29.7.08

Eliseo Diego (Calma)










Silêncio-1 (Eugénio A.)


Silêncio-2 (M.Quintana)


Silêncio-3 (Andrés Eloy)


Silêncio-4 (A.Mattos)


Silêncio-5 (David M.F.)



Silêncio-7 (M.Quintana)






CALMA




Este silencio,
blanco, ilimitado,
este silencio
del mar tranquilo, inmóvil,



que de pronto
rompen los leves caracoles
por un impulso de la brisa,



Se extiende acaso
de la tarde a la noche, se remansa
tal vez por la arenilla
de fuego,



la infinita
playa desierta,
de manera



que no acaba,
quizás,
este silencio,



nunca?




Eliseo Diego


.

.

.

27.7.08

W. C. Williams (Retrato proletário)







RETRATO PROLETÁRIO




Uma mulher alta e jovem
de avental


Está parada na rua com o cabelo
apanhado


Com um pé descalço a tocar
no passeio


Tem um sapato na mão. Observa-o
com cuidado


E tira-lhe a palmilha
para encontrar


O prego que a magoa



W. C. Williams


.

24.7.08

David Mourão-Ferreira (Nada garante)






Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas

.

.

.

Fontes: Poesias e Prosas (9p) / Lídia Aparício (18p) / As Tormentas (53p) / Inst.Camões (perfil - Teresa Martins Marques)




Antes, aqui: Pele / Nós temos cinco sentidos / Silêncio

.

.

.

Coitado do Jorge (46)










O DILEMA DO REFORMADO








As reformadas não são novas.
E as novas não são reformadas…

.

.

Olhar (29)








Coimbra

.

.

21.7.08

Luis Alberto de Cuenca (Livros)






LIBROS





Que sería de mí sin vosotros,
tiranos y, a la vez, embajadores
de la imaginación,
verdugos del deseo
y, al mismo tiempo, mensajeros suyos,
libros llenos de cosas deplorables
y de cosas sublimes,
a los que odiar
o por los que morir.



Luis Alberto de Cuenca


Fonte: Cervantes






Que seria de mim sem vós,
tiranos e, também, embaixadores
da imaginação,
verdugos do desejo
e, a um tempo, mensageiros dele,
livros cheios de coisas deploráveis
e sublimes,
para vos odiar
ou morrer por vós.


(Trad. A.M.)
.
.

19.7.08

Raul Brandão (Há outras existências)






(Há outras existências...)



Fugimos para longe e passámos as noites, as infinitas noites de Inverno em que chove sempre, à beira do lume, eu calado a escrever, tu calada a olhar para mim.

Solidão tão pesada que eu distinguia o remexer dos bichos inteiriçados de frio, que vivem nos buracos das paredes e que se revolviam no fundo dos ninhos, para caírem logo no torpor invernal - e o caminhar da raiz da árvore que plantei e que sob o chão teima em se aproximar de nós.

Foi nesse silêncio que a minha alma se criou.

Foi esse silêncio que nos uniu indestrutivelmente.

No corredor escuro onde entrei e onde tacteio como um cego, fazendo alguns riscos a carvão nas paredes, encontrei a tua mão que me ampara e nunca mais a larguei.

Aprendi que há outras existências, as dos humildes, maiores que a nossa.

E vi Deus.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, II, Dez. 1924.

.

António Reis (Mudamos esta noite)










MUDAMOS ESTA NOITE





Mudamos esta noite



E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões



onde levar as plantas



e como disfarçar os móveis velhos



Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam



e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem



Vai descendo tu



Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias





ANTÓNIO REIS
Poemas Quotidianos
Portugália (col. «Poetas de Hoje»)
Lisboa, 1967

.
.
.
.
.

16.7.08

Alberto Pimenta (Balada do f.p.-1)







BALADA DO FILHO DA PUTA - 1




I


o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.


no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.


de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.


o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.


no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.


todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.


é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.


de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.



Alberto Pimenta




Mário Quintana (Canção de vidro)










Silêncio-1 (Eugénio A.)

Silêncio-2 (M.Quintana)

Silêncio-3 (AndrésEloy)

Silêncio-4 (A.Mattos)

Silêncio-5 (David M.F.)

.
.
.
.
.
CANÇÃO DE VIDRO
.
.
.


E nada vibrou...
Não se ouviu nada...
Nada...
.
.
Mas o cristal nunca mais deu o mesmo som.
.
.
Cala, amigo...
Cuidado, amiga...
Uma palavra só
Pode tudo perder para sempre...
.
.
E é tão puro o silêncio agora!


.
.

Mário Quintana
.
.

14.7.08

Olhar (28)









A caminho

da Bretanha

.

(França)

.

.

