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29.6.21

Antonia Pozzi (A vida sonhada)




LA VITA SOGNATA


Chi mi parla non sa
che io ho vissuto un'altra vita –
come chi dica
una fiaba
o una parabola santa.
Perché tu eri
la purità mia,
tu cui un'onda bianca
di tristezza cadeva sul volto
se ti chiamavo con labbra impure,
tu cui lacrime dolci
correvano nel profondo degli occhi
se guardavamo in alto –
e così ti parevo più bella.
O velo
tu – della mia giovinezza,
mia veste chiara,
verità svanita –
o nodo
lucente – di tutta una vita
che fu sognata – forse –
oh, per averti sognata,
mia vita cara,
benedico i giorni che restano –
il ramo morto di tutti i giorni che restano,
che servono
per piangere te.
 

Antonia Pozzi

 

Quem fala comigo não sabe
que eu vivi outra vida
- como quem diz
uma fábula ou
uma parábola sagrada.
Porque eras tu
a minha inocência,
tu, que uma onda branca
de tristeza cobria,
se eu te chamava com lábios impuros;
tu, que deixavas correr lágrimas doces
do fundo dos olhos
postos no alto
- e mais bela eu te aparecia.
Ó véu
tu – da minha mocidade,
minha veste clara,
verdade sumida –
ou laço de luz
- de uma vida inteira
que foi sonhada acaso -
oh, por te haver sonhado,
vida minha,
bendigo os dias que me restam -
o morto ramo de todos os dias que restam,
que servem só para te chorar.

(Trad. A.M.)

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20.5.21

Antonia Pozzi (Decerto nem é verdade)



Forse non è nemmeno vero
quel che a volte ti senti urlare in cuore:
che questa vita è,
dentro il tuo essere,
un nulla
e che ciò che chiamavi la luce
è un abbaglio,
l’abbaglio estremo
dei tuoi occhi malati–
e che ciò che fingevi la meta
è un sogno,
il sogno infame
della tua debolezza. 

Forse la vita è davvero
quale la scopri nei giorni giovani:
un soffio eterno che cerca
di cielo in cielo
chissà che altezza.

 Ma noi siamo come l’erba dei prati
che sente sopra sé passare il vento
e tutta canta nel vento
e sempre vive nel vento,
eppure non sa così crescere
da fermare quel volo supremo
né balzare su dalla terra
per annegarsi in lui.
 

Antonia Pozzi

 

 

Decerto nem é verdade
o que às vezes sentes gritar no teu peito,
que esta vida é um nada
e aquilo que chamavas a luz
é uma ilusão,
a grande ilusão da tua vista doente
- e o que pintavas como a meta
é um sonho
o sonho apenas
da tua fraqueza.

Se calhar a vida é mesmo
tal como a descobres na infância,
um sopro eterno que busca
de céu em céu
sabe-se lá que alturas.

Mas nós somos é como a erva dos campos
que sente o vento passar-lhe por cima
e canta inteira no vento
e vive no vento
e não sabe todavia crescer
para deter esse voo supremo
nem elevar-se acima do chão
para afogar-se com ele.

(Trad. A.M.)

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31.3.21

Antonia Pozzi (Largo)



LARGO



O lasciate lasciate che io sia
una cosa di nessuno
per queste vecchie strade
in cui la sera affonda -

O lasciate lasciate ch'io mi perda
ombra nell'ombra -
gli occhi
due coppe alzate
verso l'ultima luce -

E non chiedetemi - non chiedetemi
quello che voglio
e quello che sono
se per me nella folla è il vuoto
e nel vuoto l'arcana folla
dei miei fantasmi -
e non cercate - non cercate
quello ch'io cerco
se l'estremo pallore del cielo
m'illumina la porta di una chiesa
e mi sospinge a entrare -
Non domandatemi se prego
e chi prego
e perché prego -

Io entro soltanto
per avere un po' di tregua
e una panca e il silenzio
in cui parlino le cose sorelle -
Poi ch'io sono una cosa -
una cosa di nessuno
che va per le vecchie vie del suo mondo -
gli occhi
due coppe alzate
verso l'ultima luce.

