Mostrar mensagens com a etiqueta Jacob Iglesias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jacob Iglesias. Mostrar todas as mensagens

12.5.25

Jacob Iglesias (Respostas)




RESPUESTAS



Aún tardarás años en encontrarlas.
Tantos, que cuando ya las poseas,
si es que eso llega a suceder,
ya no sabrás qué hacer con ellas.

Jacob Iglesias 

 

 

Levarás anos ainda a encontrá-las.
Tantos, que quando as tiveres,
caso isso chegue a acontecer,
não saberás o que fazer com elas.


(Trad. A.M.)

.

1.2.25

Jacob Iglesias (Mal-entendido)

 



MAL-ENTENDIDO

 

Não existe aquilo que ambicionavas.
Deveras só a ânsia não apaziguada
de o buscar, e tocar e jamais possuir.
Nunca viverás uma dessas vidas
que só te esforçaste a imaginar,
apesar de as recordares ao pormenor
como se as tivesses vivido.
Assume o mal-entendido, entrincheira-te
nos prazeres que te deste
para tornar a espera suportável.
E agradece, sem euforia, as migalhas
de alegria que encontras em cada dia.

 

Jacob Iglesias

(Trad. A.M.)

 .

31.8.23

Jacob Iglesias (Nunca ninguém te tinha visto assim)




NUNCA NINGUÉM TE TINHA VISTO ASSIM

 

Nunca ninguém te tinha visto assim,
tão desnuda, tão bela,
tão indefesa. E nem sei
se era o teu corpo que eu abraçava com força
ou os restos do naufrágio
que me haviam de salvar.
Recordo apenas que ao olhar-te
pensei que ninguém jamais voltaria a ver-te assim,
tão desnuda, tão bela,
tão indefesa,
nem mesmo eu.


Jacob Iglesias

(Trad. A.M.)

.

22.10.20

Jacob Iglesias (Aceito este destino)



ACEPTO ESTE DESTINO

 

Estoy aprendiendo
a habitar estos días previsibles
en los que siempre me levanto a las 7:30
y desayuno siempre un tazón de leche
con galletas. Estos días ni tristes
ni alegres
de los que uno no espera gran cosa.
Ya es bastante
si el día amanece soleado,
y sigo respirando otras veinticuatro horas,
y no sufro ni provoco sufrimiento a otros,
y tengo una compañera
a quien agarrar de la mano,
y algunos poemas que llevarme al alma
antes de preparar el despertador
para que suene a las 7:30
y apagar la luz.

 Jacob Iglesias

[Escrito en el viento]

 

 

Estou a aprender
a habitar estes dias previsíveis
em que me levanto sempre às 7.30
e tomo um copázio de leite
com bolachas. Estes dias
nem tristes nem alegres
dos quais não se espera grande coisa.
Já é bastante
se o dia amanhece com sol,
e respiro ainda mais vinte e quatro horas,
e não sofro nem faço sofrer os outros,
e tenho companheira
a quem dar a mão,
e alguns poemas para fazer bem à alma
antes de acertar o despertador
para tocar às 7.30
e depois apagar a luz.


(Trad. A.M.)

.


7.12.18

Jacob Iglesias (As caras todas do dia)






TODOS LOS ROSTROS DEL DÍA



En el espejo del baño
 me mira cada mañana el rostro de alguien
 que intenta mostrarse seguro.
 Por la calle
 encuentro rostros como advertencias:
 me recuerdan
 aquello en lo que no quiero convertirme,
 aquello en lo que tarde o temprano
 me convertiré. Y a veces un rostro
 que miro sabiendo que ese instante
 es lo más cerca que estaré jamás
 de un cuerpo distinto al de ella,
 la mujer cuyo rostro borra
 todos los rostros del día.

Jacob Iglesias




No espelho do banho
olha-me em cada manhã o rosto de alguém
tentando mostrar-se seguro.
Pela rua
encontro rostos como advertências,
lembrando-me aquilo
em que não quero tornar-me,
aquilo em que hei-de tornar-me
mais tarde ou mais cedo. E às vezes um rosto
que olho sabendo que esse instante
é o mais perto que jamais estarei
de um corpo distinto do dela,
aquela cujo rosto apaga
os rostos todos do dia.

(Trad. A.M.)


.

16.3.18

Jacob Iglesias (5-Setermbro-2008)





5 -SEPTIEMBRE-2008



Catorce años después,
cuanto queda de mi padre es una sucesión
de imágenes
inconexas, y cada vez más huecos,
y algunos recuerdos minuciosos,
sobre todo de aquellos últimos meses.
Me ha costado todos estos años aprender
que cuando la memoria se convierte
en un rastro que conduce a ninguna parte,
sólo puede aliviarnos
esta liturgia de acercarnos al cementerio,
limpiar de tierra y excrementos de pájaro
la lápida, maldecir que haya más líquenes
en la inscripción y arrancar los hierbajos
que han ido creciendo.
Atar luego a la cruz unas flores de plástico
y dejar tumbado en la tierra
un ramo de claveles. Y rezar,
sin devoción, pero por si acaso,
un padrenuestro
por la vida eterna en que él confiaba.


