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5.8.24

Francisca Aguirre (A ordem)

 



EL ORDEN

 

Deberíamos hacer algo que no fuera morir,
pero a menudo se nos viene la muerte tan callando
que hasta pasado un tiempo no sabemos
que estamos habitando nuestro propio cadáver.
Si nos hubieran advertido,
si un gesto por lo menos nos hubiera indicado
la descomposición que nos poblaba,
tal vez hubiéramos luchado contra el lento enemigo.
Pero había un silencio como el orden,
un retirarse para volver luego,
un fluir de marea mesurada.
Nadie nos quiso dar la mala nueva,
nadie quiso advertirnos del desastre.
Tal vez porque la muerte me fue volviendo extraña
y las viejas palabras no bastaron
y sólo fue posible mirar, mirar cómo avanza la muerte.
Y ahora, del otro lado del silencio
yo contemplo también esa mirada,
ese ver que no pide sino asiste,
ese futuro sin futuro
y me pongo a llorar sobre la vida
diciéndome: Penélope,
deberíamos hacer algo que no fuera morir.

Francisca Aguirre

[Trianarts]

 

Deveríamos fazer algo que não fosse morrer,
mas vem-nos a morte amiúde tão calada
que até um tempo depois não sabemos
que estamos habitando o nosso próprio cadáver.
Se nos tivessem avisado,
se um gesto ao menos nos tivesse indicado
a decomposição que nos ameaçava,
talvez nós lutássemos contra o lento inimigo.
Mas havia um silêncio como ordem,
um retirar para voltar depois.
um fluir de maré comedida.
Ninguém nos quis dar a má nova,
ninguém quis avisar-nos do desastre.
Talvez porque a morte me foi tornando estranha
e as palavras antigas não bastaram
e só foi possível observar,
observar como a morte avança.
E agora, do outro lado do silêncio,
eu contemplo também esse olhar,
esse ver que não pede mas conforta,
esse futuro sem futuro,
e ponho-me a chorar sobre a vida,
dizendo para mim mesma: Penélope,
deveríamos fazer algo que não fosse morrer.


(Trad. A.M.)

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6.8.23

Francisca Aguirre (Um pedaço de fio)




UN PEDAZO DE HILO 

 

No es bueno andar por este mundo
soportando el desgaste de nuestra sombra.
No es bueno alzar la voz a nuestras vísceras
inaugurar un grito que hace crujir
tan sólo a nuestro despavorido bazo.
No es bueno andar en soliloquio
con el filo mugriento del desdén.
No es bueno ser residuo de un espejo:
trae mala suerte esa mutilación
con apariencia de totalidad.
No somos de fiar con tanta arista,
somos humanamente peligrosos
y desdichados inhumanamente.
Entonces, con la humildad que otorga la desolación:
compañero, cualquier pedazo de hilo,
cualquier trapo para remendar
este agujero que llamamos vida.
 

Francisca Aguirre 

[Life vest under your seat]

 

Não é bom andar por este mundo
suportando o desgaste da sombra.
Não é bom erguer a voz para as vísceras
inaugurar um grito que faz ranger
apenas o nosso baço apavorado.
Não é bom andar por aí em solilóquio
com o fio da baba do desdém.
Não ė bom ser resíduo de espelho,
dá azar essa mutilação
com aparência de totalidade.
Não somos de fiar com tanta aresta,
somos um perigo humanamente,
inumanamente inditosos.
Então, com a humildade da desolação:
companheiro, um pedaço de fio qualquer,
um trapo qualquer para remendar
este buraco que chamamos vida. 

(Trad. A.M.)

 .