Antonia Pozzi




Oh deixai-me ser
uma coisa de ninguém 
por estes velhos caminhos
em que a tarde se afunda

Deixai-me perder
sombra na sombra 
- os olhos
duas taças erguidas
para a derradeira luz -

E não me pergunteis - não me pergunteis 
o que é que eu quero
e o que é que eu sou
se para mim na turba é o vazio
e no vazio a turba antiga
dos meus fantasmas -
e não busqueis - não busqueis
aquilo que eu busco
quando o céu lívido
me ilumina a porta de uma igreja
e me incita a entrar -
Não me pergunteis se rezo
a quem rezo 
e por que rezo -

Eu entro apenas
para ter um pouco de paz
e um banco e o silêncio 
onde me falam as coisas irmãs
 - Porque eu sou uma coisa,
uma coisa de ninguém 
que vai pelos caminhos do seu mundo -
os olhos
duas taças erguidas
para a derrradeira luz.

(Trad. A.M.)

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6.3.21

Antonia Pozzi (Confiar)



CONFIDARE

 

Ho tanta fede in te. 
Mi sembra
che saprei aspettare la tua voce
in silenzio, per secoli
di oscurità. 

Tu sai tutti i segreti,
come il sole:
potresti far fiorire
i gerani e la zàgara selvaggia
sul fondo delle cave
di pietra, delle prigioni
leggendarie. 

Ho tanta fede in te. 
Son quieta
come l'arabo avvolto
nel barracano bianco,
che ascolta Dio maturargli
l'orzo intorno alla casa.

 
Antonia Pozzi

 

 

Tenho tanta fé em ti,
e parece-me
que podia esperar pela tua voz,
em silêncio, no escuro
de séculos.

Tu conheces os segredos todos,
tal como o sol:
podias até fazer desabrochar
os gerânios ou a flor de laranjeira
no chão de pedra das cadeias
lendárias.

Tenho tanta fé em ti,
e estou tranquila
como esse árabe embrulhado
no seu albornó branco
a ouvir Deus amadurar-lhe
a cevada à volta da casa.

(Trad. A.M.)

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27.6.20

Antonia Pozzi (Pensamento)





PENSIERO



Avere due lunghe ali
d’ombra
e piegarle su questo tuo male;
essere ombra, pace
serale
intorno al tuo spento
sorriso.

Antonia Pozzi




Ter duas grandes asas
de sombra
e com elas cobrir tua dor;
ser sombra, paz
nocturna,
en torno do teu sumido
sorriso.

(Trad. A.M.)

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29.5.19

Antonia Pozzi (Mensagem)




MESSAGGIO



E tu, stella acuta notturna
splendi ancora
se per il solco delle strade
grida la triste anima dei cani.
Sorgeranno colline d’erba magra
a coprirti:
ma nel mio buio conquistato
brillerai, fuoco bianco,
parlando ai vivi della mia morte.

Antonia Pozzi




E tu, estrela da noite
cintilas ainda
quando pelos caminhos
uiva de tristeza a alma dos cães.
Montes e montes virão a encobrir-te,
mas no escuro da minha vida
tu brilharás, fogo branco,
contando aos vivos da minha morte.

(Trad. A.M.)

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7.5.19

Antonia Pozzi (Novembro)





NOVEMBRE



E poi – se accadrà ch’io me ne vada –
resterà qualche cosa
di me
nel mio mondo
- resterà un’esile scìa di silenzio
in mezzo alle voci –
un tenue fiato di bianco
in cuore all’azzurro.

Ed una sera di novembre
una bambina gracile
all’angolo d’una strada
venderà tanti crisantemi
e ci saranno le stelle
gelide verdi remote.
Qualcuno piangerà
chissà dove – chissà dove –
Qualcuno cercherà i crisantemi
per me
nel mondo
quando accadrà che senza ritorno
io me ne debba andare.


Antonia Pozzi

[A dupla vida de V.]




E depois - se acontecer que eu me vá -
ficará qualquer coisa
de mim
em meu mundo
- ficará um fino traço de silêncio
por entre as vozes -
um sopro ténue de branco
no meio do azul.


E numa tarde de Novembro
uma menina graciosa
venderá milhentos crisântemos
numa esquina da rua
e haverá estrelas
gélidas, verdes, remotas.
Alguém chorará
sabe-se lá onde - sabe-se lá onde -
Alguém me buscará os crisântemos
pelo mundo
um dia que eu tenha de partir
sem regresso.


(Trad. A.M.)

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3.5.18

Antonia Pozzi (A vida)






LA VITA


Alle soglie d’autunno
in un tramonto
muto

scopri l’onda del tempo
e la tua resa
segreta

come di ramo in ramo
leggero
un cadere d’uccelli
cui le ali non reggono più.

Antonia Pozzi




À entrada do outono
um ocaso
mudo

e tu descobres a onda do tempo
a tua secreta
rendição

como um pássaro
caindo leve
de ramo em ramo
cujas asas o não sustêm.

