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10.4.19

António Ramos Rosa (A festa do silêncio)




A FESTA DO SILÊNCIO



Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa



16.1.19

António Ramos Rosa (A palavra)




A PALAVRA



A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua,mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos,os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.


António Ramos Rosa

[Escritas]

.

23.11.16

António Ramos Rosa (As palavras mais nuas)





As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.
Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?
Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.
Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.


António Ramos Rosa


.



22.7.16

António Ramos Rosa (Arte poética)





ARTE POÉTICA



Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou a ajudar a dormir um inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.


António Ramos Rosa


[Domingos Mota]

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14.12.13

António Ramos Rosa (Onde a poesia se exibe)





Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia

António Ramos Rosa


[Antologia do esquecimento]

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7.6.13

António Ramos Rosa (Poema)





POEMA



As palavras mais nuas
as mais tristes.
As palavras mais pobres
as que vejo
sangrando na sombra e nos meus olhos.

Que alegria elas sonham, que outro dia,
para que rostos brilham?

Procurei sempre um lugar
onde não respondessem,
onde as bocas falassem num murmúrio
quase feliz,
as palavras nuas que o silêncio veste.

Se reunissem
para uma alegria nova,
que o pequenino corpo
de miséria
respirasse o ar livre,
a multidão dos pássaros escondidos,
a densidade das folhas, o silêncio
e um céu azul e fresco.


António Ramos Rosa


[Poedia]

.

8.1.10

António Ramos Rosa (Aventura)







AVENTURA



Aproximo-me. Apenas me aproximo.
É como se uma boca
ou uma plácida espádua de volúpia
não perturbasse as armas e os lábios
da nostalgia liberta de uns nocturnos cabelos.
Não se abriram as clareiras da sombra
nem os anéis das cavernas radiosas.
Mas nas constelações e no fulgor das lâmpadas
brilham os segredos que ninguém conhece.
Ó imaculados frutos nas axilas do tempo!
Ó ardente sexo que perfumas a noite
enquanto alguém pronuncia o vocabulário do vento!
A aventura sacode a sua cabeleira.
Este é o mundo do desejo na sua nocturna transparência.



ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim
(1990)

.

19.11.09

António Ramos Rosa (Sem segredo algum)









SEM SEGREDO ALGUM





Rodeio-te de nomes, água, fogo, sombra,
vagueio dentro das tuas formas nebulosas.
Como um ladrão aproximo-me entre palavras e nuvens.
Não te encontrei ainda. Falo dentro do teu ouvido?
Entre pedras lentas, oiço o silêncio da água.


A obscuridade nasce. Tens tu um corpo de água
ou és o fogo azul das casas silenciosas?
Não te habito, não sou o teu lugar, talvez não sejas nada
ou és a evidência rápida, inacessível,
que sem rastro se perde no silêncio do silêncio.


O que és não és, não há segredo algum.
Selvagem e suave, entre miséria e música,
o coração por vezes nasce. As luzes acendem-se na margem.
Estou no interior da árvore, entre negros insectos.
Sinto o pulsar da terra no seu obscuro esplendor.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
Volante Verde
(1986)


16.9.09

António Ramos Rosa (A casa)









A CASA





A tua voz é vegetal e eleva-se com o vento.
Quero demorá-la, fazer dela uma casa
ou um tronco. Que seja a minha noite
com um ardor de eternidade. E a sabedoria
de estar entre plantas tranquilas.
Tudo estará comigo perto de uma nascente
e eu mover-me-ei entre nocturnas veias
e sobre as pedras lisas.
Vejo os barcos da sombra entre as constelações
e estou perto, estou perto. A minha casa é aqui.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)


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31.8.09

António Ramos Rosa (Poema dum funcionário cansado)









POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO






A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só



António Ramos Rosa


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18.4.09

António Ramos Rosa (No silêncio da terra)










NO SILÊNCIO DA TERRA






No silêncio da terra. Onde ser é estar.
A sombra se inclina.
Habito dentro da grande pedra de água e sol.
Respiro sem o saber, respiro a terra.
Um intervalo de suavidade ardente e longa.
Sem adormecer no sono verde.
Afundo-me, sereno,
flor ou folha sobre folha abrindo-se,
respirando-me, flectindo-me
no intervalo aberto. Não sei se principio.
Um rosto se desfaz, um sabor ao fundo
da água ou da terra,
o fogo único consumindo em ar.
Eis o lugar em que o centro se abre
ou a lisa permanência clara,
abandono igual ao puro ombro
em que nada se diz
e no silêncio se une a boca ao espaço.
Pedra harmoniosa
do abrigo simples,
lúcido, unido, silencioso umbigo
do ar.