7.9.22

Francisca Aguirre (Não vos confundais)



NO OS CONFUNDÁIS 

 

Y cuando ya no quede nada
tendré siempre el recuerdo
de lo que no se cumplió nunca.
Cuando me miren con áspera piedad
yo siempre tendré
lo que la vida no pudo ofrecerme.
Creedme:
Todo lo que pensáis que fue destrozo y pérdida
no ha sido más que conjetura.
Y cuando ya no quede nada
siempre tendré lo que me fue negado.
No os confundáis: con lo que nunca tuve
puedo llenar el mundo palmo a palmo.
Tanto miedo tenéis que no habéis advertido
la riqueza que se oculta en la pérdida.
Desdichados,
poca ganancia es la vuestra
si nunca habéis perdido nada.
Yo sí he perdido:
Yo tengo, como el náufrago,
toda la tierra esperándome.
 

Francisca Aguirre 

[Otra iglesia]

 

 
E quando já não me reste nada
terei sempre a lembrança 
do que nunca se cumpriu.
Quando me olharem com piedade
eu hei-de ter sempre
o que a vida não me pôde dar.
Juro,
tudo quanto pensais que foi derrota e perda
não foi mais que conjectura.
E quando nada mais restar
eu terei sempre aquilo que me negaram.
Não vos confundais, com aquilo que nunca tive
eu posso cobrir o mundo palmo a palmo.
Tanto medo tendes que não sabeis
a riqueza que está por trás da perda.
Ó infelizes,
pouca ganância será a vossa
se nunca perdestes nada.
Eu sim, que perdi,
eu tenho, tal como o náufrago,
a terra toda à minha espera.
 

(Trad. A.M.)

_______________________

- Como por vezes sucede, dou-me conta anos depois que este poema está repetido, pois já fora apresentado aqui
   (Francisca Aguirre, Não vos confundais).
   Contudo, sendo o poema o mesmo e o mesmo, obviamente, o tradutor, na verdade as duas traduções são distintas,      patenteando algumas diferenças relevantes. Ficam ambas como estão, por isso mesmo...

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18.8.20

Francisca Aguirre (Não vos confundais)





NO OS CONFUNDÁIS



Y cuando ya no quede nada
yo siempre tendré
el recuerdo de lo que no se cumplió.
Cuando me miren con áspera piedad
yo siempre tendré
lo que la vida no pudo ofrecerme.
Creedme:
todo lo que pensáis que fue
destrozo y pérdida
no ha sido más que conjetura.
Y cuando ya no quede nada
siempre tendré lo que me fue negado.
No os confundáis:
con lo que nunca tuve
puedo llenar el mundo palmo a palmo.
Tanto miedo tenéis
que no habéis advertido
la riqueza que se oculta en la pérdida.
Desdichados,
poca ganancia es la vuestra
si nunca habéis perdido nada.
Yo sí he perdido:
yo tengo, como el náufrago,
toda la tierra esperándome.

Francisca Aguirre

[Life vest under your seat]




E quando não restar mais nada
eu terei sempre a lembrança
daquilo que não se cumpriu.
Quando me olharem com falsa piedade
eu terei sempre
o que a vida não pôde dar-me.
Crêde-me,
tudo quanto pensais
que foi perda e destroço
não mais foi que conjectura.
E quando não restar já nada
eu terei sempre
aquilo que me foi negado.
Não vos confundais,
com aquilo que nunca tive
eu posso encher este mundo
palmo a palmo.
Tanto medo tendes, que não reparais
na riqueza por trás da perda.
Ó infortunados,
pouca ganância é a vossa
se nunca perdestes nada.
Eu sim, que perdi,
eu tenho, assim como o náufrago,
toda a terra à minha espera.

(Trad. A.M.)

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7.11.18

Francisca Aguirre (Testemunha de excepção)





TESTIGO DE EXCEPCIÓN


Un mar, un mar es lo que necesito.
 Un mar y no otra cosa, no otra cosa.
 Lo demás es pequeño, insuficiente, pobre.
 Un mar, un mar es lo que necesito.
 No una montaña, un río, un cielo.
 No. Nada, nada,
 únicamente un mar.
 Tampoco quiero flores, manos,
 ni un corazón que me consuele.
 No quiero un corazón
 a cambio de otro corazón.
 No quiero que me hablen de amor
 a cambio del amor.
 Yo sólo quiero un mar:
 yo sólo necesito un mar.
 Un agua de distancia,
 un agua que no escape,
 un agua misericordiosa
 en que lavar mi corazón
 y dejarlo a su orilla
 para que sea empujado por sus olas,
 lamido por su lengua de sal
 que cicatriza heridas.
 Un mar, un mar del que ser cómplice.
 Un mar al que contarle todo.
 Un mar, creedme, necesito un mar,
 un mar donde llorar a mares
 y que nadie lo note.

