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14.6.21

Daniel Jonas (Três rosas)




Três rosas choram, brancas e tombadas.
No mármore em murmúrio nada se ouve
E tudo o que é é nada do que houve…
Oblíqua cai a chuva nas lombadas…
Na biblioteca parda tudo tomba:
As rosas, as velhinhas, hirtos círios.
E agora tudo chora, grutas, lírios,
E as gárgulas do choro são a tromba…
É nada o que nos move, a paz, a guerra…
Tanto saber errado e tanto crânio!...
O príncipe é que estava certo, o dânio!
E as rosas murcharão, quem as enterra?
Mas quase me esquecia ao que vinha:
Passar-te a mão pela pele tão lisinha…


Daniel Jonas

[Acontecimentos]

 .

14.5.14

Daniel Jonas (Os dias declinando)




OS DIAS DECLINANDO



Tudo o que um dia te foi belo e amplo e prometedor
reúne-o e faz dele forragem e um telhado
para os teus dias inglórios de colmo

porque não haverá um dia um único
que não te aponte as graves falhas do que és
com a lanterna do esplêndido assomo do que foras.

Eu sei-o. Vou olhando-os fixamente nos olhos,
mosca aprisionada na cozedura da teia,
como repentino encontro com um velho conhecido
que julgara não se haver perdido de vista.


Daniel Jonas

[Luz & sombra]


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18.1.11

Daniel Jonas (Grotto)





GROTTO




Não quero nada claro ou helénico.
Prefiro turbinas de aviões comerciais, a sua fuligem
doméstica
às velas de alabastro do veleiro de Ulisses
lá em mar alto.
Prefiro o eclipse a Calipso.
Não quero nada de verdadeiramente branco.
Dispenso a asa delta de garças,
o seu voo aerodinâmico,
troco-o pela arribação de ratos no esgoto,
a sua pressa chinesa,
o seu stress pós-traumático:
orgulham-me criaturas tão limpas.
Assim também recuso o papel branco:
trato de o desfigurar
com sangue negro, como se desfigura
um branco em Harlem.
Não quero começar a imaginar como se sentiriam
escravos nos campos de algodão.



Daniel Jonas

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22.1.10

Daniel Jonas (A resistência à teoria)







A RESISTÊNCIA À TEORIA





Eu ficarei à espera de que as uvas
das minhas videiras
amadureçam
à luminosidade da palavra
dia



DANIEL JONAS
Os fantasmas inquilinos
Cotovia, 2005


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26.11.09

Daniel Jonas (Provavelmente noutro tempo)








PROVAVELMENTE NOUTRO TEMPO






Provavelmente noutro tempo, noutras circunstâncias
chegaríamos a iguais resultados
pelo que te não adianta imaginar um almagesto
ou tabelas de paralaxe para isto
a que convencionalmente chamamos amor,
nem calcular o ângulo
entre nós e o centro da terra,
de nada nos aproveitaria, tu e eu
centros escorraçados de irregular gravitação.


Porém, isso não me impediu de ver plêiades
cada vez que surgias (só
não te dizia nada) plêiades iluminando
o meu Hades
com suas cabrinhas coruscantes
pascendo
o vale da sombra da morte.


E a questão hoje é: who’s gonna drive you home tonight?
quando o melancólico transístor
destila também outras perguntas, mas nenhuma
tão dura como essa,


por exemplo: porque é que a água tem mais tendência
a subir em tubos estreitos
ao contrário do mercúrio?
Isto é view-master e são coisas que faço
na tua ausência.



DANIEL JONAS
Fantasmas Inquilinos
Cotovia (2005)



16.10.09

Daniel Jonas (Pecado capital)







PECADO CAPITAL



A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.


Daniel Jonas


[Poesia & Lda]


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18.9.09

Daniel Jonas (Uma saison nos infernos)









UMA SAISON NOS INFERNOS




Tudo é breve: um deus,
o plâncton, o ferro.


O meu poema é uma miséria
comparado com o teu nome
no edital.


A voragem dos grandes estúdios,
a saída dos operários da fábrica,
a grande depressão
dos trinta anos:


Eu bebo
porque se não beber
não conduzo
este corpo a casa.



DANIEL JONAS
Os Fantasmas Inquilinos
Cotovia, 2005



Lugares:  DGLB (nota bio+biblio+1p)  /  Mal-situados (20p)

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