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14.3.25

Francisco Brines (Os sinónimos)




LOS SINÓNIMOS 

 

Más allá de la luz está la sombra,
y detrás de la sombra no habrá luz
ni sombra. Ni sonidos, ni silencio.
Llámale eternidad, o Dios, o infierno
O no le llames nada.
Como si nada hubiera sucedido.
 

Francisco Brines


Para além da luz a sombra,
e por trás da sombra nem luz
nem sombra. Nem sons, nem silêncio.
Chama-lhe eternidade, ou Deus, ou inferno.
Ou não chames nada.
Como se nada tivesse acontecido.
 

(Trad. A.M.)

 .

20.7.22

Francisco Brines (Nascimento)



NACIMIENTO

 

Hay viento, y el silencio
Lo acuna:
Es algo que quiere ser nacido.
 

Pues no puedes dormir 
Abandona la cama.
Asómate al cristal:
La habitación y el mundo a oscuras.
 
Arriba, en el mural del cielo ,
Se desborda el osario
Y nada allá , ni aquí, palpita.
 
El Niño ha sollozado.

 

Francisco Brines

[Revista Turia]

 

 

Há vento, e o silêncio 
embala-o:
Algo está para nascer.

Já que não dormes, 
ergue-te da cama.
Vai à janela, 
a casa e o mundo, 
tudo às escuras.

Acima, no mural do céu,
transborda o ossário
e nada palpita, lá ou aqui.

O Menino soluçou.


(Trad. A.M.)

.

22.7.21

Francisco Brines (Interior da paisagem)




INTERIOR DEL PAISAJE

 

Cómo decir este momento rosa de la tarde cayendo
detrás del alto monte que oscurece?
¿Y para qué decirlo? ¿Para salvar mis ojos?
Contempla en el jardín las flores de este otoño,
las tapias recubiertas de hiedras y jazmines,
y el paso misterioso de los pájaros 
que vuelan de repente del lugar de una sombra,
o que buscan las ramas
                                             y se mecen
en densos y caídos surtidores
de rojas buganvilias.
No salvas nada tú, ni ellos te salvan.
(Cae la tarde hoy con tan grande sosiego,
es el tiempo tan íntimo
con el canto en su centro del pájaro que escuchas...)  

La luz de allá, desde tu solitaria habitación, es otra
          habitación que aloja al mundo en sombras
y su Dueño, el que ignoro, ha cerrado la puerta
y ha entornado el balcón,
y ya todo el jardín, y el campo que lo cerca, es un rincón
          espeso,
y han callado los pájaros. 

Mira cómo se encienden, una aquí y otra allá, las velas en
           la noche.
Nunca creí que el último naufragio fuese un lugar tan
          cierto, y tan a tientas.

Francisco Brines

 

  

Como dizer este momento rosado da tarde a cair
por trás do monte alto que escurece?
E para quê dizê-lo? Para salvar os olhos?
Contempla no jardim as flores deste outono,
os muros cobertos de hera e jasmins,
e o voo misterioso dos pássaros 
que aparecem de repente do lugar de uma sombra,
ou buscam os ramos
e ficam a abanar-se nos braços
densos e caídos
de buganvílias vermelhas.
Não salvas nada, tu, nem eles te salvam.
(Cai hoje a tarde com grande placitude,
é o tempo tão íntimo
envolvendo o canto do pássaro que escutas…)

A luz além, vista do teu quarto solitário,
é outro
quarto que aloja o mundo das sombras
e o seu dono, que eu não conheço, fechou a porta
e cerrou a varanda,
e todo o jardim, assim como o campo em volta,
é agora um recanto espesso
e calaram-se os pássaros.

Olha as velas, uma aqui, outra além,
como se acendem
na noite.
Nunca pensei que o último naufrágio fosse um lugar tão
real, e tão incerto.


(Trad. A.M.)

.

28.3.14

Francisco Brines (Qual é a glória da vida?)





¿ Cuál es la gloria de la vida, ahora
que no hay gloria ninguna,
sino la empobrecida realidad ?
¿ Acaso conocer que el desengaño
no te ha arrancado ese deseo hondo
de vivir más ?

La gloria de la vida fue creer
que existía lo eterno;
o, acaso, fue gloria de la vida
aquel poder sencillo
de crear, con el claro pensamiento,
la fiel eternidad.
La gloria de la vida, y su fracaso.

Francisco Brines



Qual é a glória da vida, agora
que não há glória nenhuma,
só a pobre realidade?
Saber talvez que o desengano
não te arrancou o desejo profundo
de viver mais?

