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13.9.17

Alberto Pimenta (A lixeira cultural)





A LIXEIRA CULTURAL



Contribuo
com o que posso
para
a lixeira cultural

não é muito. eu sei
outros dão muito mais
eu não passo de um amador
enfim

o importante
é cada um dar o seu melhor
como dizem os irresponsáveis.


Alberto Pimenta

.


28.6.16

Alberto Pimenta (Nada falta)





NADA FALTA



Ao cair da tarde,
passa lá fora
a melancólica,
antiquíssima flauta
do amolador.

Vai-se afastando
e deixando atrás de si,
como uma cascata,
a toada
magoada e urgente
da noite que vem
e promete ser
varrida de água
e de vento,
fatal para vagabundos
e para espíritos aflitos
ou afligidos.

Mas
entre os múltiplos golpes
executados por aí
com um cutelo de dois gumes
de fabrico euro-alemão,
esta tormenta,
no ritmo da flauta
anuncia sobretudo a queixa
de mais um trabalho
em liberdade e em gosto
prestes a morrer.

Parece
que mais ninguém a ouve,
e,
pelo silêncio que fica,
parece até
que já não há ninguém vivo na rua.
Nem os cães...
Estarão
a ver
as inundações
na América...

- Os cães também?

Claro, nem ladram.

A televisão
inunda-lhes a casa lá longe
e eles gostam.
Também lhes afia as facas
que trazem na cabeça
e todos gostam.
Não precisam de amolador.
Não precisam de mais nada.


Alberto Pimenta

[Domingos Mota]

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20.11.15

Alberto Pimenta (Elogio do kitch)





ELOGIO DO KITCH



nada é diferente do que é:
nem as coisas
nem as palavras.


tudo é como é: tanto
as coisas como
as palavras.


mesmo
quando se trata de
coisas
que encobrem as palavras
ou de
palavras
que encobrem as coisas.


porque
as coisas
são como são
e exactamente o mesmo
sucede com as palavras.


isto
não esquecendo
que as palavras
por assim dizer
são o esmegma das coisas
e as coisas
por assim dizer
o eclegma das palavras.


e é tudo,
não é verdade?


Alberto Pimenta

[Canal de poesia]


.

3.8.15

Alberto Pimenta (A cadência dos bichinhos de conta)





A CADÊNCIA DOS BICHINHOS DE CONTA



os bichinhos do ouvido
fazem de conta que escutam
o que os bichinhos de conta
fazem de conta que contam

assim tudo corre bem
para uns e para outros
nem uns dizem que são mudos
nem os outros que são moucos


ALBERTO PIMENTA
Bestiário Lusitano
2.ª edição (2014)


[Hospedaria Camões]

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6.9.13

Alberto Pimenta (Dísticos)





DÍSTICOS


dizes:
eu é que sei quais são os interesses de todos.
e não sabes
que todos sabem também quais são os teus interesses?

dizes:
é necessário construir o futuro.
agora compreendo porque afundas o presente:
para lançares os alicerces.

dizes:
eu quero a paz.
sim, acredito.
já seria altura de gozares
o que ganhaste na guerra.


ALBERTO PIMENTA
Corpos estranhos
(1973)

.

16.12.10

Alberto Pimenta (Civilidade)






CIVILIDADE




não tussa madame
reprima a tosse


não espirre madame
reprima o espirro


não soluce madame
reprima o soluço


não cante madame
reprima o canto


não arrote madame
reprima o arroto


não cague madame
reprima a merda


e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?


ok, monsieur.



ALBERTO PIMENTA
Ascensão de Dez Gostos à Boca
(1977)



[Tulisses]


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14.11.10

Alberto Pimenta (Porco trágico-I)






PORCO TRÁGICO- I




conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.


a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito de si
e pouco ou nada dos outros.


o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.



Alberto Pimenta



[Tulisses]


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15.3.10

Alberto Pimenta (Obras de caridade)






OBRAS DE CARIDADE



vigiar os polícias
ensinar os professores
confessar os padres
burlar os juristas
abater os talhantes
sangrar os médicos
condenar os juízes
difamar os críticos
morder os cães
comprar as batatas aos lavradores



Alberto Pimenta



[Weblog do cão]

.