o teu corpo
renasce
à flor da terra.
Tudo principia.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
A Pedra Nua (1972)




19.2.09

António Ramos Rosa (As palavras)








AS PALAVRAS





Fluem as palavras? Sobre um solo
fugidio e alto.
Um simulacro?
Fluem as palavras como um óleo de sombra?
Tocam acaso o tímpano verde
das cigarras?
Têm o perfume das virilhas da montanha?
Arfam como uma fornalha branca
ou rasgam
como uma espada intensa?
Quantas vezes são a ausência armada,
o fumo da voz,
a saliva do cipreste!
Outras vezes são uma linha de água
ou vidros em que a chuva se detém
ou um campo vermelho sob o vento.
Quando são balanças ou órgãos sobre a neve,
quando são antenas de sangue,
quando respiram com o seu hálito branco,
são ainda um simulacro?



ANTÓNIO RAMOS ROSA
Facilidade do Ar (1990)






6.1.09

António Ramos Rosa (Figura)









FIGURA





A tua figura desperta a minha energia subtil
e ascende à primeira forma sublime e simples.
Primavera do mundo e aromático barco
e na palma da mão a delicada inicial.
Neste instante as luzes são passagens transparentes
e eu coloco o teu ventre novamente na paisagem.
Venho de ti e vou para ti antes do primeiro jacto
num côncavo seio na cúpula do segredo,
que é tão fechado como a não respiração
e que se abre no rosto dos meus membros.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)


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21.11.08

Um verso (47)










Um verso de António Ramos Rosa:




Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva




[Barcos-Flores]

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26.10.08

António Ramos Rosa (Todo aquele que abre um livro)







Livros-1 (L.A.Cuenca)

Livros-2 (E.Andrade)

Livros-3 (M.Quintana)

Livros-4 (A.Gide)

Livros-5 (P.Neruda)

Livros-6 (A.R.Rosa)







TODO AQUELE QUE ABRE UM LIVRO




Todo aquele que abre um livro entra numa nuvem
ou para beber a água de um espelho
ou para se embriagar como um pássaro ingénuo
A sôfrega retina
vai-se tornando felina e inflada
e os seus liames tremem entre o júbilo e agonia
Um livro é redondo como uma serpente enrolada
e formado de fragmentos onde lateja o sangue
[ de um pulso
que já não é de um autor que nunca o foi
e que será sempre o ritmo do que está a nascer
irrigando o nada e os terraços sobre os abismos
Nunca o livro se completa embora o redondo
[ o circunde
e o mova para o seu interior sem nunca o envolver
Jamais a nuvem se dissipa mesmo quando
[ a claridade ofusca
Como se fosse preciso adormecer nela como sobre
[ os ombros do mundo
para acompanhar o fluxo ingenuamente novo
com os delicados diademas de fogo e espuma
O livro ora é de veludo ora de bronze
e os seus traços abrem janelas ou terraços
sobre o corpo latente como um arbusto entre pedras
Se a palavra vibra como um meteoro ou desliza
[ como uma anémona
ou não é mais do que uma estrela de areia
a sua proa sulca o incessante intervalo
entre o ardor de incompletos liames
e a estátua aérea que se eleva à sua frente
e continuamente se forma e se deforma
por não ser nada e ser o alvo puro
de um movimento ingénuo sonâmbulo e incerto.





António Ramos Rosa





Fonte: Barcos de Flores



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10.9.08

António Ramos Rosa (De súbito dentro)












DE SÚBITO DENTRO







De súbito entrei. Era
uma música
de um barco imóvel no encanto
de ser toda a atmosfera, no descanso
da mais íntima sombra adormecido,
como na essência de um sonho.
Um âmbito sem nome, em total olvido,
o universo completo no jardim.
E a montanha em silêncio, a solidão de estrelas,
um dorso longínquo e sobre ele as ondas
caladas, majestosas.
Era a imortal maturidade de um só instante,
a verdadeira vida aqui, plena, revelada,
o gozo sem afã da formosura imensa,
toda a verdade presente e sem história,
música absoluta de humana divindade.




ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)


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16.8.08

António Ramos Rosa (A coisa amada)











A COISA AMADA





Dá-me o sangue das tuas ancas, dá-me o sangue
dos teus seios e o jardim do teu sexo.
Eu quero nascer
pela forma errante da respiração igual,
pelas bocas que através das nuvens comunicam.
Um desejo absoluto circula em todo o espaço.
Eu quero-te porque tu és a coisa amada
em que me transformo no flanco das palavras.
De uma odorífera fenda avermelhada,
em linhas irisadas, entre verdes cristais,
sobes, soberanamente escandalosa.



ANTÓNIO RAMOS ROSA
O Não e o Sim (1990)

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