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18.5.18

Aquilino Ribeiro (Uma semana)






(Uma semana)


Um dia não era cabonde; mas uma semana.

Se fosse rei uma semana, afianço-lhes que mondava Portugal.

Uma fogueira em cada outeiro para os ministros, os juízes, os escrivães e os doutores de má morte.

Para estes decretava ainda cova bem funda, com obrigação de cada homem honrado lhes pôr um matacão em cima.

Uma choldra de ladrões!

Imaginem Vossorias que um pobre já nem uma bestinha pode  ter!

Muito tempo conservei aquele cavalito fouveiro – lembram-se? – para me ajudar  a espairecer saudades dos tempos em que corria de almocreve Ceca e Meca e olivais de Santarém.

Vai senão quando, António Malhadas, salta de lá com nove tostões de sumptuária.

Irra, novecentos réis por um cavalicoque, um chincaravelho que não valia, a bem dizer, os guizos dum gato!

Raios partam o Governo mailos governados, raios partam tanto tributo com que a gente de bem tem de ustir para andar aí meia dúzia de figuröes, de costa direita, mais farófias que pitos calçudos!

Raios partam!

O governo é um corpo da guarda que nos defende ou é a quadrilha do olho vivo que não faz senão roubar?

Quem lhe encomenda o sermão?



AQUILINO RIBEIRO
O Malhadinhas
(1958)

______________________

(*) Há outros extractos aqui, do Malhadinhas: 

Um glossário da mesma obra, útil, apesar de alguns erros: 

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6.5.18

Aquilino Ribeiro (Um lençol esburacado)






(Um lençol esburacado)


O monte lembrava um lençol esburacado.

Se a neve derretera aqui, conservava-se emaçarocada além, à volta de sargaços e tojeiras e onde quer que houvesse farfalha.

O sol, às vezes, vinha uma nuvem e cobria-se.

Mas ele voltava a correr alegre e ruivo pelo mundo, mais bonito que o novilho duma vaca ratinha, ainda mamão, a pinchar no prado.

As águas desciam dos altos tagarelas como nunca, e pelas eiras os passarinhos debicavam, muito grulhas, as espigas esbanjadas pelos palheireiros.

Havia nuvens e mais nuvens no céu, brancas, rebolonas, em bandos.

Tocava-as um ventinho repontão, e davam ideia de belros de ovelha, carmeados, antes de enfardar.
O mundo era como Lázaro ao atirar com a mortalha aos quintos.

Por toda a parte, caminhos, matos e árvores, a neve derretia.

Pinheiros e carvalhos, se do lado do poente continuavam cabisbaixos e oprimidos pelo seu peso, à outra banda erguiam já ramos desembaraçados.

A morte branca rodara por esta vez.

AQUILINO RIBEIRO
O Malhadinhas
(1958)
.

21.10.15

Aquilino Ribeiro (Cinco Réis de Gente-Voc.)





CINCO RÉIS DE GENTE

- Vocabulário


afundir
agro
aixe
ajoujar
alma (de cântaro)
almorreimas
andaina
argalho
arganel
ariosca
arrebanhar
atafal
avezar
banaboíssimo
bargantão
beiço
birbantão
bruega
búcio
cabo (dos trabalhos)
cabouco
cacheira
cainho
cairel
calabre
calcadoiro
calço
caniço
cardenha
carrapato
carrapito (cume)
centeal
charachina
choutar
chouto
chumeco
cobro
cocar
cochino
cógueda
cordoveia
corrimaça
desbanda
desenssurrar
despedir
embodegar
enaipar
encalir
engalriçar
enviscar
esborralhar
escaleira
escamugir
escancha-perna
escanifrado
esgorjado
esperrinchar
espertenida
estanco
estrela-e-beta
estrepe
esturgir (ruído)
fecheleira
feirar
ferrã
forjicar
fraldiqueira
gabinardo
gambiar
gamelo
gatázio
giga
gineta
gorra (de...)
grocho
lascarinho
lavacro
liço
macanjo (adj.)
malhoada
malina
mamaçuda
manga-las-mangas
maninho
melgueira
marchantear
marrã
matroca (à...)
mentrasto
míngua (nem lá vou nem faço...)
molhanga
molinha
mostajo
nonada
ornear
pachouchada
paivante
parrana
passante (adv.)
patarrega
patrona
pincha-no-crivo
pincharolar
piranga
pós-catrapós
púrrio
quodore
rabitesa
recebedor
recebedoria
recova
relho
reseda
riço (adj.)
roldão
rolho
ruço (de má pelo)
rufo
sainete
sementio
senha (sinal)
sertã
soalheiro
sorvar
sovela
tabaqueira
tabua
taleiga
tango (tanganho)
taravela
tendeiro
tentear
testeira
tomba
torno
toutiço
trastejar
vaganau
zambro

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18.10.15

Aquilino Ribeiro (O arrieiro)





À frente o arrieiro batia um calcanhar rápido.

