30.6.20

Chantal Maillard (Desnudo e frágil)





Te supe frágil y desnudo,
tan frágil eras, tan desnudo
que se quebró tu sombra al respirar.
Abrí la puerta y las voces del agua
adoptaron la forma de tu cuerpo.
Tan leve parecías, tan al borde
de ti
que la noche aprendió
el modo de dormirse sobre el rio.


Chantal Maillard





Desnudo e frágil te soube,
tão frágil, tão desnudo,
que se te quebrou a sombra ao respirar.
Abri a porta e as vozes da água
tomaram a forma de teu corpo.
Tão leve parecias, tão
à beira de ti,
que a noite aprendeu
a dormir sobre o rio.


(Trad. A.M.)

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29.6.20

César Vallejo (Altura e cabelos)





ALTURA Y PELOS



¿Quién no tiene su vestido azul?
¿Quién no almuerza y no toma el tranvía,
con su cigarrillo contratado y su dolor de bolsillo?
¡Yo que tan sólo he nacido!
¡Yo que tan sólo he nacido!

¿Quién no escribe una carta?
¿Quién no habla de un asunto muy importante,
muriendo de costumbre y llorando de oído?
¡Yo que solamente he nacido!
¡Yo que solamente he nacido!

¿Quién no se llama Carlos o cualquier otra cosa?
¿Quién al gato no dice gato gato?
¡Ay, yo que sólo he nacido solamente!
¡Ay!, ¡yo que sólo he nacido solamente!


César Vallejo




Quem é que não tem seu vestido azul?
Quem não almoça e não toma o eléctrico,
com seu cigarro contratado e sua dor de algibeira?
Eu que tão só nasci!
Eu que tão só nasci!


Quem é que não escreve uma carta?
Quem não fala de um assunto muito importante,
morrendo de costume e chorando de ouvido?
Eu que somente nasci!
Eu que somente nasci!


Quem é que não se chama Carlos ou outra coisa qualquer?
Quem ao gato não diz gato gato?
Ai, eu que só nasci somente!
Ai, eu que só nasci somente!


(Trad. A.M.)


> Outra versão: Canal de poesia (José Bento)

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27.6.20

Antonia Pozzi (Pensamento)





PENSIERO



Avere due lunghe ali
d’ombra
e piegarle su questo tuo male;
essere ombra, pace
serale
intorno al tuo spento
sorriso.

Antonia Pozzi




Ter duas grandes asas
de sombra
e com elas cobrir tua dor;
ser sombra, paz
nocturna,
en torno do teu sumido
sorriso.

(Trad. A.M.)

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25.6.20

Joaquín Antonio Peñalosa (Ordem do dia)





ORDEN DEL DÍA



Dime
si hay una taza de café más sabrosa
que estos pequeños verbos regulares:
levantarse y que la luz se te eche encima
como un baño de jugo de naranja,
sentarse al desayuno partiendo en rebanadas el otoño
dar al teléfono eficaz respiración de boca a boca
picotear la máquina de escribir por si cruza un ala
llevar a mano el encendedor, la fogata amistosa
enviar un telegrama de felicitaciones a la lluvia
poner girasoles a los ojos para seguir más cielo
cerrarlos por ver su azul cristalizarse dentro
ir por la calle con unos pies sismógrafos
registrando la ternura de la tierra,
pasar de largo blancos, estatuas, cuarteles
pararse donde estalle un silencio o un quejido
dar cuerda al corazón para que marche aprisa
decir adiós, el último
como decir los buenos días.
Sin decir adiós.


Joaquín Antonio Peñalosa




Diz-me lá
se há porventura um café mais gostoso
do que estes verbinhos regulares:
levantar-se e que a luz se derrame sobre ti
como um duche de sumo de laranja,
sentar-se ao pequeno-almoço e partir o outono em fatias,
falar ao telefone assim tipo boca a boca,
teclar à máquina não vá um lado atravessar-se,
levar na mão o isqueiro, a chama amistosa,
mandar um telegrama à chuva a dar-lhe os parabéns,
pôr girassóis na vista para olhar para o céu,
fechar os olhos por ver o azul a cristalizar-se,
ir pela rua com pés sismógrafos a registar a ternura da terra,
passar ao largo de espaços, estátuas, quartéis,
deter-se onde explodir o silêncio ou um queixume,
dar corda ao coração para andar mais depressa,
dizer adeus, o último
como dizer os bons-dias.
Sem dizer adeus.

