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3.1.22

Miguel Torga (Instante)




INSTANTE

 

A cena é muda e breve:
Num lameiro,
um cordeiro
a pastar ao de leve;
Embevecida,
a mãe ovelha deixa de remoer;
E a vida
pára também, a ver.
 

Miguel Torga

 .

18.8.21

Miguel Torga (S. Leonardo da Galafura)




S. LEONARDO DA GALAFURA

 

À proa dum navio de penedos,
a navegar num doce mar de mosto,
capitão no seu posto
de comando,
S. Leonardo vai sulcando
as ondas
da eternidade,
sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
é num antecipado desengano
que ruma em direcção ao cais divino. 

Lá não terá socalcos
nem vinhedos
na menina dos olhos deslumbrados;
Doiros desaguados
serão charcos de luz
envelhecida;
rasos, todos os montes
deixarão prolongar os horizontes
até onde se extinga a cor da vida.

Por isso, é devagar que se aproxima
da bem-aventurança.
É lentamente que o rabelo avança
debaixo dos seus pés de marinheiro.
E cada hora a mais que gasta no caminho
é um sorvo a mais de cheiro
a terra e a rosmaninho!


Miguel Torga

 .


10.1.19

Miguel Torga (Adeus)




ADEUS


É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...
Agora,
o remédio é partir discretamente,
sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
contra o destino?
Cego assassino
a que nenhum poder
limita a crueldade,
só o pode vencer a humanidade
da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
consumada,
um poema de líquido pudor,
um sorriso de amor,
e mais nada.


Miguel Torga

[Cómo cantaba mayo]


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28.6.13

Miguel Torga (Panorama)





PANORAMA



Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!
De cada ponto cardeal assoma
A mesma expressão muda.
É de agora ou de sempre esta paisagem
Sem palavras
Sem gritos,
Sem o eco sequer de uma praga incontida?
Ah! Portugal calado!
Ah! povo amordaçado
Por não sei que mordaça consentida!


Miguel Torga


[Fel de cão]

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24.10.12

Miguel Torga (Comunicado)





COMUNICADO



Na frente ocidental nada de novo.
O povo
Continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
Geme e trabalha
Até cair.


Miguel Torga



[O meu instante]


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2.3.11

Miguel Torga (Pátria)





PÁTRIA




Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou


Hoje sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.



Miguel Torga

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18.8.09

Miguel Torga (Dies irae)








DIES IRAE





Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.



Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.



Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.



Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!



Miguel Torga


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3.2.09

Miguel Torga (Mãe)









MÃE





Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?



Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.



Chamo aos gritos por ti - não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto - sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.



Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!



MIGUEL TORGA
Diário, IV
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18.9.08

Miguel Torga (A um negrilho)












A UM NEGRILHO






Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.




Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!





Miguel Torga


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6.5.08

Miguel Torga (Um véu gelado de desdém)





(Um véu gelado de desdém...)
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De um lado e doutro, nas vinhas, os ranchos de vindimadores interrompiam o trabalho e os descantes, e ficavam descobertos e silenciosos a homenagear a morte que passava.
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Apesar do sol aberto que cobria tudo, era ela, afinal, a grande rainha da terra.
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Do caixão branco, solene e fechado, a sua sombra invisível mas pesada estendia-se sobre as encostas como um véu gelado de desdém.
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O sonho impenitente das rogas trazia dos altos o colorido frémito das romarias e dos arraiais.
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Mas a gravidade daquela asa negra, a arrastar para o limbo do esquecimento as ilusões e as desilusões, é que fascinava verdadeiramente as almas.



- MIGUEL TORGA, Vindima, LII, in medio.
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23.4.08

Miguel Torga (Toupeiras)





Animados da mesma violência, vinham à tona o ódio, o amor e a compaixão.
Toscos e limitados às paredes do seu pequeno mundo, sem cultura e sem horizontes, arrancavam da alma, indiscriminadamente, pedras preciosas e seixos.
Instintivos e contraditórios, estavam longe ainda de acertar o passo das paixões no caminho da livre dignidade que de longe lhes acenava.
Animais domesticados há muitos mil anos, tomavam por condição um jugo que um gesto quebraria.
O senhor tinha-lhes desonrado as mulheres no passado, e agora podiam-no esbofetear e defender a honra.
Mas não eram capazes de alargar a todos os recantos da sujeição as conquistas que faziam.
Toupeiras acostumadas à escuridão, postas à luz do sol, só muito devagar conseguiam abrir os olhos e ver.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XLIX, in medio.


