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4.5.25

Sebastião da Gama (Pequeno poema)




PEQUENO POEMA

 

Quando eu nasci, 
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama

 .

29.3.25

José Agostinho Baptista (Mãe)




MÃE

 

Eu sou aquela que os vê.
E caminho pelos seus caminhos e sou a
fogueira distante.
O tempo não me apaga.
Tenho os pontos cardeais e sou a bússola nas
suas mãos,
quando eles vão sobre as águas.
Sou os mapas, a constelação, o cruzeiro do sul,
o arado, o cão,
aquela que os guarda.
Sou o regaço, as belas plumas do meu regaço,
a imensa luz de amor que cai sobre a sua
penumbra,
sobre a sua loucura.
Sou a mãe da sua vida, da sua morte.
E vou com eles, espalhando as rosas tristes,
e os meus cabelos espalham sobre os seus
cabelos as raízes brancas.
Sou aquela que escreve quando eles dormem,
sou as palavras através do sono.
E adormeço com eles,
fechando as últimas portas.
 

José Agostinho Baptista

[Antologia improvável]

 .

22.2.25

Georgina Ramírez (Os vícios de minha mãe)

 



LOS VICIOS DE MI MADRE

 

Mi madre lleva una sonrisa
cosida en la boca
la cuelga en el armario
cuando todos duermen
la lava en silencio
con todo el llanto que esconde
debajo de la almohada
y muerde con sus dientes falsos
cada fantasma que pare la noche
Siempre es de día en mi casa
porque mi madre
se traga toda la oscuridad
para arrancarnos el dolor
y enterrarlo debajo de su falda


Georgina Ramírez

 


Minha mãe tem um sorriso
cosido nos lábios
pendura-o no armário
quando todos dormem
lava-o em silêncio
com as lágrimas que esconde
por baixo da almofada
e morde com os dentes falsos
os fantasmas paridos pela noite
É sempre de dia em minha casa
porque minha mãe
come o escuro todo
para nos arrancar a dor
e a enterrar por baixo da saia


(Trad. A.M.)

.

20.2.24

Pier Paolo Pasolini (Súplica à mãe)




SUPPLICA A MIA MADRE 



È difficile dire con parole di figlio
ciò a cui nel cuore ben poco assomiglio.

Tu sei la sola al mondo che sa, del mio cuore,
ciò che è stato sempre, prima d’ogni altro amore.

Per questo devo dirti ciò ch’è orrendo conoscere:
è dentro la tua grazia che nasce la mia angoscia.

Sei insostituibile. Per questo è dannata
alla solitudine la vita che mi hai data.

E non voglio esser solo. Ho un’infinita fame
d’amore, dell’amore di corpi senza anima.

Perché l’anima è in te, sei tu, ma tu
sei mia madre e il tuo amore è la mia schiavitù:

ho passato l’infanzia schiavo di questo senso
alto, irrimediabile, di un impegno immenso.

Era l’unico modo per sentire la vita,
l’unica tinta, l’unica forma: ora è finita.

Sopravviviamo: ed è la confusione
di una vita rinata fuori dalla ragione.

Ti supplico, ah, ti supplico: non voler morire.
Sono qui, solo, con te, in un futuro aprile…

Pier Paolo Pasolini




É difícil dizer isto, com palavras de filho,
a quem lá no fundo do peito bem pouco me pareço.

Tu és a única pessoa que sabe, do meu coração,
o que ele foi sempre, antes de qualquer outro amor.

Por isso devo dizer-te isto que é horrível de saber:
que é na tua graça que nasce a minha angústia.

Ninguém te pode substituir, por isso a vida que me deste
está condenada à solidão.

E eu não quero estar só, tenho fome de amor,
do amor de corpos sem alma.

Porque a alma em ti está, és tu, mas tu és minha mãe
e eu sou escravo do teu amor:

escravo desde a infância, deste sentido alto,
irremediável, de um empenho imenso.

Era o único modo para sentir a vida,
a única tinta, a única forma: agora, acabada.

Sobrevivemos, na confusão de uma vida
renascida fora da razão.