Francisca Aguirre




Um mar, um mar é o que eu preciso,
um mar e não outra coisa, não outra coisa.
O resto é pequeno, pobre, mesquinho.
Um mar, um mar é o que eu preciso,
não um monte, um rio, um céu.
Não, nada, nada,
só um mar.
Também não quero flores, nem mãos,
nem coração que me console,
não quero um coração
em troca de coração,
nem que me falem de amor
em troca de amor.
Eu só quero um mar,
só preciso de um mar,
água distante, piedosa,
para lavar o coração
e deixá-lo na beira,
empurrado pelas ondas,
lambido pela língua salgada
que cicatriza as feridas.
Um mar, um mar cúmplice,
para lhe contar tudo.
Um mar, vêde, preciso de um mar,
onde possa chorar um mar de lágrimas
sem ninguém reparar.
  
(Trad. A.M.)

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12.5.17

Francisca Aguirre (E se, depois de tudo)





Y si después de todo, todo fuera,
un ir muriendo para al fin morirnos
a qué este loco empeño en convertirnos
en contables de un tiempo que no espera.

Y si resulta que lo cierto era
este sermón que viene a repetirnos
que avanza el huracán para abatirnos
y es inútil y absurda esta carrera.

Entonces, amor mío, ten sosiego,
y aprovecha esta cueva que te ofrezco
y apura el agua que yo no he bebido.

El viento nos arrastra, frío y ciego,
toma mi manta mientras yo envejezco,
amarte de otro modo no he sabido.


Francisca Aguirre






E se, depois de tudo, tudo fosse
um ir morrendo para no fim se morrer,
para quê este louco afã de nos fazermos
medidores de um tempo que não espera?

E se o certo afinal
era este sermão a dizer-nos
que vem aí o furacão a abater-nos,
sendo inútil e absurda esta corrida?

Então, amor meu, tem calma,
aproveita esta gruta que eu te ofereço,
acaba a água que eu não bebi.

O vento arrasta-nos, cego e frio,
pega a minha manta enquanto eu envelheço,
amar-te de outro modo eu não soube.


(Trad. A.M.)

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29.11.14

Francisca Aguirre (Uma má posição)






UNA MALA DISPOSICIÓN



Quizás tuvo la culpa
una mala disposición de mi esqueleto.
Seguramente me falló la osamenta.
Debo tener la tráquea demasiado estrecha
y cualquier cosa le molesta
se irrita y trago mal.
El caso es que aquel hombre
estaba hecho una furia y todo le estorbaba:
los mendigos, los chinos, los rumanos.
Estaba hasta los pelos de las quejas de las mujeres.
Y se puso a decir que
lo que hacía falta era una mano dura como antes.

Y a mí me dio por toser
y terminé escupiéndole.


Francisca Aguirre

[Emma Gunst]




O meu problema foi talvez
uma má posição do esqueleto.
Seguramente falharam-me os ossos.
Devo ter a traqueia muito apertada
e qualquer coisa a incomoda,
irrita-se e eu engulo mal.
O caso é que aquele homem
estava possesso e tudo o perturbava,
os mendigos, os chineses, os romenos.
Estava até aos cabelos com queixas das mulheres.
E pôs-se a dizer que o que era preciso
era mão dura, como em tempos.

E a mim deu-me para tossir
e acabei cuspindo-lhe em cima.

(Trad. A.M.)

