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20.5.26

João de Mancelos (Um livro me leva)




UM LIVRO ME LEVA PELA MÃO


folheio, devagar, as páginas de um livro:
ondas pálidas e cardumes de letras negras
flutuam-me entre as mãos.

escuto o sussurro de poemas antigos,
deslizando sob os meus dedos,
na mútua carícia de quem troca o lume.

entre a capa e a contracapa,
versos e rimas murmuram, palavras
cálidas como uma mulher entreaberta.

e toda a noite o livro me leva pela mão,
em cada página, a ferida do amor
e o oceano de um branco quase azul.

é madrugada. fecho o livro.
tranquilas vozes adormecem-me
— e, no sono de um verso, naufrago.


João de Mancelos

.

22.9.23

João de Mancelos (São agora tão frágeis)




são agora tão frágeis, os nomes 
das raparigas que, em tempos,
eram a estrela e o milagre.

elegias a deus nenhum,
santuários de amor abandonados,
no sangue seco do tempo. 

reduziram-se a meros acidentes,
no silêncio perfeito
que a memória deita a meu lado. 

e, porém, esses nomes ardem
ainda no país longínquo da noite
e, sílaba a sílaba, queimam o meu sono. 

 

JOÃO DE MANCELOS
A Sombra de um Homem Só
- Poemas seleccionados
Lisboa (Colibri), 2022

 .

30.5.23

João de Mancelos (Zero decibéis)




ZERO DECIBÉIS 

 

um punhado de silêncio 
- nada acaricia mais
a nudez do verão:
nem verbos, nem poemas.

quietude é um sorriso
ou a erva,
quando a chuva despe a terra
e tu desistes dos sapatos
e corres.

corres para melhor escutar
o silêncio que pulsa em ti. 

João de Mancelos

 .

20.9.20

João de Mancelos (Navegando de mastros amputados)





NAVEGANDO DE MASTROS AMPUTADOS



somos navios distantes,
a bordo
do desejo,

as memórias,
gaivotas de passagem
pelo mapa,

e a paixão,
o vento que restou
das suas asas


João de Mancelos

.

1.11.19

João de Mancelos (Alguns outros)





ALGUNS OUTROS, PENSANDO EM AL BERTO



alguns lambem as feridas,
outros amam a céu aberto.

alguns vão, de braço dado com o vento,
outros vivem nos quartos alugados
da esperança.

alguns adormecem, em línguas de fogo,
outros dançam à noite
com estranhas. `

alguns escrevem para lembrar ítaca,
outros esqueceram o mapa de si.
alguns ficam.

os melhores partem.
batendo em corações de lata,
e bebendo a noite em cada beijo.


João de Mancelos

.

4.8.19

João de Mancelos (Saudade definida)





SAUDADE DEFINIDA



e o que é a saudade
senão um poço aberto no peito
de onde içamos água de sombra?


João de Mancelos

.

20.8.18

João de Mancelos (Açores)






AÇORES



os emigrantes que partiram
para a outra margem do atlântico
falam de cinzas vivas
e dizem em silêncio
que a saudade
é uma ilha de fogo


João de Mancelos


.

20.11.17

João de Mancelos (Palavras)





PALAVRAS              

                          

Vem aí o Verão,
e as palavras trocam de pele,
algumas, de raça até.

O canto já não é o canto mesmo,
e mesmo as suas proas
são agora doutras bocas,
salgadas, e mais a sul.

Hereditárias de sol,
elas desabrocham, as palavras,
um doce fruto escorrendo pela voz,
o rumor leve, adolescente,

o lento fiar do vento
nas suas conchas naufragadas. 


João de Mancelos

.


23.8.17

João de Mancelos (Ars poetica)





ARS POETICA



os pequenos incidentes dos dias
não são mais do que dobras e vincos.

poema a poema, passo a alma a ferro. 



João de Mancelos

.

5.8.17

João de Mancelos (Depois do amor)





DEPOIS DO AMOR



às vezes, depois do amor,
quando feras dóceis rondam o nosso sono,
e afastam os passos dos teus amantes,

às vezes, quando me encosto à nudez,
exausto, e tomo o peso às tuas palavras,
e fico sempre devedor,

às vezes, quando me inventas um nome
para que a madrugada chegue
e eu não tenha de morrer nunca mais,

às vezes, penso no deus que te perdeu,
beijo-o e choro, às escondidas,
por ele.


João de Mancelos



 >>  João de Mancelos (tudo+algo)

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