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27.2.26

José Cereijo (Nunca)

 



NUNCA

 

Nunca dormí en tus brazos.
Nunca me desperté de madrugada y vi el armario, la ventana, los libros,
o escuché el ruido de las cañerías, los pasos solitarios en la calle,
y pensé, incrédulo, que, puesto que todo aquello era real,
tú también debías serlo.
No supe a qué sabían tus labios, o tu risa.
No te vi desnudarte.
No supe ni sabré jamás cómo tus ojos, en el acto del amor,
incendiaban la noche.
Esa ausencia es, lo sé bien, una mutilación irremediable;
es un triste muñón, que llevaré conmigo hasta la muerte.
También es, a su modo, forma y prueba de amor,
de lúcido y humillado amor,
de devastado y verdadero amor, que ofrezco a tu recuerdo.
 

José Cereijo

 

Nunca dormi em teus braços,
nunca acordei de manhã a ver o armário, a janela, os livros,
ou escutei o ruído dos canos, os passos solitários na rua,
e pensei, incrédulo, que sendo tudo isso real
tu também devias ser.
Não soube a que sabiam teus lábios, ou teu riso,
não te vi a despir,
não soube nem saberei nunca como teus olhos, no amor,
incendiavam a noite.
Essa falta, bem sei, é uma mutilação sem remédio,
um triste coto de um braço que levarei comigo até à morte.
É também, a seu modo, forma e prova de amor,
de lúcido humilhado amor,
de devastado e verdadeiro amor,
que eu ofereço à tua lembrança.
 

(Trad. A.M.)

 .

19.12.24

José Cereijo (Olha)




OLHA

 

Olha a velha porta de madeira
pela qual passaste tantas vezes.
Olha a calçada cinzenta que é o teu caminho,
e em que nem reparas ao pisá-la.
Olha ainda as nuvens desta tarde, 
as árvores adormecidas do passeio, 
os delicados jogos da luz.
Tudo o que acontece para ninguém,
o que é puro abstrair de si mesmo,
como acaso a vida.
Olha por uma vez estas coisas obscuras,
que hão-de perder-se quando as não olhares,
que não serão recordações.
 

José Cereijo 

(Trad. A.M.).

 .

16.7.24

José Cereijo (Pensa no que darias)




Piensa lo que darías
cuando se esté acabando
el tiempo, y sólo queden ya los posos
amargos en el vaso,
por estas horas, y por estos días,
que ahora ves pasar, indiferente.
Piénsalo,
y trata de vivir tal como entonces
querrás haber vivido;
que sea lo amargo, si tiene que serlo,
el vaso, no la boca. 

JOSÉ CEREIJO
La Luz Pensativa
Pre-Textos (2021) 

 

Pensa no que darias
quando se estiver a acabar
o tempo, e ficarem só as borras
amargas no copo,
destas horas, destes dias,
que agora vês passar, indiferente.
Pensa,
e trata de viver tal como então
hás-de querer ter vivido;
que o amargo seja, se tiver de ser,
copo, não a boca.
 

(Trad. A.M.)

 .

14.10.23

José Cereijo (Praga)




MALDICIÓN 

 

Que alguna enfermedad implacable y secreta
te devore por dentro, lentamente.
Que no haya en ningún sitio agua para tu sed,
sueño para tus ojos extraviados,
tiempo para tu corazón.
Que la vida, continuamente hostil,
te ofrezca sólo espinas, peligros, negaciones.
Que todo lo que lleves a los labios
se llene de un sabor amargo y póstumo.
Que seas, en fin, lo mismo que yo soy,
lo mismo que seré
mientras que no consiga
                             librarme de tu ausencia.

 José Cereijo

  

Que uma doença secreta e implacável
te devore por dentro, lentamente.
Que não haja em nenhum lado água para a tua sede,
nem sono para os teus olhos,
tempo para o coração.
Que a vida, sempre malina,
te dê apenas espinhos, perigos e negações.
Que tudo que leves aos lábios
tenha um sabor amargo e póstumo.
Que sejas enfim o mesmo que eu sou,
o mesmo que hei-de ser
enquanto não me livrar
                              da tua ausência.


(Trad. A.M.)

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25.1.22

José Cereijo (Algumas poucas palavras)




Unas pocas palabras
en la frontera misma del silencio,
como las que se retiran,

discretas, cuando es hora
de que los cuerpos hablen.
Unas pocas palabras: signos,
indicios solamente. Un poco
de aire conmovido
entre la mano y la página.
Es bastante. Es incluso demasiado.


José Cereijo

[Sureando]

 

  

Algumas palavras poucas
na fronteira mesma do silêncio,
como as que se retiram,
discretas, quando chega
a hora de os corpos falarem.
Algumas poucas palavras – signos,
indícios apenas. Um pouco
de ar comovido
entre a mão e a página.
É bastante. É mesmo demasiado.


(Trad. A.M.)

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12.1.21

José Cereijo (Luz de Março)

 


LUZ DE MARZO               

                                         

En esta luz de marzo,
en esta luz estremecida y pura
que un dios benevolente trajo hoy a tu ventana
y que hace avergonzarse a tu silencio,
además de su inmensa, callada compañía,
hay una lección honda que debes aprender:
no pueden tus palabras retenerla;
no pueden mejorarla. 

Acata esa Belleza, tan superior a ti, y déjala perderse.
Y que el silencio sea tu forma de homenaje.

 
José Cereijo

  

Nesta luz de Março,
nesta luz trémula e pura
que um deus benévolo te trouxe hoje à janela
e que envergonha teu silêncio,
para lá da sua calada companhia,
há uma lição profunda que tens de aprender:
não podem tuas palavras retê-la,
não podem melhorá-la.

Acata essa Beleza, mais alta, e deixa-a perder-se.
E seja o silêncio tua forma de homenagem.


(Trad. A.M.)

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3.7.19

José Cereijo (Testamento)





TESTAMENTO



Este profundo azul del cielo en primavera,
el canto de los pájaros, el rumor de los sueños,
el amor de los libros, siempre correspondido,
el silencio del alba,
el de mi corazón, algunas veces,
las horas que hacen dulce, secreta la memoria:
es todo para ella.

Todo para la muerte, que me ha querido tanto.


José Cereijo





Este profundo azul do céu na primavera,
o canto dos pássaros, o rumor dos sonhos,
o amor dos livros, sempre correspondido,
o silêncio da aurora,
o do meu coração, certas vezes,
as horas que fazem doce, secreta a memória,
é tudo para ela.

Tudo para a morte, que tanto me quis.

(Trad. A.M.)

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9.6.19

José Cereijo (O silêncio)





EL SILENCIO



Calla la vieja muerte hospitalaria,
calla Dios en su cielo,
calla el amor si es hondo, y también calla,
como el dolor, el tiempo.
Para qué tus palabras, si todo lo que importa
pertenece al silencio?


José Cereijo





Cala a velha morte hospitaleira,
cala Deus lá no céu,
cala o amor, se é profundo,
e cala também, tal como a dor,
o tempo.
Para quê palavras, se tudo o que importa
pertence ao silêncio?


(Trad. A.M.)



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