um rito. Por isso
a solidão é ainda maior se uma multidão espera a sua vez:
aumentam, de facto, os desaparecimentos
- ir-se embora é fugir – e o seguinte paira sobre o presente
como um dever, um sacrifício a cumprir até à vontade de morrer.
Com a idade, porém, o cansaço começa a fazer-se sentir,
especialmente logo a seguir à hora de jantar,
e para ti nada mudou, só por um triz não choras nem berras,
o que seria terrível se não fosse apenas cansaço, talvez um pouco de fome.
Terrível, pois significaria
que o teu desejo de solidão não poderia mais realizar-se
e então o que é que te espera, se o que não se considera solidão
é afinal a verdadeira solidão, aquela que tu não és capaz de aceitar?
Não há almoço ou jantar ou outra coisa no mundo,
que valha uma caminhada por estes caminhos pobres
onde temos de ser desgraçados e fortes, dos cães irmãos.


(Trad. A.M.)

 .

29.7.21

Natália Correia (O testamento dos namorados)




O TESTAMENTO DOS NAMORADOS


Escolhamos as coisas mais inúteis 
o verde água o rumor das frutas 
e partamos como quem sai 
ao domingo naturalmente. 

Deixemos entretanto o sinal 
de ter existido carnalmente: 
da tua força um castiçal 
da minha fragilidade um pente. 

Esse hieróglifo essa lousa 
deixemos para que uma criança 
a encontre como quem ousa 
um novo passo de dança. 

Natália Correia

 .

21.7.21

José María Valverde (Deixo-vos tudo)




Todo os lo dejaré cuando me muera;                     
las rosas que yo solo comprendía,
mi aire, mi cielo y luz, mi noche y día,
mi asombro de existir, mi vida entera.

Y pues completa dárosla quisiera,
tomad también la gota de armonía
que a ese mundo he añadido, mi poesía
con su revelación en mi manera.

...Pero sé que aunque os deje voz y trino
me llevaré al silencio eterno, muerto,
este modo de ver que me arrebata,

este mundo inefable que adivino,
esta revelación que nunca acierto
a expresar, que me aprieta y que me mata.


José María Valverde

 

 

Deixo-vos tudo quando morrer,
as rosas que só eu compreendia,
meu ar e meu céu, minha noite e meu dia,
meu assombro de viver, minha vida toda.

E pois que toda vo-la quero dar,
tomai também a gota de harmonia
que acrescentei ao mundo, a poesia
que desde sempre cultivei.

Deixando-vos a voz e o trinado,
levo comigo para o silêncio eterno
este modo meu que me arrebata,

este mundo inefável que adivinho,
esta revelação que me cala dentro do peito,
que não expulso e que me mata.


(Trad. A.M.)

.

7.6.21

Daniel Cotta (Eu faço testamento todas as noites)




Yo dicto testamento cada noche:
dispongo mis zapatos, mi camisa,
la piel que llevo puesta
para el cuerpo que ocupe mañana mi huella en el colchón.
Le lego mis pupilas, mi garganta,
mis manos, mis heridas,
mis miedos, mis deberes por cumplir…
Y sobre toda obligación, le lego
las arcas de cariño acumulado
por quien me eligió ayer
como heredero,
que a su vez lo heredó de tantos cuerpos
y cuerpos que murieron cada noche
haciendo testamento de su amor.
Que mi heredero de mañana
no muera sin haber incrementado
en algo el patrimonio familiar.

Daniel Cotta

[Jose Antonio F.S.]
 

 

Eu faço testamento todas as noites,
disponho dos sapatos, da camisa,
da pele que uso,
a favor do corpo que amanhã ocupe o meu lugar no colchão.
Lego-lhe as pupilas, a garganta,
as mãos, as feridas, os medos,
os meus deveres por cumprir...
E lego-lhe ainda, livre de encargos,
as arcas de carinho acumulado
por quem antes me escolheu 
a mim como herdeiro,
e que o herdou por seu turno de tantos corpos
e corpos que morreram todas as noites
fazendo testamento de seu amor.
Que meu herdeiro de amanhã 
não morra sem acrescentar
em algo o património familiar.

(Trad. A.M.)

 .

