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24.12.17

José Rentes de Carvalho (Fim)





Aqui nada tenho, o que ainda me prendia sumiu-o a água, se estivesse com disposição poderia brincar aos infelizes, dizer que me sinto sem eira nem beira.

Mas assim não é.

Chamem-lhe raízes, digam que vem do secreto poder da terra natal, dos cheiros da infância, da frescura que uma manhã se respirou, da lembrança de um instante feliz.

Continuo a olhar em redor e hesito, quero-me despedir, ouvir-me dizer que não voltarei, mas o grilhão pode mais: será sempre bilhete de ida e volta.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

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28.10.17

José Rentes de Carvalho (Portugal)





Verdade é que Portugal viria a ocupar-me de maneira bem diferente, levando-me a descobrir no exílio sentimentos de vergonha que se juntavam, mas excediam, os que até então só tinham sido de revolta.

Ao insulto pode responder-se com outro, não custa pagar a arrogância com moeda igual, mas dói, dói muito, quando sinceramente, e com fundamento, nos demonstram piedade pela pouca sorte de termos nascido num país de ternura, de tanta gentileza, mas ser ele há séculos coito de quadrilhas que pela força e o embuste chamam a si a lei, a impõem a uma gente que, amedrontada e pobre, se verga ao jugo e muda em subserviência o seu natural carinho. (...)


O passar dos anos e o cansaço das emoções têm acalmado alguma coisa, não muito, da raiva que me possui, mas continua a enfurecer-me a desigualdade, a desvergonha e o desdém dos governantes pelos governados, a roubalheira que fazem da coisa pública, o desmedido fosso entre os que têm e os que nunca terão.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

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19.10.17

José Rentes de Carvalho (Ajuste de contas)





Estranhamente, o momento que deveria ser um de grande medo, vivera-o ele em paz, com a firmeza de quem tem razão e ajusta contas.

Quando recordava o negrume da noite sem lua, a canelha dos palheiros, sentia o corpo entesar-se, de novo se via a abrir e a fechar a navalha de barba, correndo os dedos pela macieza do cabo, a repetir a vontade que tinha de encarar o homem.

Porque não seria à traição, havia de saber quem tinha diante, queria vê-lo dar-se conta de que chegara a hora de pagar.

Lançou-se de frente, a navalha horizontal, ao tempo de vê-lo arregalar os olhos já a cabeça pendia, o talho cerce e tão fundo que quase o degolara, ele só por um triz escapando ao espichar do sangue.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

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10.10.17

José Rentes de Carvalho (Violação)





A bofetada como que lhe rebenta a cabeça e sente os olhos desencaixar-se, a quentura do sangue a escorrer do nariz, mas queda-se numa aceitação animal, sem vontade própria, incapaz de raciocínio ou sentimento.

E como em estado segundo, assiste, participa, esquecida de ser, ignorante do que faz, do que vê, a modos de sentir seu o corpo e ao mesmo tempo o negar, sofrer-lhe a dor e sair dele.

Num reflexo tinha fechado as pernas, mas logo as voltara a abrir, obediente quando ele, forçando, lhas pegou às mãos ambas como se a quisesse rachar.

Esperava bruteza e foi o que sofreu: o ventre esgarçado, uma sensação de queimadura, o peso, a asfixia da mão que lhe tapava a boca, a outra a apertar-lhe o pescoço.
Coito selvagem, dor que nunca tinha sentido, nem suportado macho com raiva assim.


J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2016)

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4.10.17

José Rentes de Carvalho (O Meças)





Alguém terá de lhe emprestar as palavras, porque as desconhece, mas se lhas tivessem ensinado seria incapaz de dizê-las, estonteado pelo remoinho, a vida a desfilar em ondas de desespero, ocasiões falhadas, sempre ele o que perde, a sofrer envergonhado, o que baixa os olhos e até de si próprio tem de fugir.

Quando pensa no que ficou para trás deveria usar o passado em vez do presente, mas pouco adianta que os verbos se conjuguem, o medo dá-lhe do tempo uma noção onde se funde o que foi e o que é, o que viu acontecer e as vezes que perdeu, horas sofre em que o garoto e o homem quase velho são um, igual neles a dor, enraivecidos ambos na mesma impotência.

Precisado de sossego, corre para ali, sem memória de quando lá foi a primeira vez, nem porquê, entregando-se à força que nele manda como bruxaria ou praga rogada.



