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17.3.18

Ana Margarida de Carvalho (A verdade magoa)




(A verdade magoa)


Nunca sabemos o que sabemos, onde começa a nossa recordação e acaba a dos outros, o que lembramos hoje é sempre o que da última vez lembrámos, são falsas todas as memórias.

E tudo se mistura, um sonho, um facto, uma recordação, vários pontos acrescentados que formam uma constelação defeituosa – tudo feito da mesma matéria, uma esponja, cheia de lapsos e interstícios, e às vezes quando se espreme sai uma gota a custo, outras, um jorro torrencial.

Eugénia não era pessoa de andar a pesar ovos de mosca em balança de aranha.

Entre a verdade e a verosimilhança, escolhia sem hesitar a verosimilhança.

Entre o que ocorrera e o que poderia ter ocorrido, optava pela segunda hipótese, tendo em conta que o excepcional encontra mais fácil e acolhedora morada na realidade do que na ficção, em que muito rapidamente ruem os alicerces do precário abrigo do que é apenas verosímil.

Além do mais, não valia a pena ocultar: a verdade magoa.

A verdade pode muito bem estar enganada.

É só uma questão de tempo.

E de a manter avisada.


ANA MARGARIDA CARVALHO
Que importa a fúria do mar
(2013)


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7.3.18

Ana Margarida de Carvalho (Partida)






(Partida)


É um clássico da descrição dos dias das partidas.

Diz-se que estava um dia de chuva oblíqua que fazia os homens vergarem a cabeça e caminharem com o tronco inclinado, ombros alçados, a protegerem o pescoço.

Ou então que estava uma bela e radiosa manhã que contrastava com o negrume envergado pela alma.

Ou então um dia abafado, com nuvens baixas e pastosas, que rimava com o clima de opressão que se abatia sobre os desterrados.

No dia em que Joaquim embarcou no navio Luanda no Cais da Rocha do Conde de Óbidos estava apenas um dia.

Os cais são saudades de pedra, diz-se, e estava deserto nessa manhã (afinal sempre se anuncia o estado ainda matinal desse dia – é inevitável).

Ninguém fala, as palavras são ingratas para uma ocasião em que a irreversibilidade de uma ida sem volta é a hipótese mais consistente.

As palavras arranham a garganta de quem as diz, poluem os ouvidos de quem as ouve.

Como num funeral.

De maneira que iam calados os homens e em fila indiana, a subirem o passadiço para o navio.

Sem qualquer banda sonora intradiegética, a não ser as vozes de comando e os miados das gaivotas.

Parece que, para além do intercâmbio vocabular, estas ensinam felinos a voar.

Mas chega de preambular, que vão pesarosos os homens, é caso para isso, e há, de súbito, um grito de mulher que não constava do guião. (11)


ANA MARGARIDA CARVALHO

Que importa a fúria do mar
(2013)


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27.2.18

Ana Margarida de Carvalho (Lugares comuns)






(Lugares comuns)



Não consentia que os mesmos adjectivos andassem incestuosamente casados com os mesmos substantivos.

Os areais imensos/ As bases fundamentais/ Os horizontes longínquos/ Os banhos retemperadores/ As árvores frondosas/ O silêncio sepulcral…

Já não podia mais com o ‘grande manto branco’ que era a neve, com os cataclismos que ‘deixam atrás de si um rasto de destruição’.

Gostava demasiado de palavras para permitir que elas se transformassem em cuspo (como dizia Sophia), repugnantes, viscosas, pouco higiénicas de tão usadas, a saírem da boca de toda a gente.

Ou para as deixar tornarem-se estafadas, triviais, consensuais e neutras, de tanto usar sem agitar. (10)




ANA MARGARIDA CARVALHO
Que importa a fúria do mar
(2013)


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20.2.18

Ana Margarida de Carvalho (Que Importa a Fúria do Mar)






(Início)


Tersa gente esta, de almas baldias, vontades torcidas pelo frio que aperta, amolecidas pelo sol que expande.

Ando aqui a ganhar a morte.

Nestes campos de giesta, engatadas raízes no chão, tão presas de seiva e vontade que não as pode a força de um homem arrancar.

Ervas daninhas mais difíceis de vergar do que um pinheiro  bravo à machadada.

O pinheiro deixa o coto apodrecido, vã ruína orgânica, mas as raízes das giestas mantêm-se sorrateiras, infiltrantes, debaixo da terra, a aguardar melhor ocasião para levantar haste.

E, mal um homem vira costas, lá estão elas, sob os pés, soturnas, insinuantes, sôfregas de todas as pingas de água, a saciarem-se, a exaurirem as lavouras, sem sequer a gentileza de uma sombra, só pasto de insectos, refúgio de furões, conspiração do matagal.

Assim ando eu.

Entre mato rasteiro e bravio.

Que a vida sempre me foi um ferro de engomar.

Quando há um prego que se destaca, martela-se.

E no entanto, mesmo amolgado e enterrado, continua lá.

De quem é o carvalhal?




ANA MARGARIDA DE CARVALHO
Que importa a fúria do mar
(2013)


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