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26.7.13

Casimiro de Brito (Arte poética)





ARTE POÉTICA


DA PALAVRA

Silêncio: a palavra
respira. Corpo deitado
no mar. Silêncio de fogo
e música.

Silêncio: a palavra sangra
seu cântico de pó. Peixe
de sombra
mordendo as estrelas.

A palavra só. A palavra
refresca. Osso abandonado
na praia deserta.

A palavra de água
onde nego a morte. Pausa
do sol.


Casimiro de Brito


[Luz & sombra]

.

5.2.12

Casimiro de Brito (Se o mundo não tivesse palavras)






Se o mundo não tivesse palavras
a palavra do mar, com toda a sua paixão,
bastava. Não lhe falta
nada: nem o enigma nem
a obsessão. Entregue ao seu ofício
de grande hospitaleiro
o mar é um animal que se refaz
em cada momento.
O amor também. Um mar
de poucas palavras.



Casimiro de Brito


[Poedia]

.

6.11.09

Casimiro de Brito (Amar-te é nascer de novo)








Amar-te é nascer de novo, regressar à minha fonte.
Nesse momento, começo a morrer.



Casimiro de Brito




7.10.09

15.7.09

Casimiro de Brito (O aforismo)









O aforismo é um quase silêncio; uma pegada de gaivota na areia da manhã.





CASIMIRO DE BRITO
Da frágil sabedoria (2001)


.


10.5.09

Casimiro de Brito (Não me pisem)









Não me pisem,
já não danço
— o melhor que faço
é quando descanso.
Não me louvem,
estou cansado
— o melhor que escrevo
é quando apago.




Casimiro de Brito



18.4.09

Casimiro de Brito (De canto em canto)









Silêncio-1 (Eugénio A.)

Silêncio-2 (M.Quintana)

Silêncio-3 (Andrés Eloy)

Silêncio-4 (A.Mattos)

Silêncio-5 (David M.F.)


Silêncio-7 (M.Quintana)

Silêncio-8 (E.Diego)

Silêncio-9 (cummings)

Silêncio-10 (Casimiro B.)








De canto em canto
vou caindo
no charco do silêncio.




Casimiro de Brito


.


12.3.09

Casimiro de Brito (Entraste na casa do meu corpo)








Entraste na casa do meu corpo,
desarrumaste as salas todas
e já não sei quem sou, onde estou.
O amor sabe. O amor é um pássaro cego
que nunca se perde no seu voo.
.
.
.
Casimiro de Brito


.


3.2.09

Casimiro de Brito (Já que não posso)









Já que não posso mudar o mundo
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias.




Casimiro de Brito


.


25.12.08

Casimiro de Brito (Meus pensamentos)








Meus pensamentos são nómadas
e vagarosos
como a água que vem da montanha
e não sabe nada
do coração dos homens. O meu, por exemplo,
tem a leveza do vento
e corre para casa como se fosse
um cão que precede
os passos do dono.



Casimiro de Brito


.

29.11.08

Casimiro de Brito (Beijo-a no sono)










Beijo-a no sono — beijo-a
mentalmente não vá eu acordar
a luz dos meus dias.





Casimiro de Brito


.


.

11.11.08

Casimiro de Brito (Cuidado)











Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
que se desfia
pouco a pouco. Guardo
silêncio
para que possam ouvi-lo
desfazer-se.





Casimiro de Brito


.




13.3.08

Um verso (42)
















Um verso de Casimiro B.
(mas tem mais…):






O amor é antes de mais um desejo,que nunca se esgota.







Fonte: Sítio-of.
.

1.1.08

Casimiro de Brito (A paz)





A PAZ




Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?
Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?




CASIMIRO DE BRITO
Jardins de Guerra (1966)
.

15.8.07

Casimiro de Brito (Do poema)





DO POEMA




O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes -




o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.




CASIMIRO DE BRITO
Ode & Ceia
Poesia /1955-1984

30.6.07

Casimiro de Brito (Não escolho nada)






NÃO ESCOLHO NADA DEIXO-ME VESTIR





Não escolho nada deixo-me vestir
Pela música discreta que tacteia
Meu corpo em sua breve caminhada.



Não desejo nada consinto apenas
Que a dor me visite e a jovem ceifeira,
Mãe das coisas todas, me seduza.



Não escolho nada nem sequer o vaso
Onde me derramo devagar
Como se fosse água, ou leve lume.



CASIMIRO DE BRITO
Na via do mestre


10.3.07

Casimiro de Brito (Dois poeminhas)





DOIS POEMINHAS





Não te canses, mosquito,
voando da luz para a sombra.
Pousa no meu coração




Levo para a montanha
meus rios interiores.
Perdem-se com os outros



Casimiro de Brito
.
.

16.12.06

Casimiro de Brito (O interrogatório de Rosa Luxemburgo)






OBJECTOS DE CULTO & PERSONAL

O interrogatório de Rosa Luxemburgo




O interrogatório
De Rosa Luxemburgo
Durou apenas algumas horas. Ela sabia
Tão bem como os seus carcereiros
Que palavras ali já não existiam. Caída
Na batalha
Contra o nervo vital do Estado; banhada
Em sangue
E quase sem sentidos,
Rosa,
Frágil camarada,
Pediu aos caçadores seus assassinos
Agulha e linha. E, silenciosamente,
Com uma pistola apontada à têmpora,
Coseu a bainha da saia que se encontrava
Descosida. Pouco depois
O cadáver
Foi lançado à água.



Casimiro de Brito



Fontes: As Tormentas / Poesias-e-prosas / Palavras d'Ouro / Sítio of. (bio+antologia+ crítica+entrevistas+linques)

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