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21.2.19

A.M.Pires Cabral (Hora do poente)





HORA DO POENTE



Na hora do poente
há mais melancolia e mais sigilo
no quase nocturno voo das aves.

Como se a penumbra
lhes censurasse as asas.

Como se a grande apoteose do ocaso
fosse um presságio do fim
de todas as coisas.

Como se a noite fosse ainda mais escura
do que a escuridão em que se enrola.

Como se o dia desembocasse
na morte directamente,
sem passar primeiro pelos portais da noite.


A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

2.6.18

A.M.Pires Cabral (Folha rubra)






FOLHA RUBRA



É bom sermos como essas folhas verdes
que prolongam todo o ano a Primavera.

Mas melhor do que isso
é sermos como aquela folha rubra
que antes das outras pressentiu o Outono
e vestiu para ele a sua melhor cor,

mesmo sabendo que o Inverno tem um plano
para em breve a dissolver no chão.


A.M.Pires Cabral

 .

24.4.18

A.M.Pires Cabral (Fogo posto)





FOGO POSTO


E se eu acabasse por chegar à conclusão
de que - contrariamente a outras conclusões
a que também tenho chegado algumas vezes-
não existe ignição fora de mim?


Que o fogo sou eu mesmo que o trago de raiz
e o comunico à noite
- por simples contacto, como num
cigarro aceso se acende a outro cigarro.


Que farias, noite, se isto fosse assim?
Apagavas-te, submissa?
Continuavas a arder como se nada fosse?


(Pelo sim, pelo não, chamem os bombeiros.)


A.M.Pires Cabral

.

19.9.17

A.M.Pires Cabral (Erosão)





EROSÃO



Montes arredondados, de tão velhos,
que já destes pão e hoje dais cardos,

dizei qual erosão mais vos magoa:
se a que vos vem do alto
no uivo dos ventos e nas cordas de chuva

- se a do desuso agrário.



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

.

3.7.17

A.M.Pires Cabral (Pirilampos-III)





PIRILAMPOS-III



Mas também estes negadores das trevas
desertaram:
Já não se vêem pirilampos, o seu lume
deixou de desmentir a escuridão.
Apagaram a lanterna, retiraram
para um lugar qualquer onde talvez
já não valha a pena alumiar
– algures entre o frio e o esquecimento
(se é que frio e esquecimento não são nomes
alternativos da mesma melancolia).
E enroscou-se mais a escuridão
 – essa Boa constrictor incessante –
em torno da nossa noite.



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

.

13.2.17

A.M.Pires Cabral (Pirilampos-I)





PIRILAMPOS-I



Em noites muito quentes de Verão,
passeando em direcção à serra
em busca de frescura,
víamos nos buracos das paredes
aquelas mansamente incandescentes
criaturas em forma de brasa: os pirilampos.
(O povo, contudo, que não tem
papas na língua e gosta de chamar
às coisas pelo nome que tem mais à mão,
com licença do leitor, dizia luze-cus,
aludindo à tranquila combustão interior
que lhes põe a luzir no extremo do abdómen
 – ou seja, no cu – uma lanterna.)



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

______________

> Mais pirilampos, a apanhar: F.A.Pacheco

.

12.8.16

A.M.Pires Cabral (Epígrafe)

 




EPÍGRAFE



Se algum dia alguém chegar a ler
este dizer agreste,
provavelmente pensará: que pálida lanterna;
não é deste metal que a luz é feita.

Calma. Pois não.

Mas quem assiduamente
visita os desvãos onde a noite se acoita
não precisa de mais que o clarão desta treva,
desta cegueira sem cão e sem bengala,
para no escuro rasgar o seu caminho
e nele ir progredindo às arrecuas.


A.M.Pires Cabral

[Hospedaria Camões]

.

7.5.16

A.M.Pires Cabral (Flor da esteva-I)





FLOR DA ESTEVA-I



Mal toquei na flor da esteva,
logo ela se desfez,
frágil como névoas de Verão.

