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25.2.26

Lêdo Ivo (Minha pátria)




MINHA PÁTRIA

 

Minha pátria não é a língua portuguesa.

Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e
implaudados não param de tossir e tremer nas noite frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
minha pátria desintérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.


Lêdo Ivo

 .

19.3.25

José Luis García Martín (Minha pátria)




MI PATRIA

 

Si me dijeran, puedes escoger tu patria,
un lugar en el que vivir,
un lugar por el que morir,
una gran historia llena de patrañas
que has de creer a pie juntillas,
un trapo tremolante
que ha de llenarte de emoción
cuando lo divises de lejos,
¿qué patria escogería?
El mundo es demasiado grande,
mi pueblo demasiado pequeño.
¿No habrá un errante asteroide
todavía sin nombre,
sin historia, sin bandera,
sin sangre en las manos,
sin victimas a las que vengar?
Un pedrusco ignorado de todos,
al que aún no haya salpicado
la estupidez humana,
esa quisiera que fuera mi patria.
 

J.L. García Martín 

 

Se me dissessem, podes escolher a tua pátria,
um lugar para viver,
um lugar para morrer,
uma grande história cheia de patranhas 
em que terás de crer a pés juntos,
um trapo a tremular
que te encherá de emoção 
quando o avistares ao longe,
que pátria escolheria eu?
O mundo é grande demais,
minha terra pequena demais.
Não haverá um errante asteróide 
sem nome ainda,
sem história, sem bandeira,
sem sangue nas mãos,
sem vítimas para vingar?
Um penedo ignorado de todos,
ainda não salpicado 
pela humanal estupidez,
essa eu quereria que fosse a minha pátria.
 

(Trad. A.M.)

 .

13.5.24

Manuel Moya (Andaluzia)




ANDALUCÍA 

 

No sé si tengo patria, de verdad que no lo sé,
pero siento que si yo tuviera patria
sería esta luz,
estos castaños, estas encinas, este calabobo
que besa hoy la tierra,
pero yo no tengo patria,
porque mi patria son los hombres
que labraron estos cerros,
los que plantaron estos árboles,
los que fueron a la siega, los que majaron el gazpacho
bajo la bendita sombra del olivo
y encalaron sus casas
e hirieron con su voz rasgada las lentas noches del invierno,
los que llevaron sus bueyes hasta el agua,
los del cucharro y el mancaje,
los de la luna tatuada entre sus cejas.

Mi patria, si es que tengo patria,
es mi padre dejándose la vida sobre el surco,
las manos de mi madre sacando agua del pozo,
ésa es y fue siempre mi patria,
la que hunde sus rodillas en el tiempo,
la de la luz por siempre hambrienta,
la vencida siempre, la mil veces humillada,
la siempre renacida, la que en la luz
labra su sino y su bandera.
 

Manuel Moya

  

Não sei se tenho pátria, de verdade não sei,
mas sinto que se tivesse pátria, seria esta luz,
estes castanheiros e azinheiras,
esta chuva molha-tolos
que beija hoje a terra,
mas eu não tenho pátria
porque a minha pátria são os homens
que lavraram estes cerros,
os que plantaram estas árvores,
os que foram à segada, os que manjaram o gaspacho
à sombra bendita da oliveira
e caiaram as casas
e feriram com sua voz rasgada as lentas noites de inverno,
os que levaram os bois a beber,
os da lua tatuada na testa.

Minha pátria, se é que tenho pátria,
é meu pai largando a vida sobre a seita,
as mãos de meu pai a tirar água do poço,
essa é e foi sempre a minha pátria,
a que afunda os joelhos no tempo,
a da luz faminta para sempre,
a sempre vencida, mil vezes humilhada.
a sempre renascida, a que na luz
lavra sua sina e bandeira.

(Trad. A.M.)

.

