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10.6.13
Pedro Mexia (Matéria)
MATÉRIA
O contrário da matéria
não é o espírito.
O contrário da matéria
não é a anti-matéria.
O contrário da matéria
é o olhar.
Pedro Mexia
[O meu instante]
.
5.11.12
Pedro Mexia (As gavetas)
AS GAVETAS
Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.
Pedro Mexia
[Poedia]
.
3.5.12
Pedro Mexia (Depois de ti)
DEPOIS DE TI
Depois de ti
o dilúvio: esgotaram-se as imagens
e não posso mudar o que diziam:
há um esvaziamento, uma degradação,
que em pouco tempo tornam
o real absoluto no real possível:
e nunca mais hei-de sentir o mundo
tão alto como os versos e não o contrário,
e nunca mais poderei dizer a ninguém:
os teus olhos são tão belos como os teus olhos.
Pedro Mexia
[Poedia]
.
23.8.11
Pedro Mexia (Domingo)
DOMINGO
Não há pessoas normais
mas se houvesse seriam
muito parecidas a estes
e estas colegas de liceu
ou faculdade que passeiam,
conjugais, aos domingos,
sem nunca terem visto
de perto o medo ou o céu
que não nos protege.
Pedro Mexia
[A rua do silêncio]
.
4.7.11
Pedro Mexia (Regresso)
REGRESSO
Regressas a casa, onde
regressas? A sombra espera
a tua sombra, um disco
ouvido no escuro. Regressas
a casa, mas tens a chave
e não a porta, ou o contrário,
ou a chave e a porta e mais nada.
Pedro Mexia
11.7.10
Pedro Mexia (Os meus demónios)
OS MEUS DEMÓNIOS
Os meus demónios
tratam-me pelo nome.
Os meus demónios
são legião e não desertam.
Os meus demónios
obedecem a todas as ordens
e a nenhuma vontade.
Os meus demónios
começaram por ser meus
por afinidade e agora
são parentes de sangue.
Os meus demónios
é que escrevem os poemas.
PEDRO MEXIA
Vida Oculta
(2004)
.
18.5.10
Pedro Mexia (Elas passam)
ELAS PASSAM
Elas passam, magras estudantes,
julgando-se felizes talvez,
passam e passam, as pernas e os dentes
mostram saúde e altivez.
Os jeans ao atravessarem a nave
maior do centro comercial
estreitam a cintura suave
numa falsa aparência virginal.
Vê-las alegra e entristece,
o seu corpo é uma matéria mais pura,
e cada uma, como se soubesse,
mostra-se obstinada e segura.
Passam e passam, são toda uma tarde,
sentinela que em mim sente
esta palha seca que arde,
que às vezes engana, mas não mente.
Poder tê-las sem qualquer dano
e à sua alegre inconsciência,
misturando nos dedos a pele, o pano,
os ossos, a transparência.
A tarde fez-se a hora de regresso,
o coração sussura e quase cai
aos pés das raparigas a quem peço
«de novo, levantando-me, passai».
PEDRO MEXIA
Eliot e Outras Observações
(2003)
[Discurso dos Dias]
.
9.4.10
Pedro Mexia (Os dinheiros)
OS DINHEIROS
Judas não se enforcou na figueira.
A figueira é uma árvore benigna.
Judas enforcou-se
nos trinta dinheiros.
PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma
(2007)
.
8.3.10
Pedro Mexia (Noiva de Deus)
NOIVA DE DEUS
Como no filme, era noiva de Deus,
confessou-me, ríspida, seu
perseguidor. Os seios
ainda facilmente me oprimem
o fôlego, anos passados.
Eu tentava a pouca arte, a repetição,
mas ela e Deus promessi
sposi (foi isto em Itália).
Álibi, imaginei, sempre generoso.
Mas não: em Setembro abandonava
a roupa civil, escondia os cabelos
pretos, ia entregue. Não sei
como se passou: uma década quase,
nem o seu nome. Apenas
um poema como lápide, como
ironia, o volume ainda laico
do seu peito e a última vez
que concorri com Deus.
PEDRO MEXIA
Vida Oculta
(2004)
.
29.11.09
Pedro Mexia (Pó)
PÓ
Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.
PEDRO MEXIA
Duplo Império
(1999)
[Mal Situados]
.
23.8.09
Pedro Mexia (Papel químico)

PAPEL QUÍMICO
O “sofrimento” é uma emoção
poética, estamos
sempre sozinhos com o nosso fantasma
e os versos o papel químico do mundo.
PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma
(2007)
O “sofrimento” é uma emoção
poética, estamos
sempre sozinhos com o nosso fantasma
e os versos o papel químico do mundo.
PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma
(2007)
26.4.09
Pedro Mexia (Vamos morrer)