A corola branca
desconjuntou-se em pétalas dispersas
como flocos de neve fora de tempo
pousando com cautela sobre a terra.

Passou assim a haver
no campo um astro a menos.

Mas passou a haver também
um odor a esteva nos meus dedos.

Ficou ela por ela.


A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

.

13.12.15

A.M.Pires Cabral (Mas possa eu, Senhor)





(6)


Mas possa eu, Senhor, não perder nunca
os olhos com que ao frio me enamoro
das folhas que se movem casuais
ao vento outonal das alamedas.



A. M. Pires Cabral


[Arquivo de cabeceira]

.

21.8.15

A.M.Pires Cabral (Flor da esteva-III)





FLOR DA ESTEVA-III




Eu vi a flor da esteva, e pareceu-me
lençóis amarrotados
em batalhas de amor.




A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)


.

4.6.15

A.M.Pires Cabral (Caminho de pé-posto)





CAMINHO DE PÉ-POSTO



Sou como este caminho de pé-posto.
Por mim passam caravanas e mendigos,
rolam enxurradas.

Nas bermas, nas fundas furnas
das minhas bermas, nidificam
animais daninhos e se multiplicam.

Estou muito diminuído das contínuas
erosões.
Mas, íngreme embora e pedregoso
e ocultado por tufos de ervas intrusas,
sou um caminho e levo a algum lugar.


A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

.

4.2.15

A.M.Pires Cabral (Arte de gritar)





ARTE DE GRITAR



Quisera dizer coisas
que ninguém tivesse dito antes de mim.

Deixar uma pegada sobre a areia intacta,
não sobre outras pegadas que já houvesse lá.

Mas cheguei tarde; os que me precederam
no exercício desta dura arte de gritar

amavam a minúcia, a completude,
nunca deixavam uma tarefa a meio.

Disseram tudo. Deixaram só migalhas susceptíveis
de glosas rasteiras, para eu me entreter

como uma criança pobre brinca com destroços
de brinquedos recuperados do lixo.

E eu digo essas migalhas como quem
escreve a terra em laudas rasuradas.

E escrevê-las-ei mesmo quando
não tenha língua já para as dizer.

(Os poetas entendem-me estes mansos
trocadilhos. Os outros, não importa.)


A. M. PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
Tinta da China (2013)


[Poema possivel]


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16.8.14

A.M.Pires Cabral (Vinha morta)





VINHA MORTA



Aqui foi uma vinha.
Comi das suas uvas e bebi
do vinho que essas uvas deram
e temperei saladas
com o vinagre em que esse vinho
se tornou.

Por isso – ainda que hoje as cepas tortuosas,
privadas de todo o verde,
que esbracejam como tendo naufragado
no pérfido mar ocre pálido
do voraz capim do Outono,
lembrem mais que nunca ossadas negras
que o tempo profanou e retorceu –

de algum modo
a vinha está morta e não está:
perdura viva em mim.

Isto, bem entendido, enquanto eu próprio
for algo em que algo possa perdurar.

Depois disso, perdurará naquilo
em que eu mesmo perdure.

E a partir daqui perde-se a conta.


A.M.Pires Cabral


[Pátria Pequena]

.

8.3.14

A.M.Pires Cabral (Amoras segundo S. Francisco)





AMORAS SEGUNDO S. FRANCISCO



Como as inquietas aves ribeirinhas,
também nós fazemos em Agosto
a nossa safra de amoras,
evitando com prudência os picos
que as dificultam e tornam cobiçadas.

Bendita sejas, irmã silva, que nos dás
as amoras e os picos.

Que de tudo se precisa nesta vida.
(Na outra, por enquanto não se sabe.)


A.M.Pires Cabral


[Hospedaria Camões]


.