26.3.21

Hilda Hilst (Testamento lírico)



TESTAMENTO LÍRICO



Se quiserem saber se pedi muito
Ou se nada pedi, nesta minha vida,
Saiba, senhor, que sempre me perdi
Na criança que fui, tão confundida.
À noite ouvia vozes e regressos.
A noite me falava sempre sempre
Do possível de fábulas. De fadas.
O mundo na varanda. Céu aberto.
Castanheiras douradas. Meu espanto
Diante das muitas falas, das risadas.
Eu era uma criança delirante.
Nem soube defender-me das palavras.
Nem soube dizer das aflições, da mágoa
De não saber dizer coisas amantes.
O que vivia em mim, sempre calava.

E não sou mais que a infância. Nem pretendo
Ser outra, comedida. Ah, se soubésseis!
Ter escolhido um mundo, este em que vivo,
Ter rituais e gestos e lembranças.
Viver secretamente. Em sigilo
Permanecer aquela, esquiva e dócil.
Querer deixar um testamento lírico
E escutar (apesar) entre as paredes
Um ruído inquietante de sorrisos
Uma boca de plumas, murmurante.

Nem sempre há de falar-vos um poeta.
E ainda que minha voz não seja ouvida
Um dentre vós, resguardará (por certo)
A criança que foi. Tão confundida.


Hilda Hilst


.

25.10.20

José Régio (Testamento do poeta)




TESTAMENTO DO POETA

 

 Todo esse vosso esforço é vão, amigos: 
Não sou dos que se aceita... a não ser mortos. 
Demais, já desisti de quaisquer portos; 
Não peço a vossa esmola de mendigos.  

O mesmo vos direi, sonhos antigos 
De amor! olhos nos meus outrora absortos! 
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos, 
Que fostes o melhor dos meus pascigos!  

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje 
Que tudo e todos vejo reduzidos, 
E ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.  

Para reaver, porém, todo o Universo, 
E amar! e crer! e achar meus mil sentidos!.... 
Basta-me o gesto de contar um verso. 

José Régio

 .


6.8.20

Eugenio Montale (Pequeno testamento)





PICCOLO TESTAMENTO



Questo che a notte balugina
nella calotta del mio pensiero,
traccia madreperlacea di lumaca
o smeriglio di vetro calpestato,
non è lume di chiesa o d'officina
che alimenti
chierico rosso, o nero.
Solo quest'iride posso
lasciarti a testimonianza
d'una fede che fu combattuta,
d'una speranza che bruciò più lenta
di un duro ceppo nel focolare.
Conservane la cipria nello specchietto
quando spenta ogni lampada
la sardana si farà infernale
e un ombroso Lucifero scenderà su una prora
del Tamigi, dell'Hudson, della Senna
scuotendo l'ali di bitume semi-
mozze dalla fatica, a dirti: è l'ora.
Non è un'eredità, un portafortuna
che può reggere all'urto dei monsoni
sul fil di ragno della memoria,
ma una storia non dura che nella cenere
e persistenza è solo l'estinzione.
Giusto era il segno: chi l'ha ravvisato
non può fallire nel ritrovarti.
Ognuno riconosce i suoi: l'orgoglio
non era fuga, l'umiltà non era
vile, il tenue bagliore strofinato
laggiù non era quello di un fiammifero.

Eugenio Montale




O que cintila à noite
por dentro do meu pensamento,
rasto brilhante de lesma
ou restos de vidro pisado,
não é chama de igreja ou de estúdio
que alimente
clérigo negro ou encarnado.
Só estas cores te posso deixar
em testemunho de uma fé inquieta,
de uma esperança que ardeu mais lenta
do que um duro tronco na lareira.
Guarda o pó de arroz no seu lugar,
quando se apagarem as luzes
a dança vai tornar-se infernal
e um Lúcifer sombrio descerá numa barca
do Tamisa, do Hudson ou do Sena,
batendo as asas de cera
quase a cair da fadiga, a dizer-te: é hora.
Não é uma herança, um amuleto
que pode resistir ao abalo das monções
na teia da memória,
já que uma história não dura senão na cinza
e o que persiste é só a extinção.
Todos reconhecem os seus: o orgulho
não era fuga, não era vil
a humildade, nem era sequer de um fósforo
o ténue clarão riscado lá em baixo.

(Trad. A.M.)

.

19.7.20

Joaquín Antonio Peñalosa (Testamento da avó)




TESTAMENTO DE LA ABUELA



Arrímense, hijos,
junten también a los niños,
ay, este nublado de ojos,
quiero sentir cerca su resuello.
Pobres fueron mis abuelos
y más pobres mis padres
y ustedes más
y así hasta el fin de los siglos.