Suplico-te, ah, suplico-te: não queiras morrer.
Eu estou aqui, sozinho, contigo, num Abril futuro…


(Trad. A.M.)

.

13.11.23

Osvaldo Picardo (Celebração das mãos ásperas)




CELEBRACIÓN DE LAS MANOS ÁSPERAS


Tus manos
las que me hacen pensar
en las hojas de la higuera,
en la lengua minuciosa de un gato.
La aspereza no la suavidad de lo pulido.
Nada es tan real ni tan literario 
en la memoria primera, madre.
 

Osvaldo Picardo

 

Mãos tuas,
as que me fazem pensar
nas folhas de figueira,
na língua minuciosa de um gato.
A aspereza, não o suave do polido.
Nada tão real, nem tão literário
na memória primeira, minha mãe.

(Trad. A.M.)

 

>>  Marcelo Leites (15p) / SP-Review (6p) / Circulo de poesia (5p) / Wikipedia /

 .

17.6.23

David Mayor (Bairro)




BARRIO

 

De la mano de mi madre
- con ese andar hasta el fin del mundo.

Memoria de calles sin asfaltar.
Tebeos en blanco y negro.
El ruido de los trenes de fondo llegando al Portillo.

Mi madre y todo su amor.
La vida en las manos
cuando Zaragoza era un barrio de mi barrio
y cada día una parada de autobús enseñaba
a estar solo y mirar
el espectáculo siempre formidable de lo que pasa a tu lado:
carteras a la espalda y perros lobo,
árboles recién plantados y el olor
del gasoil, niños con jerséis de cuello
vuelto y adultos vestidos como gigantes.

Una aurora que llegaba en los ojos de los míos,
en el tiempo que por entonces empezaba.
Todas las ventanas abiertas
para que entrara luz.


David Mayor

 


Pela mão de minha mãe
- com aquele andar até ao fim do mundo.

Lembrança de ruas de terra batida,
bandas desenhadas a preto e branco,
o ruído dos comboios a chegar a Portillo.

Minha mãe com todo o seu amor.
A vida nas mãos
quando Saragoça era um bairro do meu bairro
e cada dia uma paragem de autocarro ensinava
a estar sozinho e a olhar para
o espectáculo sempre novo daquilo que acontece a teu lado:
carteiras a tiracolo e cães-lobo,
árvores plantadas há pouco e o cheiro
do gasóleo, crianças com camisolas de gola alta
e adultos vestidos como gigantes.

Uma aurora que se anunciava nos olhos dos meus
no tempo que então começava.
As janelas todas abertas
para entrar a luz.


(Trad. A.M.)

.

7.3.23

Domingos da Mota (In memoriam)




IN MEMORIAM

                        (à minha Mãe)

 

Desaba o sol, o silêncio,
a dor no coração da terra
comovida; na levada

do tempo, no rigor da noite
para sempre desmedida.
Desaba a luz, o sentido - a vida.

 

Domingos da Mota

 .

25.10.22

Eugénio de Andrade (Elas são as mães)




Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam
que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.

 

Eugénio de Andrade

[Escritas]

.

4.7.21

Armando Silva Carvalho (Varanda de Pilatos)




VARANDA DE PILATOS

 

Não há tempo. Há o espaço. O sol e as nossas voltas.
Os bocejos da lua, o clã dos astros.
Os buracos negros.
Ó mãe! Para onde foram os seres vivos de ainda
há pouco em todo o seu esplendor?
Mortos como tu, a natureza recebe-os.
A Terra, essa criança atroz, destrói os seus brinquedos
numa rotina mecânica.
Quantas noites me faltam? Quantos beijos no escuro?
Quanta luz me cabe ainda nas pupilas?
Os anos não me matam, não me ferem os meses,
as horas não me guilhotinam.
As células vão ardendo nos seus mapas
de nervos, o sangue demora sempre mais um pouco
a chegar ao seu destino orgânico.
Devagar, devagar, a cabeça amolece.
Devagar no colo do sono.
Ó mãe. Um ninho. Uma cama macia no teu ventre.
Uma exposição de sinais. Uma geometria
que me liga ao saber acumulado.