J. RENTES DE CARVALHO
O Meças
(2006)

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> Uma crítica: Público (António Guerreiro)
   E 4-entrevistas-4: Observador / Sábado / Diário de Notícias / Expresso
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30.11.16

José Rentes de Carvalho (Embriaguez)





A volta à chave é mais rito do que necessidade, pois ninguém virá perturbar a solidão e o silêncio em que me quero.
Abro o armário, retiro os álbuns, folheio-os em busca de um rosto ou dum corpo que fale ao meu desejo, à loucura mansa do momento, e me dê asas para voar de fantasia em fantasia.
Horas a fio, esquecido do tempo.
Não é que encontre nesse passatempo, ao fim e ao cabo inocente, a satisfação dos sonhos que não consegui realizar, ou ele me compense das vivências por que ansiei.
O que procuro, mas raro encontro, é uma embriaguez, o arroubo de poder criar um mundo onde em simultâneo possa ser os personagens todos da história feliz que jamais viverei.


J. RENTES DE CARVALHO
A Amante Holandesa
(2003)

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24.11.16

José Rentes de Carvalho (Nada)





Que fiz eu para merecer este destino murcho, esta vida tépida, monótona, previsível?
Sem fogo de paixão, sem drama, os meus dias arrastam-se na expectativa medíocre de que talvez amanhã aconteça alguma coisa. 
Amanhã. 
Sempre amanhã.
E ao mesmo tempo agrilhoado à certeza de que nada acontecerá, porque me envolvo em seguranças, ponho travões, não dou passo que não seja calculado.


J. RENTES DE CARVALHO
A Amante Holandesa
(2003)

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21.11.16

José Rentes de Carvalho (Escutar)




Sentado num socalco, a cabeça a repousar no cajado, hábito de pastor, agora só de vez em quando entreabre os olhos, a certificar-se de que ainda o escuto.
E eu escuto-o, traduzindo para a minha própria versão as palavras simples com que ele exprime a sua história, ao mesmo tempo que embelezo, aumento, acrescento.
Finalmente, também cerro os olhos, não para melhor o seguir, mas para que apenas reste a voz incorpórea e eu sinta menos rancor pelo companheiro que, sem o saber nem suspeitar, pouco a pouco vai matando o meu sonho.


J. RENTES DE CARVALHO
A Amante Holandesa
(2003)

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18.11.16

José Rentes de Carvalho (Instantes)





Manhãs de geada, névoa, quietude.
O fumo a prolongar em colinas cinzentas o negro dos chupões, ou escapando em novelos azulados por entre as telhas dos casebres.
O cheiro acre de um estábulo.
A  súbita presença de rostos, cenas corriqueiras, como se à revivência desses instantes ínfimos se cole um significado impenetrável, um mistério.
O que causará a visão insólita do sorriso de um estranho, cruzado há séculos numa rua anónima, e desde então esquecido?
Porque ressurge, tão vívida e colorida, a imagem de cestos de uvas numa vinha?
A de uma sala onde só estive momentos?
Que mecanismo me faz ouvir de novo o ladrar dum cão numa noite de Inverno? 


J. RENTES DE CARVALHO
A Amante Holandesa
(2003)

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9.10.11

José Rentes de Carvalho (A paisagem)






A paisagem de campos e bosques que se via do meu quarto, o rio, as serranias, a nesga de mar ao pé de Santa Tecla, isso de facto seduziu-me.

Mas era serenidade demais, beleza demais, um equilíbrio tão perfeito que logo me faltou a desordem e o bulício a que me tinha habituado na infância, quando da minha janela olhava para o Porto.

Aqui tudo respirava paz.

Em vez da cacofonia citadina os ruídos eram distintos, cada galo esperava o seu momento de poder cantar, o ladrar dos cães espaçado como um diálogo.

Na estrada o trânsito era quase nulo.

Durante o dia inteiro passavam na linha uns quatro ou cinco comboios, mas o silvo das locomotivas e o matraquear das rodas nos carris ouvia-se de longe, ia crescendo gradualmente, chegava, diminuía, era apenas um traço sonoro a vibrar por instantes na quietude do ar.


- J. RENTES DE CARVALHO, La Coca, Quetzal (2011), p. 67.

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24.9.11

José Rentes de Carvalho (Os laços)






Eu julgara ter vindo com a intenção consciente de procurar os laços que unem o presente ao passado, de torná-los visíveis através de peripécias, de personagens, da visita de lugares.

Mas agora, vagueando pela praia – o Pardal tinha ido aos seus negócios e parecera-me mais acertado não estar presente – a visão romântica começara a desmoronar-se.

Com alguma preocupação dava-me conta de que os laços que julgava discernir, de facto existiam apenas na minha fantasia, no meu desejo de ordenar, colorir, de tornar num todo harmonioso o parcelamento caótico da realidade.

De juntar as estilhas e os cacos para com eles construir o meu relato e manter a ilusão de que a vida flui, quando ela na verdade é feita de retalhos e inquietações, de sobressaltos e cortes.


- J. RENTES DE CARVALHO, La Coca, Quetzal (2011), p. 74.