Les dejo la selva que nos sustenta
y la caída de agua,
nunca se negó a llenar los cántaros.
A ti, como mayor, te entrego la família
no desgrane la granada su roja pedrería
y a ti, Juan, te doy la ceiba
cuelga ahí tu hamaca
cuando llegue el perro del mal
de la canícula.
A las niñas les entrego las mariposas
para que jueguen a “hilitos, hilitos de oro”,
les dejo a mi paisano el río,
mi hermano el río,
me quería, me retrataba, ondulaba mi cabellera.
Las palomas son para Lupe,
lindas como trocitos de luna,
rondaban mi cama por las tardes
nunca supe si para arrullarme
o no querían que me durmiera.

El azul no hace ruido cuando amanece,
ni ustedes ahora que me entierren,
no lleven guitarras ni desperdicien las lágrimas,
guárdenlas para cuando el amor se vaya.
Todos nos vamos, todos,
cuando los huesos se enfrían.
La muerte, el entierro,
son cosas de la vida.


Joaquín Antonio Peñalosa



Chegai-vos aqui, filhos,
juntai a canalha também,
ai, esta névoa nos olhos,
quero sentir-vos o bafo de perto.
Pobres foram meus avós
e mais pobres meus pais
e vós mais ainda,
e assim até ao fim dos séculos.

Deixo-vos a selva que nos sustenta
e a queda de água,
que jamais se negou a encher os cântaros.
A ti, como mais velho, entrego a família,
não desgrane a romã sua pedraria encarnada,
e a ti, Juan, deixo-te a ceiba,
prende lá a tua rede
quando vier esse cão do calor.
Para as meninas vão as mariposas
para se entreterem a brincar,
e para meus patrícios é o rio,
meu irmão rio,
que me queria e me punha anéis na cabeleira.
As pombas são para Lupe,
lindas como pedacinhos de lua,
que me rondavam a cama de tarde
nunca soube se para me arrular
ou para não me deixar dormir.

O azul não faz ruído a amanhecer,
nem vós também a enterrar-me,
não leveis guitarras nem desperdiceis as lágrimas,
guardai-as para quando o amor se for.
Todos temos de ir, todos,
quando os ossos arrefecem.
A morte, o enterro,
são coisas da vida.

(Trad. A.M.)

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4.3.20

Alda Lara (Testamento)




TESTAMENTO



À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...


Alda Lara



>>  Lusofonia (15p) / Escritas (7p) / Antonio Miranda (6p)

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24.10.19

Carlos Salem (Testamento de dúvidas)





TESTAMENTO DE DUDAS



¿Que será de estos textos míos, tan ajenos,
el día que ya no esté para nombrarlos?
¿Quién recogerá del suelo los versos
cuando se deshoje el tiempo que me toca?

¿Calcularán mis descendientes unos improbables beneficios,
o negarán toda relación con este trilero de poemas
que sólo quiso meter la mano y la palabra bajo las faldas de la vida?
(y alguna vez lo hizo)

¿Disputarán mis amantes la provocación de una estrofa,
olvidando que amar es repetirse a uno mismo?
¿Organizarán un congreso de despechos y perdones
con los pechos al aire y las copas y las piernas en alto?
¿Lamentarán haber entregado sus favores a un autor
más preocupado del misterio de unas ingles
que del devenir de los mercados?

Por suerte no lo sabré. Por eso escribo. Por eso amo.
   (...)

Carlos Salem

[El huevo izquierdo]





O que será destes meus escritos, tão alheios,
no dia em que eu já cá não esteja para os nomear?
Quem apanhará do chão os versos
quando se desfolhar o tempo que me cabe?

Farão contas meus herdeiros de alguns improváveis benefícios,
ou negarão qualquer relação com este batoteiro de poemas
que quis só meter a mão e a palavra por baixo das saias da vida
(e conseguiu às vezes)?

Disputarão meus amores a provocação de uma estrofe,
esquecendo que amar não é mais do que repetir-se a si mesmo?
Organizarão um congresso de despeitas e perdões
com o peito ao vento e copos e pernas ao alto?
Lamentarão ter concedido seus favores a um autor
mais interessado no mistério de certas virilhas
do que no futuro dos mercados?

Não chegarei a sabê-lo, felizmente.
Por isso escrevo.
Por isso amo.

(Trad. A.M.)