Armando Silva Carvalho

 .


26.12.20

Herberto Hélder (Fonte-I)





FONTE - I


Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.


Herberto Hélder

.

8.8.20

Fabián Casas (Depois de longa viagem)





DESPUÉS DE LARGO VIAJE



Me siento en el balcón a mirar la noche.
Mi madre me decía que no valía la pena
estar abatido.
Movete, hacé algo, me gritaba.
Pero yo nunca fui muy dotado para ser feliz.
Mi madre y yo éramos diferentes
y jamás llegamos a comprendernos.
Sin embargo, hay algo que quisiera contar:
a veces, cuando la extraño mucho,
abro el ropero donde están sus vestidos
y como si llegara a un lugar
después de largo viaje
me meto adentro.
Parece absurdo: pero a oscuras y con ese olor
tengo la certeza de que nada nos separa.

Fabián Casas




Sento-me à varanda a contemplar a noite.
Minha mãe dizia que não me valia a pena
estar abatido,
mexe-te, gritava, faz alguma coisa.
Mas eu nunca tive muita queda para ser feliz,
minha mãe e eu éramos diferentes
e jamais conseguimos entender-nos.
Porém, há algo que queria contar aqui,
às vezes, quando tenho muitas saudades,
abro o roupeiro dos vestidos dela
e meto-me lá dentro,
como se chegasse a um lugar
após uma longa viagem.
Parece absurdo, mas no escuro e com aquele cheiro
estou certo de que nada nos separa.

(Trad. A.M.)

.

7.3.20

María Teresa Andruetto (Visita)





VISITA



Hoy vino mi madre a visitarme
y caminamos las dos por estas calles.
Hablamos de mi hermano,
de los hijos, de las chicas del Sur,
de mi cuñado. Otra vez yo critique
al gobierno y ella dijo otra vez
"¡Es un país tan grande!". No quiere
que me queje: "¡Este país generoso
recibió a tu padre!" y rodamos las dos
hacia una zona de tristeza, en silencio,
hasta que se detiene y dice: "Ayer
hice dulce de duraznos" y yo digo
que hablaron de mi libro
en el diario.

María Teresa Andruetto 




Minha mãe veio hoje visitar-me
e andámos as duas pelas ruas.
Falámos do meu irmão,
dos filhos dele, das moças do sul,
do meu cunhado. Mais uma vez
eu critiquei o governo, e ela disse
mais uma vez: ‘É um país tão grande!’
Não quer que eu me queixe: ‘Este país generoso
acolheu o teu pai!’ e girámos ambas
para uma zona de tristeza, em silêncio,
até que ela para e diz: ‘Ontem
fiz doce de ananás’ e eu digo
que no jornal
falaram do meu livro.

(Trad. A.M.)

.

8.7.19

Pedro Sevilla (O tempo)





EL TIEMPO



Era en el alto espejo del tocador aquel.

Mi madre, jovencísima, adolescente casi,
con los hombros desnudos,
se retoca el peinado
y a través del cristal me mira y me sonríe.

Por el postigo abierto de la ventana azul,
mariposa amarilla,
entra un rayo de sol que se posa en su cuello,
tiembla un poco y se va
dejando imperceptibles quemaduras.

Luego llegó el incendio de los años.


Pedro Sevilla

[La mirada del lobo]




Era no espelho alto do toucador.

Minha mãe, muito jovem, quase adolescente,
os ombros despidos,
retoca o penteado
e pelo vidro olha para mim e sorri-me.

Pelo postigo aberto da janela azul,
borboleta amarela,
entra um raio de sol que lhe pousa no pescoço,
estremece um pouco e vai-se,
deixando queimaduras imperceptíveis.

Depois veio o incêndio dos anos.

(Trad. A.M.)

.

2.7.19

Mariano Crespo (Mulheres e escadas)





MUJERES Y ESCALERAS



¡Ay! Mis mujeres.

Nunca fui un sibarita.
Mi madre fue una mujer de campo
que se arrodilló ante dios y la higiene
de unas escaleras que no llevaban al cielo.