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9.9.11

José Rentes de Carvalho (Caminho pela cidade)






Caminho pela cidade com um sentimento de desconforto, pois sem ser nela totalmente um estranho, também lhe não pertenço.

Sou o passante que deambula pelo cenário da sua juventude e revê com outros olhos os lugares que a marcaram, despertando negrumes, surpreso ao dar-me conta de como foram profundas mas inúteis as dores de então, passageiras as alegrias, paralisantes aqueles sonhos em que as dimensões do mundo eram constantes e harmoniosas.

Terei de facto sido assim?

Melancólico, deixo que o passado desfile em cenas que não são de vida vivida, mas painéis desbotados num panorama de artifício.

Não me interessam as ruas, as gentes, as casas, as vibrações do dia soalheiro.

Vou ensimesmado, descobrindo que nem a experiência dos anos me ajudará a conciliar as vozes desencontradas que dentro de mim ora animam a agir, ora me censuram os actos, as palavras, os desejos.

Que me culpam por não ser capaz de duma vez para sempre sacudir os entraves da memória, me acusam de fraqueza por retornar aos lugares onde sofri com um impulso tão irreprimível como o que dizem que leva os assassinos a rever o lugar onde, ao matar, também de certo modo morrem.


- J. RENTES DE CARVALHO, La Coca, Quetzal (2011), p. 33.


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27.8.11

José Rentes de Carvalho (O Porto já não é)






Escuro, pitoresco, desleixado, o Porto já não é a metrópole que foi na minha infância.

As pontes e a estação, o palácio do bispo, a Sé, a Torre dos Clérigos, tudo isso se mantém, e vista da margem esquerda a paisagem da cidade continua esplêndida.

Mas nos rostos das pessoas há mais sombras que sorrisos, o ar de algumas ruas é de mau agouro.

O rio lá está, quase sem movimento, com pouca vida, só de longe a longe um ou outro naviozito se arrisca a passar por entre as línguas de areia que lhe assoreiam a foz.

Os rabelos envernizados que agora o navegam são falsificações da publicidade e na beira-rio lodosa de Gaia, que conheci cheia de bulício, a ferver de agitação, deitaram placas de cimento e fizeram esplanadas onde os turistas se sentam a beber cerveja, de costas para a cidade para melhor tomarem o sol.

Passo, olho, vou adiante e minto a mim próprio, dizendo-me que é absurdo carregar o peso morto do passado.


- J. RENTES DE CARVALHO, La Coca, Quetzal (2011), p. 16.

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10.8.11

José Rentes de Carvalho (Relâmpagos de memória)






Relâmpagos de memória.

Tão vivos como se os factos acabassem de acontecer.

Por vezes incómodos, feitos juízes, opondo-se aos arranjos que inconscientemente propomos para moldar as versões do passado.

Desagradáveis também, recusando sumir no fundo para onde os queremos empurrar.

Ou meigos como ternuras de amante, embelecendo a lembrança, colorindo e tornando duradouro o que foi cinzento, o que foi fugaz.

A memória que nos põe em palcos onde nunca estivemos, fazendo-nos ouvir o aplauso nunca recebido.

A memória, com seus sobressaltos e mistérios, as suas sombras, cheia de ziguezagues, reviravoltas, impasses.

Cheia também de armadilhas em que de boa vontade caímos, a tecer a interminável teia do que não foi mas podia ter sido, da ficção tornada real à força de sonhada.

A memória e o seu comparsa, o esquecimento.



- J. RENTES DE CARVALHO, La Coca, Quetzal (2011), p. 15.


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16.1.11

José Rentes de Carvalho (Os barcos da pesca)






Os barcos da pesca, tábuas frágeis puxadas a remo, apareciam um momento no vazio das ondas, depois na crista, ora a pique ou então de proa para cima como se fossem voar, bamboleando naquela contradança de vento e água.

Os homens que não remavam víamo-los em pé, num equilíbrio impossível, fazendo contrapeso.

Ou então agachados, presos ao rebordo, recebendo nas costas as pancadas do mar, às vezes pegando num remo a dois, a deitar a mão ao companheiro que fraquejava.

De través, às arrecuas ou de proa, ganhando metros, perdendo metros, os barcos iam-se aproximando da praia cheios de cautela, os olhos dos homens atentos à corrente.

Por fim, à força de braço, de jeito e orações, aproveitando uma onda mais mansa, deixavam-se levar por ela e encalhavam no areal.



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 162.

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5.1.11

José Rentes de Carvalho (O rio ao amanhecer)






Não eram muitas as vezes que eu podia ver o rio ao amanhecer, e por isso me deixava arrastar, ao que ela respondia puxando-me com safanões que magoavam o braço.

Pouco importava.

