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29.8.19

Jorge Sousa Braga (O poema do cortador de relva)





O POEMA DO CORTADOR DE RELVA



Lê-me disse ela o poema do
cortador de relva mas eu já

me esquecera do poema
apenas que era de manhã

havia um rasto de erva cortada
de fresco e o cortador de relva

eléctrico no meio do jardim sem que
ninguém conseguisse explicar

como fora ele lá parar


Jorge Sousa Braga

[Bibliotecario de Babel]

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20.12.17

Jorge Sousa Braga (O Novíssimo Testamento)





O NOVÍSSIMO TESTAMENTO


            para acabar de vez com os direitos humanos
            e restaurar os direitos divinos


Escrevi este testamento com sangue
de galinha
eu que não esqueço nunca a minha condição de pilha-galinhas
condenado a viver num galinheiro povoado de fantasmas de
      galinhas-da-índia patos perus gansos garnizés
e a cacarejar pela noite fora
sem que um só galo da vizinhança me responda
nem os galos dos cata-ventos
- quando o galo cantar renegar-me-ás três vezes quando o galo
      cantar -
Quando era criança antes de matar uma galinha
a minha mãe pedia-me para lhe prender as pernas e as asas
eu metia as mãos por debaixo da saia e prendia-lhe as asas e as
      pernas com todas as minhas forças
O sangue jorrava da sua cabeça para uma malga com vinagre
e ficava depois muito tempo ainda a espernear no alguidar
o pequeno olho muito aberto...
Os meus sonhos estão cheios de cabeças de galinha
ainda escorrendo sangue
de milhões de asas de milhões de patas de galinha de milhões
       de ovos
Quem vai bater esta gigantesca omeleta de ovos
na frigideira celeste?
A minha alma é uma pequena alma entre biliões de outras almas
Que tamanho tem a alma dum mosquito?
Proclamo a minha solidariedade com todos os biliões de frangos
       do planeta
que tentam em vão escapar à máquina de depenar eléctrica
com todos os carneiros cabras ovelhas avestruzes
- Eu sou um cordeiro inocente que se perdeu do pastor
e não sabe senão balir -
com todas as vacas
condenadas a comer rações impróprias e a um orgasmo gelado
No silêncio dos estábulos elas preparam a sua vingança
enquanto sonham com um prado verde de gramíneas
- e essa vingança será terrível -
Este é um testamento escrito com o sangue
do último dos genocídios
- e esse sangue é da cor do alcatrão -
tendo como testemunhas apenas as duas metades
do meu coração


Jorge Sousa Braga



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2.4.17

Jorge Sousa Braga (Epístola sobre a merda)





EPISTOLA SOBRE A MERDA



As retretes transformadas em santuários:
eis a minha obsessão

A merda é uma boa causa
Demasiado boa
para que alguém lute por ela

Só é poeta aquele que
é capaz de comer as próprias fezes
A merda é a única coisa
que não se pode conspurcar



Jorge Sousa Braga

[Citizen Grave]

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27.9.16

Jorge Sousa Braga (Carta de amor-1981)





CARTA DE AMOR (1981)

            A Eugénio de Andrade



Eugénio de Andrade
Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e ...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração.



Jorge Sousa Braga



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10.6.16

Jorge Sousa Braga (Mimosas)





MIMOSAS




Todos os anos na mesma altura
a montanha veste o mesmo vestido amarelo
para ver se ainda lhe serve na cintura.


Jorge Sousa Braga

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28.2.16

Jorge Sousa Braga (Nos semáforos da rua de Santa Catarina)






NOS SEMÁFOROS DA RUA DE SANTA CATARINA




Ao menos os teus olhos
permanecem verdes
todo o ano



Jorge Sousa Braga



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23.10.15

Jorge Sousa Braga (Segredos)





SEGREDOS



Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
- Tão quente tão quente
esse verão


Jorge Sousa Braga

[Pátria pequena]

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25.3.15

Jorge Sousa Braga (De novo o silêncio)





DE NOVO O SILÊNCIO



O silêncio é como se fosse água.
Daquela água pura da montanha
que se bebe directamente
pelo coração.


Jorge Sousa Braga

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21.11.14

Jorge Sousa Braga (O guarda-rios)





O GUARDA-RIOS



É tão difícil guardar um rio
quando ele corre
dentro de nós.


Jorge Sousa Braga

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12.5.14

Jorge Sousa Braga (Poema de amor)





POEMA DE AMOR



Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
te coubesse no dedo.

Jorge Sousa Braga



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