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8.8.13

Francisca Aguirre (Última neve)





ÚLTIMA NIEVE



Una hermosa mentira te acompaña,
pero no llega a acariciarte.
Sólo sabes de ella lo que dicen,
lo que te explican libros enigmáticos
que narran una historia fabulosa
con las palabras llenas de significación,
llenas de claridad y peso exactos,
y que tú no comprendes sin embargo.
Pero tu fe te salva, te mantiene.

Una hermosa mentira te vigila,
aunque no puede verte, y tú lo sabes.
Lo sabes de esa forma inexplicable
en que sabemos lo que más nos hiere.

Llueve desde los cielos tiempo y sombra,
llueve inocencia y loco desconsuelo.
Un incendio de sombras te ilumina,
mientras la nieve apaga las estrellas
que una vez fueron permanentes ascuas.

Una hermosa mentira te acompaña;
a infinitos millones de años luz,
intacta y compasiva, se extiende la nevada.

Francisca Aguirre



Uma bela mentira te segue,
mas não chega a acariciar-te.
Dela sabes só o que te dizem,
o que consta em livros enigmáticos
que contam uma história fabulosa
com palavras ricas de significado,
claríssimas e de peso exacto
e que tu contudo não compreendes.
Mas a tua fé te salva e te sustém.

Uma bela mentira te vigia,
embora não te veja, e tu sabe-lo bem.
Sabe-lo desse jeito inexplicável
em que se sabe aquilo que mais nos fere.

Chove tempo e sombra caindo do céu,
chove inocência e louco desconsolo.
Um incêndio de sombras te ilumina,
enquanto a neve apaga as estrelas,
brasas vivas até há pouco.

Uma bela mentira te segue,
a muitos milhões de anos-luz,
intacta e compassiva, estende-se a nevada.

(Trad. A.M.)

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21.7.13

Francisca Aguirre (Ítaca)





ÍTACA



¿Y quién alguna vez no estuvo en Ítaca?
¿Quién no conoce su áspero panorama,
el anillo de mar que la comprime,
la austera intimidad que nos impone,
el silencio de suma que nos traza?
Ítaca nos resume como un libro,
nos acompaña hacia nosotros mismos,
nos descubre el sonido de la espera.
Porque la espera suena:
mantiene el eco de voces que se han ido.
Ítaca nos denuncia el latido de la vida,
nos hace cómplices de la distancia,
ciegos vigías de una senda
que se va haciendo sin nosotros,
que no podremos olvidar porque
no existe olvido para la ignorancia.
Es doloroso despertar un día
y contemplar el mar que nos abraza,
que nos unge de sal y nos bautiza como nuevos hijos.
Recordamos los días del vino compartido,
las palabras, no el eco;
las manos, no el diluido gesto.
Veo el mar que me cerca,
el vago azul por el que te has perdido,
compruebo el horizonte con avidez extenuada,
dejo a los ojos un momento
cumplir su hermoso oficio;
luego, vuelvo la espalda
y encamino mis pasos hacia Ítaca.

Francisca Aguirre



E quem é que nunca foi a Ítaca?
Quem é que não conhece seu panorama severo,
o anel do mar que a envolve,
a intimidade austera que nos impõe,
o silêncio em suma que nos abraça?
Ítaca resume-nos como um livro,
empurra-nos para nós mesmos,
revela-nos o som da espera.
Porque a espera ressoa,
guarda o eco das vozes que se foram.
Ítaca desvela-nos a vida a latejar,
faz-nos cúmplices da distância,
sentinelas cegas de uma senda
que se vai fazendo sem nós,
que olvidar não podemos por
não haver olvido na ignorância.
Doloroso é acordar um dia
e olhar o mar que nos abraça
que nos unge de sal e como
novos filhos nos baptiza.
Recordamos os dias do vinho partilhado,
as palavras, não o eco,
as mãos, não o gesto diluído.
Vejo o mar que me cerca,
o vago azul em que te perdi,
verifico o horizonte com avidez,
deixo os olhos fazer o que lhes cabe,
depois, viro as costas
e encaminho meus passos para Ítaca.

(Trad. A.M.)



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