Alto, magro, ágil, em tudo a estampa do andarilho, calça à boca-de-sino, bota de salto de prateleira, jaleca à dependura do ombro esquerdo, na mão uma vara argolada de metal amarelo, detrás da orelha o cigarro, era o criado dos tempos heróicos, leal ao amo e soberbo do seu papel.

Tinha um ar de lascarinho que enviscava as moças.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-XIII
(1948)

.

12.10.15

Aquilino Ribeiro (A Inácia)





Era um bicho inteligente esta égua que meu pai chamava Inácia, do nome do homem que lha vendeu, um Inácio Ramos, de Adebarros.

Ano por ano, dava cria para a feira de Trancoso, pelo que os seus flancos eram amplos e dilatados.

Sem embargo das suas virtudes de parideira, poucos cavalos lhe ganhavam em alcance, tanto a chouto como a dobrar.

Alta de garupa, nédia e vasta, pescoço fino, jarrete bem lançado, se não fora a barriga, estava ali uma besta de truz.

Eu gostava muito dela e, habituado a vê-la desde sempre, considerava-a como pessoa de família.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-VII
(1948)

.

6.10.15

Aquilino Ribeiro (O Codessal)





Estou a ver o 'Codessal', melhor do que se o tivesse em diorama diante dos olhos. a cancela pintada a zarcão, o muro, torcicular da banda do corgo e de caboucos na água, onduloso da banda dos soutos, com os dois socalcos enramados por fruteiras e vides, em cima a cabana ao pé do carvalho, que estava a fazer-se um gigante.

Mas se lhe descortino nitidamente todos os traços da fisionomia, não consigo abarcar as dimensões.
Estes arrestos, estas paredes, estes tabuleiros, que largura tinham, pois nunca me preocupou a sua produção?

Eram hectares de terra, ou apenas hortejos?



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-VI
(1948)
.

3.10.15

Aquilino Ribeiro (Derrancas-me o sangue)





Além de dado à estroina, à jogatilha, e arrastar a asa às cachopas como um galaroz, era rebentio de génio.

Um dia que, cheio de fastio e de sono, dava silabadas sobre silabadas a declinar o Hora/Horae,
o padre-mestre perdeu a paciência, e empilhando-lhe os livros nas mãos, Arte, Genuense, Madureira, empurrou-o para fora da aula:

- Outra vida, amigo, outra vida! Nesta derrancas-me o sangue, gastas o baguinho a teu pai e ficas burro como dantes.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente-II
(1948)

.

30.9.15

Aquilino Ribeiro (Família)





Eu sou de família em que as donas se assentavam em esteiras.

Muito amor e poucos afagos.

Nunca conheci as blandícias e a variadíssima bichinha-gata da ternura civilizada.

Na aldeia, para acariciar, não passeiam as mãos pela cara das pessoas queridas.

Semelhante ordem de meiguices são prerrogativas da gente urbanizada.

Para o camponês o rosto é sagrado; tabu; não se lhe toca.

Sempre assim foi, de resto, através das idades.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- II
(1948)

.

27.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-4)





Está dito.

Todo esse caudal de representações e imagens que a minha consciência, abandonada à onda caprichosa do sonho, abrigava em seu teatro, esvaía-se na areia.

Até lá a filtragem do corpóreo pelas malhas lassas do psíquico não deixava de ser um dos mistérios inebriantes do meu ser.

Mais subtil nem a gradação de tons produzida pela luz cambiante do pôr do sol nas arestas da onda.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

.

24.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-3)





Os meus sonhos!

Alguns, formados por fragmentos da vida real, segundo ocorrera na véspera e me impressionara a retina, eram como as migalhas de pão alvo que vêm na toalha ao levantar da mesa e a criada sacudiu à janela; outros, destroços de coisas que arrasta em seu fluxo o rio torvo da memória e, à deriva, se encontram por mero acaso; ainda sons de campainhas etéreas, sinos repicados por anjos ou gnomos, e recolhidos por um detector tonto ou sem ordem nenhuma.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

.

21.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-2)





Ao ar livre da vigília, as tintas iluminantes volatizavam-se, tão bem como os fuminhos vaporosos.

E desvaneciam-se do mesmo modo os castelos e arquitecturas deslumbradas mal o entendimento a frio tentava apreender-lhes as linhas e convertê-los em figurações objectivas.

O que restava era o resíduo fosforescente, uma tinta convencional, semelhante ao azul com que se contrafaz a cor do mar.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

.

18.9.15

Aquilino Ribeiro (Sonhos-1)





Eu sonhava persistentemente, desperto e a dormir.

