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11.1.16

Cassiano Ricardo (A rua)





A RUA



Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De continuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.


Cassiano Ricardo

.

14.9.15

Cassiano Ricardo (Ficaram-me as penas)





FICARAM-ME AS PENAS



O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.
Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glorias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.


Cassiano Ricardo

.

28.6.15

Cassiano Ricardo (Deixa estar, jacaré)





DEIXA ESTAR, JACARÉ



Jacaré da lagoa
você nunca esteve triste.
Você tem tudo quanto quer.
Tem água boa, é dono da lagoa.
Vai ao cinema ver a lua tomar banho
quando a lua parece, de tão nua,
um corpo branco de mulher.

Você cresceu e as lagartixas e os lagartos
tão verdolengos não cresceram...

Viraram bichos de jardim.

Só você, jacaré,
foi que cresceu assim!

Mas olhe, escute uma coisa:
quando a felicidade é tão grande
que chega a passar da conta,
a gente deve desconfiar.

Deixa estar, jacaré...
a lagoa há-de secar.


Cassiano Ricardo

[O melhor amigo]

.

25.9.14

Cassiano Ricardo (Balada para minha mãe)





BALADA PARA MINHA MÃE



À hora difusa, decomposta,
em que as perguntas terrenas
ficam no ar, sem resposta;
em que as coisas maiores do mundo
nos parecem pequenas;
em que se arrancam as palavras
ao nosso corpo moribundo
como se arrancam pobres penas
à asa de um pássaro ferido;
à hora crucial dos vãos confrontos
e das inúteis cantilenas,
não se dirá de mim, ao certo,
que houve a mais triste das cenas;
nem se dirá que minhas mãos
semeando o mal, como semearam,
terão a cor das açucenas
se para o bem foram pequenas. . .
À hora sem brilho, sem resposta,
minhas mágoas serão serenas;
pois há um nome que foi feito
pra ser pronunciado por último
por ser uma sílaba apenas. . .

Cassiano Ricardo

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10.5.14

Cassiano Ricardo (Testamento)





TESTAMENTO



Deixo os meus olhos ao cego
que mora nesta rua.
Deixo a minha esperança
ao primeiro suicida.
Deixo à polícia o meu rasto,
a Deus o meu último eco.
Deixo o meu fogo-fátuo
ao mais triste viandante
que se perder sem lanterna
numa noite de chuva.
Deixo o meu suor ao fisco
que me cobriu de impostos;
e a tíbia da perna esquerda
a um tocador de flauta
para, com o seu chilreio,
encantar a mulher e a cobra.
Às coisas belas do mundo
deixo o olhar cerúleo e brando
com que, nas fotografias,
as estarei, sempre, olhando...
Aos noturnos assistentes
de última hora – aos que ficam,
o sorriso interior e sábio
que nunca me veio ao lábio.


Cassiano Ricardo


[O melhor amigo]

.

10.4.14

Cassiano Ricardo (Poética)





POÉTICA



1

Que é a Poesia?

uma ilha
cercada
de palavras
por todos
os lados.

2

Que é o Poeta?

um homem
que trabalha o poema
com o suor do seu rosto.
Um homem
que tem fome
como qualquer outro
homem.


Cassiano Ricardo



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