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19.10.12

Almeida Garrett (Frades)






Frades... frades... Eu não gosto de frades.

Como nós os vimos ainda os deste século, como nós os entendemos hoje, não gosto deles, não os quero para nada, moral e socialmente falando.

No ponto de vista artístico, porém, o frade faz muita falta.

Nas cidades, aquelas figuras graves e sérias com os seus hábitos talares, quase todos pitorescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europeia — cortavam a monotonia do ridículo e davam fisionomia à população.

Nos campos o efeito era ainda muito maior: eles caracterizavam a paisagem, poetizavam a situação mais prosaica de monte ou de vale; e tão necessárias, tão obrigadas figuras eram em muitos desses quadros, que sem elas o painel não é já o mesmo.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XIII.

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7.10.12

Almeida Garrett (Chamava-se Georgina)





E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ela; que os longos e ondados anéis de loiro cendrado, que os lânguidos olhos de gazela, que o ar majestoso e altivo, que a tez de uma alvura celeste, que o espírito, o talento, a delicadeza de Georgina...

Chamava-se Georgina; e é tudo quanto por agora pode dizer-vos, ó curiosas leitoras, o discreto historiador deste mui verídico sucesso: não lhe pergunteis mais, por quem sois.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XXII.

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25.9.12

Almeida Garrett (Mas basta de vale)






Mas basta de vale, que é tarde.  

Oh lá! venham as mulinhas e montemos.  

Picar para Santarém, que no ínclito alcácer de el-rei D. Afonso Henriques nos espera um bom jantar de amigo — e não é só a vaca e riso de Fr. Bartolomeu dos Mártires, mas um verdadeiro jantar de amigo, muito menos austero e muito mais risonho.

 — «Porquê? já se acabou a história de Carlos e de Joaninha?» diz talvez a amável leitora. 

— «Não, minha senhora» responde o autor mui lisonjeado da pergunta: «não, minha senhora, a história não acabou, quase se pode dizer que ainda ela agora começa: mas houve mutação de cena. Vamos a Santarém, que lá se passa o segundo acto.»
 

 
- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XXVI.

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16.9.12

Almeida Garrett (Outra casta de capítulo)





Aí parámos, e acordei eu.

Sou sujeito a estas distracções, a este sonhar acordado.

Que lhe hei-de eu fazer?

Andando, escrevendo, sonho e ando, sonho e falo, sonho e escrevo.

Francamente me confesso de sonâmbulo, de soníloquo, de...

Não, fica melhor com seu ar de grego (hoje tenho a bossa helénica num estado de tumescência pasmosa!); digamos sonílogo, sonígrafo...

A minha opinião sincera e conscienciosa é que o leitor deve saltar estas folhas, e passar ao capítulo seguinte, que é outra casta de capítulo.



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, IV.

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4.9.12

Almeida Garrett (Mais dez anos de barões)





Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar por melhor tempo, apesar desta paralisia que lhe pasma a vida da alma na mais nobre parte de seu corpo.

Mas uma nação pequena, é impossível; há-de morrer.

Mais dez anos de barões e de regímen da matéria, e infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do espírito.

Creio isto firmemente.

Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o povo povo está são: os corruptos somos nós os que cuidamos saber e ignoramos tudo.



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XLII.

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23.8.12

Almeida Garrett (Bela e vasta planície)





Bela e vasta planície!

Desafogada dos raios do Sol, como ela se desenha aí no horizonte tão suavemente! que delicioso aroma selvagem que exalam estas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que resistem verdes e viçosas a um sol português de Julho!

A doçura que mete na alma a vista refrigerante de uma jovem seara do Ribatejo nos primeiros dias de Abril, ondulando lascivamente com a brisa temperada da Primavera, — a amenidade bucólica de um campo minhoto de milho, à hora da rega, por meados de Agosto, a ver-se-lhe pular os caules com a água que lhe anda por pé, e à roda as carvalheiras classicamente desposadas com a vide coberta de racimos pretos.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, VIII.

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11.8.12

Almeida Garrett (Um governo de patuscos)





Já saudámos Alhandra, a toireira; Vila Franca, a que foi de Xira, e depois da Restauração, e depois outra vez de Xira, quando a tal restauração caiu, como a todas as restaurações sempre sucede e há-de suceder, em ódio e execração tal que nem uma pobre vila a quis para sobrenome.

— «A questão não era de restaurar nem de não restaurar, mas de se livrar a gente de um governo de patuscos, que é o mais odioso e engulhoso dos governos possíveis.»



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, I.



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30.7.12

Almeida Garrett (O vale de Santarém)






Benévolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciência, um resto de consciência: acabemos com estas digressões e perenais divagações minhas.

Bem vejo que te deixei parado à minha espera no meio da ponte da Asseca.

Perdoa-me por quem és, demos de espora às mulinhas, e vamos que são horas.

Cá estamos num dos mais lindos e deliciosos sítios da terra: o vale de Santarém, pátria dos rouxinóis e das madressilvas, cinta de faias belas e de loureiros viçosos.

Disto é que não tem Paris, nem França nem terra alguma do Ocidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.


- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, IX.

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18.7.12

Almeida Garrett (Tenho mais que fazer)






Isto pensava, isto escrevo; isto tinha na alma, isto vai no papel: que doutro modo não sei escrever.

Muito me pesa, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas VIAGENS, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver nesse título, mas que eu não fiz decerto.

Querias talvez que te contasse, marco a marco, as léguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e as larguras dos edifícios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resumisse a história de cada pedra, de cada ruína?

Vai-te ao padre Vasconcelos; e quanto há de Santarém, peta e verdade, aí o acharás em amplo fólio e gorda letra: eu não sei compor desses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, XXIX.

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12.7.12

Almeida Garrett (A nação mais feliz)





E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já deve de andar orçado o número de almas que é preciso vender ao Diabo, o número de corpos que se têm de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro — seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Logo a nação mais feliz não é a mais rica.




- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, III.

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6.7.12

Almeida Garrett (Uma obra-prima)





Estas minhas interessantes viagens hão-de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século.

Preciso de o dizer ao leitor, para que ele esteja prevenido; não cuide que são quaisquer dessas rabiscaduras da moda que, com o título de Impressões de Viagem, ou outro que tal, fatigam as imprensas da Europa sem nenhum proveito da ciência e do adiantamento da espécie.



- ALMEIDA GARRETT, Viagens na minha terra, II.

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