(Trad. A.M.)


>>  Poeticous (9p) / Circulo de poesia (7p) / Rinconar (perfil) / Wikipedia

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24.6.20

César Fernández Moreno (Nada a dizer)





NADA QUE DECIR



nos hemos quedado sin nada
sin arte ciencia filosofía religión magia

conservamos lo primero
vida por cierto tiempo
y varios impulsos
que de vez en cuando parten en falso

no tengo nada que decir
un verso es tan superfluo como un hombre
para qué bebo este café
calle Corrientes para qué

la placentera sensación
que el lápiz trasmite a mis dedos
mientras lo conduzco sobre el papel
a lo largo de esta escritura vacía


César Fernández Moreno

[Otra iglesia]




ficámos sem nada
sem arte ciência filosofia religião magia

conservamos o primário
vida por certo tempo
e vários impulsos
que de vez em quando disparam em falso

não tenho nada para dizer
tão supérfluo é um verso como um homem
para que bebo eu este café
rua Corrientes para quê

a sensação de prazer
que o lápis me transmite aos dedos
enquanto o guio na folha de papel
ao longo desta escrita vazia


(Trad. A.M.)

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22.6.20

A.M.Pires Cabral (Quando nada me dói)





QUANDO NADA ME DÓI



Quando nada me dói — o que me dói?

Dói-me um doer mais fundo do que a dor.
Um doer envolto em cortinados roxos.
Um doer que devassa as entranhas
como uma faca ao rubro.
Um doer que arremessa sarcasmos e ironias

e me abandona depois, cheio de sede,
na primeira valeta, à mercê dos ratos,
que me rilhem os ossos.


A.M.PIRES CABRAL
Frentes de Fogo
(2019)

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20.6.20

César Cantoni (Uma arte invisível)





UN ARTE INVISIBLE



El poeta camina
desnudo por la calle,
pero la gente no lo ve.

El poeta va al cine,
sale de putas,
viaja en colectivo,
siempre desnudo,
pero la gente
mira para otro lado.

El poeta no tiene modo
de llamar la atención,
porque la poesía
es un arte invisible.

La poesía se escribe
sin palabras.


César Cantoni




O poeta caminha
nu pelas ruas,
mas as pessoas não o vêem.

O poeta vai ao cinema,
vai às putas,
anda no autocarro
sempre nu,
mas as pessoas
olham para outro lado.

O poeta não tem meio
de chamar a atenção,
porque a poesia
é uma arte invisível.

A poesia escreve-se
sem palavras.


(Trad. A.M.)

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19.6.20

Carlos Edmundo de Ory (Hipérbole do amoroso)




HIPÉRBOLE DEL AMOROSO



Te amo tanto que duermo con los ojos abiertos.
Te amo tanto que hablo con los árboles.
Te amo tanto que como ruiseñores.
Te amo tanto que lloro joyas de oro.
Te amo tanto que mi alma tiene trenzas.
Te amo tanto que me olvido del mar.
Te amo tanto que las arañas me sonríen.
Te amo tanto que soy una jirafa.
Te amo tanto que a Dios telefoneo.
Te amo tanto que acabo de nacer.


Carlos Edmundo de Ory




Amo-te tanto que durmo de olhos abertos.
Amo-te tanto que falo com as árvores.
Amo-te tanto que como rouxinóis.
Amo-te tanto que choro jóias de oiro.
Amo-te tanto que a minha alma tem tranças.
Amo-te tanto que me esqueço do mar.
Amo-te tanto que as aranhas me sorriem.
Amo-te tanto que sou uma girafa.
Amo-te tanto que telefono para Deus.
Amo-te tanto que acabo de nascer.

(Trad. A.M.)

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17.6.20

Maria Esther Maciel (Amor)




AMOR



Na véspera de ti
eu era pouca
     e sem
sintaxe
eu era um quase
     uma parte
sem outra
     um hiato
de mim.