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10.4.08

Miguel Torga (Bambas e destravadas)





(Bambas e destravadas...)




E voltava à certeza anterior.

Infelizmente, as pálpebras, desanimadas das miragens sucessivas, recusavam-se a permanecer abertas.

Semelhantes a janelas de guilhotina, bambas e destravadas nas corrediças, mal se descuidava, fechavam-se obstinadas.

Num arrepio tímido, o resto do corpo acompanhava aquele desertar, e pedia em todas as posições o repouso da enxerga habitual.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XXXIV, in medio.

28.3.08

Miguel Torga (Depois de ceia)


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(Depois da ceia...)
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Depois da ceia, o pessoal, extenuado, esfarrapado e imundo, cabeceava pelos cantos, ainda à espera de mais trabalho.
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Ganho o dia aos cestos, era preciso ganhar a noite no lagar, num chouto que a princípio dava gosto e alegria, e se prolongava numa tortura desesperante.
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O sono parava os nervos e os músculos, e a vontade tinha de protestar, de combater, de movimentar à sobreposse as articulações, mais perras que dobradiças enferrujadas.
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Ás tantas, erguer uma perna tornava-se um sacrifício.
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O resto do corpo quase que desanimava perante a obstinada renúncia daquela parcela amortecida, inerte e pesada na espessura do mosto.
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Mas tudo na vida acaba, e a penitência não fugia à regra.
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Medida no relógio do Jacinto, com rigor de quem pesa oiro, a hora almejada de despegar chegava finalmente.
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E, num automatismo resignado, lá iam procurar na palha forças para o dia seguinte.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XXXIV, princípio.
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18.3.08

Miguel Torga (Dezoito asas rumorosas)






(Dezoito asas rumorosas...)
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O primeiro bando de perdizes roncou, e tirou-lhe duas.

No meio do silêncio contido, que a cada momento ameaçava romper-se, o cão parado, a espingarda em meia pontaria, os pés fincados no chão mas tensos como molas, uma gota misteriosa caiu no copo e fê-lo transbordar.

Dezoito asas rumorosas ergueram-se do carqueijal, o Nilo saltou, os tiros partiram, e resultou daquela explosão de força o aniquilamento inevitável de dois seres.

Tudo certo e perfeito.

O catastrófico, o absurdo, fora a continuação da inércia.

A verdadeira morte seria a vida parada, cada respiração a encolher-se, cautelosa.

Assim é que o caçador se sentiria criminoso, o perdigueiro fera, as perdizes vítimas.



- MIGUEL TORGA, Vindima, XIV, princípio.
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1.3.08

Miguel Torga (Um trilo de flauta)






(Um trilo de flauta...)




Um trilo de flauta, débil e puro, chegou-lhe então do alto, num prelúdio. Impreciso e tímido, hesitava como se receasse saltar os valeiros.

Que gelo vinha do passado, e que doce calor havia naquela hora! A mãe, seca e convencional; o pai, irrascível e grosseiro; o irmão, desconsolado e bisonho. Neste areal, ela, a crescer desiludida. E de repente o deserto transfigurava-se, e os sentidos descobriam nele, repassada de frescura, uma planície de promissão!

Sem pensar que ia colhê-lo, caminhou hipnotizada ao encontro do som.

Vazio de ternura e amor, o corpo pedia-lhe a sua parte no banquete do mundo; a intimidade duma presença querida, o aconchego dum lar feliz…

Alta e acariciadora, a voz da flauta chamava.


- MIGUEL TORGA, Vindima, XIII, in medio.


