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31.1.17

Bertolt Brecht (Sobre o significado da décima)





SOBRE O SIGNIFICADO DA DÉCIMA
DO NÚMERO 888 DA FACKEL
(OUTUBRO 1933)



Depois de fundado o Terceiro Reich,
Só uma breve mensagem chegou do eloquente.
Num poema com dez versos
A voz dele ergueu‑se, para lastimar sem mais
Não ter força bastante.
Quando os horrores atingem certa dimensão,
Os exemplos esgotam‑se.
As malfeitorias multiplicam‑se
E os gritos de dor calam‑se.
Saem insolentes os crimes para a rua
E escarnecem alto da descrição.
Ao que está a ser estrangulado
Ficam as palavras presas na garganta.
Espalha‑se o silêncio e, visto de longe,
Semelha assentimento.
O triunfo da força
Parece consumado.
Já só os corpos mutilados
Dão notícia de que ali campearam criminosos.
Sobre as casas arrasadas já só o silêncio
Denuncia o crime.
Terminou pois o combate?
Pode o crime ser esquecido?
Pode enterrar‑se os assassinados e amordaçar‑se as testemunhas?
Pode a injustiça ganhar, mesmo sendo a injustiça?
O crime pode ser esquecido.
Os assassinados podem ser enterrados e as testemunhas, amordaçadas.
A injustiça pode ganhar, mesmo sendo a injustiça.
A opressão senta‑se à mesa e começa a servir‑se
Com as mãos ensanguentadas.
Mas os que carregam com a comida
Não esquecem o peso dos pães; e a fome atormenta‑os
Ainda quando a palavra fome está proibida.
Quem disse fome foi abatido.
Quem gritou opressão foi amordaçado.
Mas os que pagam os juros não esquecem a usura.
Mas os oprimidos não esquecem o pé que lhes pisa o pescoço.
A violência não atingiu ainda o ponto máximo
E já começa de novo a resistência.
Quando o eloquente pediu desculpa
Por a voz lhe falhar,
O silêncio apresentou‑se ante o juiz,
Tirou o lenço do rosto
E deu‑se a conhecer como testemunha.


Bertolt Brecht

(Trad. A.S.Ribeiro)


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19.2.16

Bertolt Brecht (Abetos)





TANNEN



In der Frühe
Sind die Tannen kupfern
So sah ich sie
Vor einem halben Jahrhundert
Vor zwei Weltkriegen
Mit jungen Augen


Bertolt Brecht

[Cómo cantaba mayo]




Manhã cedo
são de cobre os abetos
assim os vi eu
há meio século
antes de duas guerras mundiais
com olhos jovens.

(Trad. A.M.)

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18.4.14

Bertolt Brecht (Contra os objectivos)





CONTRA OS OBJECTIVOS


1

Quando os que combateram a injustiça
Mostram as faces feridas
A impaciência dos que estiveram em segurança é
Grande.

2

Porque vos queixais? - perguntam eles
Combatestes a injustiça! Agora
Foi ela que vos venceu: calai-vos pois.

3

Quem combate, dizem eles, tem de saber perder
Quem busca a luta corre perigo
Quem age com violência
Não se deve queixar da violência.

4

Ai, amigos que estais em segurança,
Por quê tão inimigos? Somos nós
Vossos inimigos, nós que somos inimigos da injustiça?
Se os combatentes contra a injustiça estão vencidos
Nem por isso a injustiça se faz justa!!

5

Pois as nossas derrotas
Nada provam senão
Que somos poucos
Os que combatemos contra a vilania.
E dos espectadores nós esperamos
Que ao menos tenham vergonha!


Bertolt Brecht

(Trad. Paulo Quintela)


[Luz & sombra]

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15.10.12

Bertolt Brecht (Mensagem do poeta)





MENSAGEM DO POETA MORIBUNDO À JUVENTUDE



Vós, gente moça de futuros tempos e de
Novas auroras sobre cidades que
Ainda não foram construídas, também
Vós, não-nascidos, ouvi
A minha voz agora, de mim que morri
E não em glória.
Mas sim
Como um camponês que não amanhou a leira e
Como um carpinteiro que preguiçoso fugiu
Do madeiramento aberto do telhado.


Assim desperdicei
Eu o meu tempo, esbanjei os meus dias e agora
Tenho que pedir-vos
Que digais tudo o que não foi dito
Que façais tudo o que não foi feito
E que me esqueçais depressa, peço-vos, para que
O meu mau exemplo não venha ainda também a perverter-vos.


Ai, para que me sentei eu
À mesa dos estéreis, a comer do banquete
Que eles não tinham cozinhado?
Ai, porque misturei eu
As minhas melhores palavras
Ao seu pairar ocioso? Enquanto lá fora
Andavam os ignorantes
Sequiosos de aprender.


Ai, porque é que
Não se erguem as minhas canções dos lugares onde
As cidades se nutrem, onde se fazem os navios, porque é que
Não sobem elas como fumo
Das locomotivas dos comboios rápidos, fumo
Que fica para trás no céu?


Porque a minha fala
Aos úteis e criadores
Lhes fica na boca como cinza e gaguejar de bêbedo.
Nem uma palavra só
Eu sei para vós, gerações dos tempos futuros
Nem um gesto a apontar com dedo incerto
Vos poderia dar, pois como
Poderia apontar o caminho quem
O não andou!