Mis mujeres.
Nunca fueron sibaritas.
La que me besa ahora sabe que huelo a vecino de rellano,
a ciudadano perplejo.

A ese sujeto con miedos cotidianos
que llamamos hombre medio.

Las mujeres sibaritas besan el éxito
y de ahí no provengo.
Estoy empadronado en la cola del empadronamiento.
Buscadme por la "Z" en el abecedario de méritos.

Subo por escaleras que mi madre fregó
y que no llevan al cielo.


Mariano Crespo




Ah, as minhas mulheres!

Eu nunca fui um sibarita.
Minha mãe foi uma mulher do campo,
ajoelhada perante Deus, assim como a esfregar
umas escadas que não levavam ao céu.

As minhas mulheres!
Nunca foram sibaritas,
a que agora me beija sabe que eu cheiro a cidadão perplexo,
morador de vão de escada.

Àquele sujeito com medos diários
que chamamos de homem médio.

As mulheres sibaritas beijam o sucesso
e eu não é daí que venho.
Eu estou classificado na fila de classificação,
procurai-me pelo ‘z’ na relação de mérito.

Subo por escadas que minha mãe esfregou
e que não levam ao céu.

(Trad. A.M.)

.

9.5.18

Camilo Pessanha (Quem poluiu, quem rasgou)






Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear - tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Nem te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.


Camilo Pessanha


.

5.3.18

Maria do Rosário Pedreira (Mãe, eu quero ir-me)






Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada                            
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


Maria do Rosário Pedreira

.

9.9.17

Luis Rosales (E escrever na água teu silêncio)





Y ESCRIBIR TU SILENCIO SOBRE EL AGUA  



No sé si es sombra en el cristal, si es sólo
calor que empaña un brillo; nadie sabe
si es de vuelo este pájaro o de llanto;
nadie le oprime con su mano, nunca
le he sentido latir, y está cayendo
como sombra de lluvia, dentro y dulce,
del bosque de la sangre, hasta dejarla
casi acuñada y vegetal, tranquila.
No sé, siempre es así, tu voz me llega
como el aire de Marzo en un espejo,
como el paso que mueve una cortina
detrás de la mirada; ya me siento
oscuro y casi andado; no sé cómo
voy a llegar, buscándote, hasta el centro
de nuestro corazón, y allí decirte,
madre, que yo he de hacer en tanto viva,
que no te quedes huérfana de hijo,
que no te quedes sola allá en tu cielo,
que no te falte yo como me faltas.
           

Luis Rosales





É talvez a sombra no vidro, ou então
uma mancha de embaciado; ninguém sabe
se é de voo este pássaro ou de pranto;
ninguém o aperta com a mão, nem
o sentiu latejar, e aí está ele caindo
como sombra de chuva, dentro e doce,
do bosque do sangue, até o deixar
dormido e vegetal, tranquilo.
Não sei, é sempre assim, a tua voz chega-me
como o passo que faz mover a cortina
por trás do olhar; e eu fico a sentir-me
escuro e quase alheado; não sei como
atingirei, buscando-te, o centro
do nosso coração, para ali te dizer,
mãe, que hei-de fazer com que
não fiques órfã de teu filho,
que não fiques sozinha lá no teu céu,
que eu não te falte como tu a mim me faltas.


(Trad. A.M.)

.

29.6.17

Joan Margarit (Mãe e filha)





MADRE E HIJA



Todo el pasado de ella son tus manos:
treinta amorosos años al fondo de tus palmas.
La has velado a lo largo de la noche:
te tiendes en la cama junto a ella,
tu pecho cálido contra su espalda,
sus cansados cabellos en tu rostro.
La abrazas y le hablas en voz baja
y, mientras, la acaricias.
Son las últimas noches, y sientes el calor
de su cuerpo agotado que tú tan bien conoces.
Ahora aprenderás a cuidarla en la muerte.
Siempre ha sido una niña: debes velar su sueño,
que se va pareciendo, más y más,
a la profunda sombra de alegría
por donde se desliza entre tus manos.