19.2.08

Miguel Torga (Dormiam como lages)






No retalho da encosta vindimada o luar avolumava a tristeza das videiras sem uvas.

As vides erguiam para o céu as varas vazias, desfolhadas, como num protesto.

A terra pisada e babada de sumo tinha também um ar violado e descomposto.

Ao lado do talhão que se seguia, inteiro, túmido e fechado, quase todo de bastardo com bagos unidos e perfumados, o que fora colhido parecia um bocado maldito do mundo, por onde a desgraça passara.

À medida que as navalhas avançavam, as vinhas iam perdendo a graça, a força e a virgindade.

E com esta desolação morria também um pouco da alegria dos vindimadores, que chegavam da Montanha sem sono, a cantar e a dançar, e que agora dormiam como lajes.



- MIGUEL TORGA, Vindima, VI, princípio.
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4.2.08

Miguel Torga (Sagres)





Sagres é hoje um ímpeto parado, a seta indicadora dum rumo perdido, real e simbolicamente.

Lugar dum sentido histórico perpetuado pela fatalidade da duração natural, fragão áspero onde a vida não se resigna a renunciar, ali está, retesado num gesto inútil e pertinaz, envolto num burel de cardos, cilícios com que a si próprio se macera.



- MIGUEL TORGA, Portugal (Sagres).
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24.1.08

Miguel Torga (Algarve)






O Algarve, para mim, é sempre um dia de férias na pátria.

Dentro dele nunca me considero obrigado a nenhum civismo, a nenhuma congeminação telúrica nem humana.

Debruço-me a uma varanda de Alportel e apetece-me tudo menos ser responsável e ético.

As coisas de Trás-os-Montes tocam-me muito no cerne para eu poder esquecer a solidariedade que devo a quem sofre e a quem sua.

E isto repete-se com maior ou menor força no resto de Portugal.

Mas, passado o Caldeirão, é como se me tirassem uma carga dos ombros.

Sinto-me livre, aliviado e contente, eu que sou a tristeza em pessoa!

A brancura dos corpos e das almas, a limpeza das casas e das ruas, e a harmonia dos seres e da paisagem lavam-me da fuligem que se me agarrou aos ossos e clarificam as courelas encardidas que trago no coração.

No fundo, e à semelhança dos nossos primeiros reis, que se intitulavam senhores de Portugal e dos Algarves, separando sabiamente nos seus títulos o que era centrípeto do que era centrífugo no todo da Nação, não me vejo verdadeiramente dentro da pátria.

Também me não vejo fora dela.

Julgo-me numa espécie de limbo da imaginação, onde tudo é fácil, belo e primaveril.



- MIGUEL TORGA, Portugal (O Algarve).

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12.1.08

Miguel Torga (Lisboa)





Lisboa é bonita.

Está ainda para nascer o primeiro insensível que no alto de Santa Catarina não arregale os olhos de espanto diante da formosura dum panorama que a natureza se não gaba de ter repetido.

Entre a investida castelhana do Doiro, em cima, e o esquivo namoro andaluz do Guadiana, em baixo, Portugal merecia a visita calma e demorada dum grande curso de água, que sem a ajuda de noras lhe matasse a sede e, sem leixões, fosse um porto de abrigo.

A secura do corpo pedia refrigério; a agressão do oceano, protecção das vagas.

Quis a sorte que assim fosse e o Tejo abrisse no calcário estremenho um estuário largo e majestoso, fundo e aconchegado que, depois de magoar os montes, os transformasse em miradoiros de sonho.

E de cada colina onde a gente se debruça é um pasmo sem limitações que abrange o céu e a terra na mesma agradecida emoção.

Sobre a toalha límpida do rio cai luz a jorros duma lâmpada hialina, escondida no tecto azul do cenário; e o movimento ritmado das embarcações, o perfil recortado do casario e o enquadramento dos longes arredondam a beleza da tela, dando-lhe realidade.

E, quer queira, quer não, o espírito fica rendido a uma bênção de cor, de grandeza e de harmonia



- MIGUEL TORGA, Portugal (Lisboa).