29.9.26

Billy Collins (Surpresa)

 



SURPRESA 

 

É 
- de acordo com a voz na rádio,
o apresentador de um programa de música clássica, nada menos -
é o aniversário de Vivaldi. 

Faria hoje 325 anos, bastante curvado, imagino,
e incapaz de ver bem com os seus olhos lacrimejantes. 

Seguramente já surdo, 
a roupa a desfazer-se, 
o cabelo lamentavelmente ralo. 

Mas, em todo o caso, daríamos uma festa em sua honra,
uma festa surpresa onde todos
nos escondêssemos atrás dos móveis para ouvir 

os toques da sua bengala no pavimento
e a sua tosse seca e persistente.
 

Billy Collins 
 

(Trad. fjcc)

.

27.9.26

Abelardo Rodríguez (Caminho do homem)

 



Caminho do homem
                              é a esperança,
e a esperança
é mentira que criamos para ir,
para fazer mais doce a Tragédia.
Nada
e Nada
são os extremos,
e Morte
a única
palavra.

 

ABELARDO RODRÍGUEZ
Maradentro
(Poesía 1970-1999)
Fundación JRJ (1999)

(Trad. A.M)


>>  Autores onubenses (ficha)

.

25.9.26

Armindo Rodrigues (Liberdade)




LIBERDADE

 

Liberdade sem pão não é liberdade.
Sem liberdade, o pão é escuro e amargo.
Enquanto a alvorada é uma rosa branca,
o pino da tarde é um toiro bravo.
Entre o destino aceite e o escolhido,
é o mais custoso o que mais me quadra.
Pode-se viver preso e ser-se livre.
Pode viver-se livre e ser-se escravo.


Armindo Rodrigues

.

23.9.26

Juan Bello Sánchez (A lavadeira)




LA LAVANDERA

 

Volvía por el camino más largo de la tarde,
una mujer lavaba a mano un montón de ropa
sobre la piedra de un viejo lavadero.
El agua que arañaba las prendas estaba helada,
el cielo enrojecía lentamente.

Ya me estaba alejando cuando la mujer me dijo:
Esta solo es otra forma de mirar las cosas,
más limpias, más puras,
dejando que el água las cruce.
Y continuó lavando la ropa,
el sol acabándose poco a poco.


Juan Bello Sánchez

 

Voltava pelo caminho mais longo da tarde,
uma mulher lavava à mão um monte de roupa
na pedra de um velho lavadoiro.
A água que arranhava as peças estava gelada,
o céu punha-se lentamente encarnado.

Eu já me ia a afastar quando a mulher me diz,
esta é só outra forma de olhar para as coisas,
mais limpas, mais puras,
deixando a água atravessá-las.
E continuou a lavar, enquanto
o sol se extinguia pouco a pouco.


(Trad. A.M.)

.

21.9.26

Guilherme de Oliveira (Simplesmente feliz)




SIMPLESMENTE FELIZ

 

Sem
artes e sem letras
ambições materiais
um projecto de vida
agruras na pele
dramas existenciais
discriminação à vista
vizinhos incómodos
cheias torrenciais
carências no bolso
um frio na barriga.

Feliz
como as folhas de uma couve.

GUILHERME DE OLIVEIRA
Não deixaram entrar o cão
Glaciar (2025)

 .

19.9.26

Miguel Sánchez-Ostiz (Vivo como quero viver)





 VIVO COMO QUIERO VIVIR

 

Envidié a quienes amaron ‒es una vieja historia‒
y supieron o tal vez tuvieron el valor
de vivir la vida como desearon vivirla,
e hicieron ‒o hacen‒ de cada día una celebración,
un arte, a pesar de saber que la vida,
eso que llamamos con enfermiza insistencia
o con tenacidad de visionarios, vida,
es las más de las veces algo mediocre,
triste, sucio, gastado y violento.
Envidié a quienes eligieron como divisa de sus días
«El corazón me manda», desterraron la indiferencia
y no desdeñaron otra cosa que las pasiones tristes:
el menoscabo de sus vidas.
Y en una época más sombría que cualquier otra
pusieron pasión en el pasar de cada día.

Miguel Sánchez-Ostiz


Invejei os que amaram - é uma história antiga - 
e souberam ou tiveram talvez a coragem
de viver a vida à sua vontade,
e fizeram - ou fazem - de cada dia uma festa,
uma arte, sabendo embora que a vida,
isso que chamamos vida com doentia insistência 
ou tenacidade de visionários,
é as mais das vezes alguma coisa de medíocre,
triste, suja, gasta e violenta.
Invejei os que escolheram como divisa de seus dias
‘O coração ordena-me’, desterraram a indiferença
e não desdenharam senão as paixões tristes,
o desdém de suas vidas.
E numa época mais sombria do que outra qualquer
empenharam a paixão no passar de cada dia.


(Trad. A.M.)

 

17.9.26

António Maria Lisboa (Poema)



POEMA

 

Moveu-se o automóvel – mas não devia mover-se
não devia! 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:
primeiro um, depois outro e outro:
o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro 

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam 

Pregões de varina sem peixe
- o peixe morreu ao sair da água
e assim já não é peixe 

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.
  

António Maria Lisboa

 . 


15.9.26

Antonio Hernández (O passado é a marca)




El pasado es la constancia
de nuestro asombro,
el hueco de amor que deja
la experiencia en nuestro pecho.