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19.8.19

Pablo Neruda (Testamento)





TESTAMENTO



Dejo a los sindicatos
del cobre, del carbón y del salitre
mi casa junto al mar de Isla Negra.
Quiero que allí reposen los maltratados hijos
de mi patria, saqueada por hachas y traidores,
desbaratada en su sagrada sangre,
consumida en volcánicos harapos.

Quiero que al limpio amor que recorriera
mi dominio, descansen los cansados,
se sienten a mi mesa los oscuros,
duerman sobre mi cama los heridos.

Hermano, ésta es mi casa, entra en el mundo
de flor marina y piedra constelada
que levanté luchando en mi pobreza.
Aquí nació el sonido en mi ventana
como en una creciente caracola
y luego estableció sus latitudes
en mi desordenada geología.

Tu vienes de abrasados corredores,
de túneles mordidos por el odio,
por el salto sulfúrico del viento:
aquí tienes la paz que te destino,
agua y espacio de mi oceanía.


Pablo Neruda

[Voar fora da asa]




Deixo aos sindicatos
do cobre, do carvão e do salitre
minha casa junto ao mar em Isla Negra.
Quero que ali repousem os maltratados filhos
da minha pátria, saqueada por machados e traidores,
desbaratada em seu sangue sagrado,
consumida em vulcânicos farrapos.

Quero que ao limpo amor que percorreu
meu domínio, descansem os cansados,
sentem-se à mesa os humildes,
durmam os feridos na minha cama.

Irmão, esta é minha casa, entra no mundo
de flor marinha e pedra constelada
que eu ergui lutando em minha pobreza.
Aqui nasceu o som em minha janela
como num búzio,
e depois fixou as latitudes
em minha desordenada geologia.

Tu vens de abrasados corredores,
de túneis mordidos pelo ódio,
pelo salto sulfúrico do vento:
aqui tens a paz que te deixo,
água e espaço de minha oceania.

(Trad. A.M.)

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23.7.19

Andrés Trapiello (Vontades)





VOLUNTADES



Dejó dicho:
             En mi entierro
ni responsos ni misas, ni música ni flores.
Si acaso, de estas últimas,
sólo las que en un vaso pusimos tantas veces:
lilas, rosas, jazmines.
Pero mejor aún: ese trabajo
de ser flores dejadlo a las que crecen
sin nombre entre las tumbas. Y la música,
a jilgueros y mirlos, que ninguno
lo hará mejor que ellos,
con tanta suavidad ni su constancia.
Deberían responsos y misas reservarse
a aquellos que en verdad los ganaron a pulso.
No quiero que incumplir
algunas de estas mandas os aflija:
bien sé yo que la vida va por libre.
Y si podéis, venid sólo vosotros,
que la muerte no sea diferente
a ninguna otra fiesta de nuestra intimidad:
lilas, rosas, jazmines.


Andrés Trapiello

[Susana Benet]




Deixou dito:
            No meu enterro
nem responsos nem missas, nem música nem flores.
Se porventura, destas últimas,
só as que num vaso pusemos tanta vez,
lilases, rosas, jasmins.
Mas melhor ainda, esse papel
das flores deixai-o para as que crescem
sem nome entre as campas. E a música,
por conta de melros e rouxinóis, que ninguém
fará melhor do que eles,
nem com tanto aprumo e suavidade.
Missas e responsos devem reservar-se para
quem lhes ganhou direito.
Em todo o caso, que não vos aflija
incumprir estas vontades,
a vida é assim mesmo, já se sabe.
E se puderdes, vinde só vós mesmo,
que a morte não seja diferente
de outra festa qualquer da nossa intimidade:
lilases, rosas, jasmins.

(Trad. A.M.)

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3.7.19

José Cereijo (Testamento)





TESTAMENTO



Este profundo azul del cielo en primavera,
el canto de los pájaros, el rumor de los sueños,
el amor de los libros, siempre correspondido,
el silencio del alba,
el de mi corazón, algunas veces,
las horas que hacen dulce, secreta la memoria:
es todo para ella.

Todo para la muerte, que me ha querido tanto.


José Cereijo





Este profundo azul do céu na primavera,
o canto dos pássaros, o rumor dos sonhos,
o amor dos livros, sempre correspondido,
o silêncio da aurora,
o do meu coração, certas vezes,
as horas que fazem doce, secreta a memória,
é tudo para ela.

Tudo para a morte, que tanto me quis.

(Trad. A.M.)

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