No agora de ti
     aconteço
tecida em ponto
     cheio
um texto
com entrelinhas
     e recheio:

um preciso corpo
um bastante sim.


Maria Esther Maciel



>>  Esther Maciel (sitio of/ tudo+algo) / EM-Poemas (15p) / Alguma poesia (9p) /  Pensador (6p) / UFMG (obras MEM) / Wikipedia

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15.6.20

Carina Sedevich (A macieira)




EL ÁRBOL DE MANZANAS



Quisiera ver los árboles de Klimt.

Quisiera oírlos,
incluso,
hoja por hoja.

Son muchas hojas.

Tal vez más
que los días iguales de una vida.


Carina Sedevich

[Marcelo Leites]




Queria olhar para as árvores de Klimt.

Queria ouvi-las,
mesmo,
folha por folha.

São muitas folhas.

Mais talvez
do que os dias iguais
de toda uma vida.


(Trad. A.M.)

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14.6.20

Biel Vila (Em certas mulheres)





De algunas mujeres me gusta
lo que se ve con la luz apagada y
los ojos cerrados. Aquel brillo. Esa luz.


Biel Vila




Em certas mulheres gosto
é do que se vê de luz apagada e
olhos fechados. Aquele brilho. Essa luz.

(Trad. A.M.)

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12.6.20

Natália Correia (Credo)





CREDO



Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Amen.


Natália Correia

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10.6.20

Berta Piñán (Reconciliação)





RECONCILIACIÓN



Quizás tendríamos que empezar
por el principio.
Contemplar la silueta incierta
de los pájaros esta tarde
de agosto,
su indiferencia a los reencuentros.
O empezar, mejor, por los inviernos,
abrazarse sólo porque llueve
y cuesta caminar contra el vacío.
Por supuesto, dejar a un lado
los lugares comunes,
fáciles al amor,
las primaveras, por ejemplo,
su inclinación absurda
a ser felices.
Y también, claro, saltarnos de un golpe
los otoños, esa nostalgia suya
tan dulce, tan imprudente
en estos casos.
Sería suficiente con dejarnos
deslizar apenas por la piel tersa
de los días,
como quien acaricia una fiera con un dedo
dentro de la jaula y tensa cada músculo
en ese mínimo esfuerzo.
No profundizar, no decir nada
casi nunca,
callar delante de una pared
en blanco
la pintura aún fresca, reluciente.
Callar delante de una piedra, de un puñado
de cerezas.
Quizá deberíamos empezar
por el principio, sin nada en las manos
a que agarrarse.
Suspender el instante en el que entrabas
por la puerta, antes de quemar
el primer roce,
antes de sabernos a tientas
el futuro.
Y después, caminar en diferentes direcciones.
O no caminar en absoluto.


Berta Piñán

[Fragments de vida]




Teríamos talvez de começar pelo princípio,
contemplar a silhueta incerta
dos pássaros nesta tarde
de Agosto,
sua indiferença aos reencontros.
Ou começar, melhor, pelos invernos,
abraçar-nos só porque chove
e custa caminhar contra o vazio.
Claro, deixar de lado
os lugares comuns,
fáceis no amor,
as primaveras, por exemplo,
sua tendência absurda
à felicidade.
E também, está visto, passar por cima
dos outonos, essa nostalgia sua
tão doce, tão imprudente
nestes casos.
Bastaria deixarmo-nos
deslizar apenas pela pele tersa
dos dias,
como quem acaricia uma fera com um dedo
dentro da jaula e retesa cada músculo
nesse mínimo esforço.
Não aprofundar, não dizer nada
nunca, ficar em silêncio
diante de um muro branco,
a reluzir, pintado de fresco.
Em silêncio, frente a uma pedra, um punhado de cerejas.
Deveríamos talvez começar
pelo princípio, sem nada nas mãos
a que agarrar.
Suspender o instante em que entravas pela porta,
antes de queimar a primeira diferença,
antes de descobrirmos o futuro às apalpadelas.
E depois caminhar em diferentes direcções.
Ou não caminhar de todo.

(Trad. A.M.)