Àquela altura da vida será legítimo estabelecer distinção entre uma e outra espécie de estado?

Seja como for, sei que animava os meus sonhos a mesma inconsistente fugacidade.

A sua deliciosa frescura emocional, os seus temas inéditos, o seu contexto raro quando investido em tal e tal fenómeno, diluíam-se, incaptáveis à razão lúcida.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

.

9.9.15

Aquilino Ribeiro (Início)





Retrocedendo nos limbos do passado até onde a minha memória é como a lanterna dum mineiro perdido no fundo duma galeria, que vejo?

Vejo no grande e desmantelado pátio fidalgo a nossa casa, de lojas para animais e habitação, com a sua obsequiosa escada de pedra e um esgrouviado sabugueiro a bater atónito nas vidraças, que deitavam para o povo, sempre que o Soão soprasse forte.

Vejo depois a larga porta de dois batentes escancarada, e na sala de tecto em pirâmide octogonal, obrado de velho castanho, uma coisa rastejava.



AQUILINO RIBEIRO
Cinco Réis de Gente- I
(1948)

.

22.8.15

Aquilino Ribeiro (Caminhos Errados- Voc.)





CAMINHOS ERRADOS
(Vocabulário)


achavascada
acuar
afundir
agatanhar
aixe
alcriquete
alma de cântaro
anaçar
andilhas
arganaz
arribana
atafal
atrido
azoinar
azougue
balsa
barbela
barrela
bocada
boqueira
bornal
brasido
brejoeiro
brocha
bródio
cabanal
caçarreta
cachação
calondro
cambulhada
canada
cangalho
capelas dos olhos
capindó
carniça
carpanta
carro de anos
carujeira
carujo
cascaroleta
casquivana
caterva
catramugir
cavalarias altas
cerrado
chafariqueira
chamiça
charachina
charriscar
chichisbéu
cincar
clâmide
cômoro
correntão
corricar
corrilho
decrua
derrancada
desatupir
desensocar
donguinha
embuchar
enchouriçar
endrómina
engoiado
enguichar
enliçar
entanguido
entremetido
envolta
escoteiro
esforcalhar
esladroar
esparralhada
esparvonada
espertenida
espojadoiro
espora fita
esporteirar
estardiota
esterquilínio
estrambólica
fachoco
fas/nefas
festeiro
fidúcias
fina força
fonas
forjicada
franduna
fraqueira
frascário
freima
frenicoques
frescal
gabela
gaifona
galão
gambérria
gorgomilos
gorra
grabato
gromo
homem lige
igualha
infusa
ladro
lambisqueira
larica
larpão
latoeiro
leicenço
louceiro
macanjo
malhoada
maloio
mamposteiro
manata
maninho
mantença
marchante
mazorreiro
melgueira
momice
mormaceiro
muladar
muranho
nisga
pataqueiro
paveia
peguilho
pelangra
pernada
pesperro
pilho
pilordas
pincharolar
pionia
pitança
pontigo
pôr o ramo
pragana
quitar
rabiça
ralé
rascoa
rebentina
relambório
relego
relice
repitosca
retouçar
revessar
revolcar
ripanço
rocegada
rópia
rorejar
saltareco
sarambeque
serigaita
sincelo
sirga
soalheira
sobreposse
surrobeco
tabaqueiro
tábido
tagaté
taleigo
tanazes
taramela
tiborna
touceira
trancanaz
trangalhadanças
triaga
valhacoito
veniaga
zangarelhão
zanguizarra
zuca


19.8.15

Aquilino Ribeiro (Non possumus)





O português prefere ser enganado a ser desiludido; antes quer morrer esperando, confiado na Virgem, na boa alma, no bom acaso, a ser distinguido com o sincero e formal ‘non possumus’.



AQUILINO RIBEIRO
Caminhos Errados
(Renunciação)

.

16.8.15

Aquilino Ribeiro (Serpentes)





Numa pausa da trovoada, expectativa medonha e escuridão, estava eu a fechar as vidraças, senti uns braços que se agarravam a mim.

Era Adozinda.

Tremia como varas verdes e, fora de si, mas sem me largar, enfiou-se pela minha cama dentro, arrastando-me.

Puxou as mantas para a cabeça e enleiou-se-me ao corpo.

Trémula e transida, nunca a hera se enroscou assim a um tronco.

E a homem só serpentes.



AQUILINO RIBEIRO
Caminhos Errados
(Renunciação)

.


10.8.15

Aquilino Ribeiro (Triaga)





O frade emborcou a triaga, após o que fez uma careta feia, horrenda, as comissuras dos lábios arrepanhadas para os zigomas, boca aberta até o esófago mostrando a rija dentadura de lobo, a testa lavrada por sulcos transversais como uma leira.