Não era só a vista, nem a proximidade de tudo o que eu só estava habituado a ver de longe.

Ao passar recebia em cheio os odores que só conhecia atenuados, ouvia ruídos que a distância agora não abafava, tinha a impressão de que se quisesse podia tocar o casco dos navios.

O cheiro inconfundível da estopa de calafate, o piche, o fedor dos óleos, o eflúvio acre da maresia, o odor forte de vinho derramado, mijo dos bois, madeira serrada de fresco, fruta podre, o fumo do carvão, o cheiro das tabernas fechadas.

O chape-chape da água a acompanhar o ruído dos nossos passos, chamamentos em língua estranha, o bater das horas repetido de torre para torre, toques de corneta militar, campainhas de bordo, o matraqueio dos cavalos e das carroças a ecoar na rua vazia, o pio das gaivotas, os pregões do alvorecer, os sinos, os primeiros gritos, o maravilhoso despertar do mundo.



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, pp. 183-4.


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15.12.10

José Rentes de Carvalho (E agora desandasse)






Nessa ocasião, alguém o tinha empurrado para fora da sacristia antes de o poder corrigir com um par de tabefes, e agora ali estava Sua Senhoria, de chapéu na mão, a pedir que lhe fizesse o favor de preparar os banhos do casório.

Ah! Mas a coisa não ia ser tão simples como o pateta julgava.

E ia pagar.

Dobrado, para aprender o que era respeito.

Quantos anos tens, ó tu?

Vais fazer vinte em Junho?

Dobrado também, por ser menor.

E sois primos carnais?

Redobrado, porque isso era questão para decidir em Roma e a dispensa tinha de vir com os selos do Santo Padre.

Havia urgência?

Era para casarem já no Janeiro?

Triplicava tudo.

Dentro de duas ou três semanas o sacristão lhes diria e tivesse a massaroca pronta, porque se os prazos caíssem teria de pagar tudo outra vez.

E agora desandasse.



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 97.

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30.11.10

José Rentes de Carvalho (A menina Alice, do vestiário)






A Alice sorriu surpreendida, mas explicou que éramos tantos a dar-lhe chocolates e rebuçados que também já tinha dito aos outros que dali em diante preferia dinheiro.

O meu gesto, contudo, não tinha sido em vão, porque além de me beijar nos lábios – a primeira vez – sentou-se na cadeira atrás da máquina de costura, facilitando os meus manejos ao diminuir a diferença das nossas alturas.

Depois retomou o crochet, enquanto os meus dedos lhe percorriam o corpo com a sofreguidão que dá o pressentimento das grandes descobertas.

A certa altura abanou a cabeça a proibir, noutra pediu baixinho que não lhe fizesse cócegas.

Repentinamente deixou cair as agulhas e apertou-me contra si, colando a sua boca à minha noutro beijo, esse tão longo que me deixou sem ar.



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 221.

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17.11.10

José Rentes de Carvalho (Ala que se faz tarde)






As mulheres baixaram os olhos a temer o que iria sair e porque não demorava a ser horas de ir para a cama, pegaram de novo na renda.

Como num prólogo, ou a dar-se coragem, o rapaz tossiu a raspar o gogo, escarrou para o lume, acariciou o cão que se lhe tinha deitado aos pés e, por fim, sem as encarar, gritou-lhes que dali em diante não contassem com ele para a lavoura.

Chamassem jeireiros, dessem as terras de meias ou deixassem-nas ao abandono, o que quisessem, ele é que não lhes voltava a tocar.

Nem nas bestas.

Nem no raio que partisse tudo.

A mãe e a prima podiam ir também, podiam ficar, como lhes desse na gana, ele é que não aguentava nem mais um dia; ficassem a saber que voltava para o Porto.

Ala que se faz tarde, nunca mais o apanhavam naquele estupor de buraco.




- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 94.

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10.11.10

José Rentes de Carvalho (Óleo de fígado de bacalhau)






A garrafa de óleo de fígado de bacalhau acendeu vívida a recordação e instintivamente afastei-me da mesa, mas nessa noite e daí em diante a minha resistência seria vã.

Unidos como nunca os tinha visto, meu pai sentou-se na cadeira e, segurando-me os braços atrás das costas, prendeu-me as pernas entre as suas para evitar que esperneasse; minha mãe puxou-me a cabeça para trás, apertou-me o nariz, meteu-me a colher entre os dentes e, lentamente, lentamente, deixou escorrer aquela peçonha.

Reviraram-se-me as entranhas, mas eles continuavam a segurar-me e de nada valeu o choro; aquilo era para meu bem, ia crescer e ficar um homenzarrão.



- J. RENTES DE CARVALHO, Ernestina, Ed. Escritor, Lx. 2001, p. 145.

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