Jacob Iglesias





Catorze anos depois,
tudo o que resta de meu pai é uma sucessão
de imagens
desconexas, espaços vazios
e algumas lembranças minuciosas,
mais daqueles últimos meses.
Custou-me aprender nestes anos todos
que quando a memória se converte
num rasto que não leva a lado nenhum,
só nos alivia
esta liturgia de passar no cemitério,
limpar a lápide das cagadelas dos pássaros,
praguejar de haver mais líquenes
na inscrição e arrancar os argalhos
que foram crescendo.
Prender depois na cruz umas flores de plástico
e deixar na terra caído
um ramo de cravos. E rezar,
sem devoção, mas por cautela,
um padre-nosso
pela vida eterna em que ele confiava.

(Trad. A.M.)


.

13.6.17

Jacob Iglesias (Na ponta da língua)





NA PONTA DA LÍNGUA          

     

Não buscar nomes novos
para o que já baptizámos,
nem descobrir a sequência de sons
para designar aquilo que sempre nos escapa,
porque não consente nome.
Trabalhar na ponta da língua.
Agarrar palavras que todos aprendemos
e combiná-las na ordem precisa,
nomeando o que já todos intuem
mas tanta vez resiste a ser dito.
Escrevê-las de modo que cada um reconheça
na tua busca a sua
e na tua melodia a sua canção.


Jacob Iglesias


(Trad. A.M.)

.

12.1.15

Jacob Iglesias (Ainda me obceca)





AÚN ME OBSESIONA



Sentí miedo de mi propio padre.
O, para ser más exacto, de ese cuerpo
pálido, rígido,
ni dormido ni despierto,
que yacía,
como un muñeco en su envoltorio,
en un féretro colocado en medio del salón.
Tenía sus mismos labios, su misma nariz
aguileña, su mismo pelo canoso,
pero aquello ya no era mi padre.
Y en eso, en aquel tránsito de naturalidad
insoportable, no en otra cosa,
consiste para mí
todo el misterio de la muerte.

Jacob Iglesias

[Escrito en el viento]



Senti medo do meu próprio pai.
Ou, para ser mais exacto, desse corpo
pálido, rígido,
nem dormido nem desperto,
que jazia,
como um boneco em seu envoltório,
num féretro colocado no meio do salão.
Tinha os mesmos lábios, o mesmo nariz
aquilino, o mesmo cabelo branco,
mas não era já o meu pai aquilo.
E nisso, não em outra coisa,
nesse trânsito de naturalidade insuportável
é que reside para mim
o mistério todo da morte.

(Trad. A.M.)

.

13.7.13

Jacob Iglesias (Temos de nos afazer aos defuntos)





Hay que acostumbrarse a los difuntos,
a su presente ausencia
que tanto nos alivia y decepciona;
a la sombra difusa del instante
que disfrutamos juntos alejándose
definitivamente; a la idea
de una osamenta bajo tierra,
que no es nada, pero fue un hombre
(con sueños, y fracasos, y alegrías),
y por este motivo nos espanta.
Hay que acostumbrarse a los difuntos,
en lugar de ahogarles con el llanto
o cubrirles de olvido ignominioso.
No les sepultes por segunda vez,
es labor exclusiva de los años.

Jacob Iglesias

[Escrito en el viento]



Temos de nos afazer aos defuntos,
à sua presente ausência
que tanto nos alivia e decepciona;
à sombra difusa do instante
que vivemos juntos
a afastar-se para sempre; à ideia
de uma ossada por baixo da terra,
que nada é, mas foi um homem
(com sonhos, alegrias, fracassos)
e por isso mesmo nos espanta.
Temos de nos afazer aos defuntos,
em vez de afogá-los com pranto
ou cobri-los com o esquecimento.
Não os sepultemos segunda vez,
que isso é labor exclusivo dos anos.

(Trad. A.M.)

.

26.6.13

Jacob Iglesias (Nota)





NOTA



Olvidarme
de ese poema memorable que comenzaría
“Unos mentirosos de nacimiento buscando
ansiosamente verdades. Eso es lo que somos.”
Escribir algo
sobre esta tarde de domingo sin ambulancias,
ni rastro de aburrimiento,
ni la televisión de los vecinos de arriba
a todo volumen.
Sólo el zumbido tenue del frigorífico,
un libro y, por primera vez desde hace meses,
el sol palpando cada objeto
de la habitación, reconociéndolo
como las manos de un ciego.
Ha sonado el timbre.
Seguro que ya es ella.

Jacob Iglesias


[Sombras en el adarve]



Esquecer-me daquele
poema memorável que começaria assim:
“Mentirosos de nação em busca ansiosa
de verdades, eis o que somos”.
Escrever algo sobre
esta tarde de domingo sem ambulâncias,
nem traço de tédio,
nem sequer a TV dos vizinhos de cima
no som máximo.
Só o zumbido ténue do frigo,
um livro e, primeira vez há meses,
o sol palpando cada objecto
da casa, a reconhecê-lo
como as mãos de um cego.
Tocou a campainha,
é ela, de certeza.

(Trad. A.M.)



>>  Mistycalle (nota mínima) / Europa press (prémio)

.