AQUILINO RIBEIRO
Caminhos Errados
(Salamaleque)

.

8.3.12

Aquilino Ribeiro (Vocabulário-Terras do Demo)






abada
abandar (fazer bando)
abispar
aboíz (armadilha)
abundoso
abusão (abuso- fem.)
acaçapar
acercar
achamboaria
aciúme
acitado (excitado?)
adrega (subst.)
aduela
afeito (acostumado)
aganar
ágora
agro
agulheiro (buraco)
aiveca
alagoeiro (lago)
alambrar
alancar
alanco
alanzoar (alegar, afirmar, proclamar)
alapardar (alapar, refl.)
alavela (eram alavelas minhas)
alcandor
alceiro (levantado, pronto)
aldeagante
aldemenos (ao menos)
alfenim
alforjar
almargeal
almofia
alpoldra
alquicrete
alquilé
alveitar
alvoriçar (por ‘alvoroçar’) (bravio que nem enxame de abelhas alvoriçado)
alvoroto
amadorrar (amodorrar, adormecer)
ameijoada (anda de...)
amochilar (guardar na mochila, aferrolhar)
amossadela (apalpão)
amoujo (seios)
amoujuda (mamuda, peituda)
anágua
anainho
ancho
andadura (andar)
andaina (vestimenta)
andanhos (da casa, divisões)
andeiro (que anda bem)
andurrial
apagear (apajar, assistir)
aparçar (emparceirar?) será ‘apraçar’- levar à praça, mostrar na praça, em público? (Cad.Aq. 10, 2000, p. 34)
apeiro
apendoar (ganhar pendão)
apesunhar (apesunhado=com peso)
apieçar (mobilar)
apisoar (o burel, no pisão)
aqueibar
arcaz
ardido (esperto, valente)
arganaz
argilo
ariosca (marosca)
arolo (espiga do milho desgranada)
arranco (corrida, galope)
arranga-malho (com preguiça, sem vontade)
arregoar
arrelampar
arrenego (zanga –subst)
arretar
arreitar
arteiro
artola
arrincar
atracandar
auge
aurincu (arincu)
auruge
avantar (aventar, deitar, lançar)
avelar (é)
azangar
azemel
azoada (ruído)
azoar (soar)



Cont. (A-F)

Cont. (G-Z)

24.2.12

Aquilino Ribeiro (A malha-3)






(Ainda a malha)



Era um buzinado de guerra.

À porfia, de olhos no chão moventes em que o sol, já alto, se espojava num delíquio de luz e de fogo, apertavam uns com os outros.

Com luzinhas presas a cada aresta de palha, a eira breve se tornava um caldeirão de cobre a ferver.

Por isso mesmo a manobra requeria olho fino e mão lesta.

Já os olhos, em sua fixidez para a mobilidade, desvairavam.

Mas os braços obedeciam pela ordenança mesmo do vaivém.

E sempre avante!...

O grão lá ia largando, era ver as zagalotadas que acompanhavam o erguer dos pirtigos na palha delida.

Conho, tinha que saltar, para ir ao crivo das cirandeiras, às arcas, à azenha, e volver do forno no pãozinho que, com tanto apego, se pede ao Senhor no padre-nosso.

Agora, que escorresse lume, ou se calcasse lume, era deitar o alento todo.

E, hã-hã, hã-hã, lá iam.


- AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo, 1.ª parte, II.

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15.2.12

Aquilino Ribeiro (A malha-2)






Bafoeiradas da aragem traziam pelos ares a moinha dos centeios padejados e o rescendor da macela e da labaça que ressequiram nos campos gadanhados.

Cortavam o céu alto bandos de pombos bravos e, descuidosas, mondando o grão caído da espiga gorda, cantavam na terra das searas a perdiz e a corcolher.

Já as cerejas tinham bichos e a cigarra emudecia longas horas, quebrantada de tanto zangarrear.

As manhãs, até toarem os manguais, eram dum silêncio que se sentia do mais pequeno tropel de tamancos estreloiçando nas ruas.

Ainda o sol, furando às espaldas dos montes do Carregal, não se livrava – é um modo de dizer – duma pedra bem mandada, já a eira estava a postos.

De chapelão de grande sombra, saiote vermelho e colete de atacadores, mulheres ajeitavam as cuanhas e estendiam mantas a toda a roda para caçar o grão respingueiro.

Outras preparavam a eirada com desatar os molhos e espalhar a palha em carreiras, tendo o cuidado de deixar as espigas bem ao léu, para que se embebedassem de sol – o sol que as criara e agora ajudava os manguais a enxotar o grão para fora de seus casulos.

E tão breve a palha aquecia, se punham em fila os malhadores.



- AQUILINO RIBEIRO, Terras do Demo, 1.ª parte, II.


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