21.3.24

Alexandre Pinheiro Torres (Super flumina)



SUPER FLUMINA

 

Ó desamável pátria minha     Tens vivido
do sangue do teu Filho   Mas agora
que toco teus seios de maçã tudo
me é indiferente    É tão fácil a

tua poesia de tramar lágrimas   Sei
teu parado sonho de passarem tudo
por cavalos brancos e que o sol se
economize em todo o mundo   não em ti

Crescem meus braços por teus ramos
esponjados   Continua-te um céu
em jejum de tempestade   Beberes o meu
é a forma de me teres e amar


ALEXANDRE PINHEIRO TORRES
A Terra de meu Pai
Plátano (1972)


>>  Antonio Miranda (5p) / Facebook (alguns p) / Archive (perfil) / Wikipedia

.


6.8.22

Manuel Alegre (País)




PAÍS 

 

Não sei se sem poemas há país
ou se sem eles se perde o pé a fé e até
esse país que está onde se diz
Ai Deus e u é? 

Alguns julgam que é tanto vezes tanto
capital a multiplicar por capital
país é um café e a mesa a um canto
onde um poeta sonha e escreve e é Portugal. 

Levantou-se a velida levantou-se a alva.
Por mais que o mundo nos oprima e nos esprema
há sempre um poema que nos salva
país é onde fica esse poema.


MANUEL ALEGRE
Nada Está Escrito
(2012)

 .

5.5.21

Eugénio de Andrade (Este país é um corpo exasperado)



Este país é um corpo exasperado,
a luz da névoa rente ao peito,
a febre alta à roda da cintura.  

O país de que te falo é o meu,
não tenho outro onde acender o lume
ou colher contigo o roxo das manhãs.  

Não tenho outro, nem isso importa,
este chega e sobra para repartir
com os corvos - somos amigos.
 

Eugénio de Andrade


.

19.2.21

Isabel Mendes Ferreira (A minha pátria)

 


a minha pátria é de chão de Pascoaes. árvore de Camões. e 
lírica de Camilo. sofrida como uma maçã de Cesário. 
um rasgo de Al berto e a mão de Pessoa.
o olho.tigre de Agostinho e o silêncio de Agustina.
Ondina nos pulsos e um pouco imenso de todo o Vergílio.
______________a minha pátria é tão antiga 
que de sépia a rubro demora o tempo de reabrir as Farpas.


Isabel Mendes Ferreira

 .

28.10.17

José Rentes de Carvalho (Portugal)





Verdade é que Portugal viria a ocupar-me de maneira bem diferente, levando-me a descobrir no exílio sentimentos de vergonha que se juntavam, mas excediam, os que até então só tinham sido de revolta.

Ao insulto pode responder-se com outro, não custa pagar a arrogância com moeda igual, mas dói, dói muito, quando sinceramente, e com fundamento, nos demonstram piedade pela pouca sorte de termos nascido num país de ternura, de tanta gentileza, mas ser ele há séculos coito de quadrilhas que pela força e o embuste chamam a si a lei, a impõem a uma gente que, amedrontada e pobre, se verga ao jugo e muda em subserviência o seu natural carinho. (...)


O passar dos anos e o cansaço das emoções têm acalmado alguma coisa, não muito, da raiva que me possui, mas continua a enfurecer-me a desigualdade, a desvergonha e o desdém dos governantes pelos governados, a roubalheira que fazem da coisa pública, o desmedido fosso entre os que têm e os que nunca terão.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

.

30.7.17

Fernando Pessoa / A. Campos (Arre)





ARRE



Arre, que tanto é muito pouco!
Arre, que tanta besta é muito pouca gente!
Arre, que o Portugal que se vê é só isto!
Deixem ver o Portugal que não deixam ver!
Deixem que se veja, que esse é que é Portugal!
Ponto.

Agora começa o Manifesto:
Arre!
Arre!
Oiçam bem:
ARRRRRE!


Álvaro de Campos

[Assirio e Alvim]

.

2.2.17

Sebastião Alba (No meu país)





NO MEU PAÍS



No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.


Sebastião Alba

.

18.1.17

Sophia de Mello Breyner Andresen (Pátria)





PÁTRIA                               



Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo



Sophia de Melo Breyner Andresen



17.5.16

Dinis Moura (Um sonho)





Um sonho:
que Portugal pintou
a sua bandeira
com o vermelho da ira
que mora no coração dos portugueses
e com o verde da esperança
que esses mesmos corações perderam.
Pois seja esta a nossa nova bandeira!



Dinis Moura

.