VAMOS MORRER
Vamos morrer, mas somos sensatos,
e à noite, debaixo da cama,
deixamos, simétricos e exactos,
o medo e os sapatos.
PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma (2007)
Vamos morrer, mas somos sensatos,
e à noite, debaixo da cama,
deixamos, simétricos e exactos,
o medo e os sapatos.
PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma (2007)
.
4.3.09
Pedro Mexia (Letra morta)

LETRA MORTA
O avô morreu, queimaram-se
cartas, letra morta
o passado, o avô e estes versos.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
O avô morreu, queimaram-se
cartas, letra morta
o passado, o avô e estes versos.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
.
26.1.09
Pedro Mexia (Ela disse)

Ela disse
você ia ter uma morte nada bonita
o fígado que se desfaz humanamente até ao fim
eu disse
o fígado que se desfaz humanamente até ao fim
eu disse
mas isso já aconteceu com o meu coração
PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma (2007)
.
PEDRO MEXIA
Senhor Fantasma (2007)
.
.
27.11.08
Pedro Mexia (Código Civil)

.
CÓDIGO CIVIL
Raparigas abraçadas ao Código Civil,
serve para alguma coisa,
o Código Civil, nunca imaginei,
que bom ser Código Civil.
PEDRO MEXIA
Vida Oculta (2004)
.
.
26.9.08
Pedro Mexia (Paráfrase)

PARÁFRASE
Este poema começa por te comparar
com as constelações,
com os seus nomes mágicos
e desenhos precisos,
e depois
um jogo de palavras indica
que sem ti a astronomia
é uma ciência
infeliz.
Em seguida, duas metáforas
introduzem o tema da luz
e dos contrastes
petrarquistas que existem
na mulher amada,
no refúgio triste da imaginação.
A segunda estrofe sugere
que a diversidade de seres vivos
prova a existência
de Deus
e a tua, ao mesmo tempo
que toma um por um
os atributos
que participam da tua natureza
e do espaço criador
do teu silêncio.
Uma hipérbole, finalmente,
diz que me fazes muita falta.
PEDRO MEXIA
Avalanche
.
.
7.7.08
Pedro Mexia (As fotografias)

AS FOTOGRAFIAS
As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.
As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.
As fotografias não amarelecem, queimam,
não se enchem de pó mas de granizo.
As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.
As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.
As fotografias não amarelecem, queimam,
não se enchem de pó mas de granizo.
As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
.
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4.5.08
Pedro Mexia (Decalque)

.
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.
.
.
DECALQUE
Cheio de imaginação segunda-feira punha as figuras
num dado mundo. E a cada
momento a escolha
transformava tudo num cinema.
Bastava raspar no papel
transparente
que no fim sobrava inútil.
Nada a fazer dessa memória.
O mundo é um lugar incerto
e as figuras
já foram todas riscadas.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
Cheio de imaginação segunda-feira punha as figuras
num dado mundo. E a cada
momento a escolha
transformava tudo num cinema.
Bastava raspar no papel
transparente
que no fim sobrava inútil.
Nada a fazer dessa memória.
O mundo é um lugar incerto
e as figuras
já foram todas riscadas.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
.
13.3.08
Pedro Mexia (Aprendizagem)

APRENDIZAGEM
(decalque de e. e. cummings)
(decalque de e. e. cummings)
o eclesiastes disse-
-lhe:ele não podia
acreditar (nietzche
disse-lhe;ele
não queria acreditar
nisso)cesare
pavese
certamente disse-
-lhe,e jacques
(sim
senhora)
brel
e até
(acredite
ou
não)você
lhe disse: eu disse-
-lhe;nós dissemos-lhe
(ele não acreditou, não
senhor)foi preciso
que o céu lhe caísse
muito justa-
mente
em cima da cabeça:para dizer-
-lhe
.
.
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[n. do a.: “a partir da versão portuguesa do poema ‘plato told’ por Jorge Fazenda Lourenço”]
PEDRO MEXIA
Avalanche, edições Quasi (2001)
Avalanche, edições Quasi (2001)
.
15.1.08
Pedro Mexia (Ao contrário de Ulisses)

AO CONTRÁRIO DE ULISSES
Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
Infeliz quem, ao contrário
de Ulisses, volte a casa
e nem sequer um cão, nem
um cão morto sequer, ladre.
PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)
.
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