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23.12.18

António Osório (Dióspiro)






DIÓSPIRO



O verde converte-se em vermelho,
é o outono nas folhas do dióspiro.
E caem intactas, por terra
são fogo adolescente. Tudo porque
no alto entre labaredas
amadurecem os frutos, oferta
do divino, desgostoso de si próprio.


António Osório

[Canal de poesia]

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24.6.17

António Osório (Ainda me acolho)





AINDA ME ACOLHO



Ainda me acolho, Pai,
à tua madressilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta.



António Osório

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3.5.16

António Osório (Um sentido)





UM SENTIDO



Porque há um sentido
no lírio, incensar-se;
e no choupo, erguer-se;
e na urze arborescente,
ampliar-se;
e no cobre, primeira cura
que dou à vinha,
procriar-se.

E outro, pressago,
sentido há na memória,
explodir-se. E outro, imensurável,
no amor, entregar-se.
E outro, definitivo,
na morte, render-se.


ANTÓNIO OSÓRIO
Casa das Sementes
- Poesia Escolhida
Assírio e Alvim (2006)

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10.5.15

António Osório (Os calceteiros)





OS CALCETEIROS



Escrevem na rua:
juntam
cuidadosamente
palavras.

Pegam-lhes
sílaba a sílaba,
escolhem, unem,
completam,
tocam
ao de leve por cima
e continuam.

Com o maço
e o suor
assinam.


ANTÓNIO OSÓRIO
A Ignorância da Morte
(1978)

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2.6.12

António Osório (Augúrio)






AUGÚRIO




Não antecipes a tristeza
de morrer: não queiras muito
às lágrimas: consola-te
bebendo-as. E sê grato ao dia
em que, vivo, as tragaste.



António Osório



[Canal de poesia]

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14.11.10

António Osório (Eugénio de Andrade)






EUGÉNIO DE ANDRADE




O que de seu tem,
o que tem de mais belo
é grego ou toscano.


A mesma forma
infrangível
de receber as nuvens,
alegria
de estar na terra lavrada,
de tê-la entre mãos
friável,
de encontrar um corpo na noite.


O mesmo gosto de água soterrada,
a mesma paixão pela vida.


Obstinada.



António Osório



[Silva]


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14.12.08

António Osório (Sonho)









SONHO





Gostaria me sonhasses
vento sobre flor;
espiga de outro sono,
bolbo de outra vida.


Gostaria me encontrasses
ave caída;
e lhe desses depois
o voo de outros séculos.




António Osório



[Lídia Aparício]



.

12.4.08

António Osório (Augúrio)






AUGÚRIO




Não antecipes a tristeza
de morrer: não queiras muito
às lágrimas: consola-te
bebendo-as. E sê grato ao dia
em que, vivo, as tragaste.




António Osório



Fonte: Lidia Aparício

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4.2.08

António Osório (Fala o arrumador de automóveis)











FALA O ARRUMADOR DE AUTOMÓVEIS





Assustado com a miséria e estes anos,
pouco espero de Deus e dos homens.
Não mendigo, olho de soslaio, adivinho,
sem gratidão guardo no bolso os óbolos.
E fui pescador, depois faroleiro: longe
deitava a alma, relâmpago
sobre falésias, em estrelas tocava,
a sirene era o meu grito de amor.
Transluzente e distante e bom
como clarões de um farol nunca foi fácil:
algo se afundava debaixo de mim,
desconhecida culpa. Odeio, sim, odeio
este parque onde chuva e sol impõem as mãos
e na pele penetram sem bálsamo.
Primeiro a luxúria, depois vinho,
escuridão. No fundo de um poço
cujas paredes ressumam lágrimas e avencas.
Custa ganhar a vida e perdê-la.
Tudo foi defraudado, sou eu
- eu ou alguém por mim- quem aperta
desde a infância o nó que me estrangula.





António Osório







16.10.07

António Osório (A raiz afectuosa)






A RAIZ AFECTUOSA





Com os anos
a pouco e pouco
a raiz afectuosa
penetrou
no fundo da terra
até chegar ao mais pequeno
e mais antigo
veio de lágrimas.




António Osório





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31.7.07

António Osório (A um mirto)









A UM MIRTO








Nascido antes de Cristo
Uma vez mais floriu
o velho e agora jovem mirto.
.
.
.

Junto ao poço as suas fundas raízes
e o mesmo vivo, sempre generoso
aroma das folhas; o tronco
torturado por nodosas chagas,
cavernas, golpeado de musgo e cobre,
mas com baixos, com tenazes rebentos.
.



Quantos ali perdeste, quantos
se amaram à tua sombra?
Alguém como eu acaso te beijou?
Quantos passos em volta? Quanta chuva
desejou o Romano que para aqui te trouxe?
E quantas exalações da vida assististe
como muda testemunha, ó corpo mediterrâneo
sobrevivente a tantos tantos deuses mortos?



António Osório






Outras: DGLB (bio+ antologia) / As Tormentas (bio+6p) / Lídia Aparício (16p) / nEscritas (4p)
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