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21.2.11

Alberto de Serpa (Recreio)





RECREIO



Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
As crianças confraternizam com a alegria das aves...


A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
- Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...


As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.


Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
A vida que vai chegando despercebida e breve...


E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes...



Alberto de Serpa




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18.11.10

Alberto de Serpa (Interior)






INTERIOR




Uma névoa densa do fumo dos cigarros.
As carambolas regulares no bilhar de pano desbotado e gasto.
O bater do dominó nos mármores fendidos.
O tinir dos copos esvaziados sem prazer.
Um fado, mais reles pelo cansaço do rádio,
pára nos ouvidos e não chega às almas...


O Senhor Conde arruinado conta as suas aventuras de Lisboa
numa voz arrastada de velhice e saudade,
uma luz a brilhar no fundo dos olhos mortiços...
Nas caras espantadas dos moços atentos
há um rubor de sentidos excitados...
Um schiu, às vezes, impaciente e áspero...


A um canto, onde se vão juntar todas as sombras,
um homem olha em frente, alheado, sem ver...
Um copo em meio, esquecido...
Os olhos fecham-se, feridos pelo fumo, pela luz,
e os corpos encolhem-se friorentos, cansados...


Alberto de Serpa


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3.10.10

Alberto de Serpa (Calor)





CALOR




O sol a prumo sobre a praça parada...


As janelas têm as portadas fechadas à quentura.
Dentro das casas a vida está suspensa.


À sombra abafada de uma árvore,
um cão vagabundo dormita estendido,
e garotos brincam pacíficos e silenciosos.


Detrás dos balcões das casas comerciais,
os caixeiros bocejam e enxotam as moscas,
enquanto os patrões lêem os jornais e bocejam,
passando os lenços pelas frontes suadas.


Na torre da igreja, o relógio atrasado
dá uma hora vaga que ninguém espera...


A água cai do chafariz inútil...



Alberto de Serpa

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29.8.10

Alberto de Serpa (Tédio)






TÉDIO




Há instantes tão longos,
há horas tão monótonas,
há dias tão pesados,
que perdoamos à vida
só porque vai passando...


Alberto de Serpa




>>  As Tormentas (5p)  /  Infopedia



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