Assim só me resta, a mim que assim esbanjei
A minha vida, apelar para vós
Pra que não espreiteis nenhum mandamento saído
Da nossa boca ociosa e que não aceiteis
Nenhum conselho daqueles que
Assim falharam, mas que só
Decidais por vós próprios sobre o que
Seja bom para vós e vos
Ajude a amanhar a terra que nós deixámos decair
E a fazer habitáveis as cidades
Que nós empestámos.



Bertolt Brecht

(Trad. Paulo Quintela)


[Ruialme]

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18.1.12

Bertolt Brecht (A emigração dos poetas)






A EMIGRAÇÃO DOS POETAS




Homero não tinha morada
E Dante teve que deixar a sua.
Li-Po e Lu-Tu andaram por guerras civis
Que tragaram 30 milhões de pessoas
Eurípides foi ameaçado com processos
E Shakespeare, moribundo, foi impedido de falar.
Não apenas a Musa, também a polícia
Visitou François Villon.
Conhecido como “o Amado”
Lucrécio foi para o exílio.
Também Heine, e assim também
Brecht, que buscou refúgio
Sob o tecto de palha dinamarquês.


Bertolt Brecht


(Trad. P.C.Souza)



[Antonio Cicero]

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21.6.11

Bertolt Brecht (Aos que vão nascer)





AOS QUE VÃO NASCER




   I

É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranquilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.
   (...)


Bertolt Brecht
(Trad. P.C.Souza)


[Acontecimentos]

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1.6.11

Bertolt Brecht (Hino a Deus)





HINO A DEUS



1
Fundo nos vales escuros morrem os famintos.
Mas tu mostras-lhes pão e deixa-los morrer.
Mas tu reinas eterno e invisível
Resplendente e cruel por sobre o plaino eterno.

2
Deixaste morrer os jovens e os gozadores
Mas os que queriam morrer, não os deixaste...
Muitos dos que agora já apodreceram
Criam em ti e morreram confiantes.

3
Deixaste os pobres serem pobres anos a fio
Porque a sua saudade era mais bela que o teu céu
Morreram infelizmente, antes de tu vires com a tua luz
Morreram eles felizes - e apodreceram logo.

4
Muitos dizem que não existes e que é melhor assim.
Mas como pode não existir o que assim pode enganar?
Quando tantos puderam viver de ti e de outro modo não puderam morrer -
Diz-me: perante isto que quer dizer - que tu não existes?


Bertolt Brecht

(Trad. Paulo Quintela)




[Luz & sombra]

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13.2.11

Bertolt Brecht (Fábula)





FÁBULA



O lobo foi ter
com a galinha
e disse-lhe:


«Devíamos conhecer-nos
melhor para vivermos
com amor e confiança»


A galinha achou bem
e foi com o lobo.


Foi por isso que as suas
penas ficaram espalhadas
por todo o lado.



Bertolt Brecht



[Cravo de Abril]

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1.6.10

Bertolt Brecht (De que serve a bondade)






DE QUE SERVE A BONDADE




1.
De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?


2.
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor:
A faça supérflua!
Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!



Bertolt Brecht

(Trad. Paulo Quintela)

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28.4.09

Bertolt Brecht (Perguntas de um operário letrado)









PERGUNTAS DE UM OPERÁRIO LETRADO







Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
da Lima dourada moravam os seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China, para onde
foram os seus pedreiros? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
só tinha palácios
para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
na noite em que o mar a engoliu
viu afogados gritar por seus escravos.



O jovem Alexandre conquistou as Índias.
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos.
Quem mais a ganhou?



Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?



Tantas histórias
Quantas perguntas





Bertolt Brecht




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21.2.09

Bertolt Brecht (O vosso tanque, General)

............. ........ ........ (O vosso tanque, General)









O vosso tanque, General, é um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista.



O vosso bombardeiro, General,
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.



O homem, meu General, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar.




Bertolt Brecht



[As Tormentas]




19.1.09

Bertolt Brecht (Elogio da dialéctica)










ELOGIO DA DIALÉCTICA





A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração
Isto é apenas o meu começo



Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos



Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã



Bertolt Brecht




[As Tormentas]


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26.8.08

Bertolt Brecht (Há homens que lutam um dia)











Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis




Bertolt Brecht




Fonte: As Tormentas
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16.3.08

Bertolt Brecht (Do rio)






Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem



Bertolt Brecht







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10.5.07

Bertolt Brecht (Dificuldade de governar)






DIFICULDADE DE GOVERNAR




1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
como é difícil governar. Sem os ministros
o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
ele nasceria por certo fora do lugar.



2

É também difícil, ao que nos é dito,
dirigir uma fábrica. Sem o patrão
as paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
ele nunca chegaria ao campo sem
as palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
de outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.



3

Se governar fosse fácil
não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
e se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
É só porque toda a gente é tão estúpida
que há necessidade de alguns tão inteligentes.



4

Ou será que
governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
são coisas que custam a aprender?




Bertolt Brecht
(Trad. Arnaldo Saraiva)
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Consultar: Ibidem (bio+poemas+linques) / International Brecht Society / Cultura-Brasil (Antologia-54p)
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