9.9.13

A.M.Pires Cabral (Foi para isso)





FOI PARA ISSO QUE OS POETAS FORAM FEITOS



semear tempestades
e assegurar que cresçam
foi para isso que os poetas foram feitos

esgrimir com a mais idónea
das espadas: a coragem
foi para isso que os poetas foram feitos

namorar a perfeição
e às vezes alcançá-la
foi para isso que os poetas foram feitos


A.M.Pires Cabral


[Hospedaria Camões]


> Para isso fomos feitos (Vinicius)

.

26.4.13

A.M.Pires Cabral (Como faz um verme)





COMO FAZ UM VERME



O que faz um verme? Some-se no chão,
regressando ao lugar donde saiu
incauto para a luz que não entende.

Ao contrário do verme,
a mim nunca me foi molesta a luz.
Ao invés disso, execrei a escuridão
sempre que esta me violou os olhos,
e mos tornou inúteis.

No mais, igual a um verme, tal e qual.
Procuro deslizar silencioso.
E quanto a essa coisa de sumir-me no chão,
mais dia menos dia, é garantido.


A. M. Pires Cabral


[Luz & sombra]


.

20.11.12

A.M.Pires Cabral (Fechou a escola em Grijó)





FECHOU A ESCOLA EM GRIJÓ



Dantes ouviam-se as crianças a caminho da escola
e eram como pássaros de som nas manhãs de Grijó.
Não eram muitas, mas as vozes joviais
davam sinal de que a aldeia resistia,
continha à distância o deserto que a ronda.


Agora as crianças, todas as manhãs,
são acondicionadas como mercadorias
numa viatura com vocação de furgoneta.
Lembram judeus em vagões jota
a caminho de Auschwitz.
Vão aprender em terra estranha o que os seus pais
e os pais dos seus pais aprenderam em Grijó.


Só se voltam a ouvir ao fim da tarde
quando a viatura as despeja no largo da aldeia
como artigos que ficaram por vender.
Mas ouvem-se pouco, porque vêm cansadas.
Ouvem-se pouco e triste porque o seu dia
– que devia ser dia de Grijó –
foi deportado para outra terra onde
não se lhe firmam as raízes.


O senhor ministro das Finanças está contente,
porque poupa meia dúzia de euros
com a violenta trasfega da infância.


Mas está triste Grijó, porque já não ouve
as suas aves de manhã a caminho da escola
– e por isso pode dizer-se que a aldeia encolheu,
ficaram uns metros mais perto as areias de amanhã.


Caladas as vozes tagarelas das crianças,
nos dias de Grijó poucas mais se ouvem
do que as de alguns velhos que antecipam
em palavras raras, conformadas,
o dia em que o silêncio cobrirá com estrondo
o (des)povoado definitivamente.


O senhor ministro das Finanças terá poupado
mais alguns euros com a instauração
deste opressivo silêncio final,
e ficará contente. Grijó não.


A.M.Pires Cabral


(‘Repórter do Marão’, Set. 2012, p.22)

.

11.6.12

A.M.Pires Cabral (O que diz o rato)





O QUE DIZ O RATO



Tenho um destino. Nasci
para roer o silêncio – e vou roê-lo
metodicamente

até que um dia se invertam os papéis
e seja o silêncio a roer-me a mim.



A.M.Pires Cabral


[Hospedaria Camões]


.

26.9.11

A.M.Pires Cabral (Sou como folhas de árvore)






SOU COMO FOLHAS DE ÁRVORE





Sou como folhas de árvore — reparo.
Numerosas, presas ao ramo por pecíolos tenazes,
contudo complacentes com o ar que passa,
e por isso frívolas, mostrando
alternadamente as duas faces.

Assim múltiplo e trémulo sou eu.
Apenas um pouco menos perecível,
julgo. E a figueira a que pertenço
talvez um pouco mais durável
que as de verdade.
Mas isso pode ser impressão minha.


A.M.PIRES CABRAL
As Têmporas da Cinza
Cotovia
(2008)


[Ruialme]

.