2.3.16

José Alberto Oliveira (Portugal)





PORTUGAL



Três sílabas de quê? de bancarrotas,
de naufrágios, do Minho a Timor,
ou dos dividendos do Banco de Angola?

Nasce-se por aqui, em aldeias
na serra, ou vilas na planície, e o cercado
vai ficando cheio de mortos:

tantos, que não se arrumam em três
sílabas. Pátria? (outras tantas
com ditongo) - cais de partida,

calabouço de memórias: as que vingam
e as que estariam melhor esquecidas.
Problema sem solução? - que solução

terráqueos coubesse nesta língua,
em que por sorte e maravilha
prevaricamos? Promessa

não cumprida? - há por aí soutos,
pomares, ribeiras do Mar Atlântico,
que garantem quebra ossos

ou cinzas a terra não será dura.


JOSÉ ALBERTO OLIVEIRA
Como se nada fosse
(2015)

.

2.6.15

José Cardoso Pires (Isto não é um país)





Alexandra: "Isto não é um país, é um sítio mal frequentado". (p.28)


JOSÉ CARDOSO PIRES
Alexandra Alpha
(1987)

.

27.5.15

Ruy Belo (Aos homens no cais)





AOS HOMENS NO CAIS



Plantados como árvores no chão
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece à luz

Nenhum passado vale o dia-a-dia
Sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é pátria mas país


Ruy Belo

.

4.5.15

Mário Cesariny (No país)





no país no país no país onde os homens
são só até ao joelho
e o joelho que bom é só até à ilharga
conto os meus dias tangerinas brancas
e vejo a noite Cadillac obsceno
a rondar os meus dias tangerinas brancas
para um passeio na estrada Cadillac obsceno


e no país no país e no país país
onde as lindas lindas raparigas são só até ao pescoço
e o pescoço que bom é só até ao artelho
ao passo que o artelho, de proporções mais nobres,
chega a atingir o cérebro e as flores da cabeça,
recordo os meus amores liames indestrutíveis
e vejo uma panóplia cidadã do mundo
a dormir nos meus braços liames indestrutíveis
para que eu escreva com ela, só até à ilharga,
a grande história de amor só até ao pescoço


e no país no país que engraçado no país
onde o poeta o poeta é só até à plume
e a plume que bom é só até ao fantasma
ao passo que o fantasma - ora aí está -
não é outro senão a divina criança (prometida)
uso os meus olhos grandes bons e abertos
e vejo a noite (on ne passe pas)
diz que grandeza de alma. Honestos porque.
Calafetagem por motivo de obras.
É relativamente queda de água
e já agora há muito não é doutra maneira
no país onde os homens são só até ao joelho
e o joelho que bom está tão barato


Mário Cesariny

.

25.4.15

Vinicius de Moraes (Pátria minha)





PÁTRIA MINHA



A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um ‘libertas quae sera tamem’
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


Vinicius de Moraes

.

10.3.15

Jorge M. Molinero (Pátria)





PATRIA



En más de mil poemas,
más de mil definiciones de
Patria.

He aquí la mía:

mi Patria soy yo. Y
cada vez que me veo
en un espejo,
deseo el exilio
o la independencia.

Jorge M. Molinero



Em mais de mil poemas,
mil ou mais definições de
Pátria.

Eis a minha:

minha Pátria sou eu. E
cada vez que me vejo
ao espelho,
reclamo o exílio
ou a independência.

(Trad. A.M.)

.

13.3.14

Affonso Romano de Sant'Anna (Que país é este?)





QUE PAÍS É ESTE?



Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

   (...)

Affonso Romano de Sant’Anna

.

13.12.13

Ana Pérez Cañamares (País)





PAÍS



Dormimos espalda contra espalda
respetando cada uno
la tierra de los sueños del otro.
Al despertar nos citamos
en el puesto fronterizo.
Allí aprendemos entre brumas
que dos exiliados hacen un país.

Ana Pérez Cañamares



Dormimos costas com costas
respeitando cada um
a terra dos sonhos do outro.
Encontramo-nos ao despertar
no posto da fronteira.
E entre brumas aí aprendemos
que dois exilados fazem um país.

(Trad. A.M.)

.