(Trad. A.M.)


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12.7.17

Antonia Pozzi (Desânimo)





SFIDUCIA



Tristezza di queste mie mani
troppo pesanti
per non aprire piaghe,
troppo leggere
per lasciare un'impronta –

tristezza di questa mia bocca
che dice le stesse
parole tue
- altre cose intendendo -
e questo è il modo
della più disperata
lontananza.


Antonia Pozzi




Tristeza destas mãos
pesadas de mais
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –

tristeza desta boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
este o modo
da mais desesperada
distância.


(Trad. A.M.)



> Outra versão: O melhor amigo (Inês Dias)

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25.2.17

Antonia Pozzi (Canto da minha nudez)





CANTO DELLA MIA NUDITÀ



Guardami: sono nuda. Dall'inquieto
languore della mia capigliatura
alla tensione snella del mio piede,
io sono tutta una magrezza acerca
inguainata in un color d'avorio.
Guarda: pallida è la carne mia.
Si direbbe che il sangue non vi scorra.
Rosso non ne traspare. Solo un languido
palpito azzurro sfuma in mezzo al petto.
Vedi come incavato ho il ventre. Incerta
è la curva dei fianchi, ma i ginocchi
e le caviglie e tutte le giunture,
ho scarne e salde come un puro sangue.
Oggi, m'inarco nuda, nel nitore
del bagno bianco e m'inarcherò nuda
domani sopra un letto, se qualcuno
mi prenderà. E un giorno nuda, sola,
stesa supina sotto troppa terra,
starò, quando la morte avrá chiamato.


Antonia Pozzi




Olha para mim, estou nua. Do langor
 inquieto dos cabelos
à tensão ligeira dos pés,
toda eu sou uma magreza amarga
embrulhada em cor de marfim.
Olha, é pálida a minha carne,
o sangue dir-se-ia que aí não corre.
O vermelho não transparece, só um lânguido
pulsar azul se esbate a meio do peito.
Vê como é cavado meu ventre, a curva
dos flancos incerta, mas os joelhos
e os tornozelos e as articulações
são descarnados e duros como os de um puro-sangue.
Hoje, deito-me nua, na limpidez
da banheira branca e amanhã
deitar-me-ei nua sobre um leito, se alguém
me quiser tomar. E um dia nua, sozinha,
hei-de ficar, de costas por baixo da terra,
quando a morte vier me chamar.


(Trad. A.M.)

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24.8.16

Antonia Pozzi (Pausa)





PAUSA



Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


Antonia Pozzi

(Trad. Inês Dias)

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4.6.16

Antonia Pozzi (Grito)





GRIDO



Non avere un Dio
non avere una tomba
non avere nulla di fermo
ma solo cose vive che sfuggono -
essere senza ieri
essere senza domani
ed acciecarsi nel nulla –
- aiuto –
per la miseria
che non ha fine

Antonia Pozzi




Não ter um Deus
nem sepulcro
não ter nada seguro
só coisas vivas fugazes
– não ter ontem
nem amanhã
e ficar cega no nada –
(socorro)
pela miséria
sem fim.

(Trad. A.M.)

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11.5.16

Antonia Pozzi (Amor da lonjura)




AMORE DI LONTANNANZA



Ricordo che, quand’ero nella casa
della mia mamma, in mezzo alla pianura,
avevo una finestra che guardava
sui prati; in fondo, l’argine boscoso
nascondeva il Ticino e, ancor più in fondo,
c’era una striscia scura di colline.
Io allora non avevo visto il mare
che una sol volta, ma ne conservavo
un’aspra nostalgia da innamorata.
Verso sera fissavo l’orizzonte;
socchiudevo un po’ gli occhi; accarezzavo
i contorni e i colori tra le ciglia:
e la striscia dei colli si spianava,
tremula, azzurra: a me pareva il mare
e mi piaceva più del mare vero.

Antonia Pozzi




Lembro-me que, quando estava em casa
da minha mãe, no meio da planície,
havia uma janela que olhava
para os campos; ao fundo, a linha do bosque
ocultava o Ticino e, mais ao longe,
havia uma tira escura de colinas.
Eu não vira o mar então senão
uma vez, mas tinha-lhe uma áspera
saudade de enamorada.
Para a noite, fitava o horizonte,
cerrava um pouco os olhos, afagava
as cores e contornos por entre os cílios.
E a linha do relevo aplainava-se,
azul, trémula – para mim era o mar
e agradava-me mais que o mar verdadeiro.

(Trad. A.M.)



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