(Sólo la infancia no tiene memoria
porque nada brilló antes que ella.)

Mi pasado es el saldo de lo nítido:
un aroma, un amor, una luna
sin cautela,
el viejo enigma en que amaneceré.

Antonio Hernández

  

O passado é a marca
do nosso assombro,
o vazio de amor que a experiência
nos deixa dentro do peito.

(Só a infância não tem memória
porque nada brilhou antes dela)

Meu passado é o saldo do nítido,
um aroma, um amor, uma lua
sem cuidado,
o velho enigma em que hei-de amanhecer.


(Trad. A.M.)


>>  Poesia universal (25p) / Zenda (5p) / Lit. española (recensão)

.

13.9.26

Antonio Carlos Secchin (Uma prosa súbita)




Uma prosa súbita
para a rosa de neve:
às vezes é só um verso
onde a voz de Andrade ferve.
E perdura, apesar do inverno
armado na paisagem:
o que há pouco era flor
virou arte,
rosa em riste na beira do abismo
contra
o silêncio azul da tarde.

Antonio Carlos Secchin

.

11.9.26

Martín López-Vega (Campos da Hungria)




CAMPOS DA HUNGRIA

 

 

O comboio atravessava a lenta calma

dos nevados campos da Hungria, 

deixando para trás casas, vales, cemitérios,

e na minha frente uma formosa jovem ia lendo

e cantarolava uma misteriosa melodia.

Eu lia

esse poema de Gyula Juhász intitulado

“Anna örök”, Eterna Ana. E foi então que se uniram

naquele comboio as minhas recordações e as minhas ânsias,

atravessando os nevados campos da Hungria.

 

E hoje voltou a mim aquele momento

e não sei porquê, não sei.



Martín López-Vega

 

(Trad. Ruy Ventura)


.



9.9.26

António Cabral (Quando fulano de tal)




QUANDO FULANO DE TAL

 

Quando fulano de tal subiu
à tribuna reparei naquela
gente olhos despojados de
sua cor imóveis e re
dondos como beatas então
pensei camarilha de merda


ANTÓNIO CABRAL
Emigração Clandestina
(1977)

.

7.9.26

Juan Cobos Wilkins (Sem bagagem)




SIN EQUIPAJE


Te lo llevaste todo, Niño Perdido,
tras de ti. Los juegos
a inventarse palabras, el abrazo
azul del albornoz tan cálido, la ortografía
de regaliz en mi buzón, el tirachinas
descubierto en la colcha
de bodas de mis padres y aquellas
esperas insufribles
con un final -perdóname- de flores
asomando su tierno disimulo
de pétalos ocultos a la espalda.

Todo se fue
contigo a ese país
hacia el que tú vuelas ahora
y del que yo regreso.

Juan Cobos Wilkins

 

Levaste tudo, Menino Perdido,
atrás de ti. As brincadeiras
de inventar palavras, o abraço azul
do roupão tão cálido, a ortografia
de alcaçuz na minha caixa, a fisga
descoberta na colcha
de noivado de meus pais e aquelas
esperas insuportáveis
com um final – desculpa-me – de flores
assomando dissimuladas,
pétalas ocultas por trás das costas.

Tudo se foi
contigo para esse país
para onde tu voas agora
e de que eu regresso.


(Trad. A.M.)

.

5.9.26

Andrea Cohen (O Comité delibera)




THE COMMITTEE WEIGHS IN

 

I tell my mother
I’ve won the Nobel Prize.

Again? she says. Which
discipline this time?

It’s a little game
we play: I pretend

I’m somebody, she
pretends she isn’t dead.


Andrea Cohen

 

Digo a minha mãe que
ganhei o Prémio Nobel.

Outra vez? diz ela. Em que
categoria agora?

É uma brincadeira
que fazemos: eu finjo

que sou alguém, ela
finge que não está morta.


(Trad. A.M.)

 .

3.9.26

Juan Bello Sánchez (Uma escuridão)




UNA OSCURIDAD


Cae sobre nosotros
como lo haría un hombre hambriento
sobre un plato de sopa caliente,
una noche de invierno.
Todo se mueve hacia donde tiene que moverse,
ningún cambio
es un cambio demasiado profundo.

Deberíamos prestar más atención,
deberíamos ser más cuidadosos,
el tiempo se pliega sobre sí mismo
y lo que ocurrió,
algo de lo que creíamos
que nos habíamos librado,
podría estar a punto de ocurrir de nuevo,
por primera vez.


Juan Bello Sánchez

 

 

Cai sobre nós
como faria um homem faminto
sobre um prato de sopa quente,
uma noite de inverno.
Tudo se move para onde tem de ser,
mudança nenhuma
é demasiado profunda.

Devíamos prestar mais atenção,
ser mais cuidadosos,
o tempo dobra-se sobre si mesmo
e o que aconteceu,
algo de que julgávamos
que estávamos livres,
podia estar à beira de acontecer de novo,
pela primeira vez.


(Trad. A.M.)



>>  Carmina (7p) / Zenda (5p) / Wikipedia

.


1.9.26

Ana Martins Marques (As casas pertencem aos vizinhos)




As casas pertencem aos vizinhos
os países aos estrangeiros
os filhos são das mulheres
que não quiseram filhos
as viagens são daqueles
que nunca deixaram sua aldeia
como as fotografias por direito pertencem
aos que não saíram na fotografia
— é dos solitários o amor
 

Ana Martins Marques

 .