Nuno Júdice (Portugal)










País -1 (Jorge de Sena)

País -2 (A. O'Neill)

País -3 (Jorge de Sena)

País -4 (A. O'Neill)

País -5 (Ruy Belo)

País -6 (M. Alegre)

País -6 (N. Júdice)







PORTUGAL





Deita-se com a cabeceira
voltada para o norte e os pés a mergulharem
no atlântico. Em cima, a cabeça sonha com
as brumas que invadem os vales, no Outono,
e os olhos iluminam-se quando o amarelo
das flores invade o cume dos montes, no fim
da primavera. Como um cinto, o Tejo prende-
-o a essa cama estreita; e olha
o mar, deixando que as ondas o despertem,
por instantes, do sono antigo. De-
pois, vira-se para o outro lado, como se
não quisesse adormecer de nevoeiros matinais; e
volta a adormecer, enquanto o sol
agoniza no horizonte.




Nuno Júdice








11.7.08

Clarice Lispector (Dá-me a tua mão)







DÁ-ME A TUA MÃO




Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.


De como entrei naquilo que existe
entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.


Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia
por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
— nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.



Clarice Lispector




Fontes: Sítio oficial (tudo+algo) / Klick Escritores (bio+biblio+antologia) / Casa do Bruxo (25p) / Jornal de Poesia (9p+bio) / Releituras (bio+biblio+prosas) / Vidas Lusófonas (perfil) / Jornal de Poesia: mostra que o que passa por 'poesia' de C.L., na verdade, é 'prosa' da mesma, intervencionada por terceiros




Antes, aqui: Mas há a vida

.

9.7.08

Adília Lopes (Clarice Lispector)











Clarice Lispector,
a senhora não devia
ter-se esquecido
de dar de comer aos peixes
andar entretida
a escrever um texto
não é desculpa
entre um peixe vivo
e um texto
escolhe-se sempre o peixe
vão-se os textos
fiquem os peixes
como disse Santo António
aos textos.



Adília Lopes




Fonte: Prosa Caótica

.

.

Raul Brandão (O resto não vale nada)





(O resto não vale nada…)



Sem mo dizeres, compreendi que a nossa vida é, principalmente, a vida dos outros…

Melhor, compreendi que a ternura era o melhor da vida.

O resto não vale nada.

Não é por a esmola da velha do Evangelho ser dada com sacrifício que é mais aceita no céu que o oiro do rico - é por ser dada com ternura.

O importante é a comunicação de alma para alma.

A mão que aperta a nossa mão, o olhar húmido que procura o nosso olhar, o sorriso que nos acolhe, desvendam-nos o mundo.



- RAUL BRANDÃO, Memórias, II, Dez. 1924.



Corpo presente (38)






Silêncio-1 (Eugénio A.)

Silêncio-2 (M.Quintana)

Silêncio-3 (AndrésEloy)

Silêncio-4 (A.Mattos)
.
Silêncio-5 (David M.F.)
.
.
.
.
.
.
.
SILÊNCIO






É com o teu silêncio, amiga, que dialogo,
batendo bolas contra esse muro branco


.
.

7.7.08

Pedro Mexia (As fotografias)







AS FOTOGRAFIAS





As fotografias precedem a memória,
são a realidade parada de luz.
As fotografias evoluem como os olhos,
entre reformulações e malogros.
As fotografias não amarelecem, queimam,
não se enchem de pó mas de granizo.
As fotografias duram mais que a memória,
mas não muito mais.





PEDRO MEXIA
Em Memória (2000)



.

.

4.7.08

Alexandre O´Neill (Amigo)








AMIGO

.
.


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!


Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,


Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!


Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!


Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.


Amigo é a solidão derrotada!


Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!


.

ALEXANDRE O'NEILL
No Reino da Dinamarca (1958)
.
.

.
.

2.7.08

Eliseo Diego (Testamento)








TESTAMENTO





Habiendo llegado al tiempo en
que la penumbra ya no me consuela más
y me apocan los presagios pequeños;

habiendo llegado a este tiempo;



y como las heces del café
abren de pronto ahora para mí
sus redondas bocas amargas;

habiendo llegado a este tiempo;



y perdida ya toda esperanza de
algún merecido ascenso, de
ver el manar sereno de la sombra;

y no poseyendo más que este tiempo;



no poseyendo más, en fin,
que mi memoria de las noches y
su vibrante delicadeza enorme;



no poseyendo más
entre cielo y tierra que
mi memoria, que este tiempo;

decido hacer mi testamento.



Es este:
les dejo el tiempo,
todo el tiempo.



Eliseo Diego




Fontes: Palabra virtual (20p) / António Miranda (4p) / Los Poetas (bio+14p) / Cubaliteraria (11p+biblio+galeria+prosa) /A media voz (15p)

.
.
.

Olhar (27)









Santa Maria

(Açores)

.

.

Coitado do Jorge (45)







A INFIEL JARDINEIRA-2





Shit, ela enganava-me...
Até com o marido!



.