1.9.08

Alberto Pimenta (Balada do f.p.-2)








BALADA DO FILHO DA PUTA – 2




II



o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.


o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.


por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.


todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.


é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.





Alberto Pimenta




(Balada do f.p.-1)

.


.


16.7.08

Alberto Pimenta (Balada do f.p.-1)







BALADA DO FILHO DA PUTA - 1




I


o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.


no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.


de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.


o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.


no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.


todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.


é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.



Alberto Pimenta




4.4.08

Alberto Pimenta (Sugestão)





SUGESTÃO




já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
.
.
já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
.
.
já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
.
.
já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
.
.
já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
.
.
já tentaste praticar o mal
fazendo tudo?
.
.
já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
.
.
e o contrário, já tentaste?
já?
.
.
seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.




Alberto Pimenta
.
.

8.2.08

Alberto Pimenta (Fastos III)









FASTOS III





artur hipólito morreu com 62 an
os, 20 anos após ter feito 42, mas
na altura quem diria?


heitor fragoso morreu atropelado.
foi levado para o hospital, mas es
queceram-se duma parte do corpo
no local do acidente.


manuel testa morreu sem se ter c
onseguido habituar a este modo
de mal-estar no mundo.


arnaldo rodrigues caiu a um bur
aco da canalização e nunca mais
foi visto.


jeremias cabral pôs termo à exist
ência por motivos desconhecidos.


zeca gomes morreu em defesa da
pátria mas a pensar noutra coisa.


antónio de oliveira morreu igual
a si mesmo: triste sinal dos te
mpos!


bernardo leite pôs-se a pensar na
morte e não conseguiu voltar a
trás.


ivo gouveia tinha uma agência f
unerária e escolheu para si um
caixão representativo.


guilherme silva fechou-se no sót
ão, para morrer num lugar eleva
do.


luís dimas respirava saúde, agora
respira um hálito de eternidade.


antónio garcia, o coveiro, teve u
ma síncope e caiu dentro da cov
a que estava a abrir.


bento nogueira engasgou-se com
um pedaço de carne e desapare
ceu do nosso convívio.


paiva de jesus enforcou-se.


joão baptista viu o cunhado lev
antar-se do caixão e teve uma sí
ncope.


lourenço pinheiro estava a ver a
trovoada e um relâmpago entrou
lhe por um olho e saiu-lhe pelo
outro.


jorge velez de castro finou-se
após uma longa vida de sacrifí
cios, toda dedicada ao bem-comu
m. e foi assim: depois de ter inge
rido o seu sumo de laranja, foi c
onduzido para a cadeira de rep
ouso pelo enfermeiro de confian
ça. nela se conservou, de boca en
treaberta e olhos fechados, até
às onze horas. às onze horas, o e
nfermeiro de confiança aproxim
ou-se com a intenção de o condu
zir ao banho. pondo delicadamen
te a mão nas costas da cadeira,
disse: são horas do banho, senhor
director. como este não desse si
nal de ter ouvido, o enfermeiro
de confiança, com a costumada jo
vialidade, debruçou-se e repetiu:
são horas do banho, senhor direc
tor. posto isto, empurrou a cadei
ra até ao balneário, passou um br
aço pelos rins outro por baixo d
os joelhos do director, e assim o
levou para a água, só então se da
ndo conta de que ele já não vivia.


zé maria, o peidolas, foi expulso
da vida pela autoridade compet
ente.


joão gaspar foi um nobre e val
oroso homem que morreu heroi
camente no campo da honra. p
az à sua alma.


raul santos deitou-se um dia e p
or mais que o sacudissem nunca
mais se levantou.


alfredo penha caiu tão desastrada
mente da cama que nem é possív
el dar pormenores da sua morte.


joaquim perestrelo morreu no me
io da missa, qual quê! ainda a m
issa não ia a metade!


sousa dias morreu de pé, mas en
terraram-no deitado, como toda a
gente.




Alberto Pimenta
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Fontes: Wikipedia / DGLB (bio+biblio) / P.Vercial (análise Carlos Nogueira - 16pp.)

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