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15.11.19

Valter Hugo Mãe (Brincadeiras)




BRINCADEIRAS




brincávamos a cair nos braços
um do outro como faziam as actrizes
nos filmes com marlon brando e
suspirávamos sem saber habituar o
coração à dor

o amor um pelo outro como se a desgraça
nos servisse bem o peito todo em movimento
a vida podia durar um dia

doíam-me os braços e tu caías uma e outra vez
distante eu era um lugar abandonado
querias culpar-me por ser triste de outro modo
lento convicto culpado fui o primeiro a dizer que
amar é afeiçoar o corpo ao perigo

a minha mãe avisava valter tem cuidado
não brinques assim vais partir uma perna
vais partir a cabeça vais partir o coração
estava certa foi tudo verdade


Valter Hugo Mãe

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29.1.15

Valter Hugo Mãe (Fim)





FIM



tentei matar-me no dia onze de julho de
dois mil e seis. o sol era intenso mas
os meus olhos perderam de tal modo a luz,
que a própria faca brilhando se tornou
apenas um animal de dentes afiados que
me feriu os dedos mas não se deixou
apanhar. a morte fugiu-me assim. foi o
mais estranho que me aconteceu e pode
só isso ser o mais peculiar que tenho
para deixar dito, deitando por terra qualquer
obra, qualquer outro poema, que soará,
seguramente, uma redundância depois
que a vida se prolonga para lá do fracasso


VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

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13.8.14

Valter Hugo Mãe (Mieloma, um)





MIELOMA, UM



os bichos já devem ter
comido o corpo do meu pai.
a casa já expirou a pulmões cheios
o seu odor. já todos vieram
ver, inclinaram as cabeças
para trás e cacarejaram. nós
somos outros, parecidos e
discretos, mas outros. por isso
agradecemos a visita mas
perante a morte ficamos
irremediavelmente sós

a morte do meu pai não
vos diz respeito. vão-se embora


VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

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5.3.14

Valter Hugo Mãe (O super-homem)





O SUPER HOMEM



vesti o meu fato de
super homem por baixo da
roupa de todos os dias quando
fui ouvir o que o médico
tinha para dizer sobre a
operação da minha
mãe. eu morri mil vezes
quando a operaram, iam
partir-lhe o osso do peito e
isso é tão avesso ao que
espero dela. até digo às
crianças que não corram em seu
redor, tem quase setenta anos e
está cansada e não é bom que caia ou
sequer se aflija. partiram-lhe o
osso do peito. fizeram-no porque
é assim que se faz, dizem, e eu,
secretamente com o meu fato de
super homem, supostamente
preparado para tudo, morri mil vezes
e, mesmo depois das boas palavras do
médico, ando lento, tão atrasado
nas ressurreições

VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

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28.8.13

Valter Hugo Mãe (A natureza revolucionária da felicidade)





A NATUREZA REVOLUCIONÁRIA DA FELICIDADE



quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca



VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

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23.4.13

Valter Hugo Mãe (Burocracia do fim de uma longa amizade)





BUROCRACIA DO FIM DE UMA LONGA AMIZADE



serve para lhe dizer, senhor
a. n., que depois do que
me fez, levei ao lixo cada objecto
que conservava a sua memória e que
eduquei a cabeça a pensar só em
excrementos sempre que por inércia
me quiser aborrecer com lembranças
do que vivi perto de si. que tolice, a
cabeça prega-nos truques, mas com o
presente estará sanado o vício e o
senhor, de vício, passará a ser um
cidadão livre da minha admiração e
cuidado. vai escrito aos dias vinte
de abril de dois mil e sete e vigora
em território nacional e comunitário
por aplicação directa e no resto do
mundo por força dos acordos tácitos
de quem tem vergonha na cara. no mais,
saiba que este poema o obriga a não
chegar à minha pessoa a menos de
vinte mil metros e a não me dirigir
palavra. com vocação para toda a
vida, este poema não é nada comparado
com a traição de que foi capaz. já penso
em excrementos quando escrevo
estes últimos versos e o meu coração
fecha-se naturalmente a toda e qualquer
ternura da sua amizade


VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

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14.11.12

Valter Hugo Mãe (A importância absoluta)





A IMPORTÂNCIA ABSOLUTA DE ENCONTRAR UM AMIGO



no início o bruno era o
verbo, depois, veio do fundo
da paisagem e depositou-se em
movimento por toda a parte, apenas
a seguir se criaram os animais e
as plantas e toda a evolução das
espécies aconteceu


VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)

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5.6.12

Valter Hugo Mãe (Gordo e careca)






GORDO E CARECA




onde vais, valter hugo mãe, tão sem ter
com quem, tão precipitado no vazio do
caminho à procura de quê

porque não ficas em casa, resignadamente só, a
ver como a vida se gasta sem culpa nem glória

és um rapaz estranho, valter hugo mãe, aí metido
num amor nenhum que te magoa, e esperas ter
lugar no mundo, com tanto que o mundo tem de distraído

devias morrer no dia dezoito de março de
mil novecentos e noventa e seis, como dizes
que vai acontecer, para que se acabe essa
imprecisa sentença que é a vida

volta a fechar a porta, não há nada para ti lá fora
e está frio, tens reumatismo, dói-te a cabeça, estás
gordo e careca, não faz sentido sequer que
tentes chegar às luzes esbatidas da marginal, ainda
que seja só ao lado manos percorrido pelos banhistas

volta a fechar a porta e talvez durmas, está um
agradável silêncio no prédio, tenho a certeza de que
reparaste nisso




VALTER HUGO MÃE
Contabilidade
Poesia 1996-2010
Alfaguara (2010)



>>  Valter Hugo Mãe (sítio oficial) / Casa de osso (blogue) / Wikipedia

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