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18.1.22

Luís Filipe Parrado (Sonho)




SONHO

 

Alcançar com as palavras
o que aquele célebre pintor grego da Antiguidade,
de que fala Plínio na sua História
Natural,

conseguiu com a luz e
as cores. Ao pintar
um rapaz segurando um cacho de uvas
estas tornaram-se tão reais
que os pássaros
as vinham
debicar.

LUÍS FILIPE PARRADO
Roma não perdoa a traidores
Língua Morta (2021)

.

12.12.19

Luís Filipe Parrado (Uma lição antes de morrer)





UMA LIÇÃO ANTES DE MORRER



Na esplanada vazia, para além de mim,
há só uma rapariga de blusa azul
e cabelo tomado pelo sol.
Bebe um sumo de cor vermelha
e lê um livro de capa vincada e escura.
É pouco? Há também esta luz
que não existe, que já passou, que não volta mais.


LUÍS FILIPE PARRADO
Entre a Carne e o Osso
(2019)

[Canal de poesia]

.

20.6.14

Luís Filipe Parrado (O vaso)





O VASO



Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso,
enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.

Luís Filipe Parrado


[Luz & sombra]

.

26.1.14

Luís Filipe Parrado (Comer uma laranja)





COMER UMA LARANJA



Comer uma laranja
é como ingerir o próprio sol,
com a boca cheia de luz
não há portanto
espaço
para palavras
sobre mim.


Luís Filipe Parrado


[As folhas ardem]

.

20.7.13

Luís Filipe Parrado (Tudo o que o meu pai me disse)





TUDO O QUE O MEU PAI ME DISSE QUANDO, AOS 15 ANOS,
DECLAREI EM FAMÍLIA QUE IRIA COMEÇAR A ESCREVER POESIA




"Antes
de te sentares
à mesa
lava bem
essas mãos."


Luís Filipe Parrado

.

7.2.13

Luís Filipe Parrado (Com unhas e dentes)





COM UNHAS E DENTES



Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca
de tão doce,
não o esqueces.


Luís Filipe Parrado

[As folhas ardem]

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18.9.12

Luís Filipe Parrado (O que mais amo)





O QUE MAIS AMO




Não sou capaz de estranhas paixões
e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.


Luís Filipe Parrado


[Poesia & Lda.]


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29.7.12

Luís Filipe Parrado (Natureza morta com maçãs)






NATUREZA MORTA COM MAÇÃS




É triste
o espectáculo do amor
apodrecendo aos poucos
na fruteira
as maçãs que te trouxe
têm agora a pele seca e enrugada.


Luís Filipe Parrado




>>  Poems from the portuguese (5p) / Hospedaria Camões (4p) / Do trapézio (blogue/tradução)

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