A glória da vida foi crer
que o eterno existia;
ou, porventura, aquele simples poder
de criar, em pensamento,
a fiel eternidade.
A glória da vida - e o seu fracasso.

(Trad. A.M.)

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15.2.13

Francisco Brines (Alocução pagã)





ALOCUCIÓN PAGANA


¿Es que, acaso, estimáis que por creer
en la inmortalidad,
os tendrá que ser dada?
Es obra de la fe, del egoísmo
o la desolación.
Y si existe, no importa no haber creído en ella:
respuestas ignorantes son todas las humanas
si a la muerte interroga.

Seguid con vuestros ritos fastuosos, ofrendas a los dioses,
o grandes monumentos funerarios,
las cálidas plegarias, vuestra esperanza ciega.
O aceptad el vacío que vendrá,
en donde ni siquiera soplará un viento estéril.
Lo que habrá de venir será de todos,
pues no hay merecimiento en el nacer
y nada justifica nuestra muerte.

Francisco Brines

[O melhor amigo]



Pensais, por acaso, que por crer
na imortalidade,
ela vos será dada?
Ela é obra da fé, do egoísmo,
da desolação.
Se existe, não importa que falte a crença:
respostas ignorantes são as humanas
se a morte interroga.

Andai lá com vossos ritos, oferendas aos deuses,
ou grandes monumentos funerários,
inflamadas preces, cega esperança.
Ou então aceitai o vazio que virá,
onde não há-de soprar sequer um vento estéril.
Aquilo que há-de vir será de todos,
pois não há mérito no nascimento,
nem nada que justifique a morte.


(Trad. A.M.)

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24.7.12

Francisco Brines (Copo partido)





VASO QUEBRADO




Hay veces en que el alma
se quiebra como un vaso,
y antes que se rompa
y muera (porque las cosas
se mueren también),
llénalo de agua
y bebe,
quiero decir que dejes
las palabras gastadas, bien lavadas,
en el fondo quebrado
de tu alma
y, que si pueden, canten.


Francisco Brines






Às vezes a alma
parte-se como um copo,
e antes de partir-se
e morrer (porque as coisas
também morrem),
enche-o de água
e bebe,
quero dizer, deixa
as palavras gastas, bem lavadas,
no fundo partido
da tua alma
e, se puderem, que cantem.

(Trad. A.M.)

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14.6.10

Francisco Brines (Causa do amor)






CAUSA DEL AMOR




Cuando me han preguntado la causa de mi amor
yo nunca he respondido: Ya conocéis su gran belleza.
(Y aún es posible que existan rostros más hermosos).
Ni tampoco he descrito las cualidades ciertas de su espíritu
que siempre me mostraba en sus costumbres,
o en la disposición para el silencio o la sonrisa
según lo demandara mi secreto.
Eran cosas del alma, y nada dije de ella.
(Y aún debiera añadir que he conocido almas superiores).


La verdad de mi amor ahora la sé:
vencía su presencia la imperfección del hombre,
pues es atroz pensar
que no se corresponden en nosotros los cuerpos con las almas,
y así ciegan los cuerpos la gracia del espíritu,
su claridad, la dolorida flor de la experiencia,
la bondad misma.
Importantes sucesos que nunca descubrimos,
o descubrimos tarde.
Mienten los cuerpos, otras veces, un airoso calor,
movida luz, honda frescura;
y el daño nos descubre su seca falsedad.


La verdad de mi amor sabedla ahora:
la materia y el soplo se unieron en su vida
como la luz que posa en el espejo
(era pequeña luz, espejo diminuto);
era azarosa creación perfecta.
Un ser en orden crecía junto a mí,
y mi desorden serenaba.
Amé su limitada perfección.



Francisco Brines






Quando me perguntam a causa do meu amor
eu nunca respondo: Sua grande beleza, já a conheceis.
(E depois é possível que haja rostos mais lindos).
Nem tão pouco descrevo as qualidades certas do seu espírito,
que punha à mostra com seus gestos
ou na disposição ao silêncio ou ao sorriso
conforme o pedido do meu segredo.
Eram coisas da alma e dela nada disse.
(Aliás, devia acrescentar que conheci almas superiores).


A verdade do meu amor sei-a agora:
sua presença vencia a humana imperfeição,
pois é terrível pensar
que não dizem em nós os corpos com as almas,
assim cegando os corpos a graça do espírito,
sua claridade, a dorida flor da experiência,
a própria bondade.
Coisas importantes que nunca descobrimos
ou descobrimos tarde.
Mentem os corpos, outras vezes, um calor airoso,
movida luz, frescura profunda;
e o mal mostra-nos sua seca falsidade.