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9.6.20

Berna Wang (Que a vida te dê)





Que la vida te regale en su momento
sólo el dolor preciso:
ni tan leve que pase desapercibido
ni tan grande que lo invada todo.
Que no te olvides
ni necesites analgésicos para olvidar.
Sólo el latido exacto en el lugar justo
para saber que la herida está ahí,
que hay que tener paciencia,
y cuidarla hasta que cure.

Berna Wang

[Emma Gunst]




Que a vida te dê a seu tempo
só a dor necessária,
nem tão leve que a não sintas,
nem tão grande que encha tudo.
Que não te esqueça,
mas também não precises
de pastilhas para esquecer.
Só o latejo exacto no sítio certo
para saberes que a ferida está lá,
que é preciso ter paciência
e tratá-la até que sare.

(Trad. A.M.)

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7.6.20

Hilda Hilst (Poema aos homens do nosso tempo)





POEMA AOS HOMENS DO NOSSO TEMPO



Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
propor que viagem? Reis, ministros
e todos vós, políticos,
que palavra além de ouro e treva
fica em vossos ouvidos?
Além de vossa rapacidade
o que sabeis
da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
e os nossos ossos
e o sangue das gentes
e a vida dos homens
entre os vossos dentes.


Hilda Hilst

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5.6.20

Begoña Abad (Conservar o fogo)





Conservar el fuego desde que fue
inventado.
En eso consiste, cada día,
esta tarea de vivir.


Begoña Abad





Conservar o fogo
desde que foi inventado.
Nisso consiste, cada dia,
este encargo de viver.

(Trad. A.M.)

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4.6.20

Batania (Os limites)





LOS LÍMITES



La amo cuando está
demasiado lejos
o demasiado cerca;
las distancias medias
solo sirven para amores a medias
y nosotros amamos al límite:
aquí se juega a trueno
o se juega a nada.


BATANIA / NEORRABIOSO
La poesía ha vuelto y yo no tengo la culpa
Madrid (2014)




Amo-a quando está
ou muito longe
ou muito perto;
as meias distâncias
são boas só para meios amores
e nós amamos até ao limite:
aqui é tudo
ou nada.

(Trad. A.M.)

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2.6.20

José Cardoso Pires (Início)






(Início)


Cá estou.
Precisamente no mesmo quarto onde, faz hoje um ano, me instalei na minha primeira visita à aldeia e onde, com divertimento e curiosidade, fui anotando as minhas conversas com Tomás Manuel da Palma Bravo, o Engenheiro.
Repare-se que tenho a mão direita pousada num livro antigo - Monografia do Termo da Gafeira - ou seja, que tenho a mão sobre a palavra veneranda de certo abade que, entre mil setecentos e noventa, mil oitocentos e um, decifrou o passado deste território.
É nele que penso também - nisto tudo, na aldeia, nos montes em redor e nos seres que a habitam e que formigam lá em baixo, por entre casas, quelhas e penedos, à distância de um primeiro andar.
Sou um visitante de pé (e em corpo inteiro, como numa fotografia de álbum), um Autor apoiado na lição do mestre.
Lavatório de ferro à esquerda, mesa de trabalho à direita; em fundo, a porta com a espingarda e a cartucheira penduradas no cabide.
Pormenor importante: enfrento a janela de guilhotina que dá para o único café da povoação, do outro lado da rua, e, mais para diante, vejo o largo, a estrada de asfalto e um horizonte de pinhais dominado por uma coroa de nuvens: a lagoa.
Algures, no corredor, a dona da casa chama pela criadita.
Temos, pois, o Autor instalado na janela duma pensão de caçadores.
Sente vida por baixo e à volta dele, sim, pode senti-la, mas, por enquanto, fixa-se unicamente, e com intenção, no tal sopro de nuvens que é a lagoa.
Não a vê dali, bem o sabe, porque fica no vale, para lá dos montes, secreta e indiferente.
No entanto, aprendeu a assinalá-la por aquele halo derramado à flor das árvores, e diz: lá está ela, a respirar.
Depois, se quisesse escrever, passaria apenas o dedo na capa encarquilhada do livro que o acompanha (ou numa tábua de relíquia, ou numa pedra) e sulcaria o pó com esta palavra: Delfim

JOSÉ CARDOSO PIRES
O Delfim
(1968)

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