Joan Margarit

[Escrito en el viento]





Todo o passado dela são tuas mãos,
trinta amorosos anos nas palmas das mãos.
Velaste-a ao longo da noite toda,
estendes-te na cama a seu lado,
o teu peito contra as costas dela
os cabelos dela na tua cara.
Abraça-la, falando-lhe baixinho,
e vai-la acariciando.
São as últimas noites, e sentes o calor
do seu corpo exausto que tão bem conheces.
Agora aprendes a cuidar dela na morte.
Foi sempre uma criança, tens de velar-lhe
o sono, que se vai parecendo, mais e mais,
à profunda sombra de alegria
por onde se te desliza entre as mãos.


(Trad. A.M.)

.


8.5.17

Fermín Herrero (Estado do bem-estar)





ESTADO DEL BIENESTAR                 
            


Con cerca de setenta años y una hernia discal
que nunca se operó mi madre está cavando el huerto.
La recuerdo siempre así, sin parar, desviviéndose por nosotros,
sus manos de penuria inquietud día y noche,
la abnegación echada al hombro hasta dejarlo
todo aviado y acabar molida: frota que te frota
ordeñando, acarreando, frota que te frota
barriendo, fregando, vareando
en la era la lana de los colchones, haciendo aulagas
para prender la lumbre y caldear la casa...
Siempre así, sudando como una descosida,
sin dar abasto y pese a todo - igual que el resto de las esclavas
de posguerra - no tiene derecho
a pensión. Cuando puede ver el parte
se hace cruces de lo bien que hablan los políticos.

Fermín Herrero




Com perto de setenta anos e uma hérnia discal
jamais operada, minha mãe anda na horta a cavar.
Recordo-a sempre assim, sem parança, a desviver-se por nós,
as mãos dia e noite de inquieta penúria,
a abnegação posta ao ombro até deixar tudo pronto
e ficar moída, toca que toca a ordenhar,
acartar, toca que toca a varrer, a esfregar,
a bater no seu tempo a palha dos colchões,
a juntar umas giestas para acender o lume e aquecer a casa.
Assim sempre, a suar feita danada,
sem descanso e apesar de tudo – tal como as outras escravas
do pós-guerra – nem direito tem a pensão.
Quando pode assistir,
 até se benze, de tão bem que falam os políticos.



(Trad. A.M.)

__________________

F.H. acaba de receber o Prémio da Crítica 1916, outorgado pela Associação Espanhola de Críticos Literários: ABC

.

9.4.17

Claribel Alegria (Rito incumprido)




RITO INCUMPLIDO

                 (A mi madre)

Dicen que la muerte es solitaria
que nos morimos solos
aunque estemos rodeados de aquellos que nos aman
pero tú me llamaste
y yo no estuve:
no te cerré los ojos
no te besé la frente
no te ayudé a pasar
al otro lado
estuve lejos
lejos de ti que me alumbraste
me nutriste
educaste mis alas.
No cumplí con el rito
estuve lejos
lejos
y ese es el sollozo que me arrebata en olas
en cúpulas
en grutas
y no puede salir
y me persigue en sueños
y me ahoga.
Perdóname/libérame
necesito aullar
batir tambores
un golpe en la cerviz
un estallido
para arrancar de cuajo este sollozo
y no invocarte más
en desolados
versos.


Claribel Alegria




Dizem que a morte é solitária
que morremos sempre sós
mesmo rodeados por aqueles que nos amam
mas tu chamaste-me
e eu não estava:
não te fechei os olhos
não te beijei a fronte
não te ajudei a passar
para o outro lado
estava longe
longe de ti que me iluminaste
me nutriste
educaste minhas asas.
Não cumpri o rito
estava longe
longe
e é esse o soluço que me arrebata em ondas
em cúpulas
em grutas
e não sai
persegue-me em sonhos
afoga-me.
Perdoa-me/liberta-me
preciso de uivar
rufar tambores
um golpe na cerviz
um estampido
para arrancar de vez este soluço
e não invocar-te mais
em desolados
versos.


(Trad. A.M.)

.