A verdade do meu amor agora a sabeis:
a matéria e o sopro uniram-se em sua vida
tal como a luz que pousa no espelho
(pequena luz, espelho diminuto);
era desgraçada criação perfeita.
Um ser em ordem crescia a meu lado
e serenava minha desordem.
Amei a sua limitada perfeição.


(Trad. A.M.)

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5.3.10

Francisco Brines (Os verões)






OS VERÕES




Foram longos e ardentes os Verões!
Estávamos nus junto ao mar
e ainda mais nu o mar. Com os olhos,
e ágeis de corpo, tomávamos
posse do mundo a mais ditosa.


Soavam-nos as vozes acesas de lua
e era a vida cálida e violenta,
ingratos ao sonho transcorríamos.
O ritmo escuro das ondas
abrasava-nos eternos e éramos apenas tempo.
Apagavam-se os astros de manhã
e à luz fria que voltava
iniciava-se o amor furioso e delicado.


Hoje parece mentira que fôssemos felizes
ao modo imerecido dos deuses.
Que estranha e breve foi a juventude!



FRANCISCO BRINES
El Otoño de las Rosas
(1987)


[Cervantes]



(Trad. A.M.)

.

20.12.09

Francisco Brines (Os prazeres inferiores)







OS PRAZERES INFERIORES



Não desdenhes as paixões vulgares.
Tens os anos precisos para saber
que elas correspondem exactamente à vida.
Não reduzas a sua acção,
pois se as subtrais
do breve tempo em que consistes
é ainda mais falho o existir.
Descobre sua verdade por trás da aparência
e assim não haverá falsidade,
nem poderás mentir que foi razão de vida
o que foi apenas trânsito.
Mas pouparam-te elas o fiel aborrecimento das horas.


Exigem lucidez, não em sua experiência,
mas em seu escasso ser;
valora-as exactas,
para o que tens de saber o que a vida vale
e essa sabedoria há muito que é tua.
Se te enganares a medi-las,
fá-lo sempre por defeito.
Nunca melhores o que vale pouco.
E que não tenham nome, nem tempo possuído,
e fiquem confundidas em sua promiscuidade.
Sabes que a memória é fraca e te ajuda.
Todas são uma só,
como uma só é a vida.
E as outras paixões, dignas de um nome
e do refúgio do tempo,
mantém-nas longe delas,
que te lembrem sempre o que a vida não é.
E agradece à vida esses erros.


FRANCISCO BRINES
Insistencias en Luzbel


[Cervantes]


(Trad. A.M.)

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20.5.08

Francisco Brines (Aquele verão)






AQUEL VERANO DE MI JUVENTUD



Y qué es lo que quedó de aquel viejo verano
en las costas de Grecia?
¿Qué resta en mí del único verano de mi vida?
Si pudiera elegir de todo lo vivido
algún lugar, y el tiempo que lo ata,
su milagrosa compañía me arrastra allí,
en donde ser feliz era la natural razón de estar con vida.

Perdura la experiencia, como un cuarto cerrado de la infancia;
no queda ya el recuerdo de días sucesivos
en esta sucesión mediocre de los años.
Hoy vivo esta carencia,
y apuro del engaño algún rescate
que me permita aún mirar el mundo
con amor necesario;
y así saberme digno del sueño de la vida.

De cuanto fue ventura, de aquel sitio de dicha,
saqueo avaramente
siempre una misma imagen:
sus cabellos movidos por el aire,
y la mirada fija dentro del mar.
Tan sólo ese momento indiferente.
Sellada en él, la vida.

Francisco Brines



E que é que ficou daquele verão antigo
nas costas da Grécia?
Que resta em mim do único verão da minha vida?
Se eu pudesse escolher de quanto vivi
algum lugar e o tempo que o prende,
a sua milagrosa companhia é para ali que me arrasta,
onde ser feliz era a natural razão de estar com vida.

Perdura a experiência, como um quarto fechado da infância;
não resta já a lembrança de dias sucessivos
nesta sucessão medíocre dos anos.
Hoje vivo esta carência,
e apuro do engano algum resgate
que me permita olhar ainda o mundo
com amor necessário;
e assim saber-me digno do sonho da vida.

De quanto foi ventura, desse lugar de fortuna,
saco avaramente
sempre uma mesma imagem:
seus cabelos movidos pelo vento
e o olhar fixo dentro do mar.
Apenas esse momento indiferente.
Selada nele, a vida.


(Trad. A.M.)



Fontes: A-media-voz (40p) / Arte-poetica